domingo, 30 de novembro de 2008

"saiba tudo sobre a nova moda das lingeries", leio em um anúncio qualquer, o que de imediato me provoca riso.

andre netto.
"saiba tudo sobre a nova moda das lingeries", leio em um anúncio qualquer, o que de imediato me provoca riso. por quê? ora, se a lingerie é uma moda, é uma moda pra ser mostrada pra quem? a resposta é clara: aos parceiros e parceiras das mulheres (ou homens, vá saber), que usam as lingeries. entretanto, desde quando um homem, por mais múltiplo que seja em seus relacionamentos, irá olhar para a parceira de lingerie e dizer: "hum! você está na moda! é a última tendência em milão!" isso seria tão ridículo que a mulher certamente iria brochar instantaneamente. então me pergunto: por que conhecer a nova moda ou a última tendência em lingeries? sinceramente não entendo. até acredito que o estudo da evolução das lingeries possa provocar algum conhecimento da evolução da moral com o decorrer do tempo. afinal, de cintos de castidade passamos para a castidade alguma. entretanto, fico imaginando o que se passava na cabeça dos marqueteiros que formularam o dito anúncio. vejo eles em uma sala ampla, espelhada de vidros, discutindo a questão do anúncio em uma longa mesa de cedro (aliás, o cedro ainda está na moda?). "acho que temos que colocar o adjetivo 'nova' antes do designativo 'moda' para o substantivo 'lingerie', diz um moleque de cabelo lambido com a camisa fechada até o pescoço. "você quer dizer que devemos dizer que a calcinha é nova e o sutiã é novo pra que leiam o anúncio e corram pra loja?", pergunta um senhor na ponta de mesa, este a cara bonachona de um cidadão de bem e um bigode anos setenta. "é exatamente isso", responde um sujeito que sentava na frente do moleque de cabelo lambido. "tudo bem", prossegue o senhor da ponta, "mas por que dizer que a moda é nova se é moda de calcinha e ninguém além dos maridos e namorados dessas mulheres é que verão essa calcinha?" o sujeito da frente do moleque dá de ombros e olha para o moleque com olhos de inquisidor. este, por sua vez, respira fundo e articula sua fala de maneira pausada e explicativa, como se estivesse alfabetizando seus interlocutores. "bom, acontece o seguinte. se posicionarmos o 'substantivo' lingerie sem o adjetivo 'nova' relacionado ao designativo 'moda', nossa venda, ou melhor, nosso percentual de chance de chamar atenção das leitoras do anúncio será reduzida. e por quê? vejamos o seguinte. as mulheres geralmente não tem lá muitos escrúpulos ao comprar lingeries. temos de convir que essas vendedoras de sacolas, aquelas que vão de escritório em escritório, de apartamento em apartamento vendendo lingeries, as quais são as principais fomentadoras da nossa marca, provam essa tese. as vendedoras quase sempre vendem seus produtos a múltiplas clientes ao mesmo tempo, sejam elas colegas de escritório ou vizinhas de apartamento. nesse sentido, as mulheres discutem sobre as lingeries e abrem as peças, sejam pequenas ou grandes, uma na frente da outra, isto quando não experimentam e por vezes perguntam a opinião das outras sobre a peça. claro que não tenho como provar isso, mas alguns relatos me levam a esta evidência. desta maneira, por certo que as mulheres, detalhistas que são, precisam notar as diferenças das lingeries do ano passado para as lingeries deste ano. caso elas não notem essas diferenças, as quais foram implantadas deliberadamente por nós na empresa, como já discutimos algum tempo atrás, o objeto, ou seja, a lingerie, não estará concatenado com o sujeito, ou seja, a mulher, a qual, por ter uma percepção detalhista, precisa de detalhes no objeto que aticem essa sua percepção e assim a levem a uma identificação com o produto. desta forma, o adjetivo 'nova' não está relacionado a quem irá ver a lingerie na mulher ou não. ao contrário, está relacionado a mulher que irá ver a lingerie de um ano e comparar com a lingerie do outro ano, isto a partir de um detalhe que pode estar, como fizemos neste ano, no tipo de renda usada. entretanto, é de se atentar para outro ponto. e qual ponto? vejamos. o adjetivo 'nova' relacionado ao designativo 'moda' que aponta para o substantivo 'lingerie', estão alocados em relação ao verbo 'saber' na primeira pessoa do plural relacionado ao evocativo 'você', isto por conta do 'saiba'. e por quê? ora, se usássemos o imperativo 'conheça', este teria a matiz de 'ordem', e como na sociedade atual a sugestão vale mais que a ordem, de modo que a mesma pode travestir uma ordem quando posicionada em determinado contexto, preferimos usar o 'saiba' ao invés do 'conheça' para que a mulher possa 'saber' e não 'conhecer' algo que lhe é apresentado." após esta explanação, o moleque de cabelo lambido tomou um gole d'água enquanto o senhor da ponta e o sujeito da frente do moleque se olharam com olhos de admiração. porém, o senhor da ponta, sujeito lá dos seus cinqüenta e poucos anos, couro acostumado com peles vá saber de quantas mulheres, fez um questionamento. "olha, eu concordo com você. mas pra mim 'saiba' e 'conheça' são palavras muito próximas e ambas são, como você disse, imperativas. lembro que imperativo é ordem. portanto, tanto 'saiba' quanto 'conheça' são ordens e ambas implicam em ordens. e aí te pergunto: isso não derruba tua teoria?" o moleque pensou, olhou pra cima, desabotoou um botão da camisa, respirou fundo e enfim falou. "olha, eu já sabia disso. mas a partir de um teste constatei que mesmo falha conceitualmente, minha teoria se sustenta no plano empírico." "fale mais sobre isso", rebateu o senhor se interessando pelo assunto e lembrando, lá do fundo da calota craniana, que empírico tinha a ver com real e real tinha a ver com pele e pele tinha a ver com coxas e tudo o mais. "bem", disse o moleque um tanto acanhado, "já que o senhor quer saber vou falar. acontece o seguinte. você tem duas frases pra direcionar a uma mulher. a primeira é assim: conheça o fato de que tenho uma tendência enorme a desejar você. constatei que essa frase não provocava absolutamente nada nas mulheres, isto por conta de noventa e oito testes em um grupo de cem mulheres. pensando nisso, decidi abdicar da logicidade da frase e partir para a incongruência da afirmação. desta maneira, em um contexto de cem mulheres, consegui o que queria em noventa testes." o moleque concluiu meio que de supetão, tentando esconder que tinha mais o que falar ou talvez sem querer dizer o mais que tinha pra falar. o senhor da ponta, já percebendo o que vinha adiante, riu pro sujeito da frente do moleque e perguntou: "mas o que você queria e qual era a frase?" o moleque percebeu que os dois jogavam com o seu caráter introvertido, com sua propensão científica. mas como se tratavam de chefes, decidiu colocar os pingos nos is e prosseguir com sua análise com o máximo de cientificidade possível. "quanto a primeira pergunta, minha intenção era engendrar motivos ao coito em ambientes de