quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010.

Cerveja na garganta, champagne na geladeira e ano novo chegando. E ainda por cima, o blog completando um ano e pouco de existência. Tudo foi ótimo até agora. E espero que se torne melhor ainda nesse ano que se anuncia daqui uma hora. Um sincero abraço para todos aqueles que me acompanharam até esse momento. E pra não perder o lugar comum, um feliz 2010 a todos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Exercício n° 133.

Não há nada a fazer quando tudo está gasto. Quando a bile expeliu seu musgo no estômago e o estômago vazou para os pulmões, o que resta é a espera. E ela não precisa ser triste: nada precisa, ainda que a terra seja negra e os territórios sejam territórios porque alguém disse que são. A única fronteira do homem é seu corpo. O único obstáculo do homem é sua forma. Pele, carne, tudo que dança no espaço-tempo do cosmo, é esperança aqui e em nenhuma outra parte. As cenas se repetirão e as ramagens da vida, antes plena de expectativas, estarão restritas ao teto de um quarto vazio, onde flores mortas esperam pelo último veneno em um vaso de água podre. Alguns irão te visitar, dirão palavras que esperam ser ditas. Mas a razão, aquela que tu tinhas e acabou perdendo nas brechas do teu crânio, essa jamais retornará. O círculo se fechará a partir do momento que teus olhos cerrarem. Ninguém segurará tua mão. Cairão lágrimas sem remorso. Logo o esquecimento será o único verso da tua existência. Perdurarão engravatados ganhando em cima da tua criação que, antes opaca, oca de sentido, cairá nos olhos daqueles que servem para dizer se ela vende ou não. Após tua morte é que te tornarás único. Após teu fim é que tua palavra será ouvida. Mas de que adianta se nada dirás? Teu sexo tocará apenas a terra úmida de prazeres. Teus braços e ossos serão alimento para vermes, moradores da terra que lá estiveram sempre a te esperar. Tempestades cairão sobre teu túmulo. Sóis nascerão e luas surgirão para tua lápide. Mas lá dentro, tu não perceberás nada. Serás comida e com o tempo nem isso. Se um dia alguém perturbar tua solidão, encontrará teu crânio de olhos arregalados, assustados pela invasão. No mais, apenas prédios, ruídos de carros que cruzam e motos que rangem como cavalos que não sabem o que são. No mais, mulheres atrás de homens e homens atrás de mulheres com a garganta cheirando cerveja. Mas tu não participarás disso. Nem mais lembrarão teu nome. Voltará na memória de alguns poucos tua imagem, teu porte, teu cabelo. Tua palavra, aproveitada por aqueles que agora dirão que ela realmente diz algo, é que ressuscitará teu cheiro a cada olhar caindo sobre ela. Mas nem assim tu estarás presente. Estarás enterrado, cravado nas entranhas da terra até que o final disso tudo chegue. Então te levantarás, percebendo que nada mudou e tudo continua como antes. Os territórios continuam a ser territórios e as armas continuam nas mãos de quem pode ter armas. Tua voz preferirá o retorno, mas já não haverá como retornar. Condenado a essa nova vida, a única coisa que te fará chorar será o primeiro raio de luz tocando teu olho quando todos os vulcões enfim cuspirem o sangue da terra para a pele do mundo. Sorrirás, dizendo que isso é bom e justo. E carbonizado serás eterno, feito de pedra que não se gasta, mas sim perdura como tudo aquilo que não deverias fazer e fez. Esse é o meu conselho. Crê que não sou pessimista. Apenas digo do teu coração, pois orbitar eternamente em torno de si, é como negar que teu rosto só existe por conta de outro rosto que numa tarde te beijou, te amou e disse que o sangue é o espírito do corpo e que devias te contentar com isso. Afinal, estavas vivo. E estarás mais vivo quando antes de seres pedra, te tornes fogo, e antes de seres fogo, percebas plenamente a futilidade da tua forma por vir, arrasada pela argamassa da lava e liquefeita por tudo aquilo quando em vida tu te propôs a gastar pelo teu corpo. No fim das contas, será o teu sorriso que ficará eternamente ancorado na porta da tua lápide, porque nada, absolutamente nada precisa ser triste quando tudo está gasto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Adiós goodbye, INSUFILME.

Esse blog já foi bom. Mas anda em decadência. Daqui uns dias ele completa um ano. E revendo os textos antigos, percebo que existe uma grande distância entre eles e o que ando escrevendo ultimamente. Talvez seja por conta de novas obrigações e compromissos que me surgiram. Ou talvez seja por conta de eu não conseguir fazer literatura nos últimos tempos. Quem sabe isso seja sinal para que eu dê um tempo para o blog. Ou para que eu pare de escrever por um bom tempo. Mas entre uma e outra alternativa, prefiro o meio termo. Ou seja: prefiro disponibilizar por aqui apenas aquilo que eu creio que seja bom e não textos ao deus-dará de qualquer bobagem que eu escreva.

Sei que não mereço o título de escritor. Ao contrário do meu ego inflado e daquilo que pensam os autores da maioria dos blogs da rede, prefiro não tatuar na minha testa essa palavra. Claro que vontade não falta. Claro que depois de ter escrito algumas coisas boas, você acaba pensando que sempre vai escrever coisas boas. Beira a arrogância. Mas acontece que não é assim que funciona. Não que tenha que fazer calor ou frio ou chuva para um texto sair bom. Não que a gente tenha que estar alegre ou triste para escrever algo decente. Ocorre que existem épocas nas quais a palavra simplesmente não sai como deveria, razão pela qual até mesmo tenho deixado de comentar os blogs dos leitores deste espaço.

Não digo que permanecerei em silêncio. Tagarela como sou, seria pedir demais. Seria quase uma tortura. Mas digo que tomarei maior cuidado antes de divulgar textos por aqui. A rede sempre é muito mais extensa do que a gente imagina. As palavras que aqui foram postadas chegaram a locais e pessoas que eu sequer poderia imaginar. Talvez por isso seja necessário esse esclarecimento ou seja lá o que isso for. Não que eu tenha vergonha do que escrevo. Pelo contrário, costumo dar muito valor para minhas palavras. Aí é que talvez se encontre o erro, porque quando a gente se apega demais a seja lá o que for, costuma fechar os olhos para certas coisas.

Então reconheço ou pelo menos tento reconhecer: o blog anda sim em franca decadência. E de agora em diante, ainda que ele esteja próximo do seu primeiro aniversário, não publicarei textos como de costume. Ficarei mais atento ao que publico. Isso não é sinônimo de interdição. É somente sinônimo de cuidado e respeito pela escrita. E se esse blog foi bom, quem sabe seja sinal de que pode voltar a ser bom. Mas temos de respeitar nosso momento na história. E nesse momento da história desse blog, era isso que eu tinha pra dizer.

Mas nada de adiós goodbye, INSUFILME. Apenas um aceno para a vergonha na cara e para o valor da escrita. E pronto.

A Síndrome do Pink & Cérebro.

Quarta-feira. Durmo de madrugada. Pelas quatro da manhã. Acordo cedo. Pelas oito. Venta e faz frio. Mas existem coisas pra resolver. Bato água gelada na cara, ponho um casaco e saio pra rua. Primeira parada: banco. Chego num dos ditos e vejo uma plaquinha: GREVE. Converso com uma funcionária e ela me informa que continuarão em greve até semana que vem. Digo que é uma luta justa. Quem ganha grana com os bancos são seus acionistas. Trabalhador que é bom fica com o refugo e olhe lá. A funcionária fica feliz com minhas palavras e esboça um olhar quarentão e azul pra mim. Estampa agradecimento. Talvez outra coisa, mas não ligo. Não estou com essa bola toda. Fico contente. Faço umas ligações, cancelo uns pagamentos e vou pra próxima parada: provedor de internet.

Estou sem internet desde terça de manhã. E pra quem necessita disso pra trabalhar, é um caos. Chego na empresa e falo pra uma moça dos meus problemas e da minha necessidade de internet. Ela me olha com olhar de babá e me pergunta: já ligou e desligou o computador? Acho meio estranho. Mas me faço de desentendido e digo que sim. OK, ela diz. Mas você já ligou e desligou a chave da luz? Fico sem munições para a resposta, mas afirmo que fiz isso e que inclusive, nessa madrugada, tive três quedas de luz. A moça, loirinha magrela, olha pra cima e formula outra pergunta: a página do login aparece? Já não sabendo o que dizer, respondo que não, que não dá sequer sinal e que meu computador não está com vírus porque tive que formatar ele semana passada. Fui salvo por um disco rígido que gravou meu estoque de filmes, músicas e textos e não apagou minha vida em bytes. Imagino, engenhando a resposta, que ela dará uma risadinha. Afinal, tentei ser engraçado.

Mas nada disso. Ela permanece séria e irreal como uma atendente de 0800. Eu, ao contrário, começo a ficar irritado. Será que levantei com cara de trouxa? Ou será que levantei com cara de criança? Deve ser porque trabalhei até tarde, estou com olheiras e com os cabelos espevitados por cima dos ouvidos. Deve ser por causa do meu cangol marrom que coloquei por pura preguiça de ajeitar minhas gadeias de gringo-alemão. Mas beleza. A cara de babá que ela fez inicialmente era prenúncio do que viria. A loirinha puxa um formulário e diz que vai fazer uma ordem de serviço. Na primeira hora da tarde tudo se resolverá. Saco do celular e olho o horário: 10 e meia. Questiono: não poderia ser de manhã? Ela arrebata: de manhã a equipe já está ocupada. Vira os olhos para o computador, dobra o formulário manchado de papel carbono e quer me despachar com o canto da franjinha que cai nos seus olhos.

Decido tomar uma atitude. Quer dizer, decido verbalizar uma atitude. Nunca fui de violência. Então digo: olha aqui, trabalho pela internet, tenho compromissos via e-mail e sem internet estou perdendo dinheiro. Logo, preciso da dita o quanto antes, pode ser? Penso que ela irá baixar a guarda. Fui contundente e rígido. Mas percebo que cometi um erro fatal: acabei minha frase com um “pode ser”. Ela me olha como quem olha pro seu priminho de cinco anos e diz: a ordem será cumprida na primeira hora da tarde. Como ela conseguiu me desarmar? Baixo a cabeça, coço a moleira, digo tchau e vou embora resignado.

Caminho no vento, penso na greve dos bancos e na moça do provedor de internet. Um dia terei a calma dos senhores que bebem uísque pra conspirar o futuro da humanidade. Mas presumo que meu desejo seja como o CCE no qual eu jogava Pac-man quando guri: ultrapassado. É a vida. Nada de palavras grandes como “magnificência”. Apenas frases curtas e gerundianas seguidas de greves e loirinhas com olhar de babá. Mas tento esquecer disso. Só espero que até a noite a internet volte. E que até segunda os bancos voltem. Quem me dera ter uma bandinha alemã em Tucunduva! Pode não ser grande coisa, mas é melhor que conviver com loirinhas de 0800 materializadas em mesas de provedores de internet. Qualquer coisa, sempre haverá a possibilidade de tocar teclado numa galeteria de Bento. De funiculí em funiculí e funiculá em funiculá, na próxima noite em claro irei dominar o mundo. É a Síndrome do Pink & Cérebro. E a sina de todo mundo que sonha tão, mas tão alto, que logo é achatado pela realidade. Mas meu CCE permanece no fundo do armário. Desejo que é desejo, nunca é ultrapassado. Vinte e poucos anos é assim mesmo. E chega de se lamentar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Prognóstico (Parte I).

