domingo, 29 de março de 2009

Pela Marquês do Herval.

Não existe pessoa alguma que não reclame da falta de tempo. O que parece é que somos prisioneiros de uma corrida desenfreada e imensa, sendo que caso alguém caia nessa maratona, dificilmente será visto e acabará pisoteado pela multidão. E essa sensação de que a corrida nunca está para o tempo que disponibilizamos para correr e que, por conseqüência, pode gerar o desamparo da queda em meio a tantos que de maneira alguma poderão nos ajudar, já que terão de continuar com a corrida, é que gera, pelo menos ao meu ver, essa profusão de doenças psíquicas no mundo atual – muito embora eu admita que não seja de maneira alguma especialista na área.

Ontem mesmo, enquanto cruzava pela Marquês do Herval, olhei para o chão e vi uma cartela de Rivotril 0,5 mg com dois comprimidos ainda por tomar. Os demais, ao que me pareceu, foram engolidos vorazmente por alguém que desconheço. O motivo pelo qual esse desconhecido engoliu no mínimo oito comprimidos de Rivotril 0,5 mg de uma só vez, certamente jamais saberei. Entretanto, isso não me impede de cogitar algumas hipóteses.

Essas hipóteses, contudo, jamais estarão para a realidade desse desconhecido. Os seus passos podem até ser traçados pelos meus passos de uma maneira praticamente idêntica, mas tal maneira de forma alguma será a mesma, visto que cada um de nós detém uma singularidade alheia a quaisquer comparações. Nesse sentido, acabaria por decair na constatação inicialmente feita, a qual, mesmo que sejamos seres singulares, universaliza uma percepção corriqueira, uma vez que é essa sensação de que a corrida nunca está para o tempo que disponibilizamos para correr, que gera o temor do desamparo da queda em meio a tantos que de maneira alguma poderão nos ajudar se ela ocorrer, considerando-se que podem cair como nós caso pararem. E quanto ao Rivotril 0,5 mg, não passa de mais um analgésico, seja para os males da alma ou do corpo que inevitavelmente estarão contidos em um mesmo local – ou seja: nós mesmos.

E quem disse que alma e corpo formam duas unidades e não apenas uma? Quem disse que existe uma alma impregnada em nosso corpo que com a morte irá se descolar do próprio corpo, assim como alguns adolescentes são mais descolados que outros justamente porque são mais espontâneos e fazem mais bobagens que outros? Que me perdoem os teólogos seja de qual crença for, mas os indícios da ausência dessa dicotomia em nossa constituição fundamental são gritantes – e certas vezes chego a desconfiar que tudo isso, mesmo o que estou dizendo, não passa de pura metafísica furada e “as coisas são o próprio sentido oculto das coisas”, como falou Pessoa por meio do Caeeiro.

E por quais motivos são gritantes os indícios da ausência dessa dicotomia do corpo e da alma em nossa constituição fundamental? Porque nós somos alma e corpo ao mesmo tempo. Porque não existe mal psíquico que não tenha reflexo físico. Porque quando estamos frustrados, quando nos encontramos naquele limbo sentimental de quarto escuro e chuveiro pingando, simplesmente não produzimos, possibilitando então a construção de uma indústria motivacional que tenta, a partir de palavras nem sempre providas da devida ética, colocar nosso ânimo em dia e fazer com que nossos passos sejam para frente e não para trás e para baixo. Mas caso essa indústria motivacional não funcionar, relevando-se que as mais diversas religiões tem se valido dela por milênios com extremo sucesso, atualmente ainda podemos apelar para os psicofármacos, os quais, apesar de até amenizarem por algum tempo esses males do nosso tempo, jamais farão com que nos tornemos curados seja lá do mal que for, o qual pode estar tanto para a depressão quanto para as drogas e vice-versa.

Desta maneira, ao invés de buscarmos apoio em uma indústria motivacional que cresce de modo estrondoso ou mesmo em medicamentos que mais mal do que bem irão nos trazer, talvez seja hora de olharmos para aqueles que caem aos nossos pés nessa corrida coletiva e imensa dos tempos atuais. O desamparo que sentimos não provém somente da falta de tempo ou mesmo do temor com relação ao possível desamparo da queda, mas sim da falta de laços de pele entre as pessoas, laços esses que, longe de serem fugidios como os que movem os jovens pelas casas noturnas da vida, tenham o respeito e a ética como vínculos maiores, já que distantes destes dois traços persistiremos desconhecidos como esse sujeito que pela calçada da Marquês do Herval pensou que remédios iriam aliviar a sua dor de existir.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Da coisa julgada ao prazer: um ensaio sobre os significados.

A pior coisa do Direito são os jargões. Com o tempo, tu usas coisa julgada sem nem saber o que ela é: aí é que o conceito se torna jargão. Sabe que em tal situação isto ou aquilo se torna coisa julgada e ponto. Mas se a pior coisa do Direito são os jargões, com as outras ciências ou mesmo com a nossa vida ocorre o mesmo. Dar tchau ou oi sem querer dar oi ou tchau, é um exemplo clássico disso. E por aí seguimos nossa existência à David Lynch.

O que acontece com esse mecanismo, é que as palavras vão perdendo o próprio significado. E perdendo o próprio significado, vão ganhando outros significados, mas os quais existem em função de uma estrutura que os sustenta e nada mais. O jurista que fala coisa julgada, intui o conceito de coisa julgada no dia a dia a partir de um determinado fenômeno que aparece no sistema com o qual ele trabalha. Sabendo desse conceito em função do sistema com o qual ele trabalha, sabe em qual artigo do Código de Processo Civil tem de buscar a suposição de um remédio processual cabível e por aí acaba a conversa. Talvez possa até pensar para direcionar seus eventuais embargos para uma omissão ou para uma contradição. Mas o fato é que tanto omissões quanto contradições sempre haverão. Então, de qualquer modo, alguma coisa que esse jurista arquitetou irá valer a pena. Isso, sublinho, dentro do sistema no qual ele opera.

Trazendo essa mesma lógica para o dia a dia, o que acontece é um esvaziamento do próprio conteúdo das palavras. Claro que isso pode estar errado e alguém pode pensar: Esvaziamento? Que nada! Porém, as palavras fazem um intercâmbio de significados de acordo com a estrutura que as comporta, sendo que esses significados são mutantes porque a estrutura só existe em função da mutação. Quanto a argumentos contrários, óbvio que os aceito. Mas quando trago a questão do esvaziamento do significado das palavras para o dia a dia através da menção do oi ou do tchau, o que estou falando é que dizemos coisas a torto e a direito sem saber do que estamos falando. Exemplo? Pegue essas menininhas e senhoras que andam com poodles por aí e veja quantas vezes por dia elas dizem meu amor, meu bem e correlatos bobos. Pegou? Pois é. É disso que falo: do quanto usamos as palavras apenas por conveniência em função de estarmos insertos em um determinado campo operacional, mesmo que esse campo seja uma relação do ser canino com o ser humano.

O que ocorre quando se sai do campo técnico-jurídico do qual acima falei e se vai para a vida, é que esse esvaziamento provoca o distanciamento das pessoas, de modo que elas dizem algo ou fazem algo tão-somente pela conveniência desse dizer e desse fazer. Falando e dizendo algo tão-somente pela conveniência, o significado da palavra, se é que ela tem algum depois de tantos sopapos, perde-se por completo, assim como se perde o sorriso logo depois de darmos oi ou tchau para aquele colega chato de escritório. Resumindo, é como se todo ritual social envolto por essas palavras que usamos com cordialidade, dissolve-se em sua própria enunciação a partir do fato de que essa enunciação é vazia de vontade – e portanto nada anuncia, não podendo, assim, enunciar, pois apenas preenche lacunas de um aparelho social. Essas lacunas, por sua vez, já que jamais preenchidas e submetidas ao próprio fato de estarem insertas em um determinado meio, fazem com que a palavra lá adaptada diga apenas o que o sistema comporta e faça o significado da palavra escoar para o bueiro do meramente operatório e de lá não mais sair.

Isso talvez seja um sintoma do que chamam de modernidade, pois é tão comum quanto dizerem pra ti que “um emprego bom é uma dádiva de deus” – assim com letra minúscula mesmo, em respeito a todos os deuses já criados. Dizer isso é minimizar o ser humano ao meramente funcional. Leia-se: se tem um emprego que dê grana suficiente pra pagar as contas e fazer umas festas, OK; se não tem, não é abençoado por uma dádiva de deus. Logo, agir com relação à coisa julgada de uma maneira que tem significado apenas dentro de um sistema, é diametralmente similar ao fato de utilizarmos oi ou tchau em nosso dia a dia. Só não há equivalência com relação à função dos termos em cada sistema: se no cotidiano o oi ou o tchau representam, respectivamente, uma chegada e uma saída, no Direito, com a coisa julgada, podemos adaptar quaisquer adjetivos, sejam eles omissivos, contraditórios ou obscuros – isto porque, como já disse, sempre haverá alguma dessas características em um julgado, ainda que o raciocínio seja perfeito.

Concordo que existem alguns aspectos legais vindos daquelas Súmulas do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, que fazem com que não haja algum desses adjetivos. Mas se o texto se prestasse a uma interpretação dissonante em relação a outros caracteres que podem influir, provindos de bases diversas, em seu enunciar enquanto anunciação de sentido, com certeza cairiam por terra as tais Súmulas. No cotidiano, porém, ocorre diferente: temos a possibilidade de carregar com o sentimento e a sensação que bem entendermos um oi ou um tchau. Deixa-se claro, contudo, que ter uma possibilidade não significa exercer uma possibilidade, de modo que podemos ou não nos subsumir ao sistema, assumindo os riscos dessa falta de anuência em relação às lacunas que escoam dos significados e fazem com que apenas um sentido provindo do seu próprio teor operatório persista.

Porém, o fato de se utilizar ou não um ou outro termo, já representa um grande avanço e uma grande possibilidade de liberdade. Por óbvio que nem todos irão querer ser livres: é melhor dizer que amamos alguém do que realmente amar alguém, quanto mais poodles. Entretanto, ter essa possibilidade de fazer com que algumas expressões relativamente comuns não virem jargões repetitivos e sem graça, já implica em um combate a essa chateação toda que é o vocabulário técnico. Concordo que para compreendermos uma ciência é necessário saber seu linguajar assim como aprendemos a chorar para dizermos que estamos com fome ou dor quando bebês. Porém, usar esse linguajar sem possibilitar o seu intercâmbio com outros ramos do saber, é emburrecer o próprio saber, da mesma maneira que deixar de dar uma atenção para o oi ou para o tchau, é um movimento de similitude impressionante e sem ética alguma.

Nesse contexto todo, o que irá importar, seja de um ou de outro lado, é a vontade de quem diz e de quem ouve. Se o juiz não quer saber de omissão, contradição ou obscuridade por conta de uma Súmula Z do Supremo Tribunal Federal, tu tens ainda a chance de buscar um remédio acaso achar algum. Mas já tu não carregares tua fala do próprio significado daquilo que falas, é ser hipócrita demais para um ser humano que prega por aí que todos têm que aprender a trabalhar em grupo, como tantas organizações empresariais fazem. E por favor gente: trabalhar em grupo, OK, é legal e tal, mas fingir sinceridade com risinhos contidos e eu te amo de poodles em cima do trabalho só pra lucrar com os outros, é canalhice demais!

