sábado, 31 de janeiro de 2009

A paixão apenas é.

Esse aí em cima é um tigre desconfiado.

Inventaram de colocar algo parecido com um porco do mato na frente dele para que o dito retomasse seus instintos selvagens em cativeiro.

Mas pela cara do camarada, vê-se que ele não achou a idéia muito interessante.

Se achasse, seria algo como se apaixonar por uma boneca inflável.

Que há gozo, há. Mas e o resto?

O fato é que ninguém ama um cérebro, que ninguém tem orgasmos por idéias ou abraça uma imagem.

Mais vale a pele do que a invenção da pele. Quanto ao inventor, não precisamos conhecê-lo. Queiramos ou não, tudo tem a mão humana.

Por isso a paixão é a única realidade. E para paixões não existem protótipos ou simulacros.

A paixão apenas é.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Tudo se desintegra no final.

O que é pior: solidão na terra ou no mar?

Todos somos estátuas contemplando o vazio.

Talvez as esculturas existam por isso.

É dolorido demais ficar frente a frente consigo:
daí filhos, esposas, namorados e namoradas.

Por isso quase ninguém gosta de arte, seja da qual espécie for. Que dirá de arte moderna, a qual, na boca desses críticos de meia-tigela, espelha a fragmentação da contemporaneidade. Isso é a mesma coisa que um narrador ou comentarista de futebol, ao perceber que o jogador X não joga tudo aquilo, dizer que ele tem boa movimentação.

Ora, talvez eu esteja errado, mas correr de um lado pro outro assim sem mais é algo meio complicado. E tanto, que se complica ainda mais quando vemos que os dinossauros viveram sessenta e cinco milhões de anos na terra. No meu caso, se conseguir chegar aos oitenta, está ótimo.

Mas somente reconheceremos nossa pequenez quando morrermos.

Se não chegarmos a um lugar bom ou a qualquer lugar, ao menos jamais pensaremos nisso.

E não há nada mais maravilhoso do que esse acontecimento. Se não fossem os motoristas de caminhão que passam dias com o carrinho de lá pra cá, nosso planeta viraria uma Arca de Noé sublinhada por espuma branca e garrafas pet cheias de bactérias.

Mas uma coisa interessante me aconteceu. Daí a tranquilidade de hoje.

Sonhei que explodiu uma bomba nuclear aqui perto. Quando descobri que era aquela a morte pela bomba atômica, isso me fez muito bem. Afinal, dormi como anjo e acordei muito alegre. Um puff! e virei cinza – às vezes nem isso...

Pensando assim, se um dia tiver oportunidade, é capaz de algo desse naipe me tomar os pifes.

Porém sei que é só sonho, a
ssim como são sonhos as esculturas de gelo, areia e pedra.

Tudo se desintegra no final.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mas bolhas de sabão não são imbecis porque estão no céu.

Não cumpriu com sua promessa imbecil.

Não conseguiu conter as bolhas de sabão.

Por mais que não quisesse, elas saiam dos seus dedos assim como um cavalo foge do dono – o que cata caixas de papelão ali na esquina, mesmo que essa fuga fosse tão-somente uma hipótese das tantas hipóteses que traçava.

Mas que graça teria a vida sem hipóteses? Que graça teria a vida sem a incerteza quanto à sorte boa ou má? Seria melhor apenas aceitar os fatos como eles supostamente se apresentam ou continuar acreditando que algum pedacinho de realidade ainda pode mudar tudo?

Por mais que a ciência – ou quem sabe essa coisa aristotélica que chamam de lógica – diga o contrário, mais valem as hipóteses.

E pra ser franco, se não fossem as hipóteses, nem Einstein seria quem é. Na época dele não era possível verificar metade das coisas que dizia. E nem por isso ele estava errado. Portanto, poderia estar perfeitamente certo ao dizer que o cavalo do sujeito que catava caixas de papelão na esquina fugia de vez em quando. E ponto final.

Porém, as coisas que queria esconder com essa hipótese eram outras.

Eram coisas bem diferentes.

Coisas que diziam respeito a sua cama. Coisas que diziam respeito aos seus cobertores e mesmo às almofadas desarrumadas no sofá da sala.

Diziam respeito a um Brahms que ouvia às sete da manhã quando pensava que estava acordando mas na verdade estava dormindo.

Diziam respeito a fios de cabelo que se prendiam na gola das suas camisas mesmo que ele não tivesse a menor idéia de como foram parar ali.

Passavam até mesmo por uns pedaços de carne sangrando que tinham cor de bandoneon portenho.

E o que dizer do entardecer pintando pelo Hopper?

E o que falar das coisas na frente da televisão, minimalistas qual Picasso em rolha de vinho?

E havia o que discutir sobre as cores da tarde que mais pareciam pinceladas do Renoir, ainda que os tons não fossem tão claros quanto os sentimentos?

Tudo isso lhe dizia respeito.

E entre tudo isso e as suposições do cavalo do sujeito que catava caixas de papelão na rua, havia uma larga diferença, havia um largo abismo.

Certa vez lera que abismos não são abismos: são cumes ao contrário. Na época até achara a idéia bonita. No mínimo poética. Hoje, porém, tinha uma certeza: não passava de geometria invertida. E geometria invertida não põe curativo no coração de ninguém. Muito menos cerveja, muito menos whisky, muito menos vodka põe curativo no coração de ninguém. Se outro alguém põe curativo no coração de alguém, já é outra história. Mas no fundo dá na mesma, porque a realidade é que a ferida nunca pára de sangrar.

A razão são razões. Mas uma é clara: nenhum amor acaba. Nenhum amor pára. Quando amor é amor, o sangue flui para sempre. Tem horas que parece até alegria. Afinal, até saudade dá alegria. Mas sempre existe uma dor ciumenta, uma dor de posse, uma dor de macho latino-americano, mas ainda assim dor. O Fausto Wolff dizia que na falta de posses reais, o homem aqui desses lados do mundo pensa que a mulher é sua posse. Ele estava errado? Sim e não. Que lógica existe naquilo que se sente? No máximo a lógica da falta. E era essa lógica que lhe suava os braços: a lógica da falta.

Estruturar a lógica da falta seria um caminho para entender a falta. Mas entender a falta seria apenas relembrar que a falta é falta e nunca deixará de ser falta. Seria como estudar o nada que esses psicanalistas estudam e estudam e nunca chegam a lugar algum. E o pior é que quando chegam, dizem que o sujeito tem que aceitar a falta: caso contrário fica recalcado. Mas se é necessário aceitar a falta, a falta física, a falta que é mais carne que alma, a falta que é mais cheiro que sentimento, como sobreviver sem essa água, como continuar sem essa coisa que impulsiona, que dá calor quando é preciso e dá frio quando é necessário?

Não: esses psicanalistas estão todos errados.

Até os filósofos estão errados, porque ao contrário de dizer que nada provém do nada, tudo provém do nada. Mas pra ser sincero, até achava que devia existir alguém que dizia o contrário. O Lacan, que não é filósofo mas psicanalista, dizia algo do gênero. Mesmo assim, ele dizia que temos que aceitar o nada ou a falta.

Mas ele, ele que sentia a falta, ele que sentia aquilo, não era o Lacan e não aceitava o nada. Muito menos entendia de matemas e coisas do tipo.

Sabia que o nada há. Sabia que o nada lhe habitava.

E por conta disso que não aceitava o nada.

E por conta disso que não aceitava a falta.

E por conta disso iria conviver com a sua saudade, mesmo sabendo que a cura dela era tão inexistente quanto a cura para a sua necessária morte, já que, como diria um juiz de direito, ele estava vivo.

E a conclusão era essa e era uma só, apesar de quase sempre se dividir em duas.

A primeira dizia da necessidade das coisas acontecerem daquela forma, porque, tinha de reconhecer, pouco remédio havia.

Mas a segunda doía demais e era difícil demais escrever.

Era assim: sentia saudades e portanto estava vivo.

Esse era o seu combustível.

Mas bolhas de sabão não são imbecis porque estão no céu.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O problema é ser sozinho.

Morar sozinho não é o problema.

O problema é imaginar uma cidade na qual você não está com os cabelos molhados de garoa.

O problema é saber que essa cidade é meio cinzenta quando chove no começo da noite e as luzes dos táxis parecem luzes de natal.

Começa a angústia quando você sabe que não irá sentir aquelas luzes nos seus olhos e o cheiro da rua não será o mesmo cheiro da rua na qual você está.

Aí sim começam os problemas.

E o pior disso é que você tem que saber lidar com isso.

Sua mãe dirá que as coisas tinham que ser assim porque não poderiam ser de outro modo. Seu pai dirá que uma nova vida começa naquele exato momento. Os amigos irão querer arrastar você pra mil gandaias na qual você vai comer mil mulheres. Até os cachorros irão se compadecer de você na rua e talvez até sentem embaixo da sua cadeira naquela lancheria que fica bem na esquina da praça.

Se um cachorro sentar em baixo da cadeira da lancheria e deixar você passar a mão na cabeça dele, será meio caminho andado, apesar do Galera ter escrito um livro que você julga ser legal sobre alguma coisa a respeito.

Mas a verdade é que você não é tradutor, não está a fim de modelos e nem freqüenta shows underground. Na verdade você até queria freqüentar shows underground, mas o fato é que você não está naquela cidade com os cabelos molhados de garoa para freqüentar qualquer show desse tipo. Na cidade onde você está, lá de vez em quando haverá algum evento legal no qual não existam somente solteiros loucos por solteiras ou solteironas loucas por sexo e afins, apesar de no fim das contas tudo se resumir a sexo.