O ser humano não é o centro do mundo. Mas julga que é. A racionalidade é incompatível com nossas ações. E a maioria acredita no contrário. Nossa moralidade no mais das vezes é orientada pela mesquinharia. E justamente por isso menosprezamos tudo aquilo que não gira ao redor do nosso umbigo. Uma vida assim é uma vida egoísta. Uma sociedade assim é uma sociedade egoísta. E uma vida em uma sociedade assim terá o viver como um ato egoísta. E não temos praticamente nada que possa dizer que tudo isso irá mudar. É motivo para falar que a mesa está posta e não há o que possamos fazer? Uma paz assim será uma paz armada. Cada qual estará trancado em sua casa, em seu pequeno reino de consumo, esperando que o vizinho tussa para que o projétil ocupe abrigo. E o assassinato seria só uma redundância, uma manchete. Isso ocorre todos os dias quando julgamos as pessoas pela sua capacidade de consumo. Se determinado sujeito não consegue suportar essa realidade ou está à margem dessa realidade, disparamos nossa moralidade egoísta nesse sujeito. Essa é a razão das drogas, sejam elas compradas nas farmácias ou nas bocas de fumo – a diferença é inexistente, questão de glamour. É também a razão da aparente estagnação das nossas existências, trancafiadas em meio a imagens por sobre imagens que fazem com que cada vez mais o contato com o real não seja possível. Mas o que é o real? O que é a realidade? A resposta terá várias faces, cada qual cuspindo fogo na outra para que todos os olhares fiquem chamuscados. Mas ainda que seja dessa forma, a realidade não tem nada a ver com essa nossa moralidade de todos os dias. A realidade está naquele que passa fome. A realidade está naquele que passa frio. E tudo isso não ocorre apenas porque o governo não faz o que deveria e nem porque as empresas querem lucro e nada mais. Ocorre porque nós acreditamos que isso é normal, é corriqueiro, é fato para o rodapé dos jornais. Ocorre porque não conseguimos sair do cercado que construímos e permanecemos numa eterna vida de gado. Quem nos marcou? Qual é a mão que nas nossas costelas tatuou o ideograma de tamanha falsidade de maneira que sequer sentíssemos e até gostássemos do seu toque? Não tenho a resposta e muito menos tenho a intenção de responder essa pergunta. Mas quando um sistema atual está crise, a sua própria crise aponta o rosto do futuro. Se uma tragédia traz sofrimento para alguns, igualmente traz oportunidades para todos. A tragédia é uma oportunidade. Tudo gira na possibilidade de vermos que realmente uma tragédia está ocorrendo. Conseguimos ver isso se estamos correndo dia após dia vendo as pessoas como instrumentos e não como pessoas? Nascemos e morremos sós. Isso hoje é fato. Mesmo o sexo é um ato solitário. O prazer é como a vida: egoísta numa vida assim. Seremos capazes de sair desse círculo? Ou melhor: quando veremos que se trata de um círculo vicioso ao invés de um círculo virtuoso? A perspectiva de mudança é pouca. Mas existe. Não passa pela pureza da raça ou das idéias. Não passa por primados que digam que uma planta tem a mesma possibilidade de entender o mundo que um ser humano. Passa, por outro lado, pelo fato de que devemos reconhecer que antes de sermos morais, antes de sermos racionais e antes mesmo de vivermos em sociedade, existimos. Existimos desde o momento da concepção, muito antes do nosso olhar ser tocado pelas luzes da sala de cirurgia. Existimos antes de pensar, julgar e chegar a qualquer palavra. E é essa qualidade de existirmos que talvez dirá um rumo possível. Que rumo é esse? Uma reviravolta teocentrista, colando Deus no centro do real, ou um aprisonamento antropocentrista, sublimando o ser humano como sentença maior de tudo? Negativo. Precisamos recolocar a vida no centro do real. Precisamos, ao invés de comprometer ou interferir diretamente na vida, nos integrarmos com a própria vida para que outra vida seja possível. Poucos serão aqueles que terão coragem para isso. Poucos entenderão. Mudar dói. Mudar destrói. Mas a mudança é necessária assim como a dor é necessária. É a única possibilidade de sairmos desse deserto no qual nos encontramos. O ser humano pode não ser o centro do mundo, mas todas as possibilidades do mundo passam pelo ser humano. Por isso, isso: prognóstico primeiro de um sentimento não verbalizado, mas que, à parte qualquer dificuldade, passa diretamente por este olhar: precisamos recolocar a vida como centro do real.

domingo, 20 de setembro de 2009

Linhas sobre Dalí.

Nem sempre as coisas são como a gente quer.

Essa frase soa tão simples que aparentemente não quer dizer nada. Mas o fato de se dizer que a realidade está dissociada da nossa vontade, implica em negar a própria premissa do Iluminismo ao colocar o humano enquanto razão como centro do universo.

Cabe a pergunta: o querer é racional a ponto de ser colocado em contraponto ao racionalismo iluminista ao passo que sua não-realização está para a constatação de uma realidade demasiada humana sobre qualquer ponto de vista?

Chegamos ao ponto chave do questionamento que levanto: o desejo e a razão não traçam rumos separados, mas complementares, um influenciando o outro ao sabor das conveniências. Mas ao se falar em conveniências, logo se pensa nas conveniências que trazem sucesso para uns e fracasso para outros, seja de qual realidade falarmos.

Neste sentido, deve-se dizer que entra em cena um conceito primordial: o inconsciente. Se as coisas nem sempre são como a gente quer em virtude de fatores que implicam tanto o desejo quanto a racionalidade quando direcionados a uma determinada realidade, há de se afirmar que esse mesmo desejo e essa mesma racionalidade, ao se direcionarem para uma realidade exterior, estão imantados do próprio meio do qual essencialmente provém: o inconsciente.

Mas se chega aqui a um impasse que poderia redundar na negação de toda argumentação até agora levantada: como provar o inconsciente com o uso do consciente se o primeiro seria o perfeito contraponto do segundo? Essa argumentação negativa cai por terra quando se diz que podemos pensar a morte, refletir sobre a morte ou mesmo buscar meios de evitar a morte. Dizer que há um inconsciente por detrás de um manto de consciência, implica em dizer que a própria vida, para ser vida, necessita da existência da morte, o que é uma verdade incontestável.

No entanto, apesar de defrontados com tais impasses indissociáveis da própria faticidade humana, ainda haverão críticos, os quais, em suma, dirão que associar a vontade humana – vista aqui como a união do desejo e da racionalidade – a uma realidade inconsciente, implicaria em reafirmar o dogma cristão do livre-arbítrio, sendo os psicanalistas de hoje os párocos de ontem.

Para tal entendimento, há apenas que se afirmar que nem sempre, como disse Tom York, 2 + 2 são 4. Por vezes o resultado pode ser diverso: 2 + 2 = 5. Dessa forma, falar que o desejo e a racionalidade estão ligados a um inconsciente que é formado de acordo com nossa carga genética associada a nossas vivências que formam o próprio cerne do nosso ser, é admitir que, enquanto humanos, não somos exatos, e a mais explícita matemática, quando defrontada com o espelho da realidade que nos circunda, pode expandir sua lógica ao ponto de deixar de ser lógica para o mais racional dos olhares.

Aliás, também se deve questionar o seguinte: ao que nos levou o olhar cartesiano, racionalista, iluminista, tecnicista, buscando o homem como o centro do universo? Acaso não nos levou ao estado de pré-colapso global, no qual todas as forças do planeta, desregradas pela ação humana, digladiam conosco em busca de um controle que escapou das nossas mãos? É justamente o que se depreende de tal premissa que busca uma ação/reação em todas as forças universais, acreditando que a abstração proveniente de tal metáfora científica é suficiente para sintetizar humanamente o próprio universo.

Onde o homem for, somente o homem haverá, e não há Kubrick ou Hawking que neguem tal fato, sendo que nosso olhar, nossa vivência, nossa existência, a tudo contamina – e a tal ponto que, ao nascermos numa realidade previamente dada enquanto cultura, jamais seremos capazes de sair dessa mesma realidade, já que a própria condição da nossa existência recai nessa realidade na qual nascemos, crescemos e quem sabe morremos.

Mas e essa última afirmação, como fica? Quem sabe morremos?

Partindo do ponto de que nascemos inseridos em uma cultura e a nossa própria possibilidade de ser humanos está adstrita a essa cultura, pode-se dizer que de alguma forma o humano morre, sendo que de boca em boca, de palavra em palavra, a carga cultural de gerações e mais gerações atravessa qualquer dizer? Não, o humano não morre, o homem jamais morre, apenas se transforma cultura: cultura dada de boca em boca, de palavra em palavra, e, por vezes, de obra em obra, perpetuando a solidão terrestre pelo vácuo universal de jamais termos alguém que olha por nós.

Dizer que morremos, então, é o mesmo que dizer que não-vivemos, uma vez que apenas podemos viver enquanto cultura. Assim, se nossa condição existencial é a carga genética no sentido biológico e a carga cultural no sentido vivencial que, somadas, criam justamente essa condição, deve-se admitir que se a carga cultural no sentido vivencial faz nós sermos o que somos, a carga genética no sentido biológico, falecendo, não torna moribundo o humano, mas apenas faz certo corpo deixar de ocupar certo espaço no sentido físico que permanecerá, em contrapartida, ocupado no sentido imaterial: no sentido cultural.

No entanto, é óbvio o fato de que a aceitação dessa realidade, uma vez que a clareira que ela aponta ao mesmo tempo alenta e atordoa com uma angústia imensa, não será aceita por muitos. Não haverá de se admitir jamais que jamais morremos, mas apenas nos tornamos simplesmente cultura, assim como não haverá de se provar cabalmente jamais a existência do próprio inconsciente, pois dele apenas temos sintomas, jamais realizações concretas.

Se o inconsciente está ligado à vontade, à racionalidade e à cultura enquanto condição humana, falar do inconsciente implica em falar do contexto imaterial da própria existência humana, que, enquanto calcada na materialidade, jamais irá compreender a imaterialidade que a possibilita – pois ela própria é tão-somente cultura.

Nem sempre as coisas são como a gente quer, realmente. E tanto, que nem mesmo quem acaba de fazer esta reflexão, moldado por dizeres de lembrança e arrependimento, detém a real capacidade de dizer que chegou ao resultado que esperava

E o que esperava? E o que é real? E o que é um resultado?

Racionalidade, desejo, inconsciente, cultura, existência: humanidade.

É isso que esse domingo me fala. São as minhas linhas sobre Dalí.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A Liberdade da Palavra.

O artigo que abaixo publico desvirtua um tanto do contexto desse blog. O motivo é que ele consiste na coluna semanal (todas as quintas-feiras) que escrevo para o jornal A Tribuna Regional da cidade de Santo Ângelo (RS), local onde resido. Porém, seu teor fala de temas universais, razão pela qual decidi postá-lo aqui.
Logo, abaixo segue o mesmo.