Portanto, se o Direito tem seus jargões e o mais chato dele são esses jargões, na vida ocorre a mesma coisa. É que nem margarina e pão no café da manhã ou pipoca no cinema: alguém inventou isso, a moda pegou e ponto final. Vai de cada um dar um significado diferente a cada uma dessas coisas, nem que seja pra usar a manteiga na amada tal qual o Marlon Brando em O Último Tango em Paris do Bernando Bertolucci. Aí, pelo menos, os significados restam dispersos e ganham uma nova conotação, fundando um sistema dentro do sistema. Ou apenas prazer, sejamos francos, pois usando a manteiga daquela forma que o Marlon Brando usou, vá garantir que o sêmen não vaze e esse mesmo sêmen crie um outro sistema.

E pior: dessa vez humano!

domingo, 22 de março de 2009

De um Renoir.

De um Renoir.

Quedo-me traço solto
do qual tramo tuas vestes.
Sinto-te fluir gotas
até que me ergues vento.

Mas vou assim que percebo
meu rosto em teu movimento –
expiras o meu detalhe,
consomes minha fagulha:

resto-me então desordem
que amanhece tua pele.

sábado, 21 de março de 2009

(Literalmente.)

Eu estava de mudança. Mas minha casa não era essa.

Era uma casa que não tinha muros e o contato com os vizinhos era inevitável.

Havia combinado que faria tiro de tinta com minha vizinha da direita. Mas explico: minha vizinha da direita era uma ex-namorada que fabricava a tinta para o tiro de tinta a partir de secreções provindas de defuntos humanos. Ela até quis me mostrar os vidros nos quais guardava as secreções marrons, mas eu não quis ver, disse que não me interessava pelo assunto e que apenas queria fazer tiro de tinta. E esse tiro de tinta seria feito entre eu, minha atual namorada, minha vizinha da direita e ex-namorada e mais suas duas sobrinhas que estavam na sala assistindo televisão enquanto não começava o tiroteio.

Entretanto, logo chegou o pai dessa minha vizinha da direita e ex-namorada e sem mais iniciou um churrasco bem na garagem minúscula onde faríamos o tal tiroteio. Eu nem havia notado que havia uma churrasqueira na garagem, mas de fato havia uma churrasqueira na garagem. Porém, o detalhe é que ele pegou um tronco de dentro da churrasqueira, rachou ele longitudinalmente com um machado que também retirou de dentro da churrasqueira, pôs o mesmo em brasa em cima de uma mesa circular na qual igualmente não havia reparado, e ali fincou o espeto com a carne que trouxera sem que eu também notasse.

Quando perguntei de onde provinha essa técnica, ele disse que inventou essa técnica, me olhando por cima dos seus óculos de aros pretos que me lembravam alguém que só conheci no cinema. Junto dele veio um sujeito gordo que suava por debaixo dos seus cabelos loiros e cacheados e de uma camisa azul-calcinha. Tinha cara de vendedor, daonde deduzi que o pai da minha vizinha da direita e ex-namorada fosse vendedor e chefe do sujeito gordo de cabelos cacheados que supostamente era seu subordinado devido ao azul-calcinha da sua camisa.

Quanto a ela, digo, minha vizinha da direita e ex-namorada, apenas guardou os vidros onde tinha as secreções provindas de defuntos humanos com as quais fabricava as tintas para o tiro de tinta e ficou me olhando da porta do corredor que dava para a garagem com uma cara de desgosto. Não chegou a me mostrar as armas que usaríamos, mas pela sua cara eu nem quis perguntar.

Nisso voltei para casa e vi que no pátio da casa dos meus vizinhos da esquerda, em duas mesas de pedra, havia dois sujeitos estudando, os quais eram justamente os meus vizinhos da esquerda. Um deles tinha uma menina sentada no colo, olhando atentamente para o notebook onde ou ele digitava ferozmente ou ria de possíveis vídeos que via. O outro apenas virava livros e mais livros que se empilhavam por cima da mesa.

Sem nenhum constrangimento, fui falar com eles.

O primeiro estudante, que era o que virava livros e mais livros, me disse que estudava física, sendo que notei que seus livros eram idênticos aos livros de física que eu tinha no segundo grau mas que há mais de seis anos não via. Quando falei pra ele que também tinha vontade de estudar física um dia, que me interessava muito por cosmologia e afins, ele me disse que gostava do Carl Hawking. Perguntei então com todo respeito se ele não havia confundido e misturado o Stephen Hawking com o Carl Sagan e ele me respondeu que sim, que fora isso mesmo, e deu uma risada estranha logo voltando para os livros, percebendo eu então que não haveria mais de incomodá-lo.

Me dirigindo ao segundo estudante, o qual demorou um tanto a falar comigo, descobri que estudava a auto-imolação na história da humanidade. Perguntei dentro de que curso ele fazia isso e ele me respondeu que dentro do curso de comunicação, mas reparei que foi uma resposta meio à contragosto, já que ele me respondeu isso olhando para cima e para a esquerda. Comentei que sua influência talvez tivesse sido o Takashi Miike e os demais cineastas do Oriente que faziam filmes que muito mostravam dessa auto-imolação – da ultraviolência, enfim.

Aí ele também deu uma risada como o outro que estudava física, mas uma risada com maior gordura, já que se o primeiro era magro e tinha olheiras, o segundo usava barba, camiseta preta e estava uns quilos acima do peso normal para sua altura, e me respondeu que mais ou menos, que tinha uns vídeos especiais através dos quais pesquisava sobre o assunto para concluir seu trabalho de graduação, sendo que ele também comentou entredentes que fazia antropologia, mas disso não falou muito, pois a menina que estava sentada no colo dele parecia muito fascinada com um vídeo que passava na tela do seu notebook, o que certamente o excitava. Achei estranho ele estudar a história da auto-imolação na humanidade apenas através de vídeos, mas não quis questionar mais sobre seus estudos porque aquilo não me dizia respeito. E como era dia mas havia pouca luminosidade e eu não estava de frente para o notebook desse segundo estudante, não consegui ver do que se tratava o tal vídeo.

Quando voltei para casa, percebi que minha casa não era uma casa, mas sim um terraço, ou uma casa em um terraço, daonde conclui que nós três, ou seja, a casa da minha vizinha da direita e ex-namorada, a casa dos estudantes de física e comunicação e/ou antropologia e talvez também da menina que sentava no colo do último, que era a casa dos meus vizinhos da esquerda, bem como a casa que eu alugava, ficavam situadas em um terraço.

Mas percebi isso só quando olhei pela janela e vi um caminhão de gás quase caído na rua em frente ao prédio, visto que morava em um terraço recém descoberto. Uma caminhonete também havia derrubado o portão do prédio e o zelador estava, apesar disso, calmamente sentado em sua guarita destruída, fumando um cigarro e olhando todo aquele estardalhaço do alto da sua cadeira sem estofamento.

Pensei em ligar para a polícia para avisar do caminhão de gás que trazia, em sua caçamba, vários bujões cheios de gás, mas que tinha um anexo que parecia um anexo desses caminhões que carregam combustível, sendo que a partir desse cenário deduzi que uma explosão era certa. Mas quando fui pegar o telefone para ligar, vieram vários homens vestidos de azul, surgindo de todos os lados, aparentemente da companhia de gás e combustível, ajeitaram o caminhão e seu anexo em alguns instantes e seguiram rua abaixo.

Quanto aos portões do prédio, lembro que um desses homens vestidos de azul deu um pacote ao zelador que fumava calmamente em sua guarita destruída e entrou na caminhonete que havia destruído o portão e a guarita, pois fora esse o caso, muito embora eu tenha esquecido de comentar isso anteriormente. Após entregar o pacote, deu ré e foi atrás do caminhão que já não era mais quase caído.

Saí de perto da janela e disse para minha atual namorada que se quiséssemos, poderíamos denunciar aquele caminhão e mais precisamente aquela companhia de gás e combustível por negligência, porque poderia ter ocorrido uma explosão. Porém, ela não falou nada e foi até a cozinha acho que pra pegar um copo d’água.

Afinal, não era apenas eu que estava de mudança. Nós é que estávamos de mudança.

(Literalmente.)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre Naked Lunch de David Cronenberg.

O corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição. Se nossa mente é soterrada por mil pensamentos e sensações que ocorrem todas ao mesmo tempo, como dizer que nosso corpo, o qual comporta nossa mente, foi feito para a perfeição? Sendo, portanto, essa distorção possível, quem sabe ela não seja possível ao nível da realidade, muito embora tantos procurem modificar seu corpo de maneira a incutir nele o que se convencionou chamar de personalidade, e tantos outros nasçam com deformidades que carregam pelo resto da vida, como bem demonstrou Tod Browning em Freaks (1932). Entretanto, é no cinema de David Cronenberg que essa distorção do corpo toma o próprio corpo da película. E é em Naked Lunch (1991), que a mente e o corpo, a tal ponto distorcidas, constroem uma obra cinematográfica única, a qual, em sua estrutura primordial, traz consigo o próprio corpo como referência fundamental.

Em Naked Lunch, deparamo-nos com Bill Lee (Peter Weller, em uma interpretação junkie/noir), um homem que é exterminador de baratas e escritor que nada escreve. Para exterminar baratas, esse homem usa um pó amarelo com o qual as baratas se alimentam para engordar, engordar e enfim morrer. Certa feita, contudo, Bill Lee percebe que sua esposa está viciada no pó amarelo que usa para exterminar baratas, sendo que logo em seguida é preso por policiais desprovidos de qualquer fardamento sob acusação de que seu pó amarelo contém na verdade uma droga – e que, para resumir, não extermina barata alguma.

Esse homem, talvez a personificação de William S. Burroughs que escreveu o romance do qual se originou o filme, foge dos policiais ao se deparar com os conselhos de uma barata gigante que tem tremores de prazer com o pó amarelo utilizado, em princípio, para exterminá-la. Ao chegar em casa, Bill Lee vê sua esposa, Joan (uma Judy Davis de olhar atemporal e chapado que lembra uma rock star falida), na companhia de dois amigos, sendo que se um deles lê um poema beat com seus óculos de aros pretos, o outro transa com Joan, como se as palavras do próprio poema fossem a força que impusionasse o sexo.

Ao verem que Bill Lee chegou, os três ficam um tanto constrangidos. Mas enquanto isso, o que Bill Lee faz é ir para o quarto e, como fazia a esposa há sabe-se lá qual tempo, injetar nas veias o pó amarelo que em um momento anterior utilizava para exterminar baratas. E é partindo dessa premissa inicial, que em si já carrega a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, que inicia toda saga do protagonista, pois após sua esposa posicionar um copo na cabeça, encenando um jogo que aparentemente há muito era jogado por ambos, Bill Lee, apontando uma arma em sua direção, ao revés de acertar o copo, acerta a cabeça da própria Joan.

E o que acontece a partir de então? Constipado pela culpa e pelo delírio do vício, Bill Lee, exterminador de baratas e escritor que nada escreve, recebe passagens também de uma barata gigante, só que essa elevada ao nível de frequentadora de pubs, para ir até um local chamado Interzone, sendo que nesse local descobriria a verdadeira razão de tudo o que lhe está acontecendo. E para o quê está essa razão? Principalmente para o fato de que sua esposa, segundo o relato da barata que tinha tremores de prazer na delegacia da qual Bill Lee fugiu, na verdade não é sua esposa, mas sim uma agente treinada para acompanhar os passos do próprio protagonista por uma organização desconhecida com sede justamente em Interzone.



