domingo, 15 de fevereiro de 2009

Basta encontrar o livro certo, aquele que somente seus olhos poderão ler.

A biblioteca da vida é feita dos amores que perdemos.

Existem livros que alugamos e existem livros que compramos.

Os que alugamos, geralmente têm uma capa surrada e as páginas amareladas.

Os que compramos, por vezes vêm embalados em plástico, sendo que do conteúdo apenas podemos intuir a sinopse.

Entretanto, tem dias que preferimos alugar um livro do que comprar um livro. Afinal, isso é muito mais fácil. Se você aluga um livro, pode muito bem ler até a metade, gostar do desenrolar da trama, mas não ter um pingo de paciência com o final. Não tendo um pingo de paciência com o final, basta você devolver o livro que tudo fica perfeitamente resolvido e outros livros podem surgir. É quase que uma quesão de marca de cerveja.

Aliás, os adolescentes e os jovens de vinte e poucos anos são peritos nisso. Alugam livros e livros como se as obras fossem proporcionais às bocas que beijam nas baladas da vida. Isso quando o próprio sexo não se torna uma balada tão fluída, mas tão fluída, que perde todo e qualquer sentido. Se o jovem ou a jovem é virgem, então, nem se fala, uma vez que ela ou ele utilizarão o maior drama da obra, ou seja, a razão de ser da obra, com os fins mais utilitários possíveis. E quais são esses fins? A utilidade da perda do cabaço.

Já se você comprar um livro, terá de chegar em casa, desempacotar o dito para só então ver qual é o seu conteúdo. Se ele tiver páginas amareladas, dessas de edição portuguesa, é meio caminho andado. Contudo, caso não tiver, é possível que o primeiro parágrafo decepcione e você largue o livro comprado em um canto qualquer da estante, como se fosse um vaso de flores artificiais que nunca darão vida aos seus olhos, atraindo sequer abelhas para as suas pétalas de loja de um e noventa e nove.

Nesse caso, é o que acontece com a maior parte dos casais que estão juntos há várias décadas. O relacionamento se torna mais conveniência que relacionamento. As pessoas permanecem juntas por conta da casa e dos filhos que tiveram. Pensam que construíram algo juntos, quando em realidade apenas deram algumas cimentadas nos tijolos dos seus próprios túmulos. A imaginação é substituída pela técnica. E a técnica é ler o jornal no café da manhã sem dizer mais que bom dia. Tudo se torna questão de técnica, entendam bem, até mesmo o sexo, sendo que a única coisa que construímos na vida, nem que seja à base de sangue, de lágrimas e de cicatrizes que nem sempre o coração suporta sem um whisky, somos nós próprios, o que nada tem a ver com tijolos e cafés da manhã.

Antes disso tudo, porém, você pode consultar o Google. Afinal, o Google sabe tudo e o que não está no Google simplesmente não existe. O Google é a Biblioteca de Alexandria que a Cleópatra queria ter mas não conseguiu esperar. Se você consultar o Google e ele disser assim assado do livro e então você gostar, talvez seja um motivo para comprar o dito ou pelo menos alugar antes de comprar, já que nunca se sabe se o PROCON dessas literaturas será plenamente eficaz. Ainda mais quando o PROCON dessas literaturas tem cara de anjinho barroco, desses de pinto pra fora que jamais teve uma ereção, o que sinceramente muito me intriga – tirando fora o fato de que foram pintados por esses artistas medievais, os quais eram um bando de pervertidos sacanas, mais borrachos que qualquer fígado meu, seja do passado ou do futuro.

Mas ocorre que por vezes o Google não dá conta da busca e então você tem que apelar aos conhecidos.

Se a virtualidade da rede não lhe dá resposta, é a trivialidade dos contatos que faz com que você tire suas próprias conclusões.

Pergunta pra um ali:

- Conhece a Marisa?

- Hum... Acho que conheço...

- E que tal ela é?

- Parece ser uma pessoa legal. Tomamos um chopinho na festinha do escritório Trabalha nas lojas Marisa, inclusive.

- Que coincidência!


E aí você sai desapontado.

Distante de uma mulher, agora sua investigação se direciona a um homem.

Ou melhor: uma mulher se direciona a um homem.

- Conhece o Dois Irmãos?

- Quem? O mercado?

- Não, o camarada aquele que é gerente de banco.

- Sei quem é sim! Aliás, é meu gerente de conta. Um sujeito muito competente!

- Mas que tal ele é?

- Ele é bem educado. Até facilitou um empréstimo pra mim, isso que eu estava no SPC. E outra: tem um irmão gêmeo que é a cara dele! Não é incrível?!