Escrever não é só ordenar idéias em palavras. Escrever é dedicação. Escrever é obediência a determinadas regras. Vez ou outra me pego pervertendo o português. Isso é triste. Ainda que consiga uma mínima coerência textual, isso não basta. Quanto mais no espaço exíguo de uma coluna. Ao falar disso lembro de Dostoiévski e outros tantos autores que inicialmente estruturaram seus livros publicando capítulo após capítulo em jornais. Isso daria certo hoje em dia? Presumo que não. Minha negatividade com relação a esse ponto é simples. Mais vale se atirar numa poltrona e desfrutar das beldades que a tela encena do que sentar, ler e imaginar o que se passa em determinado livro. Com certeza alguns argumentarão que o livro traz maior liberdade de imaginação para quem lê. Mas aí entra outra pergunta: as pessoas querem liberdade? A resposta é não: as pessoas querem prisões de liberdade.

Artaud dizia que a liberdade total viria com a ausência do corpo. Enquanto estivermos confinados nessa carne e nesses ossos que nos fazem humanos, jamais seremos livres. Isso é uma crítica, uma provocação. Nosso limite é a morte. O que não propicia, para um pensamento que se queira minimamente lógico, crendices do tipo “pós-morte”. Não entendo como tanta gente fala disso se ninguém conseguiu ir para o outro lado e voltar para dizer como acontecem as coisas por lá. O fato em si é que é o medo que alicerça toda e qualquer crença. E é também o medo que alicerça todo e qualquer agrupamento humano.

Rosseau, Hobbes e Locke são unânimes ao dizer que os seres humanos construíram o Estado para ordenar suas vidas. Caso assim não fosse, não teríamos faixas de segurança, não teríamos direito ao voto e muito menos eu teria o direito de falar o que estou falando. Mas a questão central que Rosseau, Hobbes e Locke colocam é que existe um contrato tácito entre as pessoas que vivem em sociedade para que o Estado lhes dê as mínimas condições de sobrevivência. E falar desse assunto pode gerar várias polêmicas.

Tentando setorizar essas polêmicas, vejamos o Bolsa Família. O que ele tenta fazer, baseado no pensamento de John Rawls, é equiparar os pontos de partida social. Isso quer dizer que todas as pessoas deveriam ter as mínimas condições de partida econômica na sociedade para conquistar e efetivamente concretizar suas ambições. Os puritanos, defensores da moral e dos bons costumes, certamente dirão que isso é auxiliar vagabundo. Mas eles apenas dizem isso porque para eles não é interessante que haja o mínimo de igualdade social entre os cidadãos. Afetaria sua riqueza, seu poder. Então não me venham falar que é preciso aprender a pescar ao invés de dar o peixe. Nem todos os riachos tem peixes e nem todas as pessoas detém condições mínimas para pescar.

Mas voltando para a questão da liberdade, trata-se de algo que muito me atordoa. Ninguém jamais conseguiu conceituá-la. Deve-se dizer também que toda e qualquer espécie de liberdade está inserida em um contexto de relações de poder. Portanto, junto com Artaud, digo que a única liberdade possível é a ausência do corpo. Mas como apenas podemos ser apenas enquanto corpos, o que nos resta? Poderia escrever um poema. Mas para me fazer minimamente inteligível, tenho de escrever parágrafos um tanto encadeados para chegar a uma idéia final. E qual a idéia final? A simples, boba e óbvia idéia de que não há final. No Universo nada tem fim: tudo continua. E quando aceitarmos isso, finalmente saberemos da nossa condição essencial: seres-para-a-morte, como disse Heidegger, mas que detém as condições de seres-para-a-vida a partir da consciência de que estamos aqui por um curto espaço de tempo e é nele que devemos fazer o possível para descobrir alguma coisa acerca desse mistério que é a vida e a morte.

Com a escrita acontece o mesmo. Desvendei algo com essas palavras? Não. Como diz o amigo Érico Müller, jogo idéias para cima e que caiam na cabeça de quem cair. Essa é minha intenção. Se eu quisesse trazer respostas, viraria demagogo. Como suscito perguntas, quero provocar o pensar. Mas os que duvidam das minhas letras, me aguardem. Razão? Não sei, mas descobrirei. E é essa a força que move minha existência, quer ela siga padrões gramaticais ou não. Arrogância? Não. Apenas sou humano. E minha liberdade é a palavra, o sangue e a honra de ser humano e poder falar. Isso me basta. É a única dignidade possível.

sábado, 12 de setembro de 2009

Sobre direito e política.

Direito e política são subsistemas difusos. Mas comunicantes. Por isso temos um sistema jurídico-político.

São comunicantes porque se a política representa o poder, o direito representa a limitação do poder da política. Pode-se dizer que o direito também exerce o poder. Mas o poder exercido pelo direito é limitado pelo próprio direito, fazendo com que ele seja um subsistema que se auto-reproduz.

Essa auto-reprodução, porém, não se dá separada da esfera política. Ao contrário, depende da esfera política. Isso acontece porque o jurídico enquanto lei é formulado pelo político enquanto expressão democrática. E dessa comunicação entre direito e política surge a democracia como método. Logo, algo nada grego e completamente moderno.

Quando dizemos que a democracia tem raiz grega, apenas podemos fazê-lo a partir da representatividade do voto com a intenção de governar uma sociedade. Mas na Grécia Antiga o voto era privilégio de poucos, além do fato de que a democracia representativa nos moldes como a conhecemos inexistia naquela época. O que ocorria então era uma democracia direta, onde os cidadãos exerciam o voto através da discussão em praça pública.

Trazendo essas questões para o suposto impeachment que poderá vir a sofrer a Governardora Yeda, algo pode ser dito. Primeiramente, deve-se falar que o impeachment, nesse caso, ocorreria por conta de uma omissão da Governadora com relação a fraudes no DETRAN efetuadas por seus pares de partido. Se isso se deu, foi por uma questão política.

A partir dessa afirmação, secundariamente se pode afirmar que a própria motivação do processo de impeachment é política. Isso se dá pela proximidade das eleições bem como pela improcedência do pedido de afastamento da Governadora dada pela Justiça Federal em razão da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.

O que está em discussão, portanto, não é a esfera jurídica, mas sim a esfera política.

Partindo da realidade de que a Comissão Parlamentar que irá apurar as irregularidades é composta por deputados do partido da Governadora, é óbvio que essa discussão certamente não renderá o afastamento de Yeda. Ao contrário, apenas acarretará o desgaste político da Governadora. Esse desgaste poderá beneficiar outros partidos nas eleições que se aproximam. Mas juridicamente, certamente não terá nenhuma repercussão, a menos que surjam novas provas contra Yeda.

Isso comprova o fato de que apesar de vivermos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, é o direito e não a política que tem preponderância nessa realidade. Ainda convivemos com o favorecimento com relação a nomeação de Cargos de Confiança, por exemplo. Mas isso é mais um problema social do que um problema político, embora também diga de relações de poder.

Se formos tentar analisar esse cenário a partir do Causo do Seu Juarez, podemos imaginar que o sujeito que seria levado vivo para a cova coletiva certamente se levantaria da maca e correria para ver se dentro da cova não havia mais alguém vivo.

São todos cidadãos, afinal.

E ainda que no Brasil a cidadania seja um projeto a se concretizar talvez no próximo século, desde que tente se reduzir a desigualdade social a partir de uma aproximação dos pontos de partida social, essa revolução já está ocorrendo.

O doutor pode até dizer que estamos mortos, mas jamais poderá afirmar isso se alguém contestar seu método.

É esse nosso caminho.

Por isso a democracia que está para o sistema jurídico-político brasileiro é tão importante.

Mas resta saber qual seria a motivação do cidadão que não estava morto em ir para uma cova verificar se mais alguém está vivo. Senso comunitário? Senso fraterno? Em realidade esses termos se confundem.

O desafio para a democracia, portanto, é construir não uma sociedade, mas uma comunidade.

É uma discussão muito importante, a qual ainda não foi abordada por aqui.

Por isso essa primeira pílula. Seguirá o frasco, a bula e quem sabe o laboratório inteiro de agora em diante. Mas em doses calculadas.

Como dizia uma musiquinha que minha professora da segunda série me obrigava a cantar, “somente o necessário, o extraordinário é demais”.

Mesmo assim, pensar é o mínimo. O máximo seria pensar e agir, estabelecendo uma ligação entre esses dois tempos os quais estão inseridos, por sua vez, em um outro tempo.

E que tempo é esse? A história.

Por isso tudo é imprevisível. E por isso há um sistema jurídico-político para tornarmos as coisas minimamente previsíveis em sociedade. A pergunta é como isso será interpretado por cada pessoa. Aí entra a necessidade de uma equiparação dos pontos de partida social. Caso contrário, a desigualdade fará com que tudo quanto construímos como civilização desabe logo.

Queremos isso? Não.

Podemos evitar isso? Tentarei elencar algumas possibilidades nos próximos dias.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Causo do Seu Juarez.

O Seu Juarez, amigo de Ijuí, me contou um causo interessante a partir do qual tentarei falar alguma coisa nos próximos dias. O que não sei. Mas falarei, apesar de até o site do Hotmail me dizer que anda pra lá de ocupado pra abrir meus e-mails.

Deixe estar.

É o seguinte (e por hoje é só o seguinte).

Certa feita houve uma epidemia desconhecida em uma cidade do interior. Morreram tantas pessoas que o cemitério lotou. O prefeito, tentanto achar uma saída para o dilema, resolveu que aqueles que morressem pela epidemia deveriam ser enterrados em covas coletivas. “Estão mortos mesmo”, pensou.

Mas foi aí que surgiu outra preocupação: se havia somente um médico por aquelas redondezas, como verificar que todos aqueles que estavam jogados pelas ruas da cidade estavam realmente mortos? Foi então que chamaram o médico e disseram pra ele dar um jeito de fazer isso com a máxima rapidez.

-Rua cheia cheia de mortos não é rua limpa! – disse o prefeito.

O doutor não se fez de rogado e logo chamou dois negros fortes que trabalhavam numa estância ali perto e disse para os dois pegarem uma maca de campanha.

-Resolvemos isso pra já! – falou ao prefeito.

E qual era sua metodologia? Cutucava cada corpo que via pela rua com uma taqüara afiada. Se o sujeito resmungasse, estava vivo. Se nada acontecesse, estava morto. Com essa técnica conseguiu encher uma cova com uns quarenta corpos em pouco tempo.

Mas contam que quando os negros estavam levando pra cova um sujeito meio barbudo, ele se remexeu e disse aflito aos seus carregadores:

-Eu não estou morto!

Nisso um dos negros respondeu:

-Tá morto sim! Não inventa de contrariar o doutor
!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Rosa de Fogo".

Ligo a TV e passa um filme chamado “Rosa de Fogo”. O título original é “Spanish Rose”. Mas chamam ele aqui de “Rosa de Fogo”. A primeira tomada é banal. As tomadas subseqüentes também são banais. Pelas roupas e pelos carros, deduzo que é uma daquelas produções chatíssimas dos anos 80. O que isso poderia me dizer? Absolutamente nada. Então faço um chá de maracujá e venho pra frente do computador. Abrir uns sites de notícia ou alguns blogs seria uma boa pedida. A insônia normalmente é afeita a todo tipo de besteirol.