A partir daí, Interzone nos é apresentada como um porto do Oriente repleto de escritores e homossexuais, onde as drogas, normalmente provenientes de insetos, povoam todos os corpos que, por conseqüência, são deformados pela droga. E nesse cenário de escritores e homossexuais, carregando de um lado para o outro sua máquina de escrever que ora se transmuta em apetrechos para o vício, ora se transmuta em insetos que conversam e aconselham Bill Lee, é que o protagonista perceberá que não existe redenção tanto para o vício quanto para a culpa, sendo que o primeiro assim como o segundo jamais deixarão uma pessoa sair sem qualquer sequela nas mãos.

Talvez, levando a construção fílmica de Cronenberg e mesmo o romance de Burroughs ao extremo, possamos enxergar nesse porto do Oriente repleto de homossexuais e escritores, a própria culpa travestida de Bill Lee, o qual, vagando entre o sonho e a realidade, não encontra lugar melhor para descobrir quem é a não ser um porto: local no qual todos desembarcam mas no fim ninguém permanece. Não é à toa que em vários momentos, Bill Lee aparece dormindo na areia de uma praia que não se vê, próximo a um barco destruído, como se a fuga, apesar de tentada, fosse impossível.

Por esses motivos e muitos outros, que Naked Lunch de David Cronenberg segue os traços do realizador de Spider, Crash e The Brood, ao reforçar a tese de que o corpo não foi feito para a perfeição. Se Bill Lee é deformado pela culpa, pelo vício, pela homossexualidade que renega e mesmo pela escrita que julga não ser sua, já que é um escritor que nada escreve, tudo isso não tem apenas consequências internas para o personagem, já que essas consequências vazam para o plano externo de uma maneira que beira o caos, mas traz consigo uma estrutura perfeitamente alinhavada com as intenções de Cronenberg/Burroughs ao nos contar essa história.

Não é necessário dizer, pelo visto até aqui, que nem todos se sentirão satisfeitos com Naked Lunch. Talvez o motivo disso até esteja para o fato de que a tradução do título do romance em português, está para “O Almoço Nú”, muito embora no Brasil tenham lhe batizado com o terrível “Mistérios e Paixões” enquanto filme. Esse almoço nú, refeição que não satisfaz porque traz no próprio corpo o alimento e aquele que se alimenta, seja pelo vício ou pela culpa, a qual, com o correr da trama, também se torna um vício, por vezes nos dobra as curvas do estômago e nos faz pensar que Cronenberg e sua obsessão por insetos quer dizer muito mais do que diz em cada minuto da película – e quer, enfim, apenas nos enojar com um vômito que se prende na garganta.

Mas se o corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição, sendo que toda a distorção, a partir desse ponto fundamental, torna qualquer realidade possível, distante de uma dicotomia que traga mente e corpo como entidades separadas e não contidas em um mesmo emaranhado de incongruências psicológicas e perfeições biológicas, não existe outra maneira de se contar uma história sobre a culpa e o vício sem recair nas conseqüências externas que essa mesma história irá trazer consigo. E se essas conseqüências externas ocorrem em sua maior parte em um porto do Oriente, talvez aí esteja a chave para a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, pois apesar de todos atracarem um dia nesse porto, a partida é inevitável assim como é inevitável o nosso fim.

Por isso é que Naked Lunch é uma experiência estética e fílmica única, trazendo em si um visual bizarro que somente ilustra a bizarrice com a qual nos deparamos todos os dias rua após rua. E apesar do asco que talvez este filme provoque em alguns espectadores, tal asco, como no romance A Náusea de Jean-Paul Sartre, é tão necessário quanto é necessário saber que o vício e a culpa estão diretamente relacionados ao prazer e só por isso nos constituem fundamentalmente. Mas se Sartre nos diz que a náusea está para esse deslocamento do ser humano frente ao mundo, Cronenberg/Burroughs estão além: aceitam esse deslocamento e é a partir dele que falam, sendo que dessa aceitação provém uma obra que deveria receber muito mais aplausos do que recebeu até o momento. Afinal, não são todos que (de)mostram sua personalidade. Quanto mais realizadores cinematográficos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

E só.

Por que essas folhas secas pelo chão? Onde está a minha voz de ontem?

Será que o vento ou a estiagem levou ou será que ela simplesmente calou?

Qual será o destino dos meus destinos?

Permanecerão cálidos e solenes, como idéias que não semeiam tempestades, ou serão como torrentes violentas de palavras que se fazem água para escorrer da boca em fel?

Poderei tocar esses estertores que me tomam, esse invólucro de luz e sombra em cada face, em cada farelo de barba que o olho permite ver mas no mesmo instante apaga, deixando apenas as nuvens em massas largas no céu, movimentando uma candura felina que desde sempre vi nos meus próprios passos?

E com quê fulgor tocarei o solo?

E com quê calor tocarei teu corpo?

Como irei entrelaçar teus dedos entre os meus se não te tenho ao meu alcance e apenas posso te alcançar no arcabouço da memória, como alguém que está prestar a enfrentar a forca e é cegado pelo sol?

Por que essa coisa que me toma, esse alastramento de claridade por todos os lados, essa manhã imensa que não quer se fazer tarde e muito menos noite, ao invés do conforto que ontem eu tinha, que ontem me preenchia, mas que agora some aos poucos pelas frestas da varanda?

E isso que bebo agora, e os meus poros que influem no curso do tempo sem qualquer resignação ou cansaço mediante a sua própria inutilidade, terá isso algum sentido?

Essa cusparada violenta, essa peste, esse altar que se quebra aos poucos, que racha em sua base quando pretende alicerçar ruídos, tudo isso está presente no meu canto, tudo isso está presente no meu agora, e se da emersão dessa angústia brotar uma flor amarga, florida em carne e vida, não será apenas sinal, mas será tão-somente fatal.

Contudo, que me cubram com as vísceras das frases desgastadas, que me cubram com tudo o que já foi dito e com o sangue de todos aqueles que disseram, pois hoje eu posso ver a fumaça que apaga todas as velas.

Hoje, em meio ao cinismo da minha própria consciência, em meio a voz velada daqueles que me instruem, em meio aos manuais, em meio às técnicas, em meio a todas as vendas e prostitutas que me rodeiam, eu tenho a clarividência da inexistência de um amanhã.

Hoje, mas mais precisamente agora, nesse exato instante no qual os relógios param e amarelecem ao sabor das horas, no qual as roupas desvelam corpos e a nudez me cobre de vergonha defronte minha própria confissão, eu tenho essas folhas secas sob os pés e sinto a umidade da terra me tanger os ossos, me tocar o espírito, fazendo com que em mim renasça o fogo que um dia tive mas que perdi no primeiro instante de vida.

E eu quero a paz da guerra insana e todas as coisas que me envolvem.

E eu quero o lodo, eu quero a lama, eu quero os blocos de pedra que ergueram esse castelo que me afundou.

Se exclamações me agridem ou interrogações me partem, pouco importa.

E se tudo isso acontecer no futuro, no plano imanente de um espelho quebrado, de uma memória riscada, de um diário que se fez ano no exato instante em que foi escrito, também não tem importância.

O que importa é que algo foi feito, é que para além do desejo, para além do projeto, para além de todas as curas para todas as doenças inexistentes, algo foi feito mesmo a partir da ausência, a partir do nada que enaltece seu próprio vazio com o silêncio dessas palavras.

E se existe a futilidade dos outros, dos relacionamentos, dos beijos trocados em festas, dentre cigarros apagados e copos que se enchem de açúcar para logo depois afundar na própria abnegação que reiteram, nada há de ser, nada há de ver, pois tudo o que é vigiado vela, mesmo que esse velar seja póstumo, banhado no ouro que destruiu.

E por que eu deveria me importar?

E por que eu deveria querer te tocar?

E por que eu deveria simplesmente calar, cruzar os braços em cruz e amainar essa febre lassa que me toma de peito e voz para dizer tudo o que sempre senti?

Se tu estás dormindo agora, se tu te cobres com um cobertor azul ou com um lençol branco como tua pele, isso nada quer dizer, assim como nada quer dizer esse adereço, essa frase, esse contexto inábil no qual as existências são traçadas.

O perigo sempre vem da terra, apesar de todas as motivações virem do céu, e estar com as pernas preparadas é mais do que questão de bom senso, é mais do que questão de ter senso, pois a aventura das horas, dos minutos, dos segundos, está muito além de todas as melodias jamais tocadas.

Se alguém pudesse realmente adornar o silêncio com os guizos dessas guirlandas que imagino, desses versos que dobro, que sangro, realmente algo muito bom poderia surgir, mas o fato é que seria apenas um projeto, é que seria apenas uma preparação, um ensaio, o que de modo algum importa, pois o vento e as folhas continuarão a mover os passos, a mover os homens e a fazer com que esses mesmos homens mergulhem nus onde ninguém possa vê-los.

E assim, despojados de si e de tudo, livres mesmo dos mecanismos dos órgãos, das noções internas e da troca da biles com o álcool amanhecido, certamente ressuscitará em todos a faina divina que outros já provaram, ventilando o vinho em forma de sopro e não apenas vermelho, e não apenas ruivo, mas com todas as cores que a vida tem, com todas as dores que a vida tem, para só então repousar livre, completamente livre, nas asas de uma borboleta morta por cima da placa que dá nome a uma esquina.

Dobrando essa esquina, alguém estará sentado, estará sentado em um banco, braços cruzados mas tranqüilos: alguém que terá a imagem do meu avô e que terá a imagem do meu bisavô que morreu com quase cem anos e com o qual eu mal conversei, mas o qual tinha olhos azuis que tinham cheiro de infinito.

Com esse alguém eu trocarei palavras, eu trocarei palavras como quem troca carinhos, e terei enfim a resposta para todas as dúvidas que me tomam quando penso que não tenho dúvidas e enfim posso dormir em paz.

Terei a resposta, uma resposta em forma de pergunta, que me fará enfim trazer a questão fundamental, traçar o problema cabal que dará conta de toda a realidade para explodir essa mesma realidade no instante seguinte.

Mas o universo, mas o cosmo, mas todas as estrelas que nesse momento meu teto esconde, permanecerão caladas, permanecerão mudas, permanecerão consumindo seu próprio combustível até que um dia explodam ou cheguem até mim na forma de um infarto.

E será aí, morto pelo derradeiro câncer das coisas que não entendo, estourado, completamente consumido pelo meu próprio estopim, que restarei estirado sob os lençóis, que restarei examinado e cortado por alguém de branco.

E meu sangue que antes era poema e o qual por tantas noites me inflamou, e pelo qual tanto sofri e tanto amei, finalmente vazará de uma maneira real, enquanto lá fora as folhas continuarão a cair e secar ao brilho do sol sem que ninguém entenda nada, sem que ninguém faça nada, pois tudo o que foi dito, foi dito, e o que não foi dito, não mais se pode dizer, porque a boca simplesmente calou, porque o fruto simplesmente caiu, e se algum fermento, algum adubo ficou, isso será a terra, e portanto o tempo, que dirá.


Daí o meu canto arcaico. Daí meu feitio de vento. Daí os meus pés que dançam. E só.

terça-feira, 17 de março de 2009

Melhor que isso, apenas isso, Françoise.

Você me despiu com sua beleza. Não sei como suportei a vergonha. Uma namorada dos dezesseis anos me dizia que o amor era patético. Somente fui confirmar sua frase anos depois.