Enfim, na cidade onde você está nada disso acontecerá.

Você poderá até sair noite após noite e encontrar alguém pra se encostar pelas esquinas. Serão ruivas, morenas, loiras, castanhas e etcetera. Serão mulheres das mais diversas tonalidades e tonalizantes. Mas entre todas elas, será que você vai encontrar o cheiro que queria? Entre todas elas, será que você vai encontrar aquilo que um dia teve mas deixou escorrer assim como quem se cura de um porre com uma boa dose de sal de fruta?

A sua intuição diz que nada disso surgirá.

A sua razão diz que sua intuição está errada.

Entre uma e outra, você tenta ficar com a imaginação. Mas quando chega no terreno no qual ela existe, lembra que fazem anos que você não cruza por ali, que você apenas olha de longe e diz para si:

- Aqui não é o meu lugar.

Então, ainda que você saiba que será considerado um estrangeiro naquele lugar, ainda que você saiba que talvez até mesmo acabe no consultório de um psiquiatra, já que aquela novela de quando você tinha sete anos falava de paranormais esquizofrênicos, você irá parar por ali, mesmo que esteja longe de se tornar esquizofrênico e perto de abandonar toda e qualquer realidade – reconhecendo que isso, entretanto, não tem nada a ver com paranormalidade.

Andando por aqueles metros quadrados, você encontrará o Bobi, um cachorrinho de quando você tinha seis anos que morreu atropelado quando você deixou ele fugir pra rua. O que mais lhe deixará triste ao ver o Bobi, é saber que ele foi atropelado por um caminhão de frete. Você não saberá porque ficará triste ao saber disso, mas o fato é que a tristeza será real. E por mais que você tenha mudado, o Bobi permanecerá igual, com seu pêlo marrom e liso.

Olhando pra ele você ouvirá:

- Cara! Por que tu demorou tanto pra chegar aqui?!

Você olhará para os lados procurando alguma outra pessoa mas não achará ninguém. Logo, certamente era o Bobi que estava falando.

- É que assim Bobi...

E o Bobi interrompe você com um latido que diz mais ou menos isso:

- Assim o caralho!

Você fica meio perturbado e sai correndo daqueles metros quadrados.

Entre se defrontar com um cão que já morreu e uma cidade que ao menos pode imaginar, ainda que esteja longe de você, melhor saber que a cidade existe e está longe.

- Pelo menos até a próxima notícia, a cidade existe e está longe. – você dirá aliviado.

Então você irá pra casa, porque morar sozinho não é o problema.

O problema é ser sozinho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Mas ficou triste quando lembrou que as notícias sempre seriam de ontem.

Sofrer aos dezesseis anos não tinha nada a ver com sofrer aos vinte e quatro anos.

Sofrer aos dezesseis anos implicava em escutar Nirvana e se revoltar contra o mundo. E ainda que esse mundo estivesse nos limites das paredes do seu quarto, aquele mundo era verdadeiramente um mundo, onde os pais encarnavam os rivais e os amigos os aliados em uma guerra que tinha a única finalidade de se empedrar de vinho com cachaça e coca aos finais de semana.

Sofrer aos vinte e quatro anos já era completamente diferente. Pra começar, não havia música alguma que traduzisse aquilo que sentia. Até tentou escutar Vitor Ramil ou mesmo Miles Davis, mas o fato é que entre milongas e trompetes preferiu o silêncio quase mudo da sala.

Esse silêncio era quase mudo porque a televisão, sussurrando devagar, dizia algumas notícias do dia. Um presidente americano negro que havia tomado posse. Uma igreja evangélica desabara. Uma porção de coisas acontecendo enquanto ele tomava seu chá verde com limão na caneca preta de plástico.

De certo modo era confortável aquela situação. A porta da sacada entreaberta, um frio que enganava o calendário e a quietude no resto do apartamento, bem poderiam ser reflexo de uma paz ou algo do gênero. Se existem pessoas que se refugiam em montanhas para encontrar a paz, aquele seu refúgio modesto de poucos metros quadrados, com certeza poderia ser comparado a algum monte do Tibet ou mesmo da Serra Gaúcha.

Mas o fato é que por mais que os fatos exteriores dissessem exatamente isso, haviam algumas pequenas pinceladas nos seus olhos que mudavam completamente a cor de tudo aquilo que lhe rodeava.

Primeiramente, ainda que seu tapete fosse preto, tinha a nítida impressão de que seu tapete fosse cinza. Olhava para ele desconfiado, tentando acreditar que a cor era mero disfarce da luz da cozinha acesa. Fechava os olhos, fitava a cozinha e voltava ao tapete com a intenção de mudar aquele tom. Mas nem a televisão desligada ou a luz da cozinha apagada surtiam qualquer efeito, pois tentara essa tática duas vezes sem atingir sucesso algum. E isso o deixava desconfiado ao ponto de desconfiar do seu próprio sofrimento.

Se seu sofrimento fosse real, haveria motivo para enxergar seu tapete preto com tons de cinza? E mais: se seu sofrimento realmente fosse sofrimento, conseguiria comparar períodos da sua vida em torno de um mesmo sentimento? A experiência lhe dizia que sim. Se sim não fosse, ninguém daria conselhos pra ninguém e nem seu pai diria o que tanto já disse:

- Meu filho: tu tens que tomar jeito na vida!

Porém, ainda que os conselhos do pai ou de qualquer outra pessoa até tivessem alguns pedacinhos de realidade, notava que aquelas palavras nada tinham a ver com ele. E o pior é que notava que todas as vezes nas quais fora sincero, havia apenas simulado uma espécie de sinceridade, como se toda a cena e todo o choro fosse apenas uma pequena parcela de um filme que só ele assistiria.

Aliás, podia mesmo se imaginar sozinho no cinema. O estranho é que sua imaginação fazia com que a tela se transformasse em altar com uma pequena estátua que parecia Nossa Senhora Aparecida. Até tentou relutar esse cenário e essas imagens, mas de que adiantaria esmurrar o que criara? A resposta claramente é que nada adiantaria, é que tudo seria como aquelas bolinhas de papel que lhe jogavam na cabeça na terceira série lá em Curitiba. Por isso aceitou a visão e voltou ao tapete que parecia cinza.

Lembrou que quando apertava a parte de cima do olho, as coisas ficavam duplas e até se fundiam umas às outras, como se seus olhos tivessem o poder de transformar o mundo. Por isso apertou o olho esquerdo com o polegar até que a televisão, o tapete, a luz da cozinha e a porta da sacada entreaberta fossem apenas uma coisa só.

Mas as sombras se fundiram em um entrelaçar de pernas que lhe remeteu a outras pernas.

Mas as luzes fizeram danças em flechas que lhe trouxeram abajures de um hotel.

Chegou então a conclusão de que era melhor parar com aquilo. Por isso não demorou a sair de casa.

- Give me a Leonard Cohen afterworld. – cantou baixinho quando pôs os pés na rua e viu que havia deixado a televisão ligada no terceiro andar.

- All apologies. – disse sorrindo um tempo depois enquanto caminhava até o centro.
Mas ficou triste quando lembrou que as notícias sempre seriam de ontem.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E isso já era o bastante.

A fumaça da vela fez uma espiral pela manhã.

De laranja o pavio passou a negro em não mais que quinze segundos.

O sol não estava escondido e nem se mostrava fosco pelas nuvens.

O sol nunca teve intenção alguma.

Reconhecer isso era o primeiro passo para iniciar o dia.

Mas como iniciar o dia? Eram sete da manhã. Cinco horas adiante e seria meio-dia.

- Meio-dia é a metade do dia. – dizia-lhe o relógio do computador.

- Mas o tempo não passa. – sussurrava-lhe a revista em cima da mesa da sala.

- As opções são muitas. – concluiu ele em frente ao espelho, logo fechando a porta do banheiro atrás de si e deixando a fumaça da vela para trás.

Entrou no quarto e viu que a cortina não estava totalmente fechada. Aliás, nem a janela estava totalmente fechada. Era janeiro e um vento que parecia vindo de julho entrava devagar – e pelo menos o fato do vento entrar pela janela, aparentemente não atribuía a este qualquer característica humana. Ou estaria errado? Talvez fosse melhor dizer que ele sentia o vento entrar pela janela. Dessa forma, toda sensação descrita partiria dele e de mais ninguém. Essa coisa de falar que as casas olham a rua e que a lua é solitária em dezembro, é pura poetice sem futuro. Mera carência ou solidão.

Importava, assim, reconhecer que estava só.

Tudo bem que havia muitas pessoas com as quais conversava. Correto que havia algumas que até amava e sentia falta muito antes de estarem longe. Mas também era correto afirmar que se não queria atribuir características humanas a coisas da natureza, como o vento e a lua, atribuía tais características ao relógio do computador e a revista em cima da mesa da sala. O que isso queria dizer poderia ser muito, mas quem sabe encontrasse sentido apenas no fato de que tanto o relógio quanto a revista eram feitos de sinais – sinais esses que, quando submetidos ao seu olhar, transformavam-se em comunicação.

Por isso estar atrasado.

Por isso querer ler.

Por isso tudo isso e tudo aquilo.

Por isso, isso. E só. O mais era a espiral da vela que ficara fechada no banheiro e certamente já fora diluída pelo ar. Uma lembrança também havia, mas essa já era uma sensação de solidão, de cimento em meio ao campo, de campo em meio à chuva, de chuva que cai na terra e de animais que saem da terra para entrar no corpo de outros animais que à terra foram confiados.