Lembro de quando era adolescente e passava na madrugada um programa onde mulheres seminuas dançavam dentro de enormes taças de martini. Como sempre fui desses que dorme lá pelas três da manhã e acorda cedo caindo de sono, pá e tá assistia esse programa. Não que seu conteúdo fosse interessante. Longe disso. Era um programa de perguntas e respostas que algum produtor gordo e fedendo uísque bolou pra entreter marmanjos insones ou simplesmente vagabundos. No meu caso era uma mescla de insone com vagabundo, já que todo cara com seus 14 ou 15 anos é mais ou menos assim. Apesar disso, acho que era melhor ver um programa desses do que buscar sites de notícia ou blogs pela rede. Com uma porcaria dessas passando na TV, pelo menos você tinha a possibilidade de enjoar daquilo e buscar um livro na estante. Comigo era o que acontecia. E quando cansava de ler, puxava um caderno e começava a escrever o que me vinha na cabeça. Foram essas noites que me fizeram aprender a escrever razoavelmente com o passar do tempo, apesar de tentar isso sem muito sucesso até agora.

Mas hoje um adolescente ou mesmo um camarada da minha idade certamente não fará isso. Sem sono, cairá na net com a intenção de conversar com desocupados no MSN ou olhar sacanagem nos seus e-mails. Raros são aqueles que ou buscarão um livro na estante ou escreverão em um caderno espiral seja lá o que for. Deve ser por isso que os jovens saem do Ensino Médio escrevendo tão mal e mal sabendo pensar. Parece que somente conseguem pensar dentro do contexto excessivamente resumido da internet. Seu mundo é http://. Pensam que pesquisar é dar um Google em qualquer assunto e deu. Não existe mais o gosto de abrir um livro surrado nas mesas da biblioteca pública. Claro que alguém poderia argumentar que a internet traz muito mais informações que uma biblioteca pública. Mas como dizia o Fausto Wolff, informação não é cultura. E aí que as coisas começam a ficar complicadas.

Me pergunto isso quando penso na expressão “inclusão digital”. O que verdadeiramente significa isso? Com certeza que um conhecimento mínimo do Word é essencial nos dias de hoje. Mas até que ponto vai essa “inclusão digital”? Alguns amigos chegam a me dizer que os livros desaparecerão em seu formato clássico. “O papel será banal”, falam. Rebato que pelo menos para mim não será. Digo que jamais trocarei livros amarelos por um notebook novíssimo. Diante disso, dizem que ainda vou aceitar isso normalmente. E infelizmente começo a acreditar que será possível.

Se lá na minha adolescência, tempo de internet discada e MS-DOS, eu mal ficava no computador a não ser pra jogar Stunts ou Sim Farm, hoje venho para o computador normalmente para escrever. Não mais puxo de um caderno espiral para isso. Minha grafia tem ficado cada vez mais ilegível. De uns anos pra cá, me obriguei a deixá-la decifrável por ser professor e ter a mania de montar esquemas conceituais imensos no quadro. E certamente será algo assim que ocorrerá com a maioria das pessoas. Mas no fundo, ainda que isso dê uma discussão interessante, não me interessa muito. As coisas mudam, a vida muda, nós mudamos. E de uma ou de outra forma, sempre existirão vagabundos e outros nem tão vagabundos assim que passam pela insônia.

Nessa insônia continuarão a existir programas bestas na TV e filmes sem a menor criatividade passando de canal em canal. Permanecerá talvez apenas a palavra que cada um registra seja da forma que for, em livros ou em HDs pela rede. A questão será saber se continuarão traduzindo “Spanish Rose” como “Rosa de Fogo”. Convenhamos que os puritanos chamarão isso de incitação à pornografia. Por essas e outras é que navegar nem sempre significa ter um rumo. Normalmente significa estar à deriva. E pior: sem perspectiva de salvação.

P.S.1: A net também tem suas genialidades fast-food. Descobri que o tal filme é de 1993. A paspalhice não tem idade e muito menos década.

P.S.2: Ainda quanto ao filme, joguei no Google o título do dito pra ver se achava um cartaz e colava aqui. Achei só uma imagem minúscula. Por isso atirei ali em cima uma telinha verde dos tempos jurássicos do MS-DOS. Pelo visto eu nem era nascido quando essa foto foi tirada. E se me perguntarem do diretor do filme, não tive a menor vontade de pesquisar. Dêem um Google nele.

P.S.3: Não se sintam ofendidos com meu texto. Mas se se sentirem, por mim OK. Reconheço que nem tudo que existe na internet seja tão ruim assim. Se tudo fosse, esse espaço e os espaços de vocês que me visitam estariam inclusos. E pelo menos ao nosso gosto não estão. Fato é que não confio nadica de nada na web. Mas é algo como não confiar em mulheres e não viver sem elas. Por isso, isso.

P.S.4: O mês de agosto foi o menos produtivo da história desse blog. Não se trata de uma história longa. Mas isso não sonega o fato da baixa produtividade do mês de agosto. Se eu fosse místico, diria que é culpa dos astros. Faço aniversário no dia 17/08, o que talvez tenha me incutido um karma que me impossibilitou de escrever. Já indo pro lado pragmático, poderia dizer que tive muitos afazeres nesse mês e que essa é a razão do silêncio. Porém nenhuma das duas alternativas serve. A realidade clara e simples é que sem querer acabei dando uma certa roupagem pra esse espaço. E quando costumamos aparecer para as pessoas de chinelo e bermuda, é um tanto estranho aparecermos de terno e gravata numa ocasião completamente banal. Isso explica tudo. Acontece que as coisas não deveriam ser assim. Já postei contos, poemas, crônicas e alguns artigos quase-científicos por aqui – aliás, melhor chamá-los de ensaios, pois é isso que são. Mas com o tempo você acaba meio que canalizando esforços para um tipo de texto e esse texto aprisiona você. É como ser funcionário do Banco do Brasil por mais ou menos 25 anos e achar que será capaz de empreender algum negócio com a grana que veio do programa de demissão voluntária. Simplesmente não cola. Por isso preferi me aquietar. Nesse mês de setembro certamente aparecerão mais algumas coisas por cá. Tentarei voltar praquela minha face de muitas faces que na verdade sempre acusa quem é. É isso ao menos que julgo importante dizer agora. Falar mais seria mentira. Quanto mais prometer. Por isso meus 3 ou 4 leitores podem ficar tranquilos. Eu estou vivo. E não escrevo só pra sentar a ripa no governo ou incitar suicídios em massa. Mas nem tudo que escrevo é publicável. Tenho bom senso. E era isso.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

É tudo culpa da genética.

Se o certo está na esquerda, por que tanta gente nasce destra? Mas se tanto destro faz besteira por aí, será que o certo está na direita? Talvez a solução do Brasil fosse cortar as mãos da sua política. De um lado temos aqueles que vivem do ranço das pedras do Muro de Berlim. De outro lado temos aqueles que dizem amém para o mercado e dizem que tudo está muito bem, obrigado, desde que suas contas bancárias continuem ronaldianas. Acontece exatamente como em um comercial de banco. Parece que tudo quanto o banco oferece é para o seu bem. Mas o banco quer é que você morra pagando juros em devoção ao contrato que você sequer chegou a ler.

Talvez essa seja a melhor imagem do país nesses tempos em que até a Receita Federal, um dos únicos braços do Estado que funcionam de maneira minimamente aceitável, diz que sofreu e sofre influência política. Antigamente poderíamos dizer que se quiséssemos obter informações confiáveis de qualquer Estado, teríamos de recorrer a sua Receita. Mas se hoje nem isso podemos dizer, devemos confiar em quem? Certamente aquele médico que prometia bebês com genes perfeitos seja o caminho. Desde que, é claro, você não se mostre apetitoso ou apetitosa aos olhos do doutor. Quando se trata de patrimônio genético e de comportamentos que provém desse patrimônio, ninguém tem o dever de se controlar. É tudo culpa da genética.

Assim até poderíamos explicar as coisas que acontecem por aqui. Se acham que o PT tem alguma coisa interessante pra dizer fora o que os supostos intelectuais da USP dizem ser correto, culpa da genética. Se a Dilma e o Padre Fábio de Melo colocaram botox nas suas pelancas, culpa da genética também, ora! Fica muito fácil assim. Melhor do que ficar em mil e um comentários sociais pra explicar as coisas que vemos todos os dias. A partir da genética, poderíamos até explicar porque tarde dessas, quando cruzava pelo centro, vi dois jovens abestalhados tendo sua pampinha socada no chão rebocada pela Brigada. A Igreja Universal fazer seus fiéis vomitar pra expulsar o demônio do corpo também não tem culpa de nada. Só faz o que a Bíblia diz. E a Bíblia, por óbvio, também tem lá seus genes. As empresas farmacêuticas que pedem uns trocados pra OMS pra combater a Gripe A, igualmente são umas coitadas. Tem boas intenções, claro, mas precisam de um financiamentozinho pra fabricar uns comprimidos. Se um casal de amigos financiou sua casa em quinze anos pela Caixa, por que essas empresas não poderiam receber uma mão do Estado?

“Todo humano é bom”, canta o Padre Fábio. Logo, ninguém tem culpa de nada. Há um determinismo religiosamente genético em todas as nossas ações. Acontece que nesses tempos fake plastic trees, temos de descobrir quem manipulou tal e tal gene. E também se esse alguém não deu umazinha meio forçada com o sujeito ou sujeita do qual o gene foi manipulado. Se ele for de esquerda, a manipulação ocorreu por um mundo melhor. Se ele for de direita, tudo não passou de intriga da oposição. Mesmo que a manipulação tenha ocorrido, não houve agenda e nem câmera para registrá-la. É como um senhor da high sociaty que pega michês por aí.

Mas ainda que tudo seja culpa da genética, existem algumas verdades que antecedem até mesmo a genética. Por exemplo: nem adolescentes suportam adolescentes. Outra: vivemos no eterno medo de que a Simone lance outro CD de natal. Mais uma: ninguém jamais gostará de literatura se ler Iracema aos quinze anos. Pra acabar: a única coisa certa das canções de amor é que elas estão mentindo. Mas até a Bidê ou Balde me contraria: “se o sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!” Em quem confiarei então? Sinceramente não sei. A única coisa da qual tenho certeza é que mais me valem as Evidências do Chitãozinho & Chororó do que as evidências do Juízo Final. Convenhamos que é muito melhor chorar o fim com cachaça do que numa frigideira cheia de enxofre e fogo.
Mas se nem nisso eu estiver certo, talvez seja mais lucro dar um jeito de perder o mindinho e me aposentar. Razão? Sem ele, jamais poderei voltar a desfrutar do enorme prazer de limpar o ouvido sem cotonete. Mas no fim a aflição permaneceria: cortaria o mindinho da direita ou da esquerda? De qualquer forma, a mão ficaria e a aposentadoria também. Felicidade rima com oportunidade. Tudo é questão de passar a mão, seja pela genética ou não, ainda que de vez em quando o Boa Noite Cinderela fale mais alto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desintitulados.

