quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

E o tridente de quatro lâminas sempre estará presente, porque o vento é só vento e nada mais.

Não existe alegria sem tristeza. Se houvesse tristeza sem alegria, jamais sentiríamos alegria.

Assim como é impossível existir tristeza sem alegria, é impossível andar pelos corredores de um hospital sem estar em um labirinto. As camas espalham doenças e o ar espalha as dores daqueles que trazem consigo tristezas e doenças.

Em cada leito, habita o desassossego. E em cada madrugada, habita o sono que só vem depois que o peito se aquieta.

Mas para aquietar o peito, é preciso muito mais que afago e é preciso muito mais que voz. A poesia circula as ruas da noite do mesmo modo que as doenças circulam os labirintos dos hospitais.

Entretanto, nem sempre temos a doença dos hospitais pois nem sempre temos a poesia da ruas. Os bancos não são nossas camas.

Por isso viver é doído.

Por isso escrever não tem nada a ver com saber quem somos. Escrever é fuga e vício e só.

Se somos algo na escrita, esse algo não passa de reflexo.

Vozes vêm e vão e no fim permanece o silêncio do poste que ilumina a rua na frente do meu prédio.

E hoje é uma noite na qual nem os cães latem. Hoje é uma noite na qual sopra um vento fresco que balança as cortinas da biblioteca e chega até mim como se quisesse dizer alguma coisa.

Mas o mundo não diz nada. Somos nós que dizemos o mundo.

As casas são simplesmente casas e as ruas são simplesmente ruas. O poste na frente do meu prédio existe porque essa é sua função e nada mais.

Se uma perturbação de repente nos afeta, se algo do nada nos surge, é como se um tridente de quatro lâminas se cravasse em nossos olhos, os quais do azul passassem ao amarelo e do amarelo passassem ao poste que ilumina a rua da frente do meu prédio.

A razão de tudo isso não habita o lado esquerdo ou direito do nosso cérebro. A razão de tudo isso é apenas o vento que move as cortinas da biblioteca e me dá a esperança de alguma razão que não chegará.

Somos aquilo que não queremos dia após dia. Do contrário, nem existir existiríamos, pois não teríamos qualquer motivo para continuar a viver.

E é isso que pensam os suicidas: passaram a ser o que realmente são e portanto deram um fim às próprias vidas. Enforcaram suas mágoas, cortaram as veias das suas palavras e tudo transcorreu tão simples como um suspiro.

Andar nos cemitérios pode até ter a ver com andar pelos labirintos de um hospital. Mas a tristeza das lápides é muda, enquanto a tristeza dos leitos range dor após dor, desassossego após desassossego.

Se uma senhora de noventa e um anos quebra a bacia ao levantar da cama por conta dos seus ossos porosos, isso é apenas conseqüência da sua existência.

Se um câncer me surgir do nada quando eu estiver no auge de alguma coisa que as pessoas consideram essencial, isso não quer dizer nada também.

Sofrer é a conseqüência de sorrir assim como sorrir é a conseqüência de sofrer.

A vida concorda com a morte na medida em que aceita ser vida. E antes mesmo de sairmos do útero, essa consciência nos habita, ainda que dia após dia procuremos negá-la com compras, amores e artes.

Talvez a única esperança seja a criação.

Talvez a única salvação seja encontrar uma obra-prima no porão de um sebo úmido.

Se alguém saberá que se trata de uma obra-prima, isso dependerá dos olhos desse alguém, os quais poderão mudar de cor de uma hora para outra: do azul ao amarelo e do amarelo ao poste que ilumina a rua na frente ao meu prédio.

A madrugada é a matéria muda das nossas dores.

E o tridente de quatro lâminas sempre estará presente, porque o vento é só vento e nada mais.

10 comentários:

Biba disse...

Eduardo... deixei meu e-mail pra você lá no meu blog, no post de ontem.

Beijo
Carpe Diem!!

Anônimo disse...

Queria encontrar alguma delicadeza nas palavras para pedir o que nenhuma delicadeza ousaria, e não havia, não encontrei, pois havia somente isso, e era duro e direto, assim, como um golpe que não prolonga o corte: por favor, não escreva mais por lá, seja lá quem você for, não me confunda ainda mais, siga em paz.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Caro Anônimo. Gostaria que você prestasse a devida identificação para que eu "não escreva mais por lá" seja onde for este "seu lá", visto que, pelo teor das suas nobres palavras, não sei se as tenho como elogio ou críticas, e, portanto, confuso fico, disposto, entretanto, a espalhar mais e mais pela rede internáutica meus vastos e rasos pensamentos, considerando-se que apenas de tal modo as coisas podem resguardar em si alguma evolução real. Com apreço e respeito, aguardo a devida resposta, igualmente respeitosa qual a sua manifestação. Eduardo.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

E Biba, quando eu chegar em casa há noitinha pego seu e-mail, moça. Um beijo e carpe nuit também viu!

Biba disse...

Ok, vi seu recadinho.
Beijo beijo

Anônimo disse...

Cara, tuas viagens tem sido parecidas às do mergulho do piloto americano no rio... por que parece não terem outra alternativa... Você deseja ser escritor: tens todo o chão pela frente, és jovem. Sugiro que faças umas oficinas literárias. Para mewrgulhar com mais técnica e perspicácia!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Caro Anônimo. Agradeço suas dicas e quando tiver condições com certeza irei por tais plagas. Entretanto não entendo o porquê do fato de você falar tais coisas e ainda assim ser Anônimo. Caso queiras se identificar, por favor, fica meu e-mail para contato, uma vez que gosto de saber com quem eu falo, ainda que falem o que falarem de mim ou da minha escrita. O e-mail e MSN são eduardo7frizzo@hotmail.com. Ah, e só um adendo: o que faço não tem nada de viagens, porque ainda que por vezes pareçam desprovidas de qualquer sentido, se eu for explicar cada linha, sai uma tese, o que não quero fazer pelo menos em termos literários. Que sou jovem e este blog é uma tentativa de ser escritor, isso é fato. Que tenho humildade para reconhecer meus possíveis erros, isso também é fato. Espero que essas claridades tirem vocês das sombras do anonimato. De qualquer modo, um abraço.

pensar disse...

Que lindo isso:
A vida concorda com a morte na medida em que aceita ser vida.

Sim comentarios anonimos sao como o silencio, um pedestal diante da pequenez humana, um esconderijo diante da verdade, uma falta de verdade, uma falta de aceitacao.
Bjs

Anônimo disse...

Só para dizer que o primeiro anônimo não é o segundo. Eu, o primeiro anônimo, escreverei ao seu e-mail.

dione disse...

Foi muito bom o seu texto PELA MARQUES DO HERVAL.Eu gostei muito. Parabens!