Fechou a janela e a cortina do quarto, ligou o ventilador no nível um e se sentiu tranqüilo com aquele vento artificial. Puxou o edredon que nem de longe beirava qualquer renda e averiguou se não haviam flores pintadas no seu tecido. Não existiam flores, mas apenas uns matos aqui e ali.

Decidiu dormir contente de si e do que o rodeava. Ao menos sabia quem havia criado aquilo. Se quisesse, podia até mesmo imaginar mãos e olhos tanto na revista quanto no relógio e no edredon. Até o ventilador entrava na roda e por isso mesmo girava aquele vento no nível um.

E isso já era o bastante.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Haveria de ser essa sua casa.

Estômago de areia.

Cafeína por cima.

Acorda e o céu está cinza.

Deve ter chovido, mas isso não interessa.

Importa que acordou com o estômago de areia e jogou cafeína por cima. Coisa bem adocicada para atrair os neurônios para alguma lógica.

Lógica? Necessidade, seria?

Não, talvez apenas intenção, mas jamais necessidade.

Encadear as coisas, as pessoas e o mundo em uma linha não tem o menor sentido. Se tivesse, não haveria uma linha. O relógio, bem se sabe, gira em espirais. Os passos, ainda que tramem uma teia coesa no cimento das calçadas, se radiografados, intuem pés que se confundem com sombras e assim indefinidamente. Então não haveria necessidade de trair suas sensações com alguma logicidade ou cientificidade, o que seria pior ainda.

Mas qual é a fronteira entre intenção e necessidade? Onde começa o desejo e termina a fome? Misturar faces e mãos, cabelos que grudam no rosto, com pratos em cima da mesa, havia de ter algum significado. Não tivesse, a mesa não seria mesa e a cama não seria cama, apesar do sofá servir muito bem aos propósitos do que se queria. Porém o que queria esbarrava em outros propósitos, depenava as placas da rua e fazia com que aqueles passos de cinco anos fossem quase como asas.

Voariam essas asas? Criariam raízes essas asas?

Nem uma nem outra opção.

Ao contrário, essas asas seriam no máximo um passador de gravata: enforcariam o desapego, fariam uma graça para qualquer espécie de riso e trancariam toda leveza em um tanque profundo demais para ser tocado.

- Está aí? – gritaria alguém lá do alto. (Esse alguém não teria face porque usaria uma máscara com a sua foto.)

Ele responderia mas ao mesmo tempo notaria que sua voz não conseguia subir as paredes do tanque. Por mais que se agarrasse em cada pedaço de cano que havia naquele cilindro, a voz não conseguia subir.

Restava então descer as escadas do seu olho. Cada veia da íris como um corrimão de limo, ainda que jamais estivesse só.

E se estivesse, isso seria mais que alegoria da sua própria condição?

Certamente não.
Mas os problemas começariam quando a condição se tornasse tato, pele de si e ossos de outro.

Ninguém consegue seguir adiante distante da própria vida.

Nenhum coração marca o próprio compasso.

Haveria de ser essa sua casa
.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

E ainda por cima falava.

Cansara de escrever frases definitivas.

Cansara de dizer que a literatura, a filosofia ou a vida são isso ou aquilo.

Como iria conceituar coisas tão vastas se não se amoldava ao seu próprio nome?

Era mais carne que palavra, mas o fato é que a palavra lhe tomara a tal ponto que chegou a acreditar que trazia consigo algumas certezas. Dessas pedras ergueu estátuas, umas sólidas e outras nem tanto. Mas só percebeu que o único que adorava elas era ele há alguns instantes. Pensava até o momento que alguma luz lhe acompanhava, que alguma estranheza ainda era possível. Talvez estivesse com medo do inevitável, com medo dos seus olhos que por certo nem usava. A verdade quem sabe estava justamente na superação do que acreditava, no contrário do que era. Porém, para alcançar essa assertiva tão simples, aparentemente montada com palavras de cunho banal, teve de chegar a esse cansaço que lhe desanimava, que lhe punha uma náusea intermitente na porta dos olhos.

Queria permanecer alerta e nunca parar. Queria caminhar sempre com o peito estufado, com as pernas em riste e com o estômago cheio ainda que estivesse vazio. Seu desejo, contudo, não passava de um querer desabado, de uma expectativa que seria para sempre expectativa porque não teria ninguém para esperar. Restaria esperar o momento em que se acostumasse com a solidão dos seus fantasmas, com o sussurrar dos seus gritos e com o ruído dos seus próprios passos. Até lá ficaria ali cansado, esperando que essa espera passasse e que por conseqüência passasse a falta que quase lhe tomava as palavras.

Como não imaginou que as coisas chegariam a esse ponto? Como pôde ser cinza com seu coração que girava em pulsares tão diversos mas que insistiu em negar simplesmente por conta das palavras? Valera a pena sonegar sorrisos, enterrar passeios e cascatas por conta disso? Acaso poderia trazer para as palavras a dicção desse “disso” que esse “disso” deveria ter?

Não sabia.

Apenas não sabia. E é verdade que também não sabia se queria saber.

É possível que tudo passasse assim como tudo aparentemente passa. O problema é que sabia que o tempo não era uma linha e que presente, passado e futuro eram meras narrativas. E mais: narrativas que funcionam como placas em uma avenida. Umas serão vermelhas, outras serão amarelas, mas todas, invariavelmente, serão feitas de lata. Essa lata quase sempre é pichada. Mas antes disso, essa lata traz uma palavra.

A principal diz PARE.

Esse PARE pode ser uma pausa ou um fim. Dependerá das circunstâncias e mais ainda de quem lê a placa e entende o sinal. Porém, com o coração da gente não acontece assim, com a memória da gente não acontece assim, e cada instante que precedeu a placa será infinitamente dividido e formará uma espiral que irá apertar nosso peito, que irá prender artéria por artéria e aumentar gradativamente o nosso sufoco.

Esse sufoco não nos matará. Esse sufoco nunca nos mata. O segredo talvez esteja em aceitar a condição do mesmo modo que uns aceitam a pobreza e ainda riem no meio dela. Mas o fato é que o orgulho é muito grande e que nem sempre se consegue matar o nosso querer porque o amor sempre sobrevive, ainda que nenhum amor seja feito tão-somente de uma boca.

E quando cada móvel traz em si um pouco de fotografia, e quando cada parede mal pintada é o retrato de algo que não deu certo, a pausa ou o fim não existem, porque permanece sempre e sempre esse sufoco apertando o peito com suas garras amareladas.

Mas é claro que iria continuar. É claro que esse cansaço iria passar.

Viver é tropeçar, afinal das contas.

Cansar é necessidade, há de se reconhecer.

Mas suas culpa continuaria espalhada em tudo aquilo que era.

E ainda por cima falava.

sábado, 10 de janeiro de 2009

É isso que está na foto.

Não enxergo as palavras que falo.

No máximo existem representações negras na tela do computador ou nas folhas que rabisco. As variações existirão por conta da cor da caneta ou da fonte. Quanto à substância das palavras, aquilo que faz com que as palavras sejam palavras, nada enxergo.

Se um publicitário ouvisse isso, talvez risse da minha cara ou mesmo criasse um slogan:

- Palavra: aquilo que não se enxerga.

Claro que eu acharia slogan muito clichê ainda que passasse pelas voltas do meu umbigo e repetiria de pronto:

- Não presta, veja bem...

Contudo ficaria encabulado. Afinal, estava falando com um publicitário. Quem é publicitário deve entender mais de slogans que eu. E considerando o fato de que sou péssimo para títulos, que palpite poderia embutir na visão de um especialista? Certamente todos os meus coros seriam elevados ao patamar do pó por um mero piparote machadiano da oficina do sujeito.

Pensar nisso logo após assistir o Ensaio Sobre a Cegueira do Fernando Meirelles me diz muita coisa. Inclusive que deveria me render ao sono e esquecer de todo as palavras. Mas é certo que sonharei com as cenas do hospício e das ruas, o que ocorrerá de modo mais contundente à medida que me der conta de que tudo quanto vejo só existe para mim como palavra.

Esse ventilador aos meus pés é uma palavra, por exemplo. Do que ele é enquanto ventilador, a coisa em si do ventilador, jamais saberei. Sei que se trata de um objeto que tem algumas pás que amenizam essas noites quentes. Descrever o dito de maneira geométrica talvez fosse uma boa incursão na prática dicionarista. Entretanto essa descrição não passaria de uma descrição feita com palavras. Até meu rosto ou aquilo que penso do meu rosto será uma palavra. E o Charada do Batman me vêm aos sentidos no exato momento em que digo isso.

Me incomoda então essa coisa de saber que minha vida sempre dará a impressão de que é mais filme que vida. Ao recordar de paisagens, ao reviver encontros nas salas de café da memória, o que farei será comparar paisagens e encontros com sentimentos vivenciados ou apenas vistos na tela de tantas películas que diante dos meus olhos passaram. Da mesma forma que acontece com a palavra, minha vida será mais relação que vida, mais preenchimento de algo visível por algo invisível que qualquer outra coisa, assim como ocorre quando falo de tudo quanto me acontece dia após dia.

Sentir uma ponta de dor por isso é normal. Quanto mais você tenta compreender o mundo, as coisas e você mesmo, mais palavras tenta ligar a essa tríade. Mas quando se dá por conta de que essa compreensão sempre será escassa, sem querer entrar em mérito filosófico algum, a fisgada é inevitável, pois por mais que eu tente sempre será pouco. Aí os psicanalistas dirão que minha dor provém de uma necessidade de completude e que por isso desenvolvi uma neurose ou uma angústia, com o que concordo plenamente. Mas junto de mim coloca pelo menos uma dezena de bilhões de pessoas que o resultado será satisfatório.