badalação noturna que existem nessa cidade. quanto a segunda pergunta, minha frase era a seguinte: saiba que eu tô com um puta tesão por ti, seguida do nome da mulher. nas minhas constatações, percebi que a vulgaridade dessa frase, ainda que dissociada da logicidade e do cunho gramatical prementes, funciona muito melhor, visto que atenta para a demanda das freqüentadoras destes ambientes de badalação noturna desta cidade." "mas tu comeu alguém assim?", perguntou o senhor da ponta, já feliz com a sacanagem pra qual rumava a conversa toda. "olha", começou o moleque, "na verdade consegui promover as condições necessárias para o coito em noventa testes, sendo que o coito em si só se concretizou em três, e isto pelo efeito de outra frase, variação da primeira, a qual empreguei juntamente com um olhar diferenciado e com certas tendências gestuais já no final da pesquisa, isto porque precisava de dados empíricos confiáveis para dar fundamentação ao que me propunha entender." o moleque parou e notou que teria que continuar, ainda que não quisesse. e continuou: "a frase é a seguinte: tô louco pra te comer sua safada, sem vírgula entre uma e outra locução." o senhor olhou para o moleque de cabelo lambido e deu uma risada gostosa. "mas que coisa mais idiota essa tua pesquisa! eu desde sempre soube que mulher gosta é de putaria! e ainda dizem que homem que é tarado! o caramba que homem é tarado! mulher sim que é bicho tarado!" e nisso todos acabaram caindo no riso, até mesmo o moleque de cabelo lambido que inicialmente estava receoso com a sua fala. e fim. entretanto, essa historieta prova alguma coisa? essa teoria que o moleque de cabelo lambido da história engendrou nos diz algo? certamente que não. aliás, talvez até diga, mas só na primeira parte da mesma, pois na segunda, quando ele tentou logicizar sua constatação empírica para a elaboração do anúncio, caiu em contradição, isto porque 'saiba' e 'conheça' são correlatos. e empregados nos sentidos em que o moleque empregou, 'saiba' e 'conheça' jamais surtiriam o efeito desejado, já que desejo algum começa pelo conhecimento, convenhamos. e quem sabe somente aí podemos entender o porquê do tal anúncio que falei inicialmente, sendo que se desejo algum começa pelo conhecimento, anúncio algum começa por uma lógica formal que se abstenha daquilo que a subjetividade carrega de mais profundo, que é justamente o impulso sexual. para conhecer este impulso é necessário sim ter posse de algumas noções empíricas relacionadas por meio da lógica. mas após essas noções, é preciso mergulhar em uma outra lógica, que é justamente a lógica do inconsciente. esta lógica, por sua vez, é completamente dissociada da lógica formal. sendo assim, não reconheceria para fins de consecução do impulso sexual palavras como 'saiba' ou 'conheça', isto via de regra, frise-se. outrossim, reconheceria apenas palavras de cunho direto, de cunho físico, que apontassem diretamente para os objetivos ao qual rumavam, o que aconteceu justamente com a experiência do nosso moleque de cabelo lambido. e dizer isso implica em algum preconceito para com as mulheres? de maneira alguma! ao contrário, somente estou traçando digressões em torno de um anúncio qualquer. tais digressões, antes de suscitarem qualquer preconceito, apenas apontam o fato de que homens e mulheres nunca irão se entender. ou melhor: que nós, homens, nunca iremos entender plenamente as mulheres, por mais que exista o chico buarque que é uma exceção à regra. mas desse desconhecimento, desse não ver porquê no anúncio do qual falei, é que surge justamente a atração e a vontade de conhecer as ditas lingeries, sejam novas ou antigas, que as mulheres irão vestir. afinal, mais vale uma renda nova do que uma renda viciada por dez anos de casamento, pois nem que seja da marca do tope que arrancamos iremos lembrar. assim, "saiba tudo sobre a nova moda das lingeries" é um anúncio perfeito, pois imperfeita foi minha lógica ao tentar racionalizar o tesão. afinal, o tesão é a chave do tesão.

sábado, 29 de novembro de 2008

fico triste toda vez que lembro que o fausto wolff morreu.

fausto wolff.
fico triste toda vez que lembro que o fausto wolff morreu. aliás, nem é questão de ficar triste, pois uma parte de mim será para sempre triste desde que o fausto wolff morreu, mesmo que esse para sempre encontre ponto no meu fim. escritor como ele não existe mais. pessoa como ele, que saiba o valor do outro mas ao mesmo tempo saiba a mediocridade da quase totalidade dos outros, dificilmente será atualmente além de uma mera consciência dos fatos (consciência essa que dificilmente irá para o sentimento, coisa que no fausto ocorria). certa vez mandei pra ele uns poemas que havia escrito, coisa de cinco anos atrás. ele me respondeu quase que prontamente, dizendo que eu tinha jeito pra coisa, o que talvez fosse ruim pra mim, já que podia ganhar dinheiro fazendo algo melhor. nunca me esqueci e nunca me esquecerei disso, sendo que outra tristeza me vem quando me dou por conta de que não guardei esse e-mail que ele me enviou. mas de quê adiantaria guardá-lo? para um dia dizer que o fausto wolff chegou a ler meus escritos? não, isso não vale nada. mais vale dizer que um dia de certo modo pude conversar com o fausto wolff, ainda que essa conversa tenha sido intermediada pela web. mais que isso, aliás, vale dizer que o fausto wolff existiu, que escreveu livros, que andou por aí, que teve várias mulheres e amigos, que foi um sujeito do tipo que não mais existem ou existirão. fausto wolff quem sabe tenha sido fruto de um tempo único, coisa que nosso tempo não mais é capaz de produzir. quer cortando sua biografia com fantasias, como fez com a mão esquerda, quer traçando poemas ao rio grande do seu nascimento, como fez em gaiteiro velho, escritores como o fausto, com a sensibilidade despreocupada do fausto, com a intelectualidade não-falseada do fausto, dificilmente voltarão a existir. e o estranho é que não fico triste ao pensar nisso e mesmo ao me contradizer racionalmente ao pensar nisso, pois pelo menos o fausto existiu e a parcela dele que irá ficar está presente nos seus livros, está presente no amor pela humanidade que escorre dos seus escritos. amor esse, porém, que não existe desprovido de crítica, sendo que apesar de ser romântico em seu comunismo declarado, o fausto era sim um comunista desiludido. não sei porquê isso me ocorre agora: não sei porquê penso nisso após ter chovido, mas o fato é que o calor desse sábado e a chuva que recém cessou me remetem ao fausto. ainda que estivesse escutando o jethro tull e seus quês de pã, tudo isso me lembra o fausto. quem sabe seja foz do quase-dezembro, quem sabe seja sal de uma emoção momentânea ao me dar por conta mais uma vez que uma parcela de mim será para sempre triste desde que o fausto morreu, pois existem pessoas que basta sabermos que estão vivas para nos darem certa alegria. contudo, mesmo que tudo isso