Nem só de sexo e dinheiro vive o homem. Sacanagem também é essencial. A democracia surgiu dessa constatação. Mas os cidadãos de bem logo inventaram a ditadura.
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Um peixe não percebe que está no aquário. Seu mundo é o aquário. Tudo quanto ele viver e sentir será restrito ao aquário. E o mar é no máximo um sonho presente na água. Por isso o Brasil precisa de exorcismo. Nosso problema é encosto. Mas ninguém percebe isso. As coisas estão encostadas demais. Se bobear, de tão pesados que andamos, logo perderemos o equilíbrio. E a consciência será nossa cara roxa. Aí nos daremos conta de tudo. A porrada e o tombo são os pais da palavra. Ou pelo menos das cicatrizes.
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Somos todos irmãos. Sempre estamos devendo uns para os outros.
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Dizem que as pessoas podem falar o que pensam. Há previsão constitucional, inclusive. Mas quando a polícia é instruída a recolher cartazes que ofendem a Yeda, existe algo de estranho acontecendo. Alguém escreveu que no começo se queimam livros e depois se queimam pessoas. Cartazes não são livros, mas frases rendem juros. A prova é que as bibliotecas existem. Então o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Nenhum dos dois. Quem vem primeiro é o galo. Porém nesse país eunuco, a extinção é o caminho. Mas talvez o eunuco seja só o guarda. Resta saber quem aproveita o estoque. Ou se o harém não é apenas miragem.
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Se um assassino queima na cadeira elétrica, é justiça. Se um fazendeiro mata ladrões de galinha, é defesa do patrimônio. Mas se alguém se arrisca a dizer a verdade, é burrice. A mentira é o coração do afeto e o motivo dos tapinhas nas costas. Quando muito, de animadas reuniões dançantes e almoços de gente importante. Tanto em um quanto em outro lugar, a conversa é impossível. Nessas circunstâncias, a boca foi feita para outras coisas. E nem todas tem relação com a comida.
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A diferença entre a segurança e o risco, é o tempo de espera para a morte. Depois dela as preocupações acabam. Por isso inventaram a carteira de trabalho. O estranho é alguns reclamarem férias e 13° salário. Certamente não perceberam a liberdade de não ter direitos. A pobreza existe por isso. E o SPC também. São as maravilhas do capitalismo.
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Quando crianças, queremos ser jogador de futebol. Quando adultos, queremos ganhar na loteria. Esses são nossos principais sonhos. Mas entre a impossibilidade da realização de um e outro, é que construímos nossa vida. O grau de sucesso que obtemos é medido pela aproximação com um desses limites. E quem negar é a mulher do padre. Ou seja: a vagabunda da vizinhança. Mas nem por isso pouco bondosa. Afinal, a imoralidade é a razão da felicidade. E a ignorância é sua mãe. Ninguém pode ser feliz abertamente. É pecado.
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Me perguntaram o que eu fazia. Disse que era professor e advogado. Então me falaram:
-Ah! Então você não trabalha quase!
Pensei: nem na Record nem na Globo.
Mas respondi:
-Capaz! Nas horas vagas fabrico foices pra reforçar o orçamento!
Foi aí que percebi que ofendi o sujeito. Ele vestia uma camiseta do Che Guevara.
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Um necrófilo e um suicida são conceitualmente iguais. Perderam a paciência. No meio termo existe a política e a religião. Se uma oferece a salvação pela palavra, outra oferece a salvação pelo silêncio. Mas ninguém explica do que precisamos nos salvar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Simplesmente Maluf.

Sérgio Buarque de Holanda fala que a herança do Brasil para o mundo será o homem cordial. Mas essa cordialidade não se confunde com gentileza, já que a palavra “cordial” provém das palavras latinas “cor” e “cordis”, as quais significam “coração”, designando alguém que age impulsionado pelas emoções e despreza as convenções sociais estabelecidas, o que faz com que exista um reflexo das relações familiares ou privadas nas relações políticas. Um dos motivos para esse comportamento, estaria no fato de que as instituições políticas brasileiras foram concebidas de maneira unilateral e coercitiva, sem diálogo com a população. Então, se por um lado os detentores do poder se utilizaram dessas instituições para favorecer os seus, por outro lado as demais pessoas buscaram meios de burlar os regramentos sociais em busca de favorecimentos para si ou para pessoas da sua relação, criando assim o que alguns chamam de “jeitinho brasileiro”.

Encontramos um precedente disso no comportamento clássico dos indivíduos em relação aos vereadores. No mais das vezes, o brasileiro não vota em um vereador por crer nas propostas do candidato, mas sim porque acredita que poderá obter vantagens no futuro através desse candidato. Essas vantagens, porém, não provém das atitudes legislativas do vereador, mas sim da sua relação com os representantes do Poder Executivo, já que são esses, segundo o senso comum nacional, que efetivamente podem remodelar situações estabelecidas e/ou criar situações que favoreçam o eleitor que inicialmente votou em determinado candidato.

Esse comportamento, portanto, está relacionado a uma forma de navegação social tipicamente nacional, muito presente em uma manchete recorrente nos jornais das últimas semanas: o favorecimento de familiares por alguém que detém determinados poderes em alguma instituição política nacional. Nesse sentido, tenho de dizer que não vejo a razão de tanto estranhamento com o Caso Sarney. As atitudes do Sarney, ao que me parece, estão sendo postas às claras no sentido de dizer de um comportamento completamente estranho frente ao que é moralmente aceito pelo brasileiro, o que é de uma hipocrisia imensa. Concordo que o nepotismo e quaisquer espécies de corrupção devem ser combatidas, mas o fato é que se temos uma sociedade enraizada no conceito de homem cordial, a política invariavelmente irá refletir esse conceito. E talvez isso servisse como uma boa tese de defesa para o Sarney.

Ele poderia alegar que é vítima de um comportamento nacional típico, o qual está tão presente em seu inconsciente que de modo algum pôde pegar algum desvio no decorrer da vida. O senador chamaria psicólogos, filósofos, antropólogos e advogados para dar respaldo a sua defesa, a qual seria rubricada por um parecer psicografado do Rui Barbosa. A Globo então faria uma série de documentários sobre o quanto existe um determinismo inconsciente em todas as atitudes de quem nasce em solo brasileiro. A conclusão viria do Kleiton & Kledir: “coisa de magia, sei lá”. Aí apareceriam alguns remédios tarja preta para combater esse comportamento e tudo estaria perfeito como em um comercial da Monsanto.

Por isso e muito mais, acho ridículo surgirem tantos defensores da moral e dos bons costumes em tempos nos quais a corrupção está nas manchetes de todos os jornais do país. Chego a cogitar que quanto mais as pessoas parecem razoáveis e equilibradas em suas atitudes, com retratos estampados em todas as colunas sociais e coisa e tal, mais sujeira existe por trás dos seus comportamentos. Quem sabe até nos apiedássemos do Sarney se ele seguisse meu conselho de defesa e tudo ocorresse com o aval de especialistas da USP. Ele viraria o símbolo de que no Brasil é impossível ser honesto para que o Maluf, estandarte da desenfreada e injusta perseguição a uma tendência nata de todo brasileiro, com olhos chorosos e melancólicos, finalmente dissesse:

-Eu tenho contas no exterior sim! Mas não é culpa minha! Simplesmente sou brasileiro!

Nisso o Sarney, com a voz embargada de orgulho, bateria nas costas do Maluf e diria:

-Muito me comovo com a confissão de Vossa Excelência! Agora, como eu, és um imortal! E de hoje em diante todo brasileiro, além de ser brasileiro, poderá dizer mundo afora: sou simplesmente... Maluf!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De Mentira em Mentira.

Acho curioso o fato das ruas serem batizadas com nomes de alguns “personagens importantes da nossa história”, como o pessoal costuma dizer. Talvez meu estranhamento aconteça porque não acredito que existam “personagens históricos” que possam servir de ponto de referência pra contar qualquer coisa e muito menos que a experiência de vida de alguém ou da humanidade ensina algo além do puro desgosto. Também duvido que 90% dos sujeitos que dão nome para essas ruas fizeram algo importante pelas pessoas. No máximo fizeram algo importante para seus bolsos e para seus herdeiros. É claro que eu posso dar com a língua nos dentes, mas prefiro essa rabugentice do que um dia me lembrar um paspalho que chegou a acreditar que as pessoas fossem essencialmente boas. Por falar nisso, confesso que já tive comigo essa crençazinha. Mas com o tempo me dei conta de que nem eu valia lá grande coisa. Logo me veio a pergunta: por que os outros deveriam valer?

Se eu fosse desses que acredita em horóscopo, diria que isso se dá porque sou leonino e então penso que o mundo gira ao redor do meu umbigo. Haveria uma razão para todos os meus atos e meu destino estaria escrito no movimento dos astros. Mas como não sou dessa turma, apesar de já ter perdido tempo com isso, cheguei a conclusão de que não só eu, mas também a própria humanidade, não vale lá muita coisa. Mas e por qual motivo deveria valer? Partamos do seguinte princípio: para algo ter valor, ou melhor, para o ser humano que pressupõe a humanidade ter valor, sendo que ele não é algo mas alguém, é necessário existir um parâmetro de valor universal. Pois bem: qual é o parâmetro de valor universal para o ser humano? A vida? Se a vida fosse isso, não haveria guerras e nem a pena de morte em qualquer canto do planeta, por exemplo. Portanto a vida não é parâmetro de valor para nada que não esteja relacionado com a mensalidade dos planos de saúde.

Talvez por isso é que para ter a suposição de uma referência nem que seja pra ir na padaria, as ruas são batizadas com nomes de “personagens importantes da nossa história”. E convenhamos que é bem melhor assim do que chamá-las de A, Z, W ou amarelo, vermelho e roxo. Por isso é que pensar demais não faz bem pra ninguém. Mas custa mais de 0,5% da população gastar seus neurônios com algo interessante? Do jeito que a coisa anda, quem gosta de saber a verdade é masoquista, porque se começa a pensar demais, enlouquece. E se chega ao cúmulo de falar o que pensa em público, lascou-se. Mas esses dias me tranquilizei quando um amigo disse que o que está dando dinheiro atualmente são propostas para mudar o mundo. Talvez eu deixe dessa coisa de pensar e invente algum solidarismo empacotado, bonitinho e cheiroso que ajude os descamisados e me traga algum. Afinal, Deus gosta de dar dinheiro pras pessoas: é o Censo do Céu que está desatualizado.


Mas voltando para a questão dos nomes das ruas, a verdade é que não tenho nada contra os tais “personagens históricos”. Acho até bonitinho a gente falar “na Marechal” ou “na Antunes”. É no mínimo uma perversão lingüística, o que é saudável. O que não é saudável, porém, é acreditar que nessa vida alguém faz algo por alguém por caridade. Para os familiares, a esposa e algum que outro amigo, vá lá. Mas pra esse bando de pessoas que passa fome e frio pelas esquinas, ou, para ser generalista, pela humanidade, é puro solidarismo analgésico.

Lembro de uns colegas do segundo grau que iam fazer serviço voluntário “pra contar no currículo”. Paralelo a eles, vou inventar dia desses alguma proposta para mudar o mundo e então virar nome de rua e me tornar um “personagem histórico importante” com grana no bolso, tudo pela vontade divina combinada com meu enorme senso de justiça. Do contrário, certamente serei execrado como um egoísta desalmado por tanta gente solidária e de bom coração que cozinha feijão por aí. Mas um dia descobrirão a verdade. Como diz o André Dahmer, existem dois tipos de pessoas no mundo: os solidários e os egoístas. A diferença entre elas é que se os egoístas são aqueles que destroem a humanidade fantasiados de papões, os solidários são aqueles que apóiam os egoístas fantasiados de anjinhos. E acaba que tudo fica na mesma. No pesar dos comprimidos, batizando ruas ou não, é de mentira em mentira que seguimos nossa vida.

terça-feira, 28 de julho de 2009

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador."