Lacan se eu não me engano disse que o ser humano era o sintoma e só existia enquanto tal. Interpreto este dizer como signo, como palavra. Somos, enfim, sintoma de algo que nunca alcançamos, seja esse algo o ventilador, eu mesmo ou as vivências que tive com as outras pessoas e com o mundo. A coisa em si kantiana permanecerá velada, coberta por um véu que só é transparente porque digo que é transparente. Enxergar as palavras ou até dizer das palavras será sempre impossível.

Claro que não é de hoje que trago essa constatação comigo. Mesmo se essa constatação fosse nova, não seria privilégio de descobridor algum, uma vez que existe dentro de cada ser humano esperando o momento de explodir a estranheza sem par que consiste na própria existência. Mas se o Meirelles ao adaptar a obra do Saramago que não li conseguiu me tocar dessa forma, trazendo à tona aquilo que há muito acredito ser a razão do meu escrever, é algo que se deve registrar.

Nesses tempos de cinema fácil pra digerir e esquecer, Ensaio Sobre a Cegueira consiste no mínimo em uma experiência artística das mais contundentes, ainda que esse adjetivo seja muito fraco. Mesmo que discorde de algumas cenas do filme, reconhecer essa experiência é o primeiro passo para qualquer análise ou fala, já que é do reconhecimento do objeto, do mundo e das pessoas em relação às palavras, que surgimos enquanto seres pensantes de uma espécie dominante no planeta. E quando esse reconhecimento quase me leva às lágrimas, seja por horror, angústia ou simples deslumbramento por uma química de emoções que não consigo organizar, é sinal de que o objetivo da obra pelo menos quanto a mim se realizou.

Se não se realizasse, poderia me colocar tão distante da obra ao ponto de discorrer acadêmica e hermeticamente sobre a mesma.

Como se realizou, minha distância é impossível e maior na proporção da minha proximidade com aquilo que não pode ser dito.

Assim fico tentando imaginar o que se passou pela cabeça do Saramago após assistir o filme. Porém só consigo fixar na mente a face de felicidade do Meirelles ao perceber que o autor havia aprovado sua realização. Esse meu vício em produtos cinematográficos nunca encontrou com tanta sutileza minhas duas paixões a partir de um acontecimento real: literatura e cinema, Saramago e Meirelles lado a lado. Especular quantas possíveis vidas haviam ali é demais. Porém plenamente realizável.

Essa realização é a chave para um setor da nossa humanidade que é trancado para qualquer palavra. Ao contrário do que escrevemos no passado, o césamo não se abre com palavras mágicas. Para resolver esse embuste é que se inventa o gênio da lâmpada, o qual carregará todas as respostas em um ritmo 3 por 4. Mas essas respostas serão meros desejos e assim indefinidamente. E quem dirá que não é exatamente desse modo que acontece?

O desejo é insaciável porque o desejo não tem estômago e intestino: o desejo somente é. Transfigurado em questões, a face desse desejo acalmará, mas a distância do desejo com aquilo que deseja nunca ameniza. Se amamos, amamos alguém ou algo ou amamos a representação de alguém ou algo que criamos por meio de palavras? Acredito que o amor transcende a letra e qualquer organização da letra. Contudo muitas vezes nem sabemos quem é a pessoa que amamos e mesmo assim usamos a palavra “amor” como essas adolescentes usam por aí.

Isso não é falta de respeito? Pensar assim seria moralizar a atitude. Pensar assim poderia até ser classificado como retrocesso. Mas considerando que é a palavra que diz do mundo para mim e que só posso conhecer o mundo enquanto palavra, como respeitar o fato de que a palavra “amor” é utilizada assim sem sentido ou significado algum? A realidade é que isso indica algo muito mais profundo. E pra falar a verdade mesmo, a realidade é que isso indica um vazio tremendo, pois por baixo da teia de palavras e frases que todos os dias pronunciamos existe algo que jamais poderemos dizer.

Esse algo que jamais poderemos dizer acontece de vez em quando mas ao mesmo tempo todos os dias. Se digo “acontece” não é por acaso, porque esse algo somente se mostra através da experiência. Quando vivemos algo e não conseguimos falar desse algo ao ponto de inventarmos alguma onomatopéia para tanto, ei-lo aqui, visto que a vocalização vogal não é nada menos que o sentido primitivo do próprio sentir: batalhas, orgasmos, sustos e vitórias. Se conseguíssemos exprimir aquilo que sentimos de outra forma, entretanto, faríamos isso? Certamente não. Mais vale o arrebatamento. Mais vale a experiência. Mais vale o que acontece.

Se não enxergo o que falo, porém, posso ao menos intuir minha fala. Posso relacionar, após isso, minha fala com alguma imagem e a seguir com algum sentimento, já que a própria imagem e mesmo a fala trarão consigo um sentimento. Nesse movimento, contudo, buscando a intuição da fala, irei me perder em um labirinto de imagens. Quando eu me perder posso até mesmo correr o risco de ficar cego pelo próprio movimento das imagens em profusão, pois chegará um ponto em que eu mesmo serei apenas representação: palavra de imagem para mim, para os outros e para o mundo. Mas quando me distanciar desse alvoroço, perceberei que nada disso há realmente e sim apenas dentro dos limites da minha compreensão. Ao perceber isso terei um estranhamento, já que o que me parecia óbvio simplesmente sumiu. O que surgirá então? O silêncio.

E é esse silêncio que cultivo após o filme do Meirelles. Sei que poderia continuar meu texto indefinidamente. Sei que poderia fazer mil análises sociais a partir da trama do Saramago que o Meirelles levou pras telas. Mas não quero falar nada mais além do que falo aqui. O que falo aqui foi não exatamente, mas aproximadamente o reflexo lingüístico daquilo que senti diante do estranhamento que essa obra me causou. Se notei brechas no roteiro não interessa. Se nem todas as atuações foram boas ou não concordei com algumas tomadas de câmera, também não interessa. Interessa que cinema é imagem e sentido através da imagem em movimento. Cinema assim é luz. E se essa luz de imagens em movimento me causou esse silêncio, esse olhar curioso na torneira que goteja lenta madrugada adentro, é porque algo ocorreu, é porque a cegueira foi exposta, seja ela do consumismo ou mesmo do sentido e das palavras.

Isso é arte. Tudo o mais é artesanato.
E acho que o Quintana diz a minha conclusão melhor do que eu: "Da última vez que atravessei aquele corredor escuro/Ele estava cheio de passarinhos mortos." É isso que está na foto.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ao futuro, pois, pertence a verdade.

Era preciso muita força para sair da caverna.

Aquele ambiente calmo e relativamente iluminado, aquela fogueira que fazia um ruído contínuo como uma melodia cujo autor era desconhecido, eram muito mais acalentadores que a claridade cega que vinha de fora.

Além do mais, sair implicaria em utilizar as pernas e mesmo em desprender as pernas daqueles grilhões de aço, o que consistiria em um esforço sobre-humano para um propósito desconhecido.

Afinal, qual seria a recompensa?

Se todos os dias alguém lhes empurrava alimento até o fundo da caverna e eles podiam continuar ali quietos ou conversando sobre qualquer coisa, valia arriscar uma saída assim sem qualquer projeto, assim sem qualquer futuro?

Por certo que a resposta dos mais antigos seria não – e talvez justamente por isso os seus esqueletos ainda se encontrassem por ali como uma lembrança da negação imperativa a uma pergunta tão descabida.

E era isso que os cinco pensavam enquanto a luz se fazia diminuta na entrada da caverna e eles jogavam mais gravetos na fogueira para ficarem despertos até a hora do sono chegar.

Costumavam acordar quando a entrada da caverna se iluminava calmamente, pois apesar de não terem qualquer relógio sabiam que aquela paulatina e contínua iluminação correspondia ao início de algo. Logo, costumeiramente tinham sono no momento em que essa mesma luz começava a cessar, perfazendo o movimento oposto àquele que traçava no início do dia.

Porém, naquela data alguém havia jogado uma pedra dentro da caverna, o que consistia em um acontecimento inusitado, pois nada do gênero jamais havia transcorrido por ali até então. Apesar das suas barbas serem longas e seus cabelos quase alcançarem a extremidade daquela rocha oca, em seus anos de estada e fogueira nenhum havia presenciado algo do tipo. E pelo que o mais velho deles lembrava ter ouvido do último ancião que morrera, nada de tal monta havia se passado mesmo.

Portanto, o fato de alguém ter jogado uma pedra dentro da caverna consistia em um acontecimento digno de análise, e muito embora a linguagem desses homens seja construída por meio de um alfabeto perdido no tempo, aqui se tentará a reprodução aproximada dos diálogos que porventura tiveram em todo o tempo que passaram a refletir sobre a pedra jogada dentro da caverna.

Entretanto, antes disso, são necessários alguns esclarecimentos, visto que sem os mesmos lugar algum poderá ser alcançado.

Primeiramente, é preciso dizer que para ter posse da história dos homens que viviam na caverna, sendo que tais eram no número de cinco, isto em um tempo remoto, quase próximo à aurora da humanidade, anos de pesquisa foram despendidos. Escavações e pesquisas incessantes nas mais renomadas bibliotecas do mundo foram feitas, o que ocorreu pelo fato de que até então tal história apenas passava de boca em boca como uma anedota e nada mais.

Contudo, quando determinado artefato foi descoberto em um deserto da América Latina cuja localização não pode ser revelada por motivos de segurança, a versão de que tal história não passava de uma anedota caiu por terra, e desde então este pesquisador que tenta romancear esta suposta anedota constrói invólucros de palavras ao redor da mesma, fazendo com que o lume às conseqüências de sua descoberta se torne mais e mais intenso.