me ocorra agora, mesmo que eu saiba que a qualidade dessas minhas frases é pra lá de rasa ao se direcionar a uma pessoa como o fausto, o que me causa repulsa ao sentir isso é saber que muitas pessoas irão referir sua escrita como paradigma ou algo do tipo. ora, fausto não é paradigma pra nada! e mais: ninguém é paradigma pra nada! pessoas são pessoas e não paradigmas, quanto mais pessoas que produziram uma obra como a do fausto. apesar de seres humanos dessa raça serem poucos, estes homens e mulheres não devem se prestar a bandeira de qualquer causa, a hino de qualquer religião. ao contrário, estes homens e mulheres devem ser aquilo que impulsiona mas freia qualquer causa, aquilo que incita mas critica qualquer religião. neste sentido, homens e mulheres como o fausto, mesmo que raros, jamais devem ser encarados como paradigmas pra nada, jamais devem ser encarados como modelos pra algo, porque mesmo mortos, porque mesmo inexistindo entre nós, continuarão com sua obra e palavras pela eternidade entre nós. e dessa obra, e dessas palavras, escorrendo humanidade e sentimento, escorrendo uma consciência filtrada pelo reconhecimento do outro, pela paixão desiludida pelo outro, talvez no máximo nos toque essa melancolia de verão, esse arrebatamento para baixo que hoje me assola. desse sentimento, dessa pulsão, entretanto, é possível que algo surja, é possível que alguma criação venha do nosso peito e mente. porém, esta criação não existirá por conta da influência de um paradigma, mas sim por conta da existência de uma pessoa, porque é da vida que nascemos e não das palavras, ainda que só possamos dizer essa vida na forma de palavras. ter consciência disso, desse movimento, desse ciclo que todos nós atravessaremos, dessa tendência para o fim que cada amanhecer nos traz, talvez seja uma das lições que possamos nos dar sem que tenhamos de ouvir alguém falar. contudo, ainda que não tenhamos que ouvir alguém falar, talvez tenhamos que ler, talvez tenhamos que sentir essas questões surgindo de um texto, de um romance, de um poema. sentindo isso, tomando contato com essa vivacidade estranha que surge das palavras, estaremos tomando contato com aqueles que escreveram estas palavras, estaremos conversando com aqueles que escreveram estas palavras. assim, é preciso ter a consciência de que walt whitman está entre nós e é preciso também a ter consciência de que fausto wolff continua entre nós. apesar disso, é preciso ter a tristeza de que estas pessoas não mais existem e o que ficou foi sua obra. essas pessoas, porém, ao contrário do que ocorre com a maior parte dos auto-intitulados artistas atuais, foram na sua obra e não o contrário, de modo algum fazendo com que essa se dissolvesse ou se separasse da sua vida, o que lhes trouxe a eternidade. essas pessoas, desta forma, foram uma obra, pois sua vida e sua obra foram completamente indissolúveis. não existe como dizer que existiram dois whitmans ou dois wolffs. não existe como dizer que um escritor se divide em fases ou algo do gênero. por que estruturar algo que será pretificado se estruturado? por que não simplesmente aceitar o movimento, o ciclo dessas pessoas, e saber que suas palavras continuam? sim, eu me sinto triste ao saber que o fausto wolff morreu e ao saber que nunca poderei conversar com o walt whitman. porém, eu também me sinto feliz ao saber que pessoas assim existiram e que existem pessoas que atualmente estão sentindo o que essas pessoas sentiram através da obra dessas pessoas. ainda que palavras jamais possam ser exatas representações de sentimentos, a existência de palavras nos dá o presente da única realidade acessível aos seres humanos: a realidade da linguagem. e quem consegue construir um mundo na linguagem, quanto mais um mundo que tenta ir para além dessa linguagem, quebrando a barreira da razão e encontrando o pulso do coração, merece nossa lembrança contínua e nosso riso entristecido por saber que pessoas assim são raras. o que fazer diante disso? o que sentir diante disso? talvez seja necessário apenas viver e tentar ser. e se fico triste cada vez que lembro que o fausto wolff morreu, fico feliz cada vez que lembro que estou vivo. mas há como lembrar da própria vida estando vivo? aí está a beleza do texto, aí está a altura das palavras, a qual não existe de maneira hierárquica: a qual existe em nós e para nós, fazendo com que morte e vida sejam questões inexistentes no universo que a humanidade pode erguer na linguagem. pois afinal das contas, mesmo que com outras faces a cada leitura, wolffs e whitmans nascem e morrem a cada instante das nossas vidas. goethe disse certa vez: “de que adianta o eterno criar se a criação em nada acabar?”. acredito que ele se referia a pequenez do ser humano diante da ilimitude da criação. ocorre, porém, que quando nos tornamos obra ao invés de criarmos simplesmente, ilimitude e limitude se mesclam em uma intersecção que ergue a genialidade. e por mais que não mais possamos existir quando nosso corpo se desgastar, ficaremos nos olhos dos outros e na lembrança dos outros, persistindo enquanto palavra e texto apenas por conta dos outros. se os outros são medíocres, talvez possamos reverter isso. se não conseguirmos, mesmo mortos tentamos, apesar de não mais sentirmos. entretanto, creio que o fausto diria que é uma bobagem isso que estou falando. afinal, ele não mais existe e isso é tudo. a tristeza disso preenche tudo assim como o absurdo disso é tudo. mas se a tristeza e o absurdo disso são tudo, o fato de termos nos revoltado contra isso e por isso erguido um mundo de palavras, ao menos ameniza a não-razão do existir, a incongruência do ser, como talvez diria o camus. não amenizará, por certo, para quem existiu e ergueu esse mundo de palavras, pois mesmo calados sua revolta continua na boca dos outros. porém, talvez isso apenas nos faça comprovar o que há pouco disse: mesmo que com outras faces a cada leitura, wolffs e whitmans nascem e morrem a cada instante das nossas vidas. e isso é o que podemos chamar de eternidade: uma revoltada eternidade que calou mas persiste quieta em palavras para a qualquer momento explodir. e quem duvidará que wollf e whitman não mais existem assim? a absurdidade do fim com certeza pode anular essa afirmação, mas é necessário esse romantismo desiludido, essa certeza da ausência de fim para quem cria, para que possamos não apenas suportar a existência, mas beber da existência justamente a partir dessa constatação. afinal, uma parte de mim para sempre será triste desde que o fausto wolff morreu, mas essa tristeza um dia irá acabar. antes desse fim, porém, eu estarei vivo. e isso é tudo porque respiro e sinto, e isso é tudo porque me alimento e sou e porque diante do meu coração que ainda não parou, tenho a chance inadiável da aposta do infinito a partir da persistência da palavra.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

se sinto, tenho um sentimento.