Você me despiu com sua beleza, porque estava deitada nua sob o telhado como na canção do Leonard Cohen. Mas sua beleza não me despiu somente porque era bela. Ao contrário disso, sua beleza me despiu porque carregava uma tristeza extrema de se saber finita diante da luz da lua.

Eu vi seus seios entre as sombras das suas mãos. Eu vi suas mãos que apoiavam sua cabeça como um travesseiro de ossos e carne. Eu vi suas coxas relaxadas e seus olhos que ora abriam ora fechavam, feito faróis que diziam o momento exato da lua brilhar mais ou brilhar menos.

Mas o que você não sabia, é que a lua não brilha. Você não sabia o óbvio que é o fato da lua brilhar apenas por conta do sol. E talvez por conta disso, essa dor me invadiu de repente ao lembrar do seu corpo sob o telhado, pois é possível que eu tenha inventado sua beleza e ela de maneira alguma existiu um dia.

Não que eu queira sonegar os fatos: isso realmente ocorreu, assino embaixo. Uma amiga do passado me confessou, aliás, que gostava de fumar no telhado. Disse que se sentia como uma gata. Todas as noites, abria a janela e sentava diante das estrelas, querendo que sua solidão se aprofundasse mais e mais em cada fumaça expelida.

Lembro que quando a visitei, escrevi um poema no seu quarto. Era um poema que falava de vidros quebrados e é só disso que lembro. Dei de presente pra ela esse poema e naquele dia ela pendurou ele com um alfinete azul em um mural por cima da escrivaninha. Hoje, porém, não sei se esse poema existe, mas da última vez que vi essa amiga, ela estava com cinco cores diferentes no cabelo.

E pensar nisso não me traz nada de bom. Lembrar de uma beleza que me despiu no telhado e de uma amiga que buscava a solidão no próprio telhado, apenas me remete ao lado do que sou que tento deixar de lado pra suportar esses padrões que os dias me soletram. Contudo, caso um dia eu deixar de lembrar dessas coisas, haverá no mínimo um desabamento, um desmoronamento do que sou e por conseqüência uma inibição de tudo quanto possa ser.

E o que dizer da inibição? A inibição é amarela. Mas não é amarela como a luz de um poste. A inibição é amarela como a cirrose é amarela e aparece quando há o desgaste. Por isso não quero essa inibição e prefiro a vergonha e a dor vestidas do azul da lua de um epitáfio que sequer chegarei a escrever. De que adiantaria se eu não veria se o trabalho ficou bem feito? Talvez por isso os poemas tenham que sair das gavetas.

Hoje, tentando remontar seu corpo sob o telhado, vestido de noite e pele, com os olhos presos em algum lugar entre a França que não conheço e a Portugal na qual não vivo, vejo que fui além da vergonha justamente porque tenho a capacidade de falar. Quanto ao medo, também fui além porque tenho a capacidade de existir. E se me disserem que existir e falar não são capacidades, voltem para seus espelhos, pois estão completamente enganados.

Descobri também que não era amor e muito menos paixão o que sua nudez me despertou, pois ainda não havia ouvido sua voz. Você apenas me deslumbrou e redundou nesse poema de prosa incerta. Se você ainda existe, não sei, mas desconfio que as fumaças da minha amiga continuam pagando juros para sua solidão.

E talvez eu também continue na ponta do alfinete, preso como um caco de vidro nos pés do dono. Com sorte, talvez eu continue preso aos seus pés, ainda que jamais conheça suas pernas.

Melhor que isso, nada. Melhor que isso, apenas isso, Françoise.

segunda-feira, 16 de março de 2009

E Like A Rolling Stone é que me põe a cara limpa pra essa semana que inicia.

Bom mesmo é fazer a barba escutando Bob Dylan.

Além disso, bom também é imaginar que na quadra lá embaixo, dois garotinhos brincam em um monte de areia – e que por detrás deles existe uma pilha de tijolos.

Bom é saber que apesar de não saber, intuímos que a semana será boa e que algumas mudanças são necessárias.

Bom é acordar com esse sorriso em Z na cara e com esse riso em W no rosto.

Sim, porque cara e rosto são duas faces completamente diversas de uma mesma matéria: a cara esconde o rosto assim como o Z esconde o W.

E não que as coisas aconteçam assim, linear, harmônica e logicamente, como se tudo que fizemos justificasse tudo que somos.

Mas é que as máscaras são necessárias, ainda que o sol deste meio-dia desfaça qualquer cera que não seja cera de abelha – pois qualquer cera que não seja cera de abelha, nada irá compartilhar, morrendo só no porão de um navio eternamente atracado em completa ausência de embriaguez.

Por isso é preciso ser mais que fôlego. Afinal, Cabral certamente não sabia mergulhar.

Por isso, antes de puxar as âncoras e sair para o Cabo da Boa Esperança de cada rua, é necessária essa minha barba feita ao som do Dylan. Se calhar, também grito outro Dylan, mas o Thomas, pra fazer com que o mundo se aquiete e enfim me ouça para ouvir a todos.

Se ontem haviam ambulâncias e acenos da origem no terreno de memórias vermelhas, hoje há uma ânsia de futuro, uma vontade de seguir em frente sem medo de esbarrar em qualquer poste. Se esbarrar, basta levantar e caminhar, porque do contrário logo virão os cães – e os cães, espelhos de nós, não suportam gente diferente em seu território.

Mas será que as coisas são bem assim? Ou melhor: será que as coisas devem ser bem assim?

Existe uma grande fenda entre o ser e o dever-ser. E quando esta fenda diz dos outros que conosco cruzam em cada rua, esbarrando ombros imaginários e despencando papéis pela calçada, o mínimo que podemos trazer nas mãos é o respeito da pele, é o respeito de que o outro é outro e não apenas um reflexo do que pensamos desse outro.

Distantes de quaisquer intelectualismos, distantes de quaisquer coisas que chamam científicas, é necessário esse sentir, é necessária essa obra em infindável construção/reconstrução, sendo que sem essa necessidade nossa pele passa a ser uma Auschwitz de saudades, uma compilação de afetos que foram e não mais serão porque nos tornamos prisioneiros do medo.

E de algo adianta ser prisioneiro do medo? Se calhar ficar em um porão escuro, que assim seja. Mas como a mim não calha isso, prefiro esse senso de Bispo e Rosário mesclado a um quê de Descartes pra não perder completamente o referencial nessa coisa que chamam de líquida e que dizem que é o tempo atual.

Mas não que eu queira as antiguidades. Não que eu conserve minhas entranhas em um baú de formol, my Baby Blue.

O fato é que temos de nos abastecer na constância das sensações para só então carregar conosco não apenas um monte de areia que por detrás aponta uma pilha de tijolos. Temos de carregar conosco essa necessidade de seguir, essa ausência de bússola, essa falta de comprometimento com a completa sanidade, ainda que alguma página matemática sempre seja necessária.

E Like A Rolling Stone é que me põe a cara limpa pra essa semana que inicia.

Pela estrada de poeira vermelha.

O avô disse que a estrada já foi limpa um dia.

O pai disse que era mentira do avô, que aquele matagal dos acostamentos sempre esteve ali desde que a estrada era estrada.

O avô resmungou e cuspiu um cuspe amarelo de fumo no chão. O pai olhou pro avô e os dois tinham os olhos vazios de quem se entende assim mesmo, pelo vácuo. Lá fora passou um carro que levantou poeira vermelha de falta de chuva. Ali dentro uma bocha bateu na borda da cancha e um estouro de madeira que grita ecoou no galpão.

O pai levantou e disse que já era hora de ir, que se não pegasse logo o rumo de casa chegaria cansado demais pro trabalho de segunda.

O avô resmungou, cuspiu um cuspe amarelo de fumo no chão e acenou pro bolicheiro.

Uma pura, disse.

O pai riu um riso preocupado e tentou argumentar que na idade do avô aquilo não era coisa que se faça, que o corpo, justamente por ser corpo, desgasta com o tempo, e que não adianta correr pra lá e pra cá atrás de médico se o fígado estourar de vez.

O avô bateu com a bengala no chão e disse que ele não tinha nada que ver com sua vida, que ele fazia o que bem entendia da vida, que se um homem não tem um pingo de liberdade pra desfrutar depois de velho, mais vale é virar comida de tatu de cemitério de uma vez.

O pai não insistiu e disse adeus, saindo pela porta lateral.

Veio o bolicheiro e pôs o copo em cima da mesa. O avô ficou observando o pai ir devagar, com aquele seu andar manco com vontade de olhar pra trás. Bebeu um gole, fez uma careta e esmurrou a mesa.

O que pensa esse borra-bosta, falou entredentes, saiu do meu saco e agora fica criando caso porque eu quero levar minha vida em paz.

O bolicheiro nem disse nada porque sabia que não adiantava. Pôs a toalha branca no ombro e voltou pra trás do balcão.

O pai chegou em casa, disse vamos pro filho que brincava com uma cadela malhada, disse tchau mãe pra avó que o abraçou, entrou no carro e saiu na estrada.

Havia muito mato no acostamento. Era mato que devia estar ali há mais de cinqüenta anos. Pensar que um dia aquele mato não esteve ali, era como desvirtuar a própria estrada, fazendo com que ela se chamasse outra coisa e não estrada.

O avô, no galpão, ouviu o barulho do carro do pai cruzar. Tomou outro gole, levantou, largou duas moedas pro bolicheiro e foi pra casa.

A avó o olhou com ar de reprovação e perguntou se ele andou bebendo de novo.

Não, disse o avô, não bebi nada.

Tu acha que eu não sei quando tu bebe nem que seja uma gota, falou a avó com as mãos na cintura que nem menina mandona, tu pode beber canha de conta-gotas que eu sei quando tu bebe.

Te aquieta velha, volta pra tua costura que tu ganha mais.

A avó nem quis falar nada porque sabia que era como pedir resposta pra Deus. O avô andou até a varanda e se atirou na cadeira de balanço com pelego de ovelha.

O carro do pai ia pela estrada e o filho perguntou porque ele estava quieto.

O pai não respondeu, limitou sua fala a um nada, nada demais, ligou o rádio e um violão chiado preencheu o silêncio com a réplica do seu solo.

Quente hoje, né pai, disse o filho, quase gritando por causa do volume da música.

É, quente mesmo, março, a gente sabe como é março pra esses lados.

Mas diz que lá pro norte chove pra caramba.

É, o negócio inverteu com o tempo, daqui uns dias o sul vira norte e o norte vira sul.

E seguiram quietos até chegar em casa.

Nisso, o avô permaneceu sentado na cadeira de balanço. Pitava o palheiro de quando em quando e lá da cozinha vinha o som da televisão que ria e cantava. O avô não gostava daquilo. Domingo já é uma merda por ser domingo. Mas domingo com programa de televisão que ri e canta é duas vezes merda, é merda em dobro. Bom era quando não tinha parabólica e só dava pra ouvir as vacas e as galinhas e um carro que passava de hora em hora pela estrada em frente. Uma que outra vez, aparecia um parente, seu irmão quase sempre, e assavam uma carne, e tomavam uma cerveja, e o domingo descia rápido. Mas isso fazia tempo que não era assim. O filho cresceu e se tornou pai e veio com a parabólica no aniversário de cinqüenta anos da avó. O avô ficou meio assim, meio cabreiro, e de início até gostou, mas com o tempo, o tempo que faz a gente desgostar de tudo, até da gente, tinha vontade de jogar um tijolo na televisão e usar a parabólica pra ser toldo de jardineira, mas não mais parabólica. A avó nem ia mais dormir cedo depois daquela joça. Ficava acordada até tarde olhando porcarias de sei lá o quê, e havia dias em que nem conseguia levantar de manhã pra tirar leite da vaca lá perto das laranjeiras dos fundos. E era ele, o avô, que tinha de fazer tudo, até o almoço, pois nesses dias a avó dormia e dormia e não prestava pra coisa nenhuma. Depois do avô dar uns gritos com ela, de tomar uns porres mais brabos no galpão da cancha, ela até que mudara um pouco, mas nem tanto. E naquele domingo, com o crochê em mãos, olhava quem nem boba, comendo pé-de-moleque, praquele bando de gente dançando num palco onde umas mulheres rodopiavam dentro de cálices gigantes.