Secundariamente, é imperativo reconhecer que nunca na história se ouviu falar em um imperativo negativo. Normalmente os imperativos são de natureza positiva, de sorte que os imperativos negativos jamais se encontram em qualquer domínio humano. Apesar de se reconhecer que no campo moral tais traços podem vir a ser evidenciados, é de se dizer que estas evidências caem por terra quando se admite que as mesmas dizem respeito a uma negação e mais nada, visto que tratar de um imperativo negativo consiste em tarefa muito diversa.

A natureza do imperativo negativo, portanto, deverá ser averiguada antes mesmo que o diálogo dos cinco homens na caverna seja revelado, uma vez que é do conhecimento da mesma que toda e qualquer palavra poderá ser traçada. Do contrário, o que se fará será mera órbita em derredor do senso comum daqueles que julgam saber de algo e por conta disso escrevem periódicos ou coisas que o valham.

Em terceiro lugar, é necessário saber quem é que irá contar a história. E os exercícios que foram feitos até agora e ainda serão feitos até que se obtenha o êxito almejado, consistem justamente na busca deste conhecimento. Se nem aquele que escreve – ou seja, este pesquisador – sabe quem é, como poderão aqueles que lêem saber algo da história que aquele que escreve quer contar? Apesar de se reconhecer que talvez algum fundamento possa ser alcançado com essa coisa de “escrever pra se conhecer”, admitamos que tal hipótese é por demais acanhada diante de objetivos tão grandiosos quanto estes que se afiguram.

Do contrário, nem seria necessária qualquer linha para enumerar os três propósitos essenciais desta importante página humana.

Assim, saber que anos de pesquisa foram despendidos nesta empreitada (mais precisamente vinte e quatro anos até o presente momento), saber que um imperativo negativo nunca houve na história humana nem antes e nem depois do acontecimento que se quer narrar, bem como saber que é necessário conhecer aquele que conta a história antes que a própria história seja contada, em que pese haver uma breve introdução no início deste relato, são eixos que irão guiar a reflexão que será feita a partir de agora.

Deixa-se claro, todavia, que todos os excertos até o momento jacentes por aqui tem relação direta com este feito, consistindo os mesmos em fases preparatórias ao terceiro e mais complexo eixo do objetivo central ao qual este pesquisador se dispõe.

E é por conta desta disposição e por conta da ocorrência de não ser possível escrever mais de três páginas seguidas sem o devido cansaço e sem o devido reconhecimento de que somente assim a história que se almeja e se conhece poderá ser verdadeiramente contada, que se encerra por aqui esta confessional página inicial, atentando, antes de mais, sem que o alcance do terceiro objetivo almejado para o tema proposto, nada relativo à história será revelado por motivos que ninguém hoje vivo poderia compreender.

Ao futuro, pois, pertence a verdade.

(P.S.1: A imagem correspondente à foto que encabeça estas palavras, foi encontrada em uma das paredes da caverna referida. Ainda que a localização nas enciclopédias conhecidas diga de determinado local, é de se revelar, mesmo que de modo temerário, que tal local é falso e que se alguém lembrar de Platão ao ler essas linhas, tudo não passa de mero equívoco historiográfico, já que o sábio filósofo grego ficou sabendo da mesma por via da oralidade e nada mais. No mais, desta forma, reporta-se inteiramente às linhas acima, visto que a verdade ao futuro pertence. E quanto ao artefato, convém uma reveladora realidade: trata-se da pedra jogada na caverna, de cujas dobras toda a palavra até então proferida tem tido origem. )

Só não esquece das exclamações...

Não era forte como o domo geodésico.
Nem pretendia tanto.
Entre escorrer dentre braços e permanecer com a sua estrutura, havia motivos suficientes para que sua liquidez falasse mais alto.
Porém como haverá volume se não há nenhuma resposta de quem ouve?
Seria pura questão de senso, de tato ou coisa que o valha. Logo, não tinha tanta certeza assim, pois caso carregasse consigo alguma certeza teria que ver alguma reação daqueles que ouvem a voz da sua liquidez.
Ou será que sua liquidez era desprovida de voz?
Provida de gaitas talvez, hein hein?!
Não, melhor não.
Melhor que encontrasse sem demora uma negação pra barrar o fluxo que se fazia. Melhor rejeitar uma idéia mal investida que prosseguir no depósito fino e conseqüente de tudo quanto lhe passasse pela cabeça.
Portanto, avante com as ciganices!
Avante com as rodas, com as violas, com as saias!
Se houver uma órbita verde, verde, vermelha, azul e amarela vestindo aquela morena linda e gostosa, as coisas estarão certas assim como tudo sempre esteve certo na cabeça de Newton – mesmo que Newton, há de se admitir, não desconfiasse que o tempo fosse o que Einsten disse que era.
Mas todos devem ser perdoados por ilusões de eternidade.
Todos devem ser perdoados pelo simples éter, seja ingerido ou inalado, vez que é nele que se movem os astros.
Convém não condenar quem dizia o que dizia tão-somente para provar aquilo no que acreditava, ainda que essa prova tenha a ver com israelenses na Faixa de Gaza ou atenuantes do gênero.
Invadir, afinal, qualquer um invade quando deflagra um xaveco no ouvido daquela moça do canto:
- Você é linda, sabia?
- (Ela não responde e apenas ri. Mas quem disse que risos não são respostas?)
Tudo acaba em um motelzinho com nome de deusa grega.
O estranho é que Vênus pode ser Hades nessas alturas do campeonato, sendo que do contrário faria alguma diferença se atirar do vigésimo andar.
Mas amigo: há vigésimo andar nessa cidade? Há andar para o que você sente? Seu peito está dividido em patamares, em lugares, em altares?
Você tem que reconhecer que algum dia esteve e que mesmo hoje está em algum lugar. E por mais que você queira essa coisa de escorrer, por mais que você queira essa coisa de estar em todos os lugares sem estar em lugar algum, não é bem assim pra jogar no liquidificador o pouco que resta do seu coração. Com o que existe aí, por certo sairia uma batida com cor de beterraba.
E a pergunta está AQUI: quem tomaria?
Mesmo que você já tenha visto línguas lambuzadas de esperma e até de coisa bem mais densa naquelas porcarias que os amigos te enviaram na internet, você não vive em um mundo à parte dessa forma. Você vive em um mundo no qual os vizinhos são pessoas boas e trabalhadoras enquanto você dorme até uma tarde e levanta com a barba por fazer e o cabelo por cortar. Você levanta para ser desmatado, mas só o que desmata é sua utilidade em frente à televisão.
Se salvam só os clipes do Gogol Bordello que dizem muito mais de você do que você pensa.
Quando chegar a noite, portanto, quem sabe seja hora de você ligar pra alguém e parar com essas neuras. Sim: liga pra alguém, vai ao cinema, toma umas duas polares e deu, porque você há de concordar que nem sempre uma caixa é que alivia a consciência de algo.
Se você voltasse pra história de uma caixa, cairia novamente nessa de querer ser forte e ter fígado duplo.
E você tem que aceitar que só existe um fígado no seu horizonte de eventos, já que ainda não inventaram um mercado negro suficientemente acessível ao que você traz nos bolsos.
E falando nisso, corre: não atende o telefone, desliga o interfone, põe algodão nos ouvidos e diabo à quatro. Se puder enfiar a cara dentro da almofada e não tira mais ela dali.
- É ele! – falam elas por aí.
- É ele! – falam eles por aí.
E tudo se dilui e você está sabendo disso.
Essa sopa que resta não tem nada a ver com beterraba e muito menos com tomates.
Essa sopa que resta tem até um tom azulado se seus olhos forem bons observadores.
Essa sopa que resta é você e cabe a você tornar tal sopa o mais energética possível nem que tenha que jogar Red Bull na dita.
Cabe a você, camarada!
Alto lá!
Esqueça essa onda de querer entender o que está acontecendo. Se a wibe não vai até você, não quer dizer que você precisa ir até a wibe. Não adianta fazer escolhas se tudo isso é só idealização e nada mais, porque você sempre será você quer você queira ou não.
Desta maneira, ergue essa tenda de uma vez. Põe as varetas voltadas para a Estrela Polar e acende o fogo depressa porque está frio.
Não precisa lembrar do amigo solteirão que é o autor do hein hein.
Não precisa lembrar de nada se os Anassassi já disseram o que haveria sob o sol.
Antes disso, contudo, lê o Eclesiastes e me diz se não é verdade:
- Tudo vaidade jogada ao vento!
Você tem que admitir que definitivamente jamais será um domo geodésico e tampouco liquefazerá suas certezas.
Seu coração está em outro canal.
Se ele está fora do ar é porque você está dentro dele.
O contentamento que tudo isso traz é tremendo – basta você sentir.
Mas eu sei: te quebraram no meio, te cortaram os dedos, te amputaram os braços e você é apenas um coto, mesmo que isso tenha a ver com aquela música da Legião.
É difícil então e blá blá blá. Ainda mais quando faz sol e é sete da noite de janeiro.
- Tempo de esperança. – dirá a porra do psicólogo.
Ao escambal com as esperanças porque você lembra:
- A esperança é uma espera que cansa e dança ao redor de sua própria trança!
Por isso avante, avante.
Só não esquece das exclamações...
(P.S.1: Na imagem, Newton. E não sabe de quem é a tela: só sabe que é pra ser o Newton. Em Santo Ângelo não existem prédios de vinte andares. Quanto ao amigo, é o Ranieri. Do motelzinho pouco se sabe porque nem se sabe onde fica e é hora de ir tomar banho porque faz calor e nada mais.)
(P.S.2: “Folk you”, diz o final do clipe da Mallu Magalhães. Acha que é essa a intenção de tudo quanto anda falando. E pedir mais que intenção seria demais.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Foram só cortinas e tudo está nublado.