Todo poder corrompe. Todo laço é corrupto. Mas a pior democracia é melhor que a melhor ditadura. Se as coisas não são como deveriam ser, é porque o futuro existe, apesar da democracia não se medir por eleições periódicas e sim pelo conflito de interesses no espaço público. Para serem conflitantes esses interesses precisam de voz, a qual não irá partir da classe alta e muito menos da classe baixa, já que toda mudança política que algum dia ocorreu no Brasil partiu da classe média. Mas uma classe média anestesiada pela redução do IPI pra comprar sua TV de plasma ou pelo financiamento do seu Escort 97, não irá fazer nada além de acompanhar interessantíssimos debates futebolísticos. Portanto, não há perspectiva de mudança em médio prazo.

Reclamamos da alta carga tributária e da violência urbana, mas a questão maior é a nossa apatia frente ao que acontece no país. Falar em mesas de bar ou no Orkut pode ser um começo. Assistir ao Casseta & Planeta é rir da própria tragédia, o que é saudável. Mas ficar só nisso é pura falta de atitude, pois de uma ou de outra forma nossas discussões políticas tiram o corpo fora da própria política. Ou seja: a população faz o papel de “boazinha” e os políticos de “malvados”. Mas como disse Gramsci, o pior diagnóstico não pode passar ao largo da possibilidade de ação.

Por essas razões é que não é possível uma mudança de cunho vertical. Todo radicalismo é burro. A classe alta não fará nada e muito menos a classe baixa fará algo. FHC já falou em 1979 que no Brasil nunca houve um proletariado: apenas um operariado, porque até para a CLT existir, por exemplo, o ditador Getúlio Vargas teve que dar propulsão para a organização dos sindicatos. O povo não se articulou sozinho. Aceitou a merreca da CTPS em troca da sua liberdade. Assim, a única mudança possível parte do reconhecimento de que o poder se dá em rede, como disse Foucault. Dando-se em rede, não existem atores sociais preponderantes, mas sim atores sociais que medem seu papel no espaço público a partir do seu grau de influência no espaço público.

Logo, não me venha falar que é preciso uma política mais humanitária ou algo assim. E nem me venha falar de conscientização. Todo humanismo é um fascismo que conscientiza. Puro adestramento do humano, zoologização. Para quebrar a lógica do imediatismo que nos anestesia com o consumo e provavelmente evoluirá para a autofagia, é necessário que haja profundidade ao invés de velocidade. E para haver profundidade ao invés de velocidade, primeiramente é preciso haver o reconhecimento da alteridade do outro: o outro como igual mas diferente de mim. Precisamos de diálogo para construir conhecimento e reconhecimento: individual e coletivo, igualdade e diferença.

Caímos então na questão ética. Mas como a ética provém da moral, é necessário quebrar o ciclo imediatista de alguma forma. E como somos atores sociais em todas as nossas relações, pense em um corpo. Do mesmo modo, pense em um câncer. Se o câncer se alimenta do corpo, OK. É impossível evitar. Mas lembre que o câncer pode alterar o metabolismo de ao menos um dos órgãos do corpo. E para certos tipos de doença, nenhuma quimioterapia adianta. Mas será que ao invés disso não precisamos de uma análise psicanalítica de mais ou menos três décadas? Se for esse o caso, é possível que confundamos a analista com nossa mãe. Será amor à primeira sessão, o que não tem nada demais. “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”.

Mas antes de tudo isso, acredito que o berço da nossa inércia está para o fato de que jamais houve uma revolução no Brasil. Tivemos apenas revoltas. Nossa independência política é fruto de um acordo de cavalheiros. E de lá pra cá, somente remamos a favor da maré que nos disseram ser a única. Os oligarcas de ontem continuam com nossos cabelos nas mãos: apenas camuflaram o cabresto com ajuda das agências de publicidade. Os laços políticos são reflexo dos laços sociais: uma “cosa nostra” sem senso de justiça. E os laços sociais são corruptos porque são egoístas e ainda assim pregam a compaixão: o solidarismo analgésico desses clubes grã-finos e das grandes empresas. Quanto ao poder do jeito que está aí, é questão edípica. E talvez esteja para uma visão sensual do Brasil. Afinal, todos querem tetas por aqui.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Postas sobre Anil Duran.

Escrever é cada vez mais desaprender. Andar é cada vez mais tropeçar. Não existe linha reta para quem se arrisca. Se existe um traço, esse traço é apenas uma virtualidade geométrica. Retidão é moral escassa. É disso que se destila literatura.

Mas pensar sobre isso ao fazer literatura, faz com que a própria literatura seja obstruída na medida em que a palavra cega o objeto. Racionalizar o ato já é anular o ato. Por esse fato é que a literatura é só. O escritor não tem amigos para sua arte. Conversa de maneira incessante com todas as vozes que sussurram nos seus ouvidos. Alguém pode chamar isso de psicografia. Mas responder a humanidade da escrita com uma metafísica dos medos é fazer com que o próprio projeto humano morra. Por essa razão não é justo culpar o invisível pelas criações que fazem com que o mundo seja mundo e com que nós sejamos nós. Seria no mínimo uma tremenda injustiça com aqueles que estão eterna mas finitamente à deriva e só por conta disso existem.

E pensar nesse existir implica em imaginar paisagens. Essas paisagens podem ser das cores que você quiser, mas em sua maioria serão amarelo ocre porque tudo seca tudo: a flor seca a árvore, a árvore seca a terra, a terra é secada pelo homem que despedaça a árvore e coloca a flor em um vaso pra morrer em uma semana. Tudo assim unitário. Tudo assim singular. Fazer literatura é brincar de hiena: quanto mais carniça melhor. Perguntar da razão dessa tonalidade amarela é demais. Convém apenas aceitar as palavras como elas se apresentam aos sentidos. Pretender mais é pensar na estrutura das frases e assim mostrar o que não deve ser demonstrado. Se fosse, a literatura inexistiria.

Mas escrever sobre isso é convencer você de que o que você faz é literatura. A teoria é que dá a razão da prática. Funciona como uma mentira domingo pela manhã. A voz tentará dissuadir você da sua própria intenção. Você ficará nervoso, tentará abandonar seu cobertor factual. Mas no final ensaiará uma cara de coitado e falará aquilo que inventou por sobre aquilo que fez. O lábio tremerá e as palavras sairão rápidas mas nem por isso isentas de convencimento. É necessário, você admite para si, ainda que saiba que isso também é mentira, garantir o carinho antes de preservar a franqueza.

Um dia você pensará: como hierarquizar o que é humano de você para você e que apenas virtualmente irá em direção aos outros? Ouvir que todos querem ser ouvidos é uma coisa. Ser realmente ouvido é outra. O espaço que existe entre aquele que fala e aquele que ouve é que constrói o sentido. Esse espaço, por sua vez, só existe enquanto obscuridade. Sua essência está distante da sua forma. Talvez nem carregue uma essência. Dizer que o silêncio compõe esse espaço não é um erro. Seria um erro se houvesse uma explicação do silêncio, uma violência no silêncio. Toda palavra é um estupro porque nasce da ausência de consentimento. Aparece, penetra e morre. Permanece o silêncio e seu corpo.

Vale muito contar algo, portanto. Vale também descrever algo, ainda que tanto contar quanto descrever sejam palavras perfeitamente equiparadas quando se fala da escrita. Do contrário, não existiria a necessidade da palavra no papel para organizar aquilo que somos: bastaria a fala. E acaso não é ela mais justa com a nossa própria condição, esvaecendo logo depois que se faz? O que ficará dela será só lembrança. Dessa lembrança é que faremos o que somos, pois aquele momento se fará representação em seguida – como um show onde o que mais se vê são câmeras apontadas para o palco do que a vivência do espetáculo, já que viver o espetáculo implica em conviver com o outro.

Conclusão? A alteridade atrapalha. Imagine então para quem escreve. Aquele que escreve não pode ser interrompido. Os fluxos de raiva serão inevitáveis e redundarão em socos e divórcios. No primeiro caso há a polícia, no segundo caso há a Justiça. Na parcela que resta entre a prevenção e a correção, acontece o escrever: pra quê importunar quem estava quieto? Não interessa se são seis ou sete da manhã: importa é que as palavras estão se fazendo vida na proporção da organização que deflagram naquele que escreve. Esse terá mais dívidas com as palavras do que com seu próprio nome. Afinal, listas sempre são queimadas no final, isso quando não são enviadas para um museu e esquecidas nesse museu, tornando-se pouco a pouco taxidermias de si mesmas.

O cheiro delas é que persistirá por muito tempo se isso ocorrer. Cheiro amarelo, amarelo ocre. Antes de ser enterrado, talvez você invoque algumas para sua lápide e chame isso de epitáfio. Caso isso ocorra, poderá vislumbrar a orelha da sua morada final e terá de se contentar com essa visão. Após ela ninguém lhe escutará: tudo quanto você fez restará opaco, morno, não queimando e muito menos cozinhando. Alguém descobrir seus feitos vinte anos depois é possível. Mas a esperança não é válida para quem fala. Se fosse, não falaria, porque a fala expressa uma ausência e nada mais.

A folha ou a tela são brancas. As letras quase sempre são pretas. Nessa condição é que caminhando você perceberá que se o branco é a união de todas as cores, o preto é a ausência de todas as cores. O preto é opacidade, é condição. Desse horóscopo é que surgirá o seu sentido: interpretação da completude, grito da ignorância, desfazer plural e impossível. Dele você poderá teorizar. Isso trará calma. Só com o tempo é que haverão mais e mais perguntas no patamar da redução das respostas. Essas perguntas serão bolhas: sabão e bolas subindo pelo ar em direção à lua. Confundir a transparência com a escuridão será sintoma da sua condição. A geometria desaparecerá. Caixas deixarão de ser caixas e você duvidará que em algum momento caixas existiram. Permanecerá a proeza das equações, dos números e letras que sua vontade moldou.

Quando essa vontade for moldada, começarão a surgir importâncias. Essas importâncias não poderão ser carregadas em uma sacola. Existirão no máximo enquanto ilustração da sacola, enquanto designação de um suporte nato. Mais que isso será pura paranóia e motivo para choques. Se jogarem você em uma banheira cheia de gelo, não há o que estranhar. Você pediu pra levar. Continuando no limite da resistência, você iria muitos anos ainda. Mas como você resolveu baixar a guarda, os arqueiros invadirão seus terraços e levarão você embora. Você será colocado em uma gaiola e levado por uma trupe e por um exército.

No caminho você tentará dissuadir alguém. Mas perceberá que seus algozes são desprovidos de ouvidos. Seus gritos serão completamente inúteis e você se dará conta de que o carinho se confunde com a vergonha. A vergonha nasce da afronta moral. O carinho nasce do fato de você não suportar essa afronta. Daí o significado do castigo: a gaiola e depois a banheira de gelo. Você rezará um Glória ao Pai se houver nevado nesse dia, pois nu na gaiola você morreria mais rápido. Mas parando de cidade em cidade para que o exército estupre as mulheres e para que a trupe faça suas apresentações, você perceberá que a neve não chegará.

