quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ser sincero exige recato.

Queria tirar essa calça de tactel. Mas não tenho nenhuma bermuda limpa. Não seria nenhum problema ficar de cuecas pela casa. Entretanto sentiria vergonha da minha barriga de cerveja. Portanto prefiro suar nessa madrugada do que abdicar de algum sentimento moral enquanto minhas férias não acabam.

Fato é que deveria estar fazendo algo de útil. Ler o Günter Grass, por exemplo, seria um belo começo. Ou mesmo o Lobo Antunes que comprei em Ijuí já faz um mês e ainda não abri. Confesso que comecei com umas dez páginas, mas não rolou. Deu algo como um estranhamento, sabe. Foi como você ficar sabendo que aquela moça que queria tanto beijar, não usa o desodorante adequado. Um amigo me contou isso esses dias e fiquei estupefato. É impressionante como o mínimo pode nos destruir.

Vejam essas bactérias que existem por aí.

As indústrias de limpeza ganham rios de dinheiro dizendo que temos de estar com a casa limpa e asseada. Eu mesmo, dois dias atrás, finquei detergente em tudo quanto é canto aqui do apartamento. Dos ácaros, se não me livro, ao menos perfumo, o que já é alguma coisa. Porém o irritante é que essa coisa de bactérias sempre vai perseguir a gente. E não será como uma pulga atrás da orelha. Ao contrário, será como um milhão de pulgas andando por todo nosso corpo. Da coceira jamais iremos nos livrar.

Por falar em coceira, esses dias atrás escrevi que escrever coça. Hoje isso me parece uma contradição em termos, muito embora a frase até funcione. A realidade é que escrever não é tão difícil quanto dizem. As pessoas é que estão tão presas a somente alguns recalques imaginários, que ficam querendo copiar fulano e ciclano em suas linhas, o que as faz se tornarem chatas pra dedéu. Quanto a minha chatice, ela é confessada e registrada em cartório, como há muito afirmo. Entretanto, apesar de carregar uns respingos do Quintana, umas manchas do Nassar e uma grande vontade de ir tão fundo quanto a Hilda Hilst, creio que essa voz que agora se faz letra provém da minha garganta e só dela.

Um desses teóricos de plantão poderia reavivar aquela máxima de que nada se cria e tudo o mais. Também diria que na atualidade a profusão de vozes é tanta que é impossível identificar um autor. Em dias de racionalidade extrema, eu até concordaria. Mas hoje só posso dizer que isso é de uma frescura tremenda. Afinal das contas, suando aqui com minha calça de tactel, eu sou um autor sim, de carne, osso e palavra e ponto final. Quem duvidar que me visite ou me convide pra umas cervejas. Assim até minha barriga se torna mais real.

Se escrever coça, viver arde. Se viver arde, devo dizer que possivelmente vivemos chorando por aí. Hoje, contudo, talvez eu diga isso porque estou com uma gripe de verão que está me deixando fulo, o que talvez também seja a causa da deselegância dessas palavras aqui. Mas tudo bem. De deselegante, meu porte nessa madrugada já basta. Consequentemente, nenhum Bilac me encarnaria agora, com ódio desse fevereiro e louco pra que o inverno chegue de uma vez.

Falando nisso, hoje desvelo uma tese: gaúcho não suporta calor. Quem sabe seja um erro universalizar algo que provém só de mim, mas a verdade é que não estou me importando. Gaúcho não suporta calor porque até tomar chimarrão sua. Gaúcho não suporta calor porque é ótimo se gabar que temos um inverno europeu por aqui, ainda que várias vezes faça um frio de renguear cusco. Por essas e outras que quero junho, julho, agosto e setembro. Quero que esses meses, se não me trouxerem algo de útil, ao menos me façam consumir os melhores vinhos possíveis. Com eles virá o Baudelaire, o Rimbaud, aquele pessoal brasileiro que dizem ser ultra-românticos e tudo o mais que pode estar nessa leva. Assim curo essa vergonha de mim mesmo ao não querer andar de cueca pela casa.

Convenhamos que é muito mais elegante usar camisa e blaser do que ficar torrando nesse verão.

Por isso, só sou o Eduardo no inverno. Esse sujeito que agora está se passando por mim, é um simulacro. Se copiaram de maneira chula o Platão lá no Matrix, não importa. O calor derrete até as sombras. E é impossível haver sinceridade com tanta pele exposta. Ser sincero exige recato.

7 comentários:

glória disse...

Eduardo, eu fico inundada quando meus olhos correm por linhas que pulsam. As suas são povoadas. È verdade, "o mínimo pode nos destruir". O mínimo pode nos dissolver. Creio que eu e você sabemos disso. Escrever coça e ler pode atiçar todo o corpo. Eu entendo de calor, sou de uma fortaleza em brasa. Escrever exige uma intimidade, um aninhamento qualquer...poderia conversar com vc. horas a fio. tenho que ir. Hilda Hilst, é um melhor dos elogios que poderias me fazer. Volte lá, que eu volto cá. Parodiando Patativa do Assaré. bejim.

Ana Valeska disse...

Oi Eduardo, que bom encontro esse! voltarei. Senti uma sintonia com o que vc escreve. Aqui onde vivo sofro com o calor, tento, mas não consigo me acostumar. Sinto saudade do frio. Quando chove e sopra uma brisa fresca, fico mais feliz. É estranho, porque sempre vivi em Fortaleza, e fico assim, sentindo saudade de algo que não tive,quem sabe é uma saudade ancestral...
Adorei o comentário que vc deixou lá no blog.
Um beijo.

Adri Antunes disse...

eii, Du, obrigada pela visita, hj já chove por aqui! tb não gosto de calor, mas mais do que ser gaúcha e gostar do inverno, acho que por ser da serra, não posso viver longe da cerração e da neblina. decididamente, sou uma moça da montanha! ah, e eu não sou tão triste quanto aparento...
bjuuu

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Glória, agradeço pelas suas linhas. Isso que minhas pulsações desse textinho aí não tem nada de Piazzolla. Sou mais eu no inverno mesmo, garanto. Um beijo, moça. E quanto a Hilda Hilst, assino embaixo e rubrico em cartório novamente.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Olá Ana. Dizem que bate um vento bom em Fortaleza. Não conheço esses lados do Brasil, mas com o tempo vai saber se não me adaptava. Quanto a sua nostalgia pelo que não conhece, isso é normal. Ninguém sabe onde estava antes de estar na barriga da mãe, ainda que alguns amigos me digam mil bagaceirices quando assevero isso. Um beijo, moça.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Olá Adri. Desconfiei mesmo que não eras tão triste quanto o texto aparentava. Artista com depressão não cria: chora. David Lynch falou isso. E concordo plenamente. Não precisamos ser melancólicos para escrever textos chorosos. E o seu texto tinha quês muito profundos disso. Voltarei ao seu canto, deixa comigo. Um beijo, Eduardo.

Marcelo A. de Moura disse...

Os quadrinhos são sensacionais! haha! Tenho um primo que toca violão que sempre brinca com essa questão, mas ele segura o violão certo, toca direitinho e não pega guria alguma. Tu é um cara que fez o diário de bordo nesse post, linhas simples sim, e não é necessário mais do que isso para descrever momentos. É interessante a forma com que tu encadeia pensamentos e os transforma em texto, bastante interessante. Sobre a análise do meu texto, concordo contigo, eu poderia fazer textos bem mais longos se desenrolasse os argumentos, mas a idéia do blog é de ter textos mais breves mesmo, Ícaro foi uma excessão. Valeu pela visita e pela análise, também gostei do que tem por aqui e retornarei com certeza.