salvador dalí.
se sinto, tenho um sentimento. se penso, tenho um pensamento. logo, pensamento e sentimento são expressões de movimento. porém, se partirmos do fato de que todo movimento tem que ter um impulso, qual foi o impulso dos nossos pensamentos e sentimentos? ou melhor: quando passamos a sentir e pensar e fizemos com que este binômio se tornasse uma constante tão forte em nossa existência de modo que não pudesse ser compreendido fora do eixo do movimento? tais questionamentos remetem invariavelmente ao próprio nascimento. ainda que existam diversas teorias que apontam para a formação da personalidade nos primeiros anos de vida, é fato incontestável que desde os primeiros instantes extra-uterinos já concebemos, quando da nossa relação com o mundo, pensamentos e sentimentos. se tomarmos por norte a premissa de que o choro dos bebês ao serem retirados do ventre materno exprime apenas um instinto de dor, de estranhamento para com um ambiente desconhecido, por certo não poderemos conceber o fato de que pesquisas atuais apontam que mesmo no ambiente intra-uterino os bebês sonham. neste sentido, se há a constatação de que os bebês sonham no ventre da mãe, a suposição inicial aqui apresentada de que o sentimento e o pensamento começam com o nascimento cai por terra. e por quê? pelo simples fato de que existe o sonho no feto. neste rumo, redundamos em outro questionamento: o que é o sonho? o dicionário que tenho em mãos aponta em primeiro plano que o sonho é um "conjunto de imagens que se apresentam ao espírito humano durante o sono". porém, é de se reconhecer que esta definição complica ainda mais a busca por uma resposta. tal complicação se dá pelo fato de que a mesma traz em si a idéia de "espírito", a qual, por sua vez, sempre remete a uma idéia de subjetividade, ainda que esta, pelo menos na concepção religiosa, esteja ligada a uma noção de imortalidade e infinitude, visto que se vê no espírito a substância do próprio ser humano. o espírito seria, desta forma, algo como a água que se conforma ao copo, considerando-se que este copo é o nosso corpo físico, e o espírito, pela sua natureza imortal e infinita, nosso corpo fluido já que inerente a água. mas se o copo é inerente ao corpo porque físico e o espírito inerente a água porque fluido, a propriedade da subjetividade do espírito ainda se sustenta, mesmo que se parta de uma noção metafísica para buscá-la. essa sustentação se dá pelo fato de que a noção de espírito comporta a noção de vida subjetiva, de vida além-corpo ou intra-corpo no sentido não-fisiológico, visto que este transcende a matéria mas se conforma a ela. e se o espírito é a propriedade do ser humano que transcende a matéria mas que se conforma a ela, que está, enfim, contida no ser humano, pode-se dizer que o espírito, tendo a subjetividade como atributo intrínseco, é dotado de pensamento e sentimento - ou seja: é dotado da capacidade de sentir e pensar. conseqüentemente, deve-se reconhecer que, se os bebês no ventre materno tem a capacidade de sonhar, esta capacidade é correlata a presença do espírito, ainda que este espírito, dotado da capacidade de sentir e pensar, tenha sua presença restrita a um ambiente diminuto - ou seja: a placenta da mãe. desta maneira, é de se constatar que apesar de afirmado e refutado o fato de que o impulso do pensar e do sentir é o nascimento, o mesmo se sustenta como alargamento do pensar e do sentir no sentido de propiciar relações intersubjetivas, já que estas relações apenas podem se dar quando o bebê passa da vida intra-uterina para a vida extra-uterina. porém, é de se reconhecer que a própria noção de intersubjetividade não dá conta desse alargamento, uma vez que é fato incontestável que as ações da mãe afetam o feto que carrega no ventre. deste modo, mesmo que restrito ao ambiente diminuto da placenta, o feto já tem alguma vida intersubjetiva, considerando-se o fato de que tanto o feto quanto a mãe são dotados de espírito e de subjetividade e portanto da capacidade de sentir e pensar, ainda que o primeiro tenha uma capacidade reduzida dessa percepção porque adstrita a uma rede intersubjetiva diminuta composta por apenas dois sujeitos - mãe e filho. assim, o que ocorre com o nascimento é um alargamento da capacidade de sentir e pensar porque uma relação que anteriormente era restrita ao espaço diminuto da relação entre mãe e filho, ganha um status intersujetivo infinito, já que prenhe de todas as possibilidades que o mundo, as pessoas e as coisas podem oferecer. e por quê se diz do mundo, das pessoas e das coisas? porque o mundo, as pessoas e as coisas somente se apresentam a nós enquanto plano lingüístico, por mais que se reconheça que é na esfera pré-lingüística que a própria personalidade é formada. neste sentido, deve-se afirmar que quando nascemos estamos justamente nessa esfera. no momento em que os médicos nos retiram do ventre da mãe, no momento em que a luz pela primeira vez toca nossos olhos, travamos um primeiro contato com o mundo que nos provocará sensações diversas. sendo assim, se parto do princípio de que uma sensação é um dos fatores capazes de propiciar um sentimento, invariavelmente terei um primeiro sentimento com relação ao mundo, às pessoas e às coisas que a mim se apresentam a partir do instante do nascimento. desta forma, de sentimento em sentimento, de sensação em sensação, minha capacidade de compreender o mundo irá ao poucos se amoldar ao próprio mundo. e se o mundo que se apresenta a mim somente se apresenta compreensível no plano lingüístico, é a verbalização daquilo que sinto através das minhas percepções fisiológicas concatenadas com minhas conseqüentes expressões psicológicas, que irá fazer com que eu me integre nesse mundo. se o copo era o corpo físico que abarcava o espírito fluido na comparação acima feita, a linguagem é o sistema de pensamentos que irá encadear nossos sentimentos de idêntica maneira. porém, é necessário que aqui se diga que não se está a falar da linguagem no âmbito estrito. ao contrário, a noção de linguagem ora empregada está para a concepção semiológica no sentido de que toda expressão é o sintoma de uma sensação ou de uma doença, isto para aduzir a noção sustentada pela medicina. se toda expressão é um sintoma, toda expressão é um sinal. do mesmo modo, nosso sinal de existência na intersubjetividade do mundo é a linguagem, sendo que na raiz da mesma se encontra o sentimento. desta maneira, percebe-se que há uma ligação direta e indissolúvel entre sentimento e linguagem e por conseqüência entre sentimento e pensamento. se apenas posso pensar por meio de sinais lingüísticos que somente são lingüísticos porque reconhecíveis por meus pares, já que o pressuposto da língua é a co-munidade co-municativa que por sua vez gera o co-nhecimento, conceitos que trazem em si a própria presença do outro, meus pensamentos estarão em ligação direta com meus sentimentos, isto porque apesar dos segundos serem anteriores aos primeiros, aqueles não podem se expressar sem estes. quando acaso existe a expressão daqueles sem estes, a reação normal do corpo social é a etiquetação da doença mental, já que existem referências que não encontram referenciais no sentido de que existem sentimentos que não encontram pensamentos, encarando aqui o pensamento como expressão lingüística que pode se dar mesmo no formato gestual ou comportamental, já que todo gesto ou comportamento também implicam em um sinal. porém, ainda que esse raciocínio seja plenamente aceitável partindo do plano da simples lógica, ele ainda não explica a pergunta inicial: qual foi o impulso dos nossos pensamentos e sentimentos? o que fizemos acima foi, outrossim, apenas constatar que com o nascimento, este considerado como a