Tentando situar no tempo o seu desejo, construirá um alicerce no mês de julho. Pelos ingredientes com os quais o vento toca sua pele, você se dará conta de que já terão passado no mínimo dois meses de rotina e nada de neve. Implorar ou rezar seriam opções. Mas implorar para o cavaleiro que encabeça a fila? Rezar para o brasão que o cavaleiro traz no escudo? Não que eu queira assustar, mas isso será o mesmo que sobreviver ao oceano sem água doce. Nesse tempo você beberá sua urina. Chegará um ponto em que comerá suas fezes. As fezes e a urina, contudo, tornarão escassa sua resistência. Chegará então o fim sem lápide, mera ocorrência natural de um fato banal: seu fim.

Como resistir? Postergando páginas para gentes do futuro? No metrô lerão sua obra. No coito lerão sua obra. Lerão sua obra principalmente na presença dos outros. Você será a razão da misantropia do século XXI. Você acompanhará todos para todo canto. Bolsas e pastas serão seu esconderijo. Querendo sair, não haverá qualquer resistência. Você sairá e pronto. Do contrário seus pêlos crescerão mais rápido, suas orelhas ficarão pontudas e retangulares ao passo que você nada poderá fazer. A aniquilação total deixaria no mundo apenas a sua palavra, sendo ela benzida ou não, tendo você mastigado a óstia ou não.

Os filhos talvez continuem seu legado. Mas um dia todos cansam de chorar. Sua mulher arranjará outro. Seu cansaço apaziguado irá então aproximar outros: filhos e psicólogas, viúvas e pretendentes. Tendo seu filho um ou dois amigos, bastará para as vodkas que ele ama. Entornará copo após copo no prazer das desproposições. Caindo na Igreja, na praça, tudo será como planejado. Será uma trama sem maiores enleios. Tombo após tombo, tropeço após tropeço, chegará talvez no ponto daquilo que fazia para então deixar de fazer e começar a falar. A geração dessa fala será o passo seguinte. Uma geração sem útero, sexo ou carinho. Uma geração nervosa. Mas nem por isso menos uma geração.

Aparentada com todas as gerações precedentes, haverá a tentativa de definição. Haverá o ímpeto do conceito. Precisões e necessidades inúteis estarão na sua fala. Você teorizará pela voz de outro aquilo que disse ontem. E desaprenderá com todos os seus tropeços: o
ciclo se fechará.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Revolução Francesa e o Solidarismo Analgésico.

Venho tratando nas últimas semanas das implicações do senso imediatista na sociedade atual. Tenho referido que vivemos em uma sociedade onde impera a Lógica do “Carpe Diem”, na qual o imediatismo tanto com relação às pessoas quanto com relação às coisas faz com que o processo de aproximação se dê em razão do consumo. Essa aproximação dada em razão do consumo, faz com que a liberdade se dê enquanto liberdade de consumir. Dando-se a liberdade relacionada com a possibilidade de consumo em uma determinada estrutura social, se alguns terão a possibilidade de desfrutar das maravilhas dessa sociedade, outros passarão a vida buscando essa liberdade sem jamais alcançá-la. Desta maneira, se o significado da liberdade está relacionado com a possibilidade de consumo, chega-se a conclusão de que se a liberdade existe, ela é para poucos.

Entretanto, é possível que ainda se fale em liberdade se a própria liberdade é para poucos? A conclusão óbvia é que não. Certo é que hoje temos mais liberdade em relação ao passado. Mas mais liberdade implica em uma graduação da liberdade e não necessariamente em liberdade. A liberdade, contudo, será sempre uma graduação da liberdade e não necessariamente liberdade porque apenas será liberdade em relação a algo ou alguém. Portanto, mesmo que se critique a liberdade atual relacionada com a possibilidade de consumir, esta é somente uma face da liberdade a partir das suas condições de existência.

Porém, partindo dos lemas da Revolução Francesa, cujo marco se deu em 14 de julho de 1789 com a Queda da Bastilha, estes baseados na tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”, pode-se dizer que as conquistas do Estado Moderno que se formou a partir de então estiveram relacionadas com esses ideais. Apesar disso, ainda que a liberdade e a igualdade sejam garantias constitucionais, por exemplo, elas não passam de estipulações formais ao invés de estipulações com reflexos efetivamente materiais. Isto se dá em razão do simples fato de que nascemos iguais tão-somente porque nascemos nus, já que nossa igualdade estará sempre relacionada com a estrutura social na qual nascemos. O mesmo ocorre com a liberdade, porque é clara a conclusão de que a liberdade apenas se dá em uma sociedade igualitária, sendo impossível a efetivação da liberdade em uma sociedade desigual.

Mas e a fraternidade? Com relação a esta, é de se dizer que a fraternidade implica em solidariedade e solidariedade é a face que a sociedade atual menos demonstra. Alguns podem dizer que o brasileiro é solidário, que sempre ajuda seu semelhante quando este necessita. Mas a realidade é que a solidariedade do brasileiro atualmente é impulsionada por determinações da mídia, durando o tempo que dura o estardalhaço midiático que evoca a própria solidariedade. Neste sentido, com certeza que temos solidariedade para com aqueles que nos são próximos, para com nossos amigos e nossa família e, em alguns casos, certas pessoas demonstram uma solidariedade franca em relação aos mais necessitados. Mas o que ocorre em uma sociedade onde impera a Lógica do “Carpe Diem”, é que a solidariedade existe mais para ajudar a si próprio do que para ajudar os outros, já que, muito embora o mundo desabe ao nosso redor, se nos atrelamos a alguma ação dita “humanitária”, ao menos podemos dizer que “fizemos nossa parte”. E se fizemos nossa parte, livramo-nos da culpa de termos ficado de braços cruzados. Trata-se assim de um solidarismo analgésico.

Em face de tudo isso, ainda que os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” tenham impulsionado gerações na luta política, a estrutura social e econômica na qual estamos posicionados e a qual estamos presos, absorveu esses ideais e os transformou em objetos de consumo. Transformando ideais em objetos de consumo, talvez tenhamos que, para efetivamente fazer com que idéias se tornem ações, não vê-los como ideais, mas sim como possibilidades de movimento para a mudança da realidade. Caso não houver essa transformação de idéia em movimento, permaneceremos presos à concepção de que uma sociedade igualitária não passa de uma utopia inatingível. Portanto, antes de uma revolução social, precisamos de uma revolução do pensamento para que a própria revolução social ocorra, pois um outro mundo é possível somente com uma mudança do pensamento acerca do próprio mundo.

domingo, 12 de julho de 2009

A Prisão da Liberdade.

Semana passada escrevi sobre o que agora denomino como Lógica do “Carpe Diem”. Essa lógica, refém do imediatismo, dissemina o medo na sociedade pelo simples fato de que esse imediatismo pode cessar de uma hora para outra. Exemplo disso é o medo que todos têm da violência urbana. Esse medo diz do temor de não fruir daquilo que as cidades mais oferecem. Mas o que é que as cidades mais oferecem? A resposta é clara: o consumo. Extrai-se disso que os temores atuais, ligados ao imediatismo da Lógica do “Carpe Diem”, estão para o medo de não termos uma relação segura com o consumo.

Essa relação segura com o consumo, entretanto, sustenta-se a partir da própria insegurança da sociedade para com a possibilidade de consumir. Essa insegurança está relacionada principalmente com o medo de perder o emprego. Perder o emprego, nesse sentido, não significa apenas perder a renda com a qual o indivíduo se sustenta. Ao contrário, significa perder seu lugar na estrutura social. Perdendo seu lugar na estrutura social, os cartões de crédito e mesmo as relações afetivas estarão prejudicadas, pois se a liberdade na cidade está para a possibilidade de usufruir das oportunidades de consumo que a cidade oferece, tudo se torna objeto de consumo.

Logo, o que se nota é que a liberdade, antes de ser uma questão filosófica ou jurídica, está para a possibilidade do indivíduo usufruir das oportunidades de consumo que a cidade oferece a partir da sua condição na estrutura social, a qual está diretamente ligada ao seu poder econômico. Consequentemente, a liberdade não é para todos. O que se conclui é que se a liberdade da atualidade está relacionada à possibilidade de consumo do indivíduo, a liberdade não existe. Ou melhor: existe para poucos enquanto inexiste para muitos. Esses poucos é que poderão aproveitar a oferta intermitente que a sociedade de consumo oferece, viajando pelo globo e não tendo qualquer preocupação com a profundidade das suas relações com as coisas e com as pessoas, porque se o que garante a liberdade é a Lógica do “Carpe Diem” relacionada à possibilidade de consumir, tudo que me prende a algo ou alguém é tão fugaz quanto o ato da compra.

Contudo, os muitos que não poderão provar dessa liberdade ficarão presos em suas condições econômicas relacionadas à estrutura social na qual estão inseridos. Geralmente reféns de contas e dos seus empregos, não terão a liberdade para consumir tanto quanto gostariam. Porém, se não terão a liberdade para consumir tanto quanto gostariam, irão se endividar eternamente na expectativa de que no futuro poderão cobrir suas contas do hoje. E o que acontecerá será o surgimento do “devedor eterno” do qual falei na última quinta-feira. Mas o estranho de existir apenas uma liberdade relacionada à possibilidade de consumo, é que nem mesmo aqueles que podem usufruir dos produtos que estão à venda por todo o globo são livres. Sua liberdade, ao contrário, é uma liberdade existente até segunda ordem. Assim, se de um lado existe um indivíduo que busca de todo modo essa liberdade, por outro lado existe um indivíduo que pretende manter de todo modo essa pouca liberdade conquistada.

Desta forma, tanto um quanto outro irá sofrer as conseqüências que o excesso de velocidade e a ausência de profundidade provocam. Esses efeitos, pode-se dizer, não são nada diversos dos efeitos que os psicotrópicos provocam nas pessoas. Se a droga proporciona uma ilusão de liberdade relacionada a uma substância química e o consumismo provoca uma ilusão de liberdade pela possibilidade de comprar, o que temos é uma prisão da liberdade e jamais a liberdade.

Mas se a liberdade atualmente está para a possibilidade de consumir, não se deve julgar sua verdade ou mentira. Talvez se deva, muito antes de formular conceitos morais acerca dessa realidade, diagnosticá-la da maneira mais crua possível, pois a única coisa que pode frear o imediatismo consumista e medroso da Lógica do “Carpe Diem” é justamente a profundidade que lhe falta. Se o rio é profundo ou não, temos de crer na sua profundidade mesmo que a água seja tão barrenta quanto nossa indecisão. Caso nos falte coragem, a superfície será nosso lugar. E ofertas não faltarão para que esqueçamos que ao nosso lado tudo desmorona.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Cavalo das Quartas.

Parece que hoje foi uma repetição de ontem. Não fez sol e a chuva cessou em alguns momentos para retornar em muitos.

Aqui dentro de casa está tudo úmido. Até meus pensamentos parecem úmidos.

Talvez isso tenha postergado tanto minhas palavras de hoje. Talvez elas tenham escorregado em algum azulejo do banheiro e estatelado no chão, sangrando dois dentes perto da pia. Mas o provável é que tenha sido apenas preguiça.

Costumamos colocar as culpas da nossa inércia em tudo quanto nos rodeia e raras vezes em nós. É muito mais fácil responsabilizar a chuva ou o governo do que dizer que você não fez o que tinha que fazer por pura falta de vontade. Mas também não é crime nenhum a falta de vontade.

Lembro de um poema do Pessoa que fala do prazer em descumprir um dever. E nesses tempos em que os deveres são muitos e o tempo é pouco, quem sabe seja justamente disso que necessitamos. Claro que existem prazos que devem ser cumpridos e exigências inadiáveis se queremos conquistar algo. Mas de todas essas exigências, quais são aquelas que verdadeiramente importam?