Pito daqui, pito dali, o pai chegou em casa com o filho e a noite veio.

Vai dormir cedo hoje, guri, disse o pai pro filho, tu correu o dia inteiro e amanhã tem aula cedo.

Tá, tá, tá, tá, cadenciou o filho meio que contrariado, indo pro banho.

O pai foi até a cozinha, colocou uma lasanha congelada no microondas e foi pro telefone.

Não tem problema se ele posar aqui hoje, perguntou.

Não, fica tranqüilo, respondeu a mulher do outro lado, amanhã eu passo aí e pego ele.

Tá certo, tá certo, a gente se vê.

Se cuidem, disse a mulher, e pôs o telefone no gancho.

O filho demorava a sair do banho.

Acho que ele ainda não tá naquela fase, pensou o pai, deve de ser é chato demais que nem eu.

O microondas apitou e o pai arrumou a mesa pra ele e pro filho. Abriu um refrigerante e ouviu lá de fora o som da sirene de uma ambulância que cruzava rápida pela avenida. Noutros tempos, em outra cidade, nem iria lembrar que se tratava de uma ambulância. Naquele tempo, naquela cidade, notava isso e até se preocupava.

Fruto da mudança, refletiu, fruto da mudança. É o que dá a gente sair de lugar pequeno, ir pra lugar grande, e depois voltar pra lugar pequeno morando sozinho, ainda por cima.

O filho apareceu na porta da cozinha.

Demorou hein, disse o pai.

É que eu não conseguia ajeitar a água daquele chuveiro de bosta.

Aquele negócio tá meio estragado mesmo.

Sentaram e comeram em silêncio, o pai olhando pro filho por cima do prato e o filho concentrado no prato.

A uma hora e pouco de distância, pela estrada de poeira vermelha, o avô levantou da cadeira de balanço e cruzou pela sala onde a avó continuava estatelada na frente da televisão.

Mas tu não cansa o olho, mulher.

Problema é meu.

Que cegue então, foi pro quarto e deitou e dormiu.

A escuridão caiu sobre a estrada e o avô sonhou que um dia ela já foi limpa. O pai, em seu apartamento, lembrou das palavras do avô e sorriu, olhando pro filho que dormia ao seu lado.

domingo, 15 de março de 2009

Selos e papéis de carta.

Recebi um selo da Glória e da Biba, dos respectivos blogs “Linhas ao Vento” e “Carpe Diem”. E muito embora não seja afeito a selos, visto que eles me lembram de um soco que tomei de uma colega na segunda série pelo simples fato de ter levantado sua saia, já que esse soco fez seus papéis de carta caírem pelo chão da escola, decidi postá-lo aqui para não passar por egotista ou coisa do gênero, apesar dos astros (ah! esses malditos astros!) dizerem que todos os leoninos são egotistas e na melhor (ou pior) das hipóteses, são egoístas pra caramba.

Portanto, eis o tal selo, o qual, logo de cara (ou louco de cara, como diz o Vitor Ramil) me pede pra dizer sete coisas que me fazem sorrir. Abaixo, pois, está minha modesta compilação surgida ao acaso de algumas sensações relacionadas dentro daquilo que creio ser a vida.

1) O fato de ter um corpo;
2) O fato de estar vivo nesse corpo;

3) O fato de saber ler e escrever por conta desse corpo;
4) O fato de conhecer outros corpos através desse corpo;
5) O fato de existir outros corpos além do meu corpo;
6) O fato de que alguns desses outros fazem arte;
7) O fato de ser um corpo que lê, escreve, faz arte e tem como combustível o indizível do amor e do prazer a partir do fato de ter um corpo que entra em contato com outros corpos.

Depois de ter de elencar sete coisas que me fazem sorrir, o selo ainda exige, como que sobrenatural, sete blogs que me façam sorrir. Para ser franco, já que não acredito na sinceridade, visto que ela geralmente está relacionada com a sentimentalidade, o que é coisa de música sertaneja e não tem nada a ver com sensibilidade, não sei se esses blogs me fazem sorrir. Mas partindo do pressuposto de que existem outros corpos que fazem arte e me trazem prazer e amor a partir dessa arte feita, talvez o sorriso seja inevitável, já que até o bebês, embasbacados pelo mundo sem nome que sentem ao seu redor, sorriem doidinhos da vida para pedir comida (e quem sabe palavras) para a mãe atarantada. Abaixo, os ditos blogs referendados.

1) Linhas ao Vento;
2) Carpe Diem;
3) Temporário-permanente;
4) O Ser em Movimento;
5) Chistes e Poesia;
6) Pensar;
7) Sem mais delongas;
8) Trinta livros, um ano.

Portanto, resta aqui minha humilde constatação que parte do cabalístico número sete, o qual, por óbvio, mesmo que tenha embutido um oito no meio, o que espero que não me traga azar, deve ter sido injusto com tanta gente que sem querer me põe sorriso no rosto – e prazer na cara, a qual, pensem bem, não tem nada a ver com o rosto (porque cara é cara e rosto é rosto e ponto final).

Sem mais mas com muito, um quebra-costela aos homens, um beijo às mulheres e que sigamos chimarreando, pois sejamos do norte ou do sul, dentro de nós, meu caro Guimarães Rosa, o sertão é eterno (ainda que seja pampa).
E tenho dito.

A culpa enfim se instalara.

Generais não gritam. Generais apenas falam. Generais são serenos como o mau que nos trai a cada bondade. Generais não têm todas as honrarias que pensam, mas carregam todos os pensamentos que pensam sobre as honrarias que não têm. Por isso ele enterrou o corpo do vizinho no quintal e plantou gerânios vermelhos por cima. Não que os gerânios vermelhos tivessem algum significado ou mesmo que a morte do vizinho quisesse dizer alguma coisa. Como foi explicado, generais não gritam e são serenos como o mau que nos trai a bondade. E é por isso que sabem de todos os nossos pensamentos.

Não tolerava mais o vizinho. Cortar gramas compulsivamente nunca foi certo. O som da máquina, os fios da máquina podando o verde do chão nunca foi algo no mínimo agradável. E esse motivo é que fez com que o General tomasse aquela decisão. Guardara o machado há anos e era o momento de usá-lo. Matar alguém em nome de outra pessoa não quer dizer nada. O bom é matar por conta e sem qualquer motivo. Só assim o sentido do assassinato se revela.

Não importa a maneira como o machado foi usado. Importa apenas que o crânio do vizinho rachou. E o vizinho morava sozinho. Talvez nem filhos pelo mundo houvesse espalhado. Certamente não passava de um desses seres que por mera compulsão, arrumam a grama e mais precisamente o ato de cortar grama como sustentação para toda sua existência. Mas um ato pode sustentar uma existência? Essa covardia era demais para o General. Caiu então a gota d’água.

O General lembrou de certa vez em uma trincheira. A data se perdera nos calendários. O rádio dizia que as bombas viriam. Mas se passaram três dias e as bombas, que eram bombas inimigas, não vieram. E o que ele e os demais fizeram na trincheira naquele tempo? Comeram terra, fumaram cata toco de cigarro que ainda restava e tudo não passou disso. A expectativa não se tornara real. O anseio não tomara nome. E foi isso que se passou na cabeça do General quando ele usou o machado: a fome com gosto de terra e cigarro.

Quando a lâmina cortou o osso, lembrou daqueles buracos. Lembrou de corpos azuis, lembrou de corpos podres, lembrou de tudo o que vira e cheirara nos tempos em que transitara por outro país. Mas a lembrança não era uma lembrança ruim. Pelo contrário, justificava seu ato e até mesmo o machado perfurando o osso de um só golpe – o vizinho caindo como cai um livro no chão e nada mais.

Talvez esses seres que por aí transitam, não sejam nada mais do que isso: expressionismo alemão que ainda não se definiu, pensou o General, pois não poderia haver outra explicação para a compulsão em cortar grama do vizinho. Tudo nele era preto e branco, apesar da sua casa ser bege. A única cor que ganhou em vida, certamente foi aquela que o machado lhe trouxe na morte. Antes disso, nunca tivera consciência da sua própria existência porque jamais vira seu próprio sangue. E quem jamais viu o seu próprio sangue, jamais saberá da culpa que carrega consigo.

Dessa culpa General sabia. Tanto que ajoelhou nos pregos da cozinha e deixou que as pequenas pontas penetrassem fundo na carne das pernas, de modo que, no entanto, o sangue não chegasse a vazar. As luzes estavam apagadas. Apenas um carro ou outro cruzava pela madrugada. E quando o General percebeu que iria desmaiar, levantou, tomou um banho e foi dormir, deixando o machado e o vizinho na sala de estar. Afinal, o outro dia seria domingo. E domingo é um bom dia para tudo quanto seja relaxante.

Ao acordar, despertou disposto. Logo arrancou a pá que guardava no fundo do guarda roupas e a jogou no quintal cercado por toras de madeira. Antes de iniciar os trabalhos com a pá, porém, foi à floricultura. Comprou duas dúzias de mudas de gerânios vermelhos. E isso seria o suficiente para disfarçar a saliência que o solo faria com o corpo do vizinho e seu respectivo machado.

Até pensara em remover o machado do crânio do vizinho. Mas de certa forma, era um privilégio ser enterrado com um machado na cabeça. Daqui há milhões de anos, quando o quintal do General não for mais quintal mas sim sítio arqueológico, certamente escreverão alguma tese sobre o crânio e o machado. Quem sabe até encontrem vestígios de gerânios vermelhos. Porém, isso já seria pedir demais. A eternidade só existe no Paraíso. E o Paraíso só existe para quem acredita no Paraíso, sendo que para entrar no Paraíso é necessária a culpa. Não é que Deus seja um vampiro: ele apenas cobra seu preço. Trata-se de um Mefistófeles às avessas e só isso. Simples como um contrato.

E quando o General acabou o trabalho, ligou para alguns colegas e jogou pôquer até amanhecer. O estranho é que os gerânios vermelhos floresceram da noite para o dia, como que impelidos por uma força que nem mesmo suas raízes pudessem conter. Era como se suas pétalas se espalhassem quintal afora, transcorrendo como tempo apenas para fecundar outros gerânios pelo mundo.

Percebendo isso, o General ficou feliz. A decadência, enfim, já havia diminuído um tanto. Dera importância ao que considerara importante e fizera o que considerava importante. E isso era o que valia, sendo que ninguém poderia duvidar de sua ética. Até mesmo os policiais que foram chamados pelos outros vizinhos para dizer do sumiço do vizinho do General, ao falar com o General, elogiaram seu canteiro de gerânios vermelhos.

O problema, entretanto, foi que disseram que o vizinho era procurado por um crime qualquer. Não quiseram dizer qual crime era, mas disseram que não era coisa pouca. E foi aí que na mesma noite o General desenterrou o vizinho, arrancou o machado da cabeça dele e abriu a própria testa. Desde então, os cigarros pararam de voar pela janela.