passagem da vida intra-uterina para a vida extra-uterina, há o alargamento da subjetividade, a qual, partindo dos vetores inicialmente sentidos, irá aos poucos construir sua fala sobre estas sensações para então se apossar da própria linguagem, a qual se configura como o modo de expressão humana no mundo, do mundo e por conseguinte de si mesma, já que a expressão humana somente é no mundo. esses vetores sentidos, por sua vez, quando expressos lingüísticamente, é que irão construir sentidos, o que somente reitera o argumento de que o sentimento precede o pensamento na medida em que a emoção precede a racionalidade, uma vez que aquilo que é sentido que possibilita o sentido e não o contrário. sendo assim, contudo, a pergunta que inicialmente propomos fica vazia, pois o que constatamos foi apenas dois movimentos do binômio formado entre pensamento e sentimento inicialmente proposto, visto que o impulso do movimento não pôde ser alcançado. neste sentido, se o impulso deste movimento não pôde ser alcançado, quem sabe seja necessário partir do fato de que o próprio óvulo já carrega os atributos de uma individualidade e contém em si uma certa autonomia enquanto repositório da possibilidade de vir-a-ser humano se submetido às condições necessárias - ou mesmo se porte as condições necessárias, já que existe a possibilidade da disfunção genética, a qual pode provocar, por exemplo, a anencefalia. partindo daí, entretanto, regressando mais e mais na cadeia evolutiva de quem somos e de como chegamos a ser quem somos, iremos alcançar um ponto que não mais nos possibilitará regressar. a impossibilidade desse regresso acontece porque se dividirmos as fases do óvulo em partes cada vez menores, a seqüência do desenvolvimento desse óvulo que traz consigo a possibilidade de vir-a-ser humano será infinita, já que os estágios de tempo serão cada vez menores. e quanto menores os estágios de tempo, menores nossas percepções desse tempo, uma vez que infinitamente repartida. assim, a solução adotada poderia ser regressarmos ao próprio estágio da fecundação em que se dá o encontro dos gametas feminino e masculino. encontrando-se aí, porém, nossa possibilidade de encontrar respostas iria se diluir em uma infinidade de possibilidades maior do que a própria divisão das fases ovulares, de modo que o respaldo para o próprio fundamento do pensamento e do sentimento se tornaria de impossível alcance. mas aqui cabe uma digressão: se buscamos um respaldo do sentimento e do pensamento mas aceitamos que esse respaldo é um impulso que fez com que surgisse um movimento, acaso estamos buscando um fundamento? se tomarmos por norte o fato de que um fundamento é a "base" ou o "alicerce" de algo e de que um impulso é um "estímulo" ou "abalo", chegaremos a noção de que o fundamento que buscamos não está para o próprio impulso que almejamos pelo simples fato de que este impulso já implica em um movimento. logo, se no ato da fecundação há a possibilidade de infinitas combinações e na própria evolução do óvulo no ventre materno acontece o mesmo, veremos que o movimento é inerente à própria raiz daquilo que somos. portanto, se o movimento é inerente a própria raiz daquilo que somos, sendo que o fundamento está fora do questionamento abordado e perseguimos o impulso, é de se reconhecer que este impulso, implicando em um "estímulo" ou "abalo", já indica um movimento. ora, se o impulso já indica um movimento e se o movimento se encontra na raiz daquilo que somos, a própria possibilidade de alcançar o impulso do sentimento e do pensamento se torna impossível, uma vez que para tanto teríamos que regredir infinitamente na linha evolutiva da própria vida e por conseqüência do próprio universo, chegando por fim a singularidade que deu origem ao cosmo. contudo, se tomarmos por guia o fato de que mesmo chegando aí encontraríamos evidências de que o cosmo que conhecemos talvez consista em um universo em um mar de vários universos, conforme propõe as mais recentes teorias quânticas, veremos novamente que o impulso, ainda que se aceite a teoria do big bang em seu formato clássico, não pode ser alcançado. porém, se o impulso não pode ser alcançado, o que se alcança é a própria pulsação, esta tida como "ato ou efeito de pulsar", uma vez que o movimento do cosmo que nos deu origem e da própria vida que nos legou a capacidade de sentir e pensar no formato humano, está para uma pulsação contínua cujo impulso inicial não pode ser alcançado, já que aparentemente existe desde sempre ou pelo menos desde um tempo imperceptível à percepção humana. admitindo-se este fato, veremos que tanto o pensamento quanto o sentimento fazem parte de uma pulsação contínua daquilo que somos mesmo antes de tomarmos contato com o mundo, com as pessoas e com as coisas. é de se dizer que talvez nessa constatação resida a origem de toda a teologia, pois se tal é admitida como verdadeira, o próprio pensamento e o próprio sentimento implicariam em uma eternidade que estaria para o âmbito divino. contudo, partindo do fato de que uma divindade implicaria em um ato criador e o próprio impulso criador não pode ser alcançado visto que perceptível apenas enquanto pulsação, este raciocínio não mais seria válido, visto que esbarraria em uma tentativa de responder limitadamente a ilimitude de um questionamento que em sua própria origem demonstra essa natureza. desta forma, se respondermos limitadamente um questionamento ilimitado, estaríamos sendo incoerentes com a próprio questionamento, uma vez que tal implicaria na adaptação de um gênero sob uma espécie que de modo algum pode abarcar. assim, se sentir implica em um sentimento e pensar implica em um pensamento, tanto um quanto outro implicam em uma pulsação, em um "batimento" e um "pulso" que é diretamente relacionado ao "movimento de contração e dilatação do coração e das artérias". ao contrário destes, porém, mesmo que se admita que o sentimento e o pensamento em um dado momento terão de cessar em razão da própria finitude humana, o questionamento acerca do movimento de tais questões jamais poderá cessar, visto que a pulsação lhes é inerente. no mesmo sentido, talvez aí se encontrem as origens da própria noção de imortalidade do espírito inerente a grande parte das culturas conhecidas, isto porque não cessando a pulsação das questões acerca do sentimento e do pensamento, visto que estes são atributos da subjetividade que é por sua vez correlata ao espírito, o próprio espírito não poderia cessar, sendo dotado, portanto, de eternidade. porém, admitindo-se que a linguagem já existe no mundo antes mesmo de nascermos e que é ela que irá continuar existindo após morrermos, considerando-se ainda que é ela que se conforma ao que sentimos para organizar o que pensamos, o que se constata é que a linguagem que nos é transmitida quando nascemos é que carrega o questionamento acerca da origem do sentimento e do pensamento. desta forma, é a carga histórica dessa mesma linguagem que faz com que o questionamento persista mesmo após a nossa morte, considerando-se que nossas virtuais contribuições a tal questão irão redundar em outras questões em uma pulsação infinita, talvez limitada por um movimento do cosmo que faça com o universo A entre em choque com o universo B e promova o surgimento do universo C, o qual será o resultado de A+B, isto para adentrar no plano hipotético da própria teoria quântica. entretanto, mesmo aí haveria a persistência da pulsação, sendo impossível encontrar qualquer impulso fora desse movimento que não iniciou, aparentemente, em instante algum, visto que apenas pulsa. logo, o binômio formado pelo pensamento e pelo sentimento não pode ser compreendido fora do eixo do movimento, pois nós somos a carnalidade do verbo.