Queria erguer seu arsenal de derrotas como quem sai ileso de uma noite que chega.
Queria conjugar cada verbo e cada canal assim como quem conjuga passados em cima do espelho.
Se as coisas fossem ou não dar em alguma coisa, queria saber apenas da possibilidade, uma vez que o que importava era o fato de respirar e ao mesmo tempo estar em algum lugar.
De resto somente resto, não mais que um apanhado de lixo levado embora tal qual dissera a professora da primeira série:
- Se você não aprender a ler, ficará que nem eles.
- Mas eu aprendi a ler e acho que a senhora não definiu muito bem o que era lixo, professora. Até eu sou professor.
E você pede desculpas por ser rude. Afinal das contas, contar as cristas do sol nunca foi fácil para olhos que não sejam cegos.
Mesmo que fosse um século de padrões liquefeitos, mesmo que fosse uma semana como outra qualquer, importava a maneira como ergueria seu arsenal de derrotas porque sabia que somente após o seu advento poderia sair pra rua.
E este dia chegara.
Mas tem horas que é melhor não dizer nada – e tinha de reconhecer isso.
Tem horas que é melhor esquecer toda mágoa e tudo o que se traz na lembrança e que é realmente lembrança.
Tem horas em que erguer qualquer coisa não adianta, ainda mais quando essa coisa tem a ver com algo do Jeff Buclkey.
Morrer no Mississipi é antiquado e tal antiguidade se torna maior ainda quando você se dá conta de que o Mississipi fica nos Estados Unidos e que na sua cidade existe apenas um rio cujo nome nem vale a pena lembrar.
E há de se convir que se o Mississipi fica nos Estados Unidos e na sua cidade não existe sequer um Tejo pra dizer de algo, o que dirá você de alguma coisa?
As poças da rua que não existem porque não choveu?
O vento que não sopra ou as nuvens que não estão no céu pelo simples fato das cortinas estarem fechadas?
Não, nada disso dirá pois tudo isso é o único fim verdadeiro: o caso que não teve, o balaço que não tomou, a sede que não veio. Certo estava o Pessoa.
O que dirá de algo então é o confronto e mais especificamente o seu confronto. Por mais que olhar demais no espelho faça com que você se difira de você de um modo quase antônimo, é melhor ser diferente de si mesmo do que não saber o que no mundo diz de você.
Mas acaso o mundo diz alguma coisa?
Pedras cantam? Janelas dão tchau? Cores são mais que frutos da luz nas paredes da biblioteca?
Não, nada disso é nada.
Tudo é apenas representação. E essa de empilhar fracassos para encontrar alguma lição, é representação em cima de representação tentando tirar alguma lição daquilo que mal soube aplicar e quiçá viver. Língua dentro de língua, trave dentro de trave, bola dentro de bola: fale, escute, ande e solte aquilo que está em você e mesmo assim nada adiantará porque será puro teatro e clichê.
Ir para a Espanha? Correr touros, pintar Picassos?
Pra quê mais angústia?
Talvez seja melhor empilhar derrotas do que inventar vitórias. Mas entre uma e outra é que se dá a distribuição das medalhas, é que se dá a confecção dos troféus. E é isso que vale mesmo que você não seja pragmático. Mesmo que você não olhe pras mulheres no baile já pensando qual delas é boa de comer, é isso que vale.
Além do mais, que mal há em ser de carne?
Que mal existe em ser quem se é sem qualquer artefato representativo para além da própria mentira da fala?
Mais vale dissecar uma ambição antiga do que construir uma ambição nova, ainda que a própria fala negue essa autópsia e prove essa construção. Não passa no fim de pilhas: pilha de pilhas, entulho de gestos, despedidas de camas, alvoroço de queixos que jamais se verão boca.
Não passa no fim de palavras: adjetivos, substantivos, verbos e ligações quaisquer que no Limbo da página passam a ter algum sentido. Logo, basta o contentamento com o Limbo com L maiúsculo, porque é nele que os significados se projetam assim como projetamos o dia do nosso nascimento no céu pra saber como será o nosso dia de hoje ou de amanhã ou de ontem, igual aquele filme do Vittorio De Sica que você não assistiu.
Mas acaso nascemos? Acaso você nasceu?
Acaso você sabe o que é o neo-realismo italiano?
Continua sendo apenas um texto, uma fala. Continua sendo isso apenas uma interrogação tecida pela voz de Camus e Quintana, porque é certamente pelo tom das palavras e só pelo tom das palavras que Camus começa com a mesma ânsia de quês que Quintana.
Ocorrências. Cápsulas e capuses.
Parecências, pois se isto parece aquilo ou parece com você, isto ou aquilo já não são nada. Que dirá você que tem medo de tirar os chinelos dela de cima da cômoda:
- Vá saber o que ela dirá amanhã.
- E vá saber se não haverá um adeus de au revoir ou um au revoir de adeus.
Melhor a permanência do desconforto que a solidão do colírio: melhor os parêntesis da redução que a simples projeção do intuito.
Se há e parece é porque há e parece, já que lembrar daquela amiga loira que se matou, é só lembrar que você ficou sabendo disso nessa época do ano enquanto ouvia Wish You Were Here e estava em Porto Alegre.
É só lembrar da lembrança mas nunca da pessoa que a lembrança lembra.
É só lembrar de você.
Novamente parecências e ocorrências: cápsulas de capuses que você queria erguer pra sair ileso da noite que chega mas não conseguiu.
Foram só cortinas e tudo está nublado.
(P.S.1: A foto é da Sophia Loren no filme do Vittore De Sica chamado Ontem, Hoje e Amanhã. A amiga que se matou é a Keyla e o sobrenome dela é desconhecido. O Google não disse nada e é hora de dormir.)
(P.S.2: Razão: o Jeff Buckley vê o sol entrando na água e desaparecendo pouco a pouco.)

domingo, 4 de janeiro de 2009

É incrível como tudo se torna desinteressante aos domingos.

É incrível como tudo se torna desinteressante aos domingos.

Ainda que haja carne assada e maionese, o desinteresse é mais do que infeccioso e logo nos dá uma febre tremenda.

Nesta febre não teremos quaisquer alucinações dignas de registro.

Ao contrário, no máximo lembraremos que na noite passada dormimos com a porta do quarto aberta e a televisão ligada fazendo reflexo na sacada.

Lembraremos também talvez que sonhamos com algo relacionado ao Nosferatu do F.W. Murnau, mas o fato é que não saberemos o quê sonhamos.

Algo como lembrança ou reflexo de uma falta inconsciente que nem lembrança pode ser, quem sabe apontando para um desejo de completude ou algo do gênero?

Não: seria querer demais e perverter a própria sensação um açoite por tanta lógica.

Melhor ficar com o incrível desinteresse dos domingos e pensar na maionese e na carne assada que hoje não existem por aqui visto que recém acordei.

Mas se acordasse antes, haveriam?

Dada a minha pusilanimidade nos feitios culinários, sejam eles do porte que forem para além do macarrão instantâneo, apenas haveriam caso me direcionasse ao boteco da esquina de duas quadras daqui e efetuasse as dignas compras respeitosas a um domingo que se quer gaúcho.

Voltaria para casa, abriria uma coca-cola, engoliria nada resignado e nada arrependido os frutos do boteco e depois assistiria o Programa do Didi na televisão, o qual, de uma maneira espelhada, remeteria ao próprio Nosferatu do F.W. Murnau, o qual está em um dos arquivos do meu computador graças à abençoada internet e seus cinéfilos anônimos.

Entretanto, qual o motivo de eu ainda não ter assistido tal clássico?

Buscar motivos dentre as remelas dessas treze horas seria inútil e totalmente desinteressante assim como esse domingo que pra mim começa sem nenhuma promessa.

Mas pelo menos houve essa rima involuntária, o que já é alguma coisa ainda que seja sombra – sombra engraçadinha e nada aproveitável, mas ainda assim sombra.

(P.S.1: E por falar em sombra, olha lá em cima a sombra do Nosferatu do F.W. Murnau.)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Hoje é um dia bom pra comer Fandangos assistindo a Sessão da Tarde.

(a)
(b)
Hoje é um dia bom pra comer Fandangos assistindo a Sessão da Tarde. Mas como não ando mais suportando filmes ao estilo Sessão da Tarde há um bom tempo, fico apenas com o Fandangos.

Mas tem Fandangos em casa? Vou procurar e não acho.

E ainda por cima tenho preguiça de andar até a padaria a meia-quadra daqui.

Logo, o que fazer?

Eis o meu dilema nesta sexta-feira, dia dois de janeiro do ano de 2009, de férias neste apartamento.

Concordo que não seja um dilema digno de leitura. E se formos pensar bem, poucos dilemas são dignos de leitura. Acho que os mais profundos ficam nos dilemas fictícios ao invés de nos reais, isto porque tudo que é ficção nos toca mais do que a realidade. Acho que é mais fácil acreditar na realidade da ficção do que na realidade do real e não consigo entender como tem gente que prefere uma biografia a um romance. Tudo que é inventado me soa mais real do que tudo que realmente aconteceu. As razões disso devem reportar às origens do que eu sou.

Mas entre descobrir tais razões e continuar a falar do Fandangos e da Sessão da Tarde, fico com a segunda opção.

Porém, onde chegarei de tal modo? Eis outro dilema do qual prefiro nem enfileirar frases pelo simples fato de que tal tarefa seria mais do que inútil: seria imprestável.