Ao falar isso, recordo que quando tinha dezoito anos colei no teto do meu quarto, bem em cima da cama, uma cartolina com a seguinte pergunta: O QUE IMPORTA? Essa pergunta me fez cair em uma crise existencial daquelas. Porém, quando hoje recordo dessa crise, me dou conta de que ela foi mais um pretexto pra encher a cara do que qualquer outra coisa. Por causa da crise, eu podia chegar em casa a hora que fosse e faltar aulas e aulas da faculdade que cursava com a desculpa de que estava em crise. Mas esse tempo no qual dormia e acordava com o questionamento sobre o que importa me foi muito proveitoso.

Na verdade tiveram que acontecer algumas coisas para que eu me desse conta desse tempo. Tive de passar por algumas experiências não muito boas que inclusive me legaram uma cicatriz no queixo para que esse tempo realmente me fosse proveitoso. E posso dizer que de maneira alguma agiria de forma diversa. Com certeza que me prejudiquei em alguns aspectos e deixei passar várias oportunidades bem diante do meu nariz. Mas ainda que sempre tenhamos a tendência a glamourizar o passado, como se o antes fosse eternamente melhor que o agora, ao menos nesse sentido me valeu a pena ler aquela pergunta amanhecer após amanhecer.

Isso me remete diretamente aos deveres que não cumpri e aos deveres que hoje tenho de cumprir para sobreviver. Para algumas coisas não posso simplesmente abdicar da responsabilidade. Entretanto, tento o máximo possível não culpabilizar o mundo ou as pessoas pela inexistência de efetividade em alguns atos que pratico ou deixo de praticar. Muito antes disso, o único responsável sou eu, coisa que aprendi com o Albert Camus.

Por isso é que hoje, ouvindo a chuva que molha o telhado e me chega com um vapor leve pela janela, penso que a aceitação da fatalidade é necessária para certos alicerces daquilo que somos. Não podemos compactuar com as fatalidades que dizem que o mundo é este e nenhum outro mundo é possível, por exemplo. Mas temos de compactuar e aceitar aquelas fatalidades relacionadas a nossa própria condição humana. Nessa condição, jamais saberemos ao certo o que verdadeiramente importa. Mas dentro de nós ou ao menos no olhar de certas pessoas, poderemos perceber que aquilo que verdadeiramente importa não pode ser comprado ou aproveitado ao deus-dará do consumo.

Por outro lado, aquilo que verdadeiramente importa talvez esteja para aqueles cavalos que não se deixam domar. Mesmo que o domador tente pôr um cabresto em seus movimentos, eles sempre se desvencilham de qualquer viseira que diga o lado para o qual devam cavalgar. Por isso é que ao invés de apenas aceitarmos a inevitabilidade dos invariáveis aborrecimentos que toda quarta-feira nos traz, temos de tentar mudar nosso rumo com gestos visíveis e invisíveis que digam justamente daquilo que somos.

Por mais que falem que somos enquanto momento, que somos fragmentados e jamais passíveis de uma união, existe algo que nos faz únicos na fatalidade da existência. Como cavalos selvagens, temos de negar a viseira das ruas e compor o horizonte dos campos em pé, sabendo que se a noite existir, a lua desenhará nossa sombra na grama e fará com que nossos sonhos de eternidade rabisquem uma nova constelação a cada estrela que apaga.

Essa é a única liberdade possível para as quartas úmidas e chuvosas. Estranho será se nada nos parecer estranho e não nos darmos conta de que nosso único dever é o sonho.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O João-de-barro das Terças.

Santo Ângelo fica na região noroeste do estado. É longe de Porto Alegre. Se não me engano uns quinhentos quilômetros. Mas isso não impede Santo Ângelo de ter sua região metropolitana. Ou cidades satélites, como dizem.

Entre-Ijuís, por exemplo, é uma cidade satélite de Santo Ângelo. Trata-se de um daqueles municípios que surgiram às margens de uma rodovia. Caso seus moradores queiram algo que não possa ser encontrado nas prateleiras do comércio local, tem que embarcar em um ônibus da GMS e zarpar pra Santo Ângelo.

Também é uma dessas cidadezinhas nas quais duas famílias se revezam na prefeitura. E quando não é uma das famílias, é algum laranja que representa elas. Esses tempos até ouvi falar que esses caudilhos enriqueceram nos anos 80 com o tal do adubo papel. Nunca entendi do que se trata esse adubo papel, mas pelo mero fato de haver papel no meio da coisa dá pra deduzir que é sacanagem.

Mas sacanagem por sacanagem, não é disso que quero falar. Me interessa falar da Cruz Missioneira que fica no trevo que dá acesso à Entre-Ijuís. Imponente e branca, serve, até onde sei, pra informar os passantes que por aqui houveram as Reduções Jesuíticas.

Somente falar acerca dessas Reduções, faria com que minhas linhas se estendessem ao infinito. E como ontem reconheci que esses lances de infinito só podem ser alcançados pelo Buzz Lightyear, não falarei nem dos caudilhos de Entre-Ijuís e muito menos das Reduções.

Por outro lado, falarei de um joão-de-barro que fez sua casa em um dos braços da cruz, coisa que reparei hoje cedo quando voltava de Ijuí, uns cinquenta quilômetros daqui, abaixo de umas pancadas de chuva que certamente farão com que o inverno volte por esses campos.

Esse joão-de-barro não conhece nada da cultura missioneira. Muito menos sabe das maracutaias que perpassam as prefeituras da região. Apenas construiu sua casa em um dos braços da cruz pra apreciar o movimento. E apesar de eu não ver graça alguma em assistir carros e caminhões passar de lá pra cá a todo momento, vai saber o que se passa na cabeça do joão-de-barro.

Sempre me disseram, aliás, que a gente deve respeitar o joão-de-barro. São passarinhos que constroem sua própria casa com pedaços de graveto e barro que acham por aí. Assim, judiar de um joão-de-barro é demonstração clara de falta de caráter.

Contudo, o que me intriga é que as pessoas acham normal o cidadão se matar de trabalhar pra comprar algumas quinquilharias no decorrer da vida, ao passo que acham uma crueldade tremenda alguém desmanchar a casa do joão-de-barro com um cabo de vassoura.

Não que eu esteja defendendo essa gurizada que mata passarinho de bodoque. Acho sinceramente que são umas pestinhas que merecem uma tunda de laço.

Mas se os bancos tomam terras e mais terras dos agricultores, se os supermercados obrigam seus funcionários a entrar no tal do banco de horas pra não ter que pagar horas-extras aos caras, se duas famílias se revezam na prefeitura de Entre-Ijuís ao deus-dará e aplicam o dinheiro público sei lá eu onde, existe algo estranho nessa história toda.

Porém, tenho de admitir que essa estranheza acaba no exato momento que lembro de uns temas que estão me deixando mais louco que de costume: economia, política e sistema.

Mas que nada. Sete palmos pra eles nessa terça.

Hoje ficarei tranquilo construindo meus dizeres que nem o joão-de-barro constrói sua casa.

Por isso é que o joão-de-barro agora é meu bichinho das terças.

Sim, porque é a terça-feira que faz com que a semana inicie, porque somente nela você se conforma um pouco com feira que acompanha todos os dias do calendário. Coisa de mascate recalcado, óbvio.

Ainda assim, hoje minha vontade é me entocar aqui na biblioteca e não botar as fuças pra fora. Me dá medo um sonho bobo que tive: sou atropelado por um caminhão de porcos. Para minha segurança, ficarei com meus livros. Distante de caminhões e porcos, estarei seguro. Mas mais tranquilo ficaria se os gatos deixassem de frescuras e dessem cabo em todos os pinchers do mundo. Dessa forma os latidos dessas criaturas desprezíveis não me fariam escrever um texto tão ruim.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O Gato das Segundas.

Segunda-feira é um dia prático. Ao menos acredito que seja.

Se aqui em Santo Ângelo ainda posso ouvir os cantos de sei lá eu quantos passarinhos, talvez isso seja o que chamam de bênção.

Longe de mim estar em um daqueles prédios cinzas de Porto Alegre, encaixotado pelo tráfego e pela paisagem interminável de paredes ao amanhecer. Claro que não condeno Porto Alegre. Gosto daquele ar sacana e tal. Mas não troco o interior por nada.

É possível que daqui uns tempos eu tenha que sair do interior. Se isso acontecer, garanto que volto.

Melhor é andar tranquilo na rua do que andar se cuidando na rua. Melhor é saber que a Caixa fica dez minutos à pé do que fazer malabarismos no trânsito pra não atrasar as contas. Além disso, melhor é essa tranquilidade para pensar e escrever, mesmo que no mais das vezes ela seja policiada.

Mas esse policiamento, antes de ser um policiamento com fuzil AR-15 ou ferros do tipo, é mais um policiamento moral do que qualquer outra coisa. Uns dirão que isso é pra lá de irritante. E até concordo que seja.

O problema de morar no interior, é que qualquer coisa que saia um pouco da normalidade é vista como sacanagem. Por isso é que o pulo do gato por aqui é fazer muita sacanagem mas aparecer nas colunas sociais da cidade.

Fora isso, aparecer nessas colunas abre mil e uma portas, como me disseram uma vez. Mas eu fico é me perguntando que tipo de portas essas colunas abrem.

Seriam portas de madeira, daqueles mognos centenários que algum desnaturado derrubou para o deleite das lojas de tinta, ou seriam portas de ferro, dessas que o pessoal compra por falta de grana pra fechar a baiuca?

Pra ser sincero, acho que nem uma nem outra. Ao contrário, acredito que essas portas são feitas de papel. Se não fossem, por que as tais colunas estariam nos jornais da cidade? Seria um despautério lógico.

E apesar de eu não gostar de gatos, se o domingo depende de um elefante para existir, a segunda depende dos gatos para existir. Podem falar que os gatos são desconfiados e não confiáveis e et cetera. Mas quem vai duvidar da agilidade desses bichos chatos?

Entre um pincher (leia-se: morcego que late) e um gato (ainda que eu não goste de gatos, coisa que é NECESSÁRIO reiterar), prefiro um gato.

Quem sabe ele ficasse me observando e fosse mais preguiçoso que eu nessas semanas que iniciam. Ouviria meus lamentos materiais com toda paciência e me olharia com aquela cara de descaso, cagando e andando pra mim. Comeria as gatas da vizinhança, viria pra casa pra chiar aquele chiado asmático e dormir e deu pras bolas. Ao invés de um labrador, amigo de fé/irmão camarada, um gato seria meu algoz da empatia e por isso eu gostaria dele.

Mas há de se convir que essa é uma hipótese pra lá de remota. Fico com minhas considerações sobre Santo Ângelo. E espero que nenhum gato féladaputa pule naquela pomba que está passeando pelas gramas do pátio. Se acontecer, juro que dou todos os ratos pra ele.

Assim o malandro aprende a caçar e deixa dessa ladainha de Whiskas e apetrechos de sardinha que vendem por aí. E talvez eu entenda então que esse meu pertencimento ao interior é mais de fora do que de dentro. Não fosse, as lágrimas seriam doces e não salgadas.

Mas esqueci: segunda-feira é um dia prático. Portanto nada de bichices.

Ao trabalho, porque ao infinito e além, só o Buzz Lightyear.