arte não é entretenimento.

francis bacon.
arte não é entretenimento. mas talvez me chamem de purista ao dizer isso. afinal, a arte quem sabe seja uma forma de entretenimento. porém, é necessário dizer que arte não é entretenimento para que seja repensado (ou pelo menos pensado) o papel da arte na sociedade. aqui entra outra questão: por que a arte tem que ter um papel na sociedade? a arte não pode existir independente de sua atuação no ambiente social? cabem algumas linhas para perseguir uma resposta, ainda que, mesmo encontrada, ela tenha que ser puxada pelos cabelos para dizer alguma coisa. em primeiro lugar, creio que o papel da arte na sociedade é o mesmo papel ocupado por um texto qualquer em um contexto social. se um texto precisa de um contexto para enunciar sua fala, a arte também precisa de um papel, de um lugar na sociedade, para dizer o que tem para dizer, e isto pelo motivo de que a arte induz a um conhecimento. este conhecimento, por sua vez, ainda que esteja adstrito ao viés puramente individual daquele que frui a obra, sempre implica em uma relação com o outro, em um co-nhecimento, sendo que é neste espaço de relação que a própria obra passa a ter sentido, uma vez que furtada de olhares e interpretações a nenhum sentido se presta, já que desprovida de intersubjetividade. sendo assim, ainda que algumas obras tragam para si o niilismo da ausência de papel social, isto cai por terra pelo simples fato das obras terem sido produzidas por pessoas. se as obras foram produzidas por pessoas, essas pessoas invariavelmente vivem em sociedade, considerando-se que ao menos pelo enlace da obra possuem uma relação com a sociedade e uma fala direcionada a sociedade. entretanto, entre ter uma fala direcionada a sociedade e ter o que dizer a sociedade, existe uma grande diferença. e nisso reside o segundo ponto que gostaria de abordar, uma vez que noto na maior parte das produções artísticas atuais que tenho a oportunidade de conhecer, a figura do criador substituindo a figuração da criação, de modo que isto anula a própria obra. se o criador elabora a criação para que ela seja uma figuração da sua figura, uma representação da sua presença, seja no formato que for, o que ocorre é que, pelo menos pela representação artística, o criador abdica da sua figura em prol da figuração da sua criação. porém, quando o criador necessita de um rol de frases ou conceitos para explicar sua criação, ligando os próprios conceitos ao que criou, o que se tem é uma substituição da figuração da criação pela figura do criador, visto que o ímpeto racional do criador ao incutir conceitos na criação irá fazer com que o sentido desta esteja subsumido a palavras que transcendem esta criação. e por qual fundamento estas palavras trascendem a criação? pelo fato de que ligam a fruição daquele que toma contato com a obra a um conceito que deu foz a própria obra, a uma explicação que subsume a interpretação ao seu filtro, intercedendo com palavras em uma sensação que deveria ser pré-lingüística, já que a verbalização desta sensação deveria se dar em cada um que toma contato com a obra. se o artista subsume sua obra a um conceito, expondo este conceito àqueles que tomam contato com a obra, o que ocorre no máximo é uma experiência intelectual e não estética. e se o artista provoca uma experiência intelectual e não estética, não estará, ao mesmo tempo, provocando uma experiência ética, uma vez que não dialogará de igual para igual com aquele que toma contato com a obra. partindo da suposição de que existe uma relação de poder imanente a própria presença da obra que dá ao artista uma supremacia em relação aquele que toma contato com a obra, se essa supremacia for aceita e a ela for somado um conceito elaborado pelo artista que liga a interpretação da obra ao seu enunciado, a fala da obra, que deveria ser estética, migrará do plano das sensações para o plano da racionalidade, fazendo com que o criador, com seu aparato cartesiano, sobrepuje a obra, a qual, por mais que nascida muitas vezes de uma intuição intelectual, fruto de uma trama de conceitos que pode mesmo migrar para uma ilogicidade que, trabalhada pelo artista, redunda na obra, pode provocar uma experiência estética. e se a obra pode provocar uma experiência estética, ela pode provocar uma experiência ética, pois faz com que aquele que fala através da obra dê espaço para a própria obra falar. havendo espaço para a obra falar, há espaço para o diálogo da obra com aquele que toma contato com a obra, diálogo este que não necessita da coesão de um conceito, da precisão de uma interpretação, já que está para o plano das sensações ao revés do plano das razões. porém, reconhecendo que o próprio reconhecimento de uma obra implica a indicação de uma supremacia do artista para com aquele que toma contato com a obra e somando isso ao conceito que sobrepuja a experiência estética e dá vazão a uma experiência intelectual, o valor da obra de arte enquanto facilitadora ou provocadora de experiências estéticas é anulado, uma vez que um terceiro elemento, caracterizado pelo conceito, se interpõe entre a obra e aquele que toma contato com a obra, fazendo com que este contato não se dê no plano da liberdade, no plano da própria possibilidade de interpretação, mas sim no plano de uma hermenêutica estrita, a qual faz fronteira unicamente com eventual discordância daquele que toma contato com a obra em relação ao conceito e por via obliqua em relação a própria obra. havendo este terceiro elemento, há a figura do criador se colocando em frente à figuração da criação, caracterizando, portanto, um fator que transcende a criação. essa transcedência, porém, apenas acontece quando a obra é colocada aos olhos dos outros, visto que o criador se posiciona como terceiro elemento apenas quando aos olhos dos outros de modo a interceptar a experiência estética com sua repressão racional. isso acontece porque na obra, considerada em seu sentido unitário, desvinculado da intersubjetividade que lhe é inerente quando posta aos olhares dos outros, o próprio artista, o próprio criador reside, visto que ele é a figura que promove a figuração, é a presença que provoca a representação. desta maneira, se o artista se interpõe entre a obra e os outros no sentido de fazer com que sua figura sobrepuje sua figuração, além de travar a própria possibilidade da experiência estética, está ocasionando o retorno da obra ao seu sentido unitário, apenas dando enunciação à própria fragmentação social na qual este mesmo artista vive. por conseqüência, uma arte conceitual terá um papel social limitado à representação dos tempos em que esta própria arte se dá. e se esta arte tem um papel social limitado à representação dos tempos em que esta própria arte se dá, o que ocorre é a impossibilidade da experiência estética e por conseguinte ética, levando-se em conta que uma das características dos