E dentre uma e outra descrição, você não chegará a lugar algum.

Qual será então a atitude a tomar?

Desistir tanto de comprar livros quanto de alugar livros?

Creio que aí nós podemos tecer várias variáveis.

Por exemplo: quando uma mulher ou um homem lê um livro pela primeira vez, fica deslumbrado com tudo quanto lê. Acha que a capa e o enredo são plenamente geniais. Porém, com o passar das semanas, passa a ver que aquela capa e aquele enredo podem ser encontrados em vários outros livros. E além do mais, o livro tem tantas cenas de sexo e louça pra ser lavada depois da comida por ser feita e casa pra ser limpada, que tudo isso junto enche muito o saco. A oferta é demais e a procura é frenética. Portanto, melhor mesmo é devolver o livro. Por esses fatores, deixa daquela leitura e parte pra outra.

Quando o livro já é comprado, a coisa é mais ou menos diferente. Comprar um livro novo e encampado é o mesmo que morar junto com uma pessoa com a qual você não é casado mas você ama. O diferencial é que será aos poucos que você irá abrir o pacote no qual o livro está envolto. E quando acabar de abrir, é bem possível que tanto a história quanto a capa e qualquer possibilidade de enredo tenham ido pelos ares. A vida, apesar dos publicitários tanto quererem isso, não está na capa do iogurte, mas sim naquela marca quase imperceptível que os refrigeradores de mercado não nos deixam decifrar e que diz da validade do dito.

Exatamente por isso tudo, a biblioteca da vida é feita dos amores que perdemos. Às vezes venderemos esses livros novos e empacotados para sebos que irão revender para outros sebos e donos. Esses sebos e donos, em realidade, serão mais donos virtuais que reais. Se ninguém é dono de ninguém, que dirá de um livro, esse explosivo quieto pronto a se tornar TNT e que ri e nos agrada a cada cabelo prendido no travesseiro.

O sonho da minha vida é encontrar um livro tão raro que nenhuma outra pessoa consiga ler a não ser eu mesmo. Um livro que não seja Borgeano ao ponto de escorrer areia e nem tenha essa coisa de Teatro de Oficina, de ficar lançando pedaços de fígado de boi na platéia. Distante disso, quero um livro no qual eu possa entrever histórias no meio de histórias e enredos no meio de enredos, de modo que cada amanhecer, que cada coisa que eu sinto ou algum dia sentirei, renove-se na leitura de cada página, de cada linha que, caindo de sono, acabo inventando, criando uma praia que é coberta de neve e fica no centro de uma Floresta Negra imaginária, na qual o Heidegger me dará mil lições metafísicas.

A biblioteca da vida é feita dos amores que perdemos sim.

Mas são os amores que perdemos que fazem a biblioteca da vida. E isso é extremamente necessário. Caso contrário, nenhum encontro se daria.

No mais, as coisas são simples.

Basta encontrar o livro certo, aquele que somente seus olhos poderão ler. E pronto.

10 comentários:

Simone disse...

Eduardo,
concordo em parte, discordo em outra...(rs), mas quem disse que pontos de vista divergentes não se complementam, está equivocado:no mínimo nos fazem ver com outro olhar. Quando escreves: "Alugam livros e livros como se as obras fossem proporcionais às bocas que beijam nas baladas da vida", não consigo visualizar um livro, e sim um periódico qualquer de "Caras" e "Bundas" (rs). O livro tem seu valor diferenciado - por mais medíocre que seja - e supera qualquer publicação perecível. Mas dou a minha mão à palmatória e cedo ao argumento de que "A biblioteca da vida é feita dos amores que perdemos"... De preferência, do que mantemos, porém isso já é outra história cujo enredo ainda desconheço. Por enquanto permaneço com meus livros, ao alcance das minhas mãos para releituras ao meu bel prazer, ou simplesmente intactos, na estante, impedidos de terem meus olhos deslizando em suas linhas e entrelinhas, pelo medo da incompreensão. No entanto, também acredito que "basta encontrar o livro certo, aquele que somente seus olhos poderão ler"... Mas, e se ele estiver intacto, na minha estante?
Simone K.

Lótus disse...

Estou cada vez mais certa de que cada pessoa tem não um, mas vários livros "certos" a decifrar. E, do mesmo modo, alguns livros foram talhados para a leitura coletiva, ainda que a maioria deles se destine a um (e único) leitor solitário (e exclusivo). A vida me diz, existem vários arranjos possíveis.

Biba disse...