Aliás, alguém já parou pra pensar que existe uma grande diferença entre “ser inútil” e “ser imprestável”?

Pelo menos pra mim existe, isto tanto na classificação humana quanto na classificação textual, como restará claro ao final deste, começando pela classificação humana que a seguir se dará.

Pois bem.
O “ser inútil” é aquele que nunca prestou pra nada. Nasceu com o rabo virado pra lua mas não soube aproveitar o luar. Quando existe alguma mulher olhando pra ele, o dito simplesmente não percebe pelo fato de ser inútil. Aos oito anos sabia ler P-A-L-A-V-R-A de trás pra frente mas desaprendeu isso a partir do momento em que ganhou seu Super Nintendo e ficou viciado em Mario Word.

Esse é o “ser inútil”.

Já o “ser imprestável” é diferente. Se o “ser inútil” nunca prestou pra nada, o “ser imprestável” já prestou pra alguma coisa mas hoje não presta mais. Ele é mais ou menos como o salário do sujeito logo quando este sujeito arranja um emprego bom. De primeira, o salário dá e sobra no final do mês. Mas pouco tempo depois sobra mês no final do salário e é aí que começam os problemas.

O “ser imprestável” normalmente abrange grande parte da população, em que pese nos dias atuais o “ser inútil” também ocupar um lugar de destaque, o que ocorre muito por conta do fato de que todas as casas tem antenas parabólicas e afins.

Pode ocorrer que um “ser inútil” se transforme em um “ser imprestável”, o que já corresponderia a uma evolução em sua graduação no mundo, muito embora um “ser imprestável”, pelo mero fato de “já ter prestado para alguma coisa”, jamais poder vir-a-ser um “ser inútil”.

Moralizando a coisa, podemos facilmente chegar a conclusão de que mais vale ser um “ser inútil” do que um “ser imprestável”.

E por quê?

As respostas são simples, e mesmo que tais não restem esgotadas por este meu curto e grosso arrazoado, vamos a algumas.

Primeiramente, porque é decepcionante prestar para alguma coisa algum dia e depois não prestar mais pra nada. Que o digam os psicanalistas e psiquiatras que receitam anti-depressivos aos quilos para milhares de cidadãos de bem deste planeta afora. Camarada que um dia estava numa posição e por algumas burradas que fez na vida de repente cai não pode ser feliz jamé. É possível que em algumas dúzias de anos consiga suportar a sua condição. Porém o fato é que este "suportar" será mero suporte para a sua imprestabilidade, de modo que esta, como uma cruz que tenha se pregado às costas do “ser imprestável”, jamais o abandonará. É algo como o que ocorre depois que o sujeito se casa – ou seja: nunca mais voltará a ser solteiro, o que até mesmo diz do fato da sua imprestabilidade para a solteirice.

Secundariamente, várias outras respostas poderiam ser obtidas por mera derivação das já expostas. Contudo, acredito que as observações apontadas dão conta do objetivo desta salutar reflexão sobre as diferenças entre o “ser inútil” e o “ser imprestável”, lembrando sempre que se pudéssemos acaso escolher entre nascer predestinados a inutilidade ou a imprestabilidade, certamente ficaríamos com a primeira hipótese pelo simples fato de a partir de então não termos de nos preocupar com mais nada – afinal, somos inúteis e ponto final.

Trazendo tais traços reflexivos para o campo semântico deste tenra reflexão sextutina (acabei de inventar esse neologismo, paciência), concluo que a mesma não se enquadra tanto na categoria da inutilidade quanto na categoria da imprestabilidade do ponto de vista textual, uma vez que o ponto de vista humano já foi desfraldado.

E por quê?

Perscrutemos tal realidade.

Fato é que eu poderia estar trabalhando. Mas fato é que eu não posso trabalhar dia dois de janeiro, uma vez que neste ano de 2009 tal dia caiu em uma sexta-feira, a qual, por óbvio, encontra-se entre o dia primeiro de janeiro e o dia três de janeiro, de modo que a mesma é considerada feriado por mero decreto de mim-pra-mim avalizado pelo superego freudiano comigo por não ter estudado em uma escola construtivista.

Fato também é que tal reflexão sextutina até que tem algum fundamento. Caso não o tivesse, não falaria de Fandangos e de Sessão da Tarde, parâmetros essenciais a qualquer pessoa em sã consciência que, como eu, tenha vinte e poucos anos.

Portanto, não sendo minha sexta-feira inútil e muito menos imprestável, já que rendeu estas palavras que por ora despontam sob o risco de derivarem em mais e mais palavras nas horas que se seguirão, concluo que já que tenho preguiça de andar até a padaria que fica a meia-quadra daqui pra comprar Fandangos e não tenho paciência para assistir a Sessão da Tarde, melhor mesmo ficar no computador escutando alguns sucessos dos anos oitenta.

Mas pra isso eu tenho paciência?

Ritchie, Menudos, RPM e Polegar – só pra ficar nos nacionais?

Não, infelizmente não: meu saco não é tão capacitado assim.

Por conta disso, aborto este pensar por cá, fazendo votos de que a próxima postagem em tal espaço supra o vazio trazido pelas palavras que agora por alguém são lidas – isto no caso de alguém ter tido paciência para chegar até aqui.

E quanto às fotos deste tratado, as mesmas hoje não constituem um post scriptum, mas sim estão no corpo do texto:

(a) Já que se falou em Sessão da Tarde, As Minas do Rei Salomão protagonizado pelo Richard Chamberlain e pela Sharon Stone em início de carreira é o meu favorito, muito embora admire muito o Crocodilo Dandi (é assim que se escreve?).

(b) E quanto ao Fandangos, o de presunto é o melhor.
Não tem erro.

Era impossível esquecer o cheiro da terra.

Era impossível esquecer o cheiro da terra.

Quando chovia, aquele cheiro subia até suas narinas como se fosse uma respiração das coisas que da terra cresciam, fossem elas vivas ou não.

E era daquilo que lembrava enquanto olhava a noite tranqüila que passava diante da sacada.

Recém havia chovido e algumas gotas se desgrudavam das paredes. A luz dos postes da rua transformava cada uma em uma pequena lâmpada incapaz de ser para além do mero reflexo que trazia em si.

A fragilidade das coisas se desprendia da própria essência que nascia das coisas. Fossem elas dependentes ou não, o fato de recém haver chovido e estarem aquelas gotas a se desprender das paredes, fazia com que tudo se tornasse aquoso como uma nuvem prestes a desabar.

O silêncio também era silêncio em demasia e até era estranho perceber o quanto ele era dominante, pois apesar de ser véspera de feriado, não se ouviam carros rasgando pneus na avenida acima e nem músicas repetitivas a ecoar pelas ruas em frente ao prédio no qual morava. Havia apenas o som do ventilador girando de um lado para o outro na biblioteca e o som das gotas se desprendendo das paredes da sacada em frente da qual aquela madrugada transcorria.

Se parasse um pouco mais, talvez pudesse ouvir a sua respiração. Mas entre ouvir a sua respiração e ouvir as batidas do seu coração, tinha mais tentação pela segunda alternativa, mesmo sabendo que essa era tão impossível quando olhar para trás e ver a cena que havia visto alguns segundos antes como em um instantâneo imóvel no tempo e no espaço.

Por isso decidiu por não tomar decisão alguma e apenas lembrar o cheiro de uma outra terra que lhe chegava pelo cheiro daquela terra, ainda que a primeira fosse algo mais que uma lembrança ou uma fantasia.

Mas fosse lembrança ou fantasia, o fato é que a realidade daquele agora lhe remetia a realidade de um outro agora que se desenhava aos poucos em sua mente. A silhueta da casa de madeira se apresentava emoldurada pelas árvores que haviam no seu pátio dianteiro, como que em uma tensão prenhe de possibilidades por ter sido erguida pelas mãos de um homem.

Esse homem, não por acaso, era um antepassado seu – antepassado esse que vivera há não mais que três gerações mas que fora capaz de erguer uma casa que mesmo na realidade que ele vivia agora, setenta anos depois, ainda se sustentava, o que talvez denotasse algum senso do imponderável ou do eterno que passara pelas mãos daquele seu antepassado.

Ele, contudo, sentindo o cheiro da terra de um antes através do cheiro da terra de um agora, sabia que nada daquilo poderia fazer. Sabia que morava em um apartamento alugado e que no máximo contrataria algum engenheiro, algum arquiteto e um grupo de pedreiros, para erguer uma casa qualquer dali alguns anos. Porém fazer com que uma casa nascesse do seu próprio talhe na madeira bruta, era algo do que ele se sabia incapaz, muito embora tivesse consciência de que tudo era capaz de aprender.

Mas se tudo era capaz de aprender, este tudo se direcionava a alguns setores da sua vida e de modo algum a todos. Do contrário, nada saberia e seria como aqueles sujeito do conto do Borges que pelo fato de muito lembrar acaba esquecendo daquilo que vive. Pensar na limitação das suas aspirações e mesmo das suas capacidades lhe trazia algum melancólico conforto, apesar desse conforto, no fim das contas, ser mais resignação que conforto.

E havia motivo para resignação? Por certo que havia.

Estar às quatro da manhã observando a chuva a se desprender em gotas das paredes da sacada era motivo bastante para várias resignações. A apatia da sua cabeça escorada na janela também era de algum modo uma resignação, pois entre cruzar os braços e encarar com certa altivez a noite que se diluía para dar espaço para a manhã, preferia escorar sua cabeça na janela e apenas sentir com despreocupação mas nostalgia aquele cheiro que lhe chegava da terra.