nossos tempos é o esvaziamento da esfera ética da sociedade. este esvaziamento ocorre em razão da instrumentalização dos sujeitos planificada pelo sistema econômico, o qual, com suas múltiplas esferas de penetração social, faz com que pessoas se tornem objetos no sentido de serem meios para consecução de um fim maior expresso pelo mercado ou pelo capital. este fim maior, por sua vez, faz o papel de centro metafísico ordenador da sociedade, já que tanto o termo capital quanto o termo mercado se prestam a tantas significações quanto se presta a designação de deus, mudando apenas o foco ao qual cada termo se direciona. esta mudança de foco denota o sintoma do hedonismo, uma vez que se não há a possibilidade de uma felicidade fora dos limites empíricos, a tendência é que esta felicidade seja transformada em prazer. se a felicidade é transformada em prazer, a felicidade é transformada em fugacidade. se a felicidade é transformada em prazer e por conseqüência transformada em fugacidade, o que ocorre é que a própria felicidade se transforma em uma acumulação de experiências de prazer. mas reconhecendo o fato de que uma das características do prazer é a fugacidade, é a temporalidade, o espaço que antes era ocupado pelo paraíso divino agora é preenchido pelo tempo terreno. e se há esse preenchimento que tem por característica a finitude do tempo, a fugacidade do prazer, esta acumulação de experiências de prazer jamais irá dar conta de uma vivência de felicidade fora dos estritos limites do seu tempo. logo, se a felicidade é estrita ao tempo no qual eu sinto prazer, considerando que o espaço do paraíso divino é ocupado pelo tempo terreno, o que acontece é a retomada ou a decorrência de um individualismo que está presente na sociedade desde meados do século XVII, mas que surgiu no campo social, especialmente no âmbito econômico, com o liberalismo propalado pelo século XIX. esta retomada ou decorrência, em um contexto hedonista que não vislumbra a felicidade fora dos limites do tempo, fazendo com que este sobrepuje o espaço, irá incorrer em um caráter individualista exacerbado, uma vez que se não acredito na felicidade fora dos limites do prazer, o que farei é afirmar minha individualidade em busca desse prazer seja ao custo que for. afirmando minha individualidade em busca desse prazer, instrumentalizarei minhas relações de modo a buscar mais experiências de prazer para alcançar a felicidade, o que redunda na própria objetificação dos sujeitos, a qual é bem exemplificada pela fetichização dos corpos característica dos tempos atuais. ora, se uma obra busca tão-somente a representação desse contexto, por mais que esta obra possa promover a sensação de estranhamento, o que essa obra fará será compactuar com esse contexto. compactuando com esse contexto por conta do protagonismo do criador em razão da obra e não o contrário, haverá novamente a afirmação do individualismo e a instrumentalização daqueles que tomam contato com a obra, uma vez que estes, privados do contato com a criação por conta da interposição da figura do criador entre a criação e aquele que observa a obra, terão um papel subsidiário no próprio movimento da obra no âmbito social. este papel subsidiário existirá porque os comentários sobre a obra ou mesmo as conseqüências da obra, no mais das vezes apenas servirão para fomentar o mercado artístico, o qual atualmente atinge a cifra de bilhões de dólares ao ano pelo menos no campo da artes visuais. este mercado artístico marcado pela supremacia do ego em detrimento das relações com o outro, será apenas um reflexo da própria realidade no qual está inserido, uma vez que a substituição do significante da obra pelo significado do conceito, este representando a figura do criador, em nada irá modificar esta realidade, fazendo com que retornemos a questão da razão da arte ter ou não ter um papel na sociedade. antes disso, convém dizer que a substituição da criação pelo criador não se dá apenas no âmbito da arte conceitual, a qual foi aqui abordada. esta substituição, ao contrário, pode ser encontrada até mesmo pela proliferação de uma literatura e de um cinema, por exemplo, que promove ao nível de verdade uma mera representação da verdade. se há essa ausência de demonstração de que a verdade é uma representação, e se há a prepotência de que uma representação seja uma verdade, novamente há a supremacia do criador em função da criação, o que redunda novamente na fragmentariedade, no individualismo e no hedonismo característicos da sociedade atual. desta maneira, acredito que o modo de superar essa crise está para a aceitação da não-razão da própria crise. existe a necessidade da aceitação da não-razão da própria crise porque o mundo sempre esteve em crise, e o que ocorre é tão-somente uma inadequação das narrativas atuais aos protagonistas globais que se apresentam neste contexto. logo, o que devem mudar não são os protagonistas, mas sim as narrativas, já que um tempo caracterizado pelos fatores do fragmento que quer se afirmar enquanto indivíduo em busca da felicidade a partir da acumulação de experiências de prazer, não pode ser abarcado por uma narrativa distanciada deste tempo, provinda de uma suposição iluminista de que a razão supostamente poderia nos guiar. e se é verdade que o tempo ocupou o lugar do espaço, fazendo com que os papéis sejam em função do tempo e não em função do lugar, a não-razão da crise somente se acentua, pois o que deve ser buscado, ao contrário do que atualmente se afirma, não são novas posições dentro de uma estrutura já dada, mas uma nova condição de narrativa desta própria estrutura que nos é dada e que, por estarmos inseridos nela, ajudamos a sustentar. e uma nova condição de narrativa desta própria estrutura que nos é dada, certamente não passa por uma representação dessa própria estrutura, quanto mais se pautada pelo viés individualista característico do senso egoístico da maioria das obras atuais. essa nova condição, paradoxalmente, ao passo em que afirma esse tempo por meio da representação desse tempo, deve transcender esse tempo em direção a um futuro incerto, e por isso não traduzível em palavras. se deve ser buscada essa direção, recupera-se a necessidade da experiência estética enquanto pressuposto da própria vivência ética, visto que se há a preponderância da experiência intelectual, a realocação das próprias percepções daquele que observa a obra não se dará, uma vez que já parte de uma base explicativa. desta forma, partindo de uma base explicativa para se afirmar enquanto obra, o outro é anulado e a fala do artista é unilateral assim como é unilateral a fala do mercado e do capital, por mais que nós não saibamos de onde ela vem. e talvez a fala do artista que faz com que sua figura sobrepuje sua figuração seja também uma das falas desse mesmo mercado e desse mesmo capital, uma vez que a mesma quase sempre se apresenta de