Gostei muito do post, extenso, denso, veloz. O encadeamento de idéias que vão e vem, brincam com a nossa imaginação. Concordo com Lótus. Acredito que existem livros certos para cada um e livros para leitura coletiva. Quanto aos amores, é sim, eles formam a biblioteca da vida.
Beijo
Carpe Diem!!!

glória disse...

Eduardo,

Os livros sào fetichizados, eu penso. Há algo cóporeo, físico nas suas páginas, no seu cheiro, nas suas cores. eu sempre digo: tenho tesão em livros. Olho, cheiro e fica um ardor, uma vontade de sorvê-los, de desvendá-los.De alguns, tenho muito ciúme. Somos um do outro, de forma tào singular, que isso mora no terreno do indizível. Assim como Simone, tenho outra versào sobre o "livro certo". O aparentemente ordinário, mundano, que passa de màos em màos "nas baladas da vida" pode guardar descobertas. Singularidades. A biblioteca da vida é feita de amores de todo tipo: que perdemos, que vivemos, que desejamos, que resistimos, que devoramos...
O livro certo é aquela que enseja cumplicidades, muitas vezes encobertas ao primeiros lances de visão. Ë preciso um tempo para que o olhar se ajuste ao manuseio das páginas.

Passei um tempo ausente. Viajei. Voltei. Te ler é um grande prazer. Gostei, também, da Simone.

bjs

Ana Valeska disse...

Posso afirmar que um dos maiores prazeres da minha vida ocorre quando um livro me surpreende. É uma experiência única, mergulhar em outros mundos...
Acontece algo parecido quando encontramos uma pessoa que nos surpreende. É um arrebatamento, porque a surpresa (boa) é um convite para compartilhar uma história, é um chamado para escrever um livro a dois. Isso é lindo demais: vidas que se entrelaçam, histórias que são construídas a partir de um encontro de almas desarmadas.
Desejo que você encontre um livro maravilhoso para ler, e que encontre também alguém que te leia de verdade.
Bj no coração.

Marcelo A. de Moura disse...

Bueno, tinha razão, gostei do texto. Sobre esse não vou comentar nada cara, livros, amores e enigmas da vida estão bem distantes do meu entendimento, embora, como fizeste, eu também tenho minhas teorias e alegorias para todos esses assuntos. A tua é muito boa, mas, e como ficam os cegos? Ou os analfabetos? Eles também devem amar...rs! Não foi uma crítica, só uma idéia irreverente, que poderia ter um lugar, pequeno e bem sujo, aí no meio desse belo post.

Rita disse...

Como é que a gente agradece à altura a coisa mais linda? Eu não sei, eu ainda não sei... Fica esse comentário do tamanho de uma formiga de alguém que ficou, por muito tempo, olhando essa caixinha sem saber o que escrever.

pensar disse...

A vida é um livro?Talvez, muitas coisas virem estorias, muitas outras memorias, e outras nossa própria constituição.Acredito que precisamos estar atentos e vivos para detectarmos o amor, para acertarmos o livro e para que cada dia aguardemos o tempo livre para continuarmos a ler aquele livro. Atentos para nao cair na rotina, na acomodaça0, que por sinal é o que eu mais vejo.
Então tenhamos atenção e cuidado com nossos livros, livros vividos, livros sendo escritos.
Bjs

Adri Antunes disse...

é, vc tinha razão, seu texto me pôs, no mínimo, pra pensar...teoricamente eu compreendo e aceito mtas coisas, inclusive acho as metáforas mto bonitas, como essa do livro e do amor perdido...mas na prática não! ora vamos, todo mundo quer mais do que um amor que beije a boca com os olhos entreabertos e faça sexo com um carinho que pretende guardar para o resto da vida! eu pelo menos, quero eco! quero falar e sentir reverberar do outro lado aquilo que projetei e quero ser um eco da mesma forma! no entanto, enquanto a única voz que eu ouvir for a minha, sigo por aqui, cantarolando frases com letra minúscula no início, sentindo fome de três em três horas, odiando me maquiar para matérias de dois minutos e sentindo sono a maior parte do dia! ehehe,
tdo bem, ainda bem que existe sorvete de chocolate pra salvar meus dias!
bjuuu

tagg disse...

ia escrever um texto enorme. estava escrevendo, mas apaguei. esse livro ai que voce quer voce so vai achar depois de muitas bocas, muitas baladas, mita gente, MUITO. sem o excesso, ninguem tem nada. e uma questao de espaco amostral. ou nao. ou ele nem existe e voce o tenha de inventar. sei que: qto menos escrevo, mais vivo. e, quanto mais vivo, mais escrevo e vamos no paradoxo. bjos!