E mesmo que soubesse que a casa de madeira da qual lembrava era mais fantasia que lembrança, pois todos acabam inventando uma infância para si com a finalidade de encontrar uma justificativa para o seu presente, era bom lembrar que aquelas árvores e mesmo aquela casa ainda existiam para ter a certeza de que um dia voltaria lá.

Naquele momento, contudo, a viagem se dava restrita às fronteiras da memória e da imaginação, e quanto mais sentia o cheiro de terra lhe inundar mais lembrava da própria natureza daquela casa da sua infância. Se passasse estação por estação, inverno por outono e verão por primavera, poderia encontrar também uma coloração diferenciada da madeira em cada uma delas, desvelando-se a casa adaptável ao mundo assim como o são as espécies com o decorrer dos milênios.

E sabia disso quando via o seu antepassado de setenta anos atrás apagar uma vela grossa no parapeito das gradezinhas da varanda para logo fechar a porta e dormir. No outro dia levantaria um pouco antes do sol nascer e repetiria os atos que havia circunscrito no dia anterior, ainda que inexistisse qualquer motivo que desse ensejo a uma lógica ou uma linha para aquele cenário pelo qual ele vivia.

Este, ao contrário, era moldado pela casa de madeira, pelas árvores que haviam no pátio dianteiro da casa de madeira e pelas plantações de fumo que há uns duzentos metros dali começavam para se estender por cinco acres de terra. O fumo seria trabalhado na época certa e enviado para as fábricas distantes centenas de quilômetros dali também na época certa, de maneira que quando chegasse aos pulmões dos consumidores estivesse pleno de prazer e sabor, contrariamente ao que significava enquanto existia apenas enquanto planta daqueles cinco acres de chão.

Quem sabe por conta disso andou até a mesa de centro, apanhou um cigarro e acendeu o mesmo com languidez, deixando que a fumaça lhe enchesse idêntica às lembranças e fantasias que lhe preenchiam justamente no momento em que recomeçara levemente a chover.

O ventilador ainda girava solitário na biblioteca quando o telefone tocou. Ao olhar no visor do celular o número que lhe chamava, não identificou o mesmo pelo fato de aparecer somente a inscrição “número confidencial”. Por conta dessa confidencialidade certamente nascida da intenção de algum amigo notívago, não atendeu a chamada e retornou à janela da sacada, que agora era acariciada por um vento fresco e líquido na mansidão da madrugada.

Era possível que o início do ano fosse o fator deflagrador daquele vazio. Até mesmo sua memória recente se mostrava vazia, desenhando a cor de três dias atrás com uma opacidade que a lembrança era incapaz de penetrar. Da casa do seu antepassado, contudo, podia lembrar e relembrar continuamente, fazendo com que a imagem da mesma se desvelasse em fluxos e refluxos de inconsciência que deslizavam pela sua mente.

Fosse isso motivo de estardalhaço emocional, já teria se jogado do terceiro andar. Afinal, poderia bem representar uma tragédia o fato de não dar valor memorial àquilo que vivera há pouco mais de setenta e duas horas. Mas se aquilo que vivera fosse importante, certamente que se imprimiria com maior força em sua mente, de sorte que a casa de setenta anos atrás perseguida pelas plantações de fumo tinha maior significado que seu recente passado.

O que fizera neste recente passado? Lembrava que reclamara muito e que brigara muito, mas da natureza das reclamações e das brigas de forma alguma lembrava. Estas permaneciam apenas como conceitos em sua cabeça. Estes conceitos, ao invés de serem preenchidos por aspirações de futuro, eram conectados àquilo que ele era por meio de ilusões de passado, apesar de saber que era plausível acreditar que houvesse realmente existido um antepassado seu que plantasse fumo em algum interior perto dali.

Ele, contudo, lembrando de conceitos idealizava uma infância a partir da própria noção que tinha de infância, de modo que tudo aquilo que lhe acorria àquela hora da madrugada era fruto de uma divagação abstrata concretizada com imagens pouco confiáveis. Essa confiabilidade talvez existisse se estivesse lembrando de algo que realmente houvesse ocorrido. Mas qual seria a verdade disso? Certamente não mudaria muita coisa e a verdade residiria tão-somente no plano do passado para se fazer presente no seu agora por conta do cheiro da terra.
Tudo não passava de narrativa.

E quando chovia, aquele cheiro subia até suas narinas como se fosse uma respiração das coisas que da terra cresciam, fossem elas vivas ou não.

Mas era apenas abstração e devaneio limitado a alguns símbolos ocos. Sabendo disso foi dormir tranqüilo pelas invenções que a madrugada lhe injetara e que os sonhos por certo expandiriam no conforto e na resignação das suas linhas imaginativas pelo cansaço.

“Cansaço”, disse ao espelho quando foi lavar o rosto, “tudo se resume a um intenso cansaço de tudo com tudo”.

Quando acordou o dia estava branco porque ainda iria chover mais. Ao menos foi essa a conclusão a qual chegou. Se ela era fundada em algum passado, poderia ser mesmo fidedigna enquanto previsão. Mas o fato é que ela era restrita ao seu presente, ao seu ar de sono pela manhã, o que lhe perpassava o senso com uma mera intenção de futuro que poderia ou não se realizar.

“O inverno tem que chegar logo”, dissera-lhe uma pessoa no dia anterior.

Isso bastava para continuar a viver e sentir que a hora posterior poderia ser melhor que a anterior e assim indefinidamente.

(P.S.1: Quanto à fotografia, é uma réplica da casa onde Henry David Thoreau viveu entre 1845 e 1847 às margens do Lago Walden. Já a estátua, é uma réplica do próprio Henry David Thoreau. Ao falar "réplica" me referindo ao Thoreau, porém, me sinto incomodado. Acho que é natural, pois entre representar a si próprio e ser representado pelos outros, por certo que é mais segura a primeira observação. E creio que é por conta dela que venho escrevendo tanto nos últimos dias.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Dia primeiro de janeiro: um sentimento de renovação deveria percorrer meu corpo.

Dia primeiro de janeiro: um sentimento de renovação deveria percorrer meu corpo. Entretanto o que sinto é apenas o vento de uma quinta-feira que prenuncia chuva, a qual, esta sim, traria alguma real renovação para esta terra que habito.

No mais, creio que tudo sejam apenas símbolos: calendários que caem, ponteiros que giram, champagnes que estouram, fogos que explodem e o escambal. Problema é conviver com esses símbolos sabendo que todos eles não tem nada a ver com você e mesmo assim irão despontar na sua frente quer você queira ou não.

Mas acaso não é sempre assim?

O fato é que eu poderia e até deveria discorrer sobre isso. Porém cairia em uma digressão acerca da liberdade humana frente às condições inevitáveis da própria existência – e confesso que não estou com a mínima vontade de fazer isso.

Logo, mudo de rumo.

O que falar então?

Vamos às descrições mesmo que essas nem sempre sejam frutíferas.
Minha caneca preta de café está cheia. O ventilador ventila meus pés assim como o vento que prenuncia chuva entra pela janela e faz uma folha de papel voar em cima da mesa. Isso até me lembra uma cena de algum filme que vi umas três vezes no cinema, mas também não quero falar sobre isso hoje.

E por que esse incômodo estagnado que me faz morder os lábios?

E por que esse suor que estanca os poros em um grude intermitente que encharca a camiseta pólo que ganhei da minha sogra?

Tudo tem a ver com tudo ao mesmo tempo em que eu não tenho nada com isso, o que certamente já me leva ao Albert Camus e seu O Estrangeiro, sabendo, contudo, que qualquer reflexão acerca deste meu "estrangeirismo” no mundo redundaria também nessa dissociação inevitável entre as coisas que despontam na minha frente e eu defronte as coisas que despontam na minha frente.

E por quê? Porque é essa a condição. Porque é essa a carga e ponto final.

Mas é dia primeiro de janeiro e a ONU diz que é Dia Internacional da Paz. Porém há paz afora esse vento que anuncia chuva e por conseqüência real renovação?

Andam dizendo cá por esses lados do Rio Grande do Sul que a estiagem será extensa esse ano.

Qual oportunidade que terei então no decorrer desse mês de sentir novamente esse vento?

Isso sim é dar significado ao ano que inicia.

Isso sim é saber que algo está para mudar.

No mais são símbolos e redes de símbolos que contaminam toda percepção que se queira pura. (E sim: por mais que eu admire Kant e saiba que ele era genial, “pureza” não rima com “certeza” caso você se coloque no lugar onde você está – ou seja: “humano, ridículo e limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal”, como disse o Raul.)

Enfim, dia primeiro de janeiro de 2009 e tudo parece igual ao dia trinta e um de dezembro de 2008. Mas não fiz nenhuma promessa para esse ano apesar de saber que tenho muitos compromissos esse ano, o que talvez já diga muito daquilo que viverei no decorrer do mesmo.

Acho que aliando essa antevisão dos meses que se seguirão a esse vento que prenuncia chuva, tenho um certo sentimento de renovação que me percorre o corpo, ao contrário do que falei inicialmente (o qual, não fosse o calor, me traria algo mais que tranquilidade).

O problema é que não me sinto aliado a ele.

E é isso.

(P.S.1: A tela de hoje é do Andy Warhol. Essa repetição infinita de formas que retiram a própria identidade da forma que a face anuncia é algo que diz muito do que dizemos da passagem de um ano para outro. E meu diagnóstico não é pessimista, pois prefiro pensar junto com o Montaigne que “pensar é aprender a morrer”, o que já é plenamente satisfatório. E convenhamos que isso de "ser satisfatório" já é muito.)