Dizem os que moram lá praquelas redondezas, que os gerânios continuam crescendo, mas enquanto um é vermelho, o outro é verde escuro.

A culpa enfim se instalara.

sábado, 14 de março de 2009

E foi só olhar para os meus pés.

Não me importo que o mendigo bata palmas pra cada carro da rótula. Não me importo que essa manhã traga consigo um dia que será quente. Não me importo que em algum lugar existam pedras que nada construam e somente sirvam para os meus pés.

Somente me importo com aquilo que desconheço. Somente me importo com a parte de mim que é pura sombra.

De resto, não me importo.

Se sei de várias notícias, seja do Oriente ou do Ocidente, não me importo. Informações não são cultura, como já dizia o Fausto Wolff.

Por esse motivo é que me importo com os mistérios, com os desconhecidos, com as ruas pelas quais não cruzei e com as mágicas que ainda aprenderei, pois distante do que não vivi, nada condiz comigo a não ser por mera conveniência, por mera sobrevivência.

Se digo uma coisa ali, se digo outra coisa aqui, se abro a boca para a broca de qualquer dentista, é porque é necessário e ponto final.

Há de se concordar que sem isso nenhuma vida é possível.

Não que tenhamos de abrir mão do compasso do nosso peito. Não que tenhamos de arranjar outro metrônomo que não seja o metrônomo da pele. Mas o fato é que nem sempre nossos desejos e as coisas que consideramos devem ser levadas em conta.

Caso a todo momento pensarmos nisso, o que nos acontecerá será um surto, uma escuridão de loucura, um rompimento da realidade que só abrirá uma noite que sangra toda razão para o vão da irracionalidade.

E não que a irracionalidade seja algo ruim. Pelo contrário, a irracionalidade é necessária. Mas a irracionalidade é tão necessária, como são necessários os pontos dessas grandes empresas, os quais marcam a saída e a entrada dos funcionários.

Por isso que mesmo que tenhamos de conviver com coisas com as quais não nos importamos, essas coisas são necessárias, essas coisas tramam a teia que nos emaranha na vida e nos trazem um sorriso ao rosto de olhos de sono.

E qual é a razão do sorriso? É a mesma razão das pálpebras. É a mesma razão das pernas e pés. É a mesma razão de haver muitos caminhos que seguir e tão poucos passos para dar. É a mesma razão pela qual abraçamos tanto quem gostamos quanto quem não gostamos nessas festas que temos de frequentar para garantir algo nos balcões e no estômago durante o resto do mês.

Mas que não se pense que eu queira extinguir minha sensibilidade.

Muito pelo contrário, quero que ela tenha cada vez mais amplitude.

O fato, contudo, é que desejo uma sensibilidade grávida daquilo que ainda não sou, trazendo no ventre as partes de mim que desconheço, para só então se transformar em palavra.

Do contrário, estaria apenas reproduzindo o que tantos já disseram, o que tantos já quiseram e até certo ponto fizeram. Do contrário, estaria tão-somente seguindo o riscado dessas faces que desconheço mas habitam minha estante.

E é por conta disso que não me importo com manhãs, sóis e pedras, sejam elas do Oriente ou do Ocidente. Estudo isso, escrevo sobre isso, discuto sobre isso, mas não me importo com isso. Tenho afetos com isso, tenho comoções com isso, tenho sentimentos com isso, mas nada disso me traz aquela parte de mim que desconheço.

Se trouxesse, me importaria. Como não traz, não me importo.

E se o mendigo quiser passar o dia batendo palmas pra cada carro que passe na rótula, deixe estar.

Quem sabe ele seja o que existe por detrás dos nossos pensamentos. Quem sabe ele esteja para aqueles que cruzam as ruas presos por ares que nada condicionam e vidros pretos que fazem dos motoristas meras sombras incertas.

Mas o que sou além de uma sombra incerta que busca sua própria materialidade em cada palavra dita?

Sei que as coisas são assim e por isso não me importo.

Por isso é que me importa a beleza, a paixão, o amor, o abraço, o beijo e o carinho. Por isso é que me importa o que não sei dizer mas sei fazer. Por isso meus toques mudos, minhas miudezas finas e os vinhos que nunca tomei. Por isso essas viagens que planejo e com as quais tenho pleno compromisso, muito embora também tenha plena incerteza. Por isso que considerar é sim dar brilho e por isso que a resposta não está apenas no fim.

Se amo o mundo, se vivo em um reino sem rei, se minhas certezas se esvaíram e se o labirinto dos dias esconde algo em cada esquina, nada disso importa.

Importa o que não sou, importa a janela aberta, importa o que não abre, importa o gás que acabou e a água que não irá ferver. Importa tudo aquilo que não fui, porque somente assim é que poderei ser.

No mais, ficam apenas essas palavras, nacos de existência sem qualquer osso ou metria, rasgos sem precisão mas vivos por franqueza e mais nada.

No mais, isso – palavra simples que pode dizer sobre tudo, que pode estar relacionada com tudo e com todos.

Além, somente o que me importa. Porém, é aquém que estou, admito com orgulho.

E foi só olhar para os meus pés.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

Troquei de lugar os móveis. Já não suportava sua posição antiga.

Arrastei a cama prum lado e as estantes pra outro. Arranquei cortinas e deixei que a luz não fosse barrada por nada.

Por conseqüência, acabei dormindo no tapete da sala quase seis da manhã. Quando acordei, lembrei de um homem que vi anteontem.

Ele tinha a barba e o cabelo do Cortázar em Paris. Ele andava de pés descalços e carregava uma sacola preta nos ombros. Sua roupa também era preta e sua calça acabava antes de chegar a ser calça. O estranho é que sua camiseta, também preta, tinha uma espiral branca no centro.

Ao cruzar por mim, ele me olhou com olhar de messias e prosseguiu.

Por curiosidade e um certo pasmo, virei pra lhe ver de costas. Acabei por descobrir que a camiseta preta com espiral era de propaganda política. De uma vereadora, pra ser mais exato, com número e nome estampados.

Claro que achei estranho uma vereadora ter uma camiseta de campanha daquele estilo.

Mas o que é estilo? Pra se franco, não sei. Acho que a definição que mais se aproxima de estilo está para a magreza das modelos.

Porém, apesar do fato de achar estranha a camiseta da vereadora, ontem vi novamente aquele homem na rua.

Estava eu sentando em um bar tomando um café e ele cruzou do outro lado, com a mesma sacola, com a mesma roupa, com a mesma barba e cabelo do Cortázar em Paris e com os pés descalços.

Cheguei a intuir que o mundo queria me dizer alguma coisa. Para além da intuição, pensei que tantos sinais espalhados por aí, caso conectados, devem formar algo além de um labirinto do qual a saída é quase impossível.

Por exemplo: existe uma rua pela qual tenho cruzado normalmente nervoso. Nessa rua, há algumas semanas atrás, eu nem pensava em cruzar. Entretanto, é nessa rua que irei morar daqui algumas semanas.

Logo, o que essas coisas que percebo por dentro e por fora querem me dizer?

Tão-somente dobras de um tempo que não compreendo ou algo mais que isso?

O que quer dizer acordar deitado no tapete da sala com a luz do meio-dia bronzeando meu cansaço?

Deve haver uma ligação em tudo isso. No mínimo, deve haver uma estrutura que diga que as coisas que cruzam por mim, de algum modo irão dizer algo de mim e para mim, nem que este algo esteja para o compasso que bombeia meu sangue. Caso não haja nada e tudo seja fruto do completo acaso, o que existe é apenas um mecanismo que carrego comigo e procura pôr ordem no mundo.

Além do mais, trocar móveis de posição é estabelecer uma nova ordem. Ver o homem vestido de preto com barba e cabelo do Cortázar em Paris, também é uma nova ordem. Mas ordem nova mesmo, é pensar que irei morar na rua pela qual tenho cruzado nervoso.

Será que foram minhas preocupações que fizeram com que surgisse lá um lugar que há tempos desejo para morar?

Será que de alguma forma influenciei tudo quanto me rodeia para que, ainda que este tudo não conspire a meu favor, ao menos transpire alguns átomos condizentes com meu futuro?

Disso nada posso dizer.

Não sou astrólogo. Sou apenas um astrônomo mais amante que amador.

E enquanto não desvendo os segredos do cosmo e as ligações entre tudo que está ao meu redor, levanto do tapete da sala e abro a porta da sacada. Um dia cinza mas claro me fere os olhos com luzes de cirurgia.

Talvez seja necessário que meu amor, cristal cigano por excelência, renegado ao chão da cozinha como vidro de café quebrado, torne-se uma bola de cristal e não apenas cristal cigano. Talvez, ao menos dentro de mim, os lugares tenham que mudar de posição assim como arrastei camas e estantes para só depois arrancar cortinas. Talvez assim, algum rei que desconheço me contrate não como astrônomo, mas sim como astrólogo.

E então aí, observando noite após noite todas as estrelas do céu, eu veja que tudo, seja contido em minha retina, seja retido pelos asfaltos, está justamente para uma espiral. Espiral esta que, em meio ao negror tanto do lençol das estrelas quanto do tecido das camisetas, põe meu senso no labirinto das suposições e faz com que minha percepção procure, para além de um sentido, uma ligação de uma coisa com outra, como se isso fosse me salvar de algum fim.

Mas desconfio que seria uma grande bobagem.

Seria como o Grande Ditador do Chaplin: brincaria com um mundo inflado aos sopros e nada restaria além do meu gabinete. Nele seria a um tempo conde e agrimensor kafkiniano. Dali sairiam todos os meus despachos e relatórios. E também dali é que sairiam todas as minhas palavras, todas as minhas suposições, toda a minha necessidade de organizar, classificar, nomear seres e coisas de tão diversos lugares no único local que é plenamente meu.

E qual é esse local? É o meu talvez. É a minha suposição. É o móvel que arrasto madrugada adentro.

Mas é principalmente essa luz de um dia cinza que me faz nascer às avessas aos vinte e quatro anos de idade, pois não me constituí como sujeito nos olhos de minha mãe. Só sei que me puxaram na cesariana, me deram uns tapas nas costas, me colocaram um farol na cara e a partir disso tive de existir.

Logo, o medo é o que me move. Portanto, é pelo afeto que vivo.

E é por conta disso que mudo os móveis de lugar para depois arrancar as cortinas.

Se é pra ser do medo e do afeto, que ao menos seja franco comigo mesmo e a partir disso construa minhas suposições, as quais, infinitas como qualquer possibilidade, talvez ainda me incutam um olhar de messias nesse templo dos dias.

E só então é que trocarei de papel com o homem com cabelo e barba do Cortázar em Paris. Já não suportarei minha posição antiga. Nômade de mim, apenas serei na aceitação daquilo ao que tento atribuir alguma razão.

E de parede em parede, um dia verei espelhos, já que os reflexos nem sempre estão para as superfícies.

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Guaxo ao chegar.

Guaxo ao chegar.

sou comuna ressabiado
que não segue o riscado
de qualquer camarada

sou Trótski meeiro
entre um mural de Siqueiros
e a soda da criançada

sou ativista passivo
sem gota de busto altivo
ou coloradas vestes

sou reles sonhador
covarde em meu Equador
anti-tributo à Prestes

sou rasura de mim
sou sempre o mesmo fim
sou orgia e Planalto

sou uma imunda puta
sou aquele que é truta
e cruza os braços num auto

sou só comiseração
arara da humilhação
mais Collor do que Guevara

sou um tal de I don’t no
mirrado num please don’t go
credor que estupra e ampara

sou facho de esperança
em raquítica criança
às margens de um altar

sou grito retumbante
que habita minha estante
todo Médici em seu ar

sou presidente eleito
num coração rarefeito
que mastiga o sofrer

sou cabeça da boca
cheirado e porraloca
global no modo de ver

sou ex-tropicálio usado
Brás Cubas acorrentado
na Disney da dissonância

sou lágrimas de Henfil
imigrante do frio
el fuego de mi estância

sou cria da parabólica
sou a marginal bucólica
sou Glauber que não é rocha

sou mais tiví que tevê
sou quem breca o auê
o que não leu mas atocha

sou do sul e do norte
sou estatística e morte
em filas à la Coimbra

sou gramático e correto
sou de um grupo seleto
que se borra e melindra

sou o sonho devastado
cachaceiro e mau-olhado
sou lamento perdido

sou o dia que amanheceu
sou a mãe que esqueceu
do filho e do Partido

e sou o couro que resiste
e sou o mar que insiste
sou quem quebra pena e tinteiro

pois eu tenho as forças
e talvez tenha as palavras
para destruir as travas

e um dia me ver inteiro

quarta-feira, 11 de março de 2009

Amava o mundo mas o mundo não o amava.

Amava o mundo mas o mundo não o amava. Pelo menos era o que parecia. Iam as manhãs frias, vinham as manhãs frias, violetas morriam em cima da mesa que não dava brecha pro sol por culpa da janela sumida, e as coisas continuavam na mesma. Melhor seria, pensava, que seu antepassados, aquele bando de gringo doido, tivessem morrido em algum naufrágio. E os naufrágios foram tantos! Mas eles conseguiram sobreviver: bichos que saem de uma floresta em chamas, reproduzem, reproduzem, e duas ou três gerações depois ali estava aquela consciência, ali estava ele e o mundo. E o que é o mundo? O mundo é o pomar e suas laranjeiras, com galinhas desocupadas que ciscam aqui e ali, ou é aquele amontoado de palavras pálidas que chamam de lições? Podia ser uma coisa assim como perfeitamente podia ser outra, mas, com o correr dar horas que formam dias, dos dias que formam meses e dos meses que formam anos para formar nosso desgosto, o que mais o incucava era haver vida, haver um par de pulmões e um coração que bombeia o diesel das artérias pra toda e qualquer veiazinha periférica. E esse sentimento, sentimento que era mais dúvida do que sentimento, desde que ninguém duvide de que a dúvida é um sentimento, ia crescendo aos socos dentro daquele corpo mirrado. Gostava de acordar cedo pra ver a geada de inverno cobrindo os campos: aquela fumaça que parecia fumaça de cachimbo por cima do açude cheio de carpas, as aves que madrugavam e soltavam bocejos ao cantar, a neblina que ilimitava os morros e fazia fronteira com lugar nenhum: o estranho tranco daquela realidade que pegava no tranco. Não era letrado, pouco ou nada sabia de prosas ou prosódias, mas quando sentava ao lado do fogão à lenha, caneca fumegando café, filosofava consigo horas a fio. A falta de interlocutores por vezes o perturbava, o que era remediado com uma ida ao banheiro e uma olhada no espelho de bordas marrons, pra logo depois voltar pra banqueta de couro cru e prosseguir com suas especulações solitárias. Decidira, sem saber porque, ali mesmo na banqueta, numa dessas ocasiões de solenidade vã em que decisões sem possibilidade de decisão são tomadas, que deveria dar um nome pra tudo o que considerava. Mas o que é considerar?, pensou de imediato. Considerar é dar brilho, considerar é CON-SI-DE-RAR, e é, enfim, brilhar, ora! Mas, como pode se notar claramente, isso não era suficiente, e o fato dessa consideração sobre o considerar ser cabal pra sua empreitada, o fez matar o ato antes dele se tornar relato, indo dormir, meio ressabiado, quando um quero-quero queria algo no gramado da escola ali perto e a última estrela respingava o céu da quarta-feira recém nascida. Porém, as obsessões, por mais tolas que sejam, e quanto mais tolas são, alfinetam o pé e empedram o pescoço quando menos se espera: a temperança em saber o que é considerar e não-considerar não o largou. E ele queria, lógico!, dar um nome, e um nome novo, percebera na insônia, pra tudo o que considerava. Tentou não pensar em coisa alguma, deixando a mente ao sabor dos nervos, pra ver se algo surgia. E nada surgiu. Por sugestão de um amigo, comeu uns cogumelos arroxeados que achou perto da mangueira, e apenas conseguiu uma dor de barriga daquelas, seguida de uma diarréia repleta de remorço reflexivo que se estendeu por mais de uma semana. Dando por conta de que era necessária, quem sabe, uma dedicação integral da sua parte naquela cruzada, largou de mão quase todos os afazeres e se pôs a freqüentar a biblioteca da cidade, distante quatro quilômetros, por tardes e mais tardes. Revirou livros de todas as espécies. Pesquisou aforismas do grego ao russo. E quando pensou que havia chegado a um ponto, a um consenso, uma decepção nova entrou por debaixo da porta e se instalou ao prazer da calamidade, fazendo tudo ir, novamente e novamente e novamente, ralo adentro. Os conhecidos foram desconhecendo sua face. Não era mais o mesmo. Recitava versos decorarados na espuma de cada chopp, e quando ria, ria aquele riso amalucado de quem sabe que a ponte vai cair mas crê na fundura do rio. O relógio rastejava, os calendários se seguiam, e sua casa, antes simples mas limpa, ia virando um semi-chiqueiro, com garrafas por cima da mesa, com poeira se embrenhando pelos cantos, com frigideira enferrujada transbordando ranço: com o ter e o não-ter de quem vive pra algo que está além. Mas o que é estar além? E o que é o além? O além é o nome que a consideração sobre o considerar não pode alcançar ou é outra coisa? O que é essa outra coisa? E por que ser se o ser sempre foi e será mesmo que nunca seja? Tudo isso pernoitava em sua alma com cara de visita que faz da trouxa guarda-roupa. Não era pra menos: amava o mundo mas o mundo não o amava. E numa noite sem lua, escura feito porão onde trovejam ratos de toca em toca, infartou, perdendo a consideração e o considerar, o nome e o nomear, e chegando, afinal, a uma resposta.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Era uma vez um reino que não tinha rei.

Era uma vez um reino que não tinha rei. Era um reino que não precisava ser reino com R maiúsculo, o que talvez explicasse muita coisa que por lá acontecia. Mas o mais estranho, é que era um reino onde as pessoas não tinham sombra. Sim: ninguém via seu lado escuro, seu lado penumbra, quando andava na rua, e uma luz forte, uma luz forte que não era a luz do sol, pois caso houvesse a luz o sol teria também de haver a luz da lua, vinha de todos os lados, até quando um ou outro desavisado tentava fechar os olhos, sendo que até isso, veja só, era proibido. Mas proibido por quem? Ninguém sabia: sabiam apenas que era proibido desde sempre, apesar de o sempre, como todos desde sempre sabem, não poder ser medido, e ser, além do mais, questão de ponto de vista, questão da vista de um ponto. E nesse reino que não era reino com R maiúsculo e onde ninguém tinha sombra, todos queriam muito muitas coisas que nem sabiam ao certo o que eram. Queriam isso, queriam aquilo, e andavam que nem doido pra lá e pra cá, de olhos estanhados, arregalados, quase vermelhos de tão engraçados, querendo mais e mais. E como não tinham sombra, derrubavam tudo que viam pela frente, fosse folha ou cipó, que pudesse barrar o caminho e consistir, mesmo que de longe, um obstáculo. E a gente de lá, meu caro, hã!, a gente de lá não gostava de obstáculos: queria tudo às claras, e tão, mas tão às claras, que de uma hora pra outra não havia mais nada sobre aquela terra. Nécadepitibiribas: nada, nem res de resmungo. E quando isso aconteceu, ficaram todos pra lá de atarantados. Não tinham mais o que derrubar, não tinham mais com o quê se ocupar, e de tão carregados que estavam, não tinham mais nem o que querer! Imagine só! Foi então que um moleque meio estranho, com cara de enguia, deu uma sugestão: vamos tentar dormir. De início, deram risada da cara dele. Ora!, desde quando se dorme no nosso reino! Pura baboseira! Mas quando ele mesmo se propôs a fechar os olhos e dormir, ferindo a lei universal e que existia desde sempre, como diziam, ficaram meio assim, meio assado, e aos poucos os ânimos exaltados, daqueles que querem feijão-feijão/arroz-arroz, foram se acalmando. Quando se deram por conta, eram dois dormindo, eram três dormindo. Depois quatro, dez, quatorze. E a coisa chegou a tal ponto, que todos decidiram dormir. E sabe o que aconteceu? Nasceu então a sombra. Nasceu como todos nascem: sem dentes e pelada. Mas isso já era alguma coisa. Quando o primeiro acordou e notou que tinha sombra, não sabia se era aquilo ou aquela a coisa preta que lhe seguia por toda parte. Ficou assustado, tremendo de medo, pensando que um deus ou alma penada, pois lá praqueles lados sempre falavam em alma penada, havia encucado consigo, e portanto resolvera lhe afligir pro resto da vida. Porém, quando os outros foram se acordando e percebendo que todos, absolutamente todos tinham sombra, a história mudou de rumo. Era impossível que espíritos e almas penadas fossem em tão grande número e resolvessem encher o saco de tanta gente. Certo que houveram os mais apavorados, que até sugeriram suicídio maciço, mas a covardia, que é o motor da ordem, logo fez às pazes com esses arautos, e em pouco tempo todos estavam a meditar, mão no queixo, pernas cruzadas, sobre o porquê daquele troço preto que passara a seguir seus corpos. Quando, um tempo depois, perceberam que só eles, as pessoas, homens e mulheres, tinham sombra, porque não havia mais o que ter sombra, já que tudo fora consumido, regurgitado, vomitado e execrado do plano digestivo, sentiram uma espécie de dor no fundo da garganta, porque desconfiaram que, caso contrário, outras coisas também teriam sombra. E foi nessas que começou a onda pessimista. Era gente chorando prum canto, era gente escrevendo livros suicidas noutro canto, era gente chorando e lendo livros suicidas e se suicidando noutro canto: enfim, uma porcaria total, um banzé daqueles. O incrível é que o estado de espírito afetou todo povaréu, não poupando merreca humana que fosse, fazendo das massas meros olhos inchados, nublados, cheios de olheiras e máculas de desaprovação para com a vida. Mas adiantava alguma coisa? Se o passado era passado e não podia mais ser passado a limpo, adiantava alguma coisa ficar nesse chove não molha pro resto dos tempos? É claro que não! E aí um sujeito barbudo, que tinha jeito de quem tocava violão, mas nunca vira violão mais gordo, sugeriu que esquecessem de tudo, que a vida era uma baboseira mesmo, e que, já que estavam na fossa, fossa e meia tanto faz!, o que suscitou uma estranha lógica: se tudo não-humano já fora consumido, restava consumir o que era humano. E aí, bem... aí é melhor trancar a moral num quarto escuro, esquecer a ética no aro dos óculos, anuviar todo e qualquer pensamento que cogite algo a não ser seu próprio umbigo e seguir adiante. Muito aconteceu, muito mesmo, e pra não entrar em detalhes sórdidos, porque até bengala de fêmur e sopa de estômago deram pra inventar, vou dizer que aquela gente foi se matando gradativamente. Nenhuma fêmea sequer tinha tempo de ter uma gestação completa, mesmo que isso pá e tá acontecesse, já que as surubas, surubas desavisadas e tão ou mais nojentas que qualquer nóia de imperadorzinho romano, eram diárias, diurnas e noturnas como em alguns jardins de infância. Contudo, a comilança conotativa e denotativa chegou a tal ponto, que o último que restou comeu seu braço esquerdo e acabou por morrer esvaindo em sangue. E talvez aí e somente aí, o reino que não tinha rei ganhou razão de ser: de toda aquela porcalhada de carne que ficou espalhada pela terra, começaram a surgir pequenos bichinhos meio nojentos, meio envergonhados, que no futuro, e no ontem de alguns minutos atrás, seriam atingidos por jatos de aerosol e morreriam pra que eu pudesse dizer malditas baratas! e concluir meu conto com esse sorriso no rosto.

domingo, 8 de março de 2009

Seu começo e sua verdade.