forma polifônica, de modo que chegou a fazer com que alguns, no início da última década do século XX, chegassem a afirmar que a história havia chegado ao fim. se é isso que ocorre, a obra, ao contrário, deve partir do não-dizível em direção ao não-dizível, sendo que é nesta esfera que está o plano da sinceridade. e como o plano da sinceridade é imanente ao plano da verdade, o qual, por sua vez, deveria ser imanente ao plano intersubjetivo, isto é, da relação entre os indivíduos, este é o caminho a ser buscado pela arte atual para superar a própria crise ilusória que acredita viver, uma vez que tal rumo implicará em uma nova narrativa. assim, arte não é entretenimento no mesmo sentido em que trabalho não é diversão. arte é algo sério, mas de uma seriedade lúdica, a qual somente se sustenta por meio de jogos do não-dito, por meio de matemas do não contabilizável, sendo que são desses jogos e matemas que nossa própria realidade é feita. essa pré-lingüísticidade da arte é que traduz a experiência estética que ela deve oferecer, a qual redundará na experiência ética entre aqueles que se propõe a tomar contato com a obra. isso ocorre pelo simples fato de que aprendemos a viver antes de aprendermos a pensar, conforme bem pontuou camus, considerando-se que é neste estágio que as relações éticas se coadunam, já que pautadas em uma membrana não baseada somente no empirismo ou no subjetivismo, mas sim na intersecção de ambos com a planificação social na qual se vive. porém, é de se dizer que toda esta reflexão está para um dever-ser que provém do próprio ser do tempo atual da arte. contudo, creio que é apenas a partir desse dever-ser que será possível contornarmos nosso umbigo, o qual um dia ainda há de nos engolir caso não reconheçamos que ele é a marca da nossa finitude e por conseqüência do fato de que tivemos de estar ligados a outra pessoa para nascermos. ainda que a finitude, em sentido estrito, não pressuponha a comunidade, é de se afirmar que somente são finitos os seres ou as coisas que são em grupo. e se reconhecermos que todas as coisas e todos os seres são finitos caso não queiramos cair em uma fundamentação metafísica ou teológica, logo reconheceremos que todas as coisas e seres são em grupo e portanto apenas existem em grupo. por conseqüência, se somos humanos e somos em grupo, é necessário que olhemos para o outro e reconheçamos o outro não como objeto, mas como alguém, o que somente pode partir de um senso ético da própria realidade. ainda que o ímpeto egoístico nos envolva pelo próprio sistema no qual estamos integrados, para a superação desse ímpeto é necessária a retomada da relação com os outros não pautada apenas na explicação ou no prazer, mas pelo respeito ao outro. o respeito ao outro, desta forma, somente se dará com a reconhecimento de uma vida que precede o pensar e de uma relação com os outros que precede o próprio viver, já que mesmo a linguagem que pelos outros nos é passada e cria o nosso mundo existe antes de nascermos e continuará existindo após morrermos. e em idêntica via se encontra a necessidade da afirmação da criação sobre o criador, pois se o criador se afirma mediante a criação, retornaremos talvez a um cenário medievo, ao qual, entretanto, já estamos rumando pela própria falta de referenciais. o problema maior, no fim, acaba por ser este: se não temos deus e não temos razão, o que nos restará? a resposta imediatista irá dizer que restará o prazer. porém, se reconhecermos que o mecanismo do prazer nos tempos atuais no mais das vezes é impulsionado por um mecanismo de fuga justamente pela ausência de referenciais, a própria compreensão desse mecanismo e por conseqüência dessa ausência de referenciais irá nos levar a um significado diferenciado. esse significado diferenciado, partindo não do que o outro poderá me oferecer mas do reconhecimento de que só sou em função do outro e vice-versa, é que poderá construir uma outra realidade, na mesma medida em que montaigne dizia que pensar é aprender a morrer. contudo, se pensarmos essa problemática, o movimento seguinte deve ser uma superação do pensamento em direção a sua raiz, a qual se encontra na vida, pois é dela que todas as experiências éticas e estéticas, e por conseqüência todas as possibilidades de arte, invariavelmente surgem, independentes de explicações ou prazeres.

domingo, 23 de novembro de 2008

o poema é a raça de um tempo que não pode se dizer lógico.

goya.
o poema é a raça de um tempo que não pode se dizer lógico. por isso tanta centelha e tanto fogo de palha. mas quem haverá de ouvir proposição tão batida? o certo é que virarão as costas e continuarão escamando num eterno trocar de pele. no mais, só rastejarão e engolirão torrões em cada mangue ou cancha. é preciso jogar. por isso que insisto. porém, ao mesmo tempo que é preciso jogar, é preciso saber jogar. jogo sem regras inexiste. a vida tem regras: a linguagem tem regras. por mais que por vezes não saibamos quais são essas regras, existem marcos e marcas que regem tudo o que somos e por conseqüência fazemos. mas somos ao fazer ou fazemos ao ser? na realidade não interessa. o que vale é o que fica. e o que fica é o que é feito. se sentimos o vento de um modo ou as coisas que passam pela nossa frente de outro modo, isso é uma coisa. coisa bem diferente, entretanto, é o que iremos fazer com isso. podemos tão-somente sentir e nos isolarmos nesse invólucro sem nome que chamamos de pele, de olhos, de boca. podemos deixar que as coisas passem, que os carros passem, que as pessoas passem. porém, se existe um arrebatamento que nos leva para outro lado, seja o lado de cordas, seja o lado dos corpos, seja o lado das letras, esse sentir passa a ter conteúdo diferente porque passa a ter conteúdo criativo. dessa criatividade é que nasce aquilo que se entende por criação, a qual jamais irá se separar do criador. a criação, ao contrário, é uma extensão do criador que existe, porém, sem a presença do criador. contudo, se a criação existe sem a presença do criador, o criador está na criação na mesma proporção em que o sangue circula por nossas veias e aciona o coração. (e por qual motivo o coração pára? fica para a próxima: consultarei um vade mécum do corpo humano, prometo, apesar de não confiar na minha promessa.) o criador está na criação porque ela tem o seu suor, porque ela tem o seu querer, porque ela tem o seu amor. se isso vale alguma coisa, dependerá do resultado, dependerá do que foi sentido quando outros, estes completamente desconhecidos do criador (ou não), travaram contato com a criação. mas haverá criação ou possibilidade de criar? creio que sim. ainda que toda obra seja a realocação de alguns componentes básicos que estão presentes em toda criação, toda obra é única, isto porque o modo como estes componentes são alocados na mesma é que define sua identidade. dizer que inexiste possibilidade de criação porque desde sