sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sou apenas um Jimi Hendrix que perdeu a guitarra.

Estão fazendo uma barragem pelos cantos de Cerro Largo. Mais especificamente por Roque Gonzalez. Chama-se Usina do Passo São João.

Veio uma empresa do desconhecido e disse aos moradores que aquilo seria um bem para a cidade. Disse também que alguns até seriam empregados da empresa e que as indenizações, além de darem margem à compra de propriedades muito maiores e melhores que aquelas propriedades dos moradores, na maior parte pequenos agricultores, renderiam a eles uma vida mais do que digna.

Acontece que nessa região haviam mais de trezentas famílias. Acontece também que algumas famílias nasceram nessa região, cresceram, casaram e tiveram filhos nessa região para depois de tudo isso também envelhecerem nessa região.

Talvez por conta disso um casal de idosos tenha se suicidado no galpão detrás de casa quando os homens da empresa disseram a eles que tinham vinte e quatro horas para abandonar a propriedade. Talvez por conta disso, degradados e marginais de todas as partes do estado estão indo para esta cidade para arranjar emprego junto a tal empresa.

Como um castelo kafkiniano, essa empresa espalha sujeitos bonachões de boteco em boteco. Diz pra esses sujeitos pagarem uma caninha ali, uma cervejinha aqui e aos poucos ganhar a confiança dos moradores.

Mas o mais estranho disso é que as coisas parecem ter funcionado.

O pai de um amigo meu, certa vez me procurou indignado querendo processar a empresa. O argumento era de que a indenização era irrisória perto do valor da sua propriedade. Afinal, se bens fossem apenas físicos, o que seria da música sem Cds, fitas-K7, vinis e afins?

Um canteiro de roseiras plantado pela bisavó que veio da Alemanha, não pode ser vendido como se vende um Picasso.

Picasso era genial, mas a vida supera qualquer genialidade porque simplesmente é.

No final das contas, os moradores acabaram abandonando suas propriedades. Terras que por décadas pertenceram a famílias tradicionais daquela região, hoje são apenas terra no sentido grosso da palavra, já que os maquinários da empresa a tudo devassaram. O cenário é d’A Guerra dos Mundos do Spielberg.

Quanto a isso de catar vidas, aliás, disseram os homens da empresa que até mesmo haviam biólogos para salvar os animais nativos daquela área.

Mas aí eu pergunto: quem salvará sentimentos nativos daquela área?

Memórias não curam neuroses e tudo simplesmente será afogado. Isso que nem há Las Vegas nos pampas.

As lembranças são mais que momentos que passaram. As lembranças são aquilo que nos dão a certeza de que ontem estávamos vivos. E quando lembranças de canteiros de roseiras, de poços e azulejos simplesmente são destruídas por uma retroescavadeira, algo de errado há, ainda que a memória persista como um chá de Proust.
Mas algo de errado há para quem?

Para mim, que quase fui pras brigas judiciais com essa empresa e cheguei a juntar moradores para montar uma ação conjunta devido ao fato dessa empresa não estar seguindo à risca o planejamento ambiental feito para a barragem?

Para os moradores, que ou se suicidam ou se contentam com alguns trocados que certamente, deslumbrados pelos números, irão gastar em poucos meses e nada mais, tornando-se então mais alguns desgarrados do Barbará pelas ruas desse Rio Grande?

Talvez meus julgamentos sejam excessivamente morais. Talvez essa coisa de querer ajudar os outros e abrir as cartas do jogo da minha vida aos outros ainda vai me destruir.

Mas se me destruir, pelo menos caio aos pedaços sabendo que não guardo nenhuma carta na manga. O que, se não demonstra honestidade, ao menos demonstra que tentei, o que é o mais próximo da realização que um ser humano pode alcançar.

Triste é pensar que aquelas terras tão bonitas, com um rio quase cristalino correndo, com suas ondulações e árvores centenárias, hoje é um apocalipse que as retroescavadeiras deram um jeito de erguer com seus altares de aço. Triste é lembrar dos idosos que se enforcaram no galpão por detrás de casa. Triste é saber que se primeiro foi a terra, nua como nossa pele que nem nasce ao nascer, a vítima dessa empresa, a segunda vítima dessa mesma empresa serão trilhões de litros d’água tomando conta de tudo.

E por qual motivo?

Para trazer progresso à região. Para trazer empregos à região. Para beneficiar os moradores da região. Para que eles tomem uma caninha e uma cervejinha de graça com algum bonachão conversador da empresa à meia-luz de um bolicho de campanha com um Miles Davis na gaita.

O que não se diz é que a luz das estrelas que morrem demora milhões de anos-luz para chegar até aqui. O que não se diz é que o valor do canteiro de roseiras ou da horta de legumes detrás da casa, jamais poderá ser mensurado em notas ou coisas que o valham. O que não se diz é que vivemos mais de três mil anos sem energia elétrica e hoje até pra comprar um pão nas lojas de conveniência, se não tiver energia, não tem pão.

A ironia de tudo isso é saber que o pai do meu amigo, antes indignado com a empresa e a desapropriação das suas terras, quase líder de uma revolta comunitária, de um barril de TNT que estava prestes a explodir, hoje está feliz, gordo e liso com a indenização que recebeu. Construiu uma casinha e um galpão no centro da cidade, sendo que aluga ambas para os funcionários da dita empresa. Como tinha outra casa na cidade, também alugou a mesma para esses sujeitos que vieram construir a barragem. E ainda por cima, se antes defendia que as árvores nativas não deveriam ser cortadas para preservar a flora e por conseqüência a fauna da região, hoje ajuda a afiar as lâminas que irão cortar aquelas mesmas árvores que um dia defendeu, sendo que para isso recebe um salário mais do que bom mês após mês. Resumindo, sua tranqüilidade é baiana.

Sei que os biólogos conseguiram salvar umas quatro capivaras e mais alguns animais da região. Sei que os moradores estão ganhando dinheiro como nunca com a construção da barragem. Afinal, empresas surreais, quanto mais essas que produzem energia, sempre tem dinheiro de sobra.

Ma qual conclusão tirar disso tudo?

Creio que uma frase, ainda que chula, resuma o assunto, mesmo que eu odeie os chumaços dos lampiões.

E de maneira alguma quero condenar o pai do meu amigo ou os moradores que, antes revoltados, hoje são cordeiros bem mandados pela empresa das retroescavadeiras. Entrar na Justiça, afinal, é estupro.

Só sei que vivemos em tempos que a indignação é tão fugidia quanto os livros de auto-ajuda. E no fim ninguém ajuda ninguém se não for pra emprestar a última bala do revólver.

Quem vende sorvetes não sonha. Quem lê quadrinhos não sente línguas.

As barricadas de 68 não destravaram a ritalina dos cartões-ponto. Além dos mais, Engels sustentava Marx. Portanto, mais vale lamber o saco do patrão e sorrir para a esposa que faz merengue na cozinha. Mais que isso seria extorsão. A Justiça é algo feio pra quem sempre foi cavalo-de-viseira. É estupro codificado penalmente, inclusive.

Por mim, que Deus os comprem e Roque Gonzalez tenha sandálias de fogo. Que a sorte caia como cai a sorte dos bilhetes da loteria nas latas de lixo das lotéricas.

Sou apenas um Jimi Hendrix que perdeu a guitarra.

3 comentários:

pensar disse...

Sentimentos e mais sentimentos, e ainda por cima reais, mas somos poetas da ilusao, somos sonhadores da verdade, mas somos pequeno diante dos destrocos do dinheiro, da loucura do poder.
Enquanto o inteiro sao restos, somos restos do inteiro.
Mas persistimos e assim nao sera lembraca a luta pelo ser mais humano, pelo ser humano(tao escasso).
bjs

Adri Antunes disse...

eiii Du, acho o desafio de montar um blog sobre cinema mto bacana! eu topo! podemos falar com a Biba tb! ela sabe mto, mto, mto! fazer um layout legal, e análises diversas sobre esse mundo ficcional, vai nos trazer mta alegria, tenho certeza! organiza as coisas, a gente vai se falando. ó, pega meu mail:
antunes_adriana@hotmail.com

bjuuu

Biba disse...

Du, posso chamá-lo assim? Então, eu entendo sua revolta e me solidarizo com você. Nada, coisa alguma vale a destruição de canteiros, rosas, capim. O mundo anda muito desordenado. Muito duro para nós que somos ainda humanos e odiamos a retroescavadeira que vem e aniquila tudo que é vivo, limpo, belo.
No mais, vi pelo comentário da Adri que você quer fazer um blog só sobre cinema, é isso? Sou professora de Cinema e talvez possa ajudar.
Beijo grande
Carpe Diem!!! (Apesar de tudo)