Acordou desarvorada de amores.

Queria lembrar dos braços dele, mas não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos dele, mas também não conseguia. Lembrava apenas de um vulto estranho que quanto mais próximo, mais distante ficava.

Por isso que naquele dia, decidiu que tudo deveria acabar. Havia cansado de jogos que escondem cartas por debaixo das mangas.

Sempre fora às claras: se uma briga ir madrugada adentro com pratos voando pelas janelas, ótimo. Porém, se as coisas forem feitas assim como se faz em um escritório, tornando o amor tão corporativo quanto qualquer empresa, já não se reconhecia nisso e portanto tinha de pedir o fim. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo, pois o amor não tem um código e a paixão jamais foi fruto de qualquer jurisprudência.

Mas uma questão se impunha: como pedir o fim?

Simplesmente chegar pra ele e dizer “acabamos”? Inventar o argumento clássico de que precisava se encontrar consigo mesma, visto que estava passando por um momento de transição? Nada disso lhe parecia viável. Aliás, tudo isso tinha o mesmo cheiro dos argumentos dele: ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos postergados pelo trabalho, pelo horário e pela filha que morava em outra cidade. E isso não era mais com ela.

Quando deu a partida no carro, o dia ainda era cinza. Havia uma neblina estranha por detrás dos morros que circundavam a cidade e talvez aquilo quisesse lhe dizer algo, porque a neblina também era cinza. Contudo, ela sabia que as coisas não dizem nada além daquilo que dizemos das coisas. E entrar nesse jogo bobo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual sua vida estava sendo jogada por aquele vulto tão estranho que nem mais braços parecia ter. Então esqueceu ou ao menos tentou esquecer desses detalhes e simplesmente saiu pra rua, ignorando blefes e piscadelas que sua memória queria emergir.

Como manhã e domingo, certamente ele estaria em casa. Não se viam há duas semanas. Apenas o telefone os contatava. E estaria em casa, porque era bem provável que havia saído na noite anterior, que havia enchido a cara, que havia dado fiasco cantando no palco de qualquer pub e que provavelmente havia transado com outra mulher. Mas será que ele havia feito tudo isso ou tudo isso era tão infundado quanto dar qualquer significado pessoal para a neblina cinza detrás dos morros? Tudo não passava de suposição, ela tinha de convir consigo mesma, ainda que toda loucura sempre tivesse raiz em uma suposição.

Quando chegou até a casa dele, estacionou e respirou fundo. Desligou o motor do carro como quem desliga o suor das mãos. Desceu e caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. “Bem coisa de homem”, pensou. Afinal, ele morava sozinho já havia dez anos e estava com trinta e poucos. “Mas trinta e poucos como eu”, concluiu. Só aí, fosse por vaidade ou medo, aquietou enfim a mente.

Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou alguns segundos e apertou pela segunda vez. Ninguém. Já notando a raiva sair dos gerânios que sua mente imaginava em um jardim familiar, colou o polegar na campainha como quem espreme uma garganta. E foi então que ouviu passos se dirigindo até a porta. Os passos aos poucos se aproximaram e a maçaneta girou.

- Sim? – disse um homem dos seus setenta anos, vestindo uma bermuda xadrez e uma camiseta de campanha de vereador.

- O senhor mora aqui? – perguntou ela, sentindo na laringe aquela raiva de gerânios se transformar em estranheza turista.

- Sim. – respondeu seco o homem com cara de quem recém acordou, os cabelos brancos espetados pela moldura do travesseiro e o rosto um tanto molhado pelo tapa da água fria.

Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Conferia com o número da casa dele. Há um ano ela freqüentava aquela casa final de semana sim e final de semana não. Às vezes até nos dias de semana freqüentava aquela casa, isso quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o único remédio para a tristeza era o sexo e a cerveja.

- A senhora deseja alguma coisa? – questionou o homem, coçando os olhos de sono com as costas da mão transparente e interrompendo tudo aquilo que girava ao redor dos cabelos dela.

- Não... – disse rouca. – Acho que me enganei de número...

Com um ar completamente diverso, caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. Já não queria o fim. Queria um começo e até visualizava um recomeço. Mas não sabia do quê.

Como poderia ele não estar mais na casa lilás 985? O que fez com que ele saísse de lá repentinamente? Puxou o celular da bolsa e procurou o número dele um tanto nervosa enquanto ouvia o homem fechar a porta uns metros atrás. Discou e o telefone estava desligado. Discou novamente e novamente o telefone estava desligado. Guardou o celular na bolsa e entrou no carro como quem entra em um lugar pela primeira vez, procurando amigos nas mesas de uma pista de dança.

Era manhã e domingo, ela sabia. A neblina por detrás dos morros era cinza como seu carro era cinza e o dia também era cinza. Mas por qual motivo ele não estava mais ali e seu celular estava desligado? Não sabia o que dizer ou sequer o que pensar. Toda a decisão que fizera com que ela pouco dormisse e mesmo assim cedo acordasse, havia se transformado em dúvida. E essa dúvida era tão sem nome quanto qualquer rua não batizada, quanto um começo ou um recomeço sem qualquer placa ou referencial.

Mas foi ao chegar a sua casa, que algo lhe passou pela cabeça. Talvez seus amores já tivessem deixado de florir há muito tempo, assim como mal floriu o seu gerânio de raiva na grama familiar da sua imaginação. Talvez nem árvores um dia houveram e tudo não passasse de mera coincidência que brotara da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância.

Talvez tivesse demorado demais e tudo havia se tornado cinza e desarvorado.

O blefe do amor havia envelhecido e esse era o começo. Seu começo e sua verdade.

sábado, 7 de março de 2009

E o Fábio Júnior, quem diria, já havia dito tudo isso.

Não sei do meu amanhã. Sequer do meu hoje sei.

Sonho uma vida sem sonhos. Sonho uma vida de sonhos.

Por isso trago essa canção no rosto e essa melodia nos olhos. Por isso esse acorde é minha íris e esses metais são minhas mãos.

Se algo crescerá dessas partes, nada posso prever. Ao revés do amor que minto, não sou cristal cigano. No máximo sou vidro de café quebrado pelo chão da cozinha. Café este que, aliás, ao invés de pela manhã me acordar, me embutiu um sono do qual até agora não me desfiz, como mochila colada à coluna que sobe até o cerebelo.

E ainda que eu queira, a vida está longe de ser como um filme do Lynch.

Sei desses corredores. Sei dessas portas verdes e de tantas faces conhecidas em cada sala por abrir. Sei também desses estertores de verbos que pelos meus dedos escorrem – influência do Raduan que insiste em criar seus coelhos. Mas além de saber disso tudo, nada sei, nada sou além disso que sonho: uma vida sem sonhos – uma vida só sonhos, falando como pessoa e Pessoa.

Não é que eu queira ser um Breton do século XXI. Muito ao contrário dele, não tenho ares de médico e sequer um bisturi para cortar minhas idéias.

Quero, antes disso, que esse acordeon continue juntamente com esses metais e esses acordes de olhos, com esse Beirut que me traz tanto um ar de Kusturica quanto um ar de Jorodowsky, porém desprovido daquela crueldade de ferro quente que queima a película de ambos e as veias de quem os assiste.

E mesmo que tantos queiram, hoje vejo que não somos gado ou rebanho, ainda que o Zé Ramalho nos tenha dito isso a torto e a direito, ou que a voz do Nietzsche nos tenha sussurrado que um cubo só é um cubo porque ninguém soube sair de lá. Os continentes se desprendem, pode acreditar nisso – e me deparar com a Sbornia assim nas torres de Torres, não seria nenhum assombro.

Sonho com essa vida de sonhos, portanto, não como quem quer uma Hollywood, pois nunca me desejei uma calçada que não esteja para o rastro dos navios.

Sonho essa vida de sonhos, como sonha o malabarista de rua com o Cirque du Soleil, sabendo que apesar disso, estou anos-luz de distância desse mesmo malabarista que na minha frente encena com esses galões de trânsito – supernova que descamba em uma coesão do peito e provoca o próprio texto.

Se meu amanhã é incerto, essa incerteza não vem do futuro, mas sim do agora. Do futuro vem apenas o anseio, a síndrome dos barbitúricos que tantos divãs comportam.

Quanto a mim, renego esse analisar, já que sou muito egoísta para falar mais do que falo.

E eis a contradição: se digo da falta de ética desses umbigos/panelas, que por todas as cidades giram seus guetos sem samba, por que não me abro também aos ouvidos de um divã e me entupo de qualquer droga pra suportar o vazio?

Sei que a camada é fina e do sem-nome a hipotermia. Talvez por esse saber, quase profeta de mim, persista em me analisar, parodiando tudo que vejo e sinto na prolixidade de sempre, na angústia de cada nome inventado.

E assim meio capenga, gauche Drummond/Baudelaire, construo e fundamento minha própria ética de fortaleza na carência de tantos braços, amigos e amores, já que o diesel que vem das minhas veias só existe em outros corações.

Mas se meu agora é incerto, como poderei nomear o tempo dessas algas que se prendem à minha medula de sono e mala, neandertalesco das próprias necessidades, faroleiro de uma razão que inexiste distante da plena falta?

Não há janelas, meus amigos: só fendas, seja para nascer, chupar, espiar ou chover.

E essa é minha conclusão.

O certo, contudo, é que o relógio afundou e permaneceu somente o mar e o barco: três personagens distantes que nunca encontrarão margem, pois não existe nenhum farol além das tartamudices da Virginia Wolff e dos meus poemas sem graça.

O certo é que o tempo parou ou sequer um dia existiu.

E o completamente certo, é que seja eu um balzaquiano que nem trinta anos tem e por isso mesmo traz angústias que não suportou e talvez nem suportará.

Mas a única verdade mesmo, é que não me desfaço dos meus planos, quanto mais com estes meus vinte e poucos anos.

E essa minha vida de sonhos virá, pode crer, meu chará: só não esmaguei seu pescoço aquele dia no banheiro, porque me escorreu a mão assim como sabonete. E foi por isso que aquela noite você me pôs metano nos olhos, seu safado. Mas aqui está minha vingança: tapa de luva e verbo na sua face de nada. Portanto estamos quites, seja você o outro que em mim habita ou simplesmente o meu silêncio de depois. Mas sei que você não tem nada de bossanovesco, seu grunge chato.

E o Fábio Júnior, quem diria, já havia dito tudo isso.