quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Talvez até Deus esteja pela rede.

Conviva com a voz que nunca agrada.

Conviva com o universo de desaforos que seus ouvidos inventam a cada segundo.

Antes de lembrar de um ontem risonho, lembre daquele dia triste em que sua avó morreu e era seu aniversário. Lembre que o CD que você ganhou era roxo como eram roxos os panos do enterro, e que tudo isso parecia tão natural quanto as nuvens cinzas que insistiam em não chover.

Depois desse lembrar, esprema seus neurônios nas poças de cada desengano que já foi dogma. Faça com que todas as suas idéias, por mais estapafúrdias que sejam, manchem a louça de ontem com espirros de tomate e sal.

Se o que não há fosse muito, o aforisma do passado cairia por terra. Mas é sempre o pequeno que nos destrói, é sempre a quietude que nos apavora.

É preciso muita luz para criar a escuridão. E longe dela só existe esse ruído contínuo de uma alegria que já foi. O que penetra agora é o desespero do acerto. A atenção em cada ato, como se uma guerra estivesse sendo travada em plena centelha de uma inteligência mórbida.

Deslize pela sala, suba pelas paredes da cozinha como um espião da Guerra Fria. E após contornar todo desapego, tente fazer um relatório das suas proezas que com certeza não irão render filme algum. Hollywood sempre renegou o real e isso não é desculpa pra você fazer seu drama ser aceito. Não existe argumento que supere a ausência e não existe ausência que supere a palavra repetida qual oração louca, qual eucaristia pela virgindade perdida entre qualquer fumo de anos atrás.

Lembrar dói mas viver dói mais ainda.

Dói também saber que não se poderá ter asas para descer ralo adentro, e que tudo quanto for feito sempre será pouco ou quase nada. As atitudes serão besteiras de supermercado. Os agradares serão coisas perdidas nas prateleiras que não terão serventia alguma afora uma corriqueira contribuição gravitacional. Tudo isso irá rodopiar em torno da sua cabeça até que você se sinta tão tonto ao ponto de cair. Mas quando cair, saberá que logo acima ficou aquilo que sempre quis pegar, aquilo que seus dedos pensaram vazio mas que na verdade era tão cheio que estourou por todos os poros da sua vida.

Pode até haver uma atribuição diversa.

Pode até mudar o tom de qualquer palavra. Entretanto, dentre o pingar e o chio, o que permanecerá será o puro veneno do que não é falado. A mentira esgana a razão. Mas a razão é a própria mentira. Então escrever se torna a transa dos hermafroditas: um prazer tacanho que nem masturbação chega a ser. Um espremer de glande e clitóris que não se sabe infértil em cada linha exposta.

Havendo uma câmera por perto, os efeitos podem ser outros. Em tempos voyuer, afinal, tudo é questão de mostrar. Mas de quê adianta mostrar uma roldana de erros para tentar puxar algum acerto? O coração não é um estivador. O coração sua pela espinha e não sopra nenhum trompete. Conviver com os próprios ouvidos que sussurram dissabores é exatamente assim. Agradar passa a ser questão de prever. Prever passa a ser questão de estar. E estar passa a ser questão de ser, ainda que ser só seja possível em conjunto.

Por isso é preciso sermos nós para dar certo. Uma corda é apenas ilusão. Um dia o peso aplaca os fios. Somente nós, além de suportar tudo, são perante tudo. Mas além de tais penetrares, também é preciso que saiamos de nós para dar certo. Preservar essa bolha de dois metros de altura é perseverar no engano. E a individualidade só é certa para as revoluções. Como não quero nenhuma revolução, basta-me um tantinho de felicidade, ainda que fresca ao relento qual um vagalume retardado, leitor das notícias de ontem.

Me ponham tampões na testa e gelo nos ouvidos. Somente ao contrário voltarei a sorrir. Até lá sou todo texto. Decifro-me e por isso devoro-me. Anulo-me a cada frase.

Portanto me desaforo.

É preciso xingar todos os autores que só movimentam teclados e canetas. A vida nunca esteve nos jornais, livros e revistas.

A vida está nas ruas e não nos blogs. Desconfie de mim e de todos. Tudo soa mais fofoca que verdade quando não pode ser tocado. Talvez até Deus esteja pela rede.

3 comentários:

Adri Antunes disse...

uauu, coisa mais linda seu comentário no meu blogue, tenho certeza que não mereço! apenas escrevo como penso e algumas vezes como sinto, se não em mim, nos outros. acho que o que falta no mundo é delicadeza, então apenas tento fazer a minha parte!
obrigada, tinovu!
bjuuu

Lótus disse...

Blogs e umbigos têm ligação íntima, uns não vivem sem os outros. E tudo bem, não é?
Qto ao que parece intocável e por isso inverídico, digo que pessoas, corações e músicas podem ser tocados de várias maneiras. Pela rede, inclusive.

pensar disse...

Os blogs nos permitem contatos que talvez nunca teriamos.A escrita é uma visita na alma.
Por isso te ad no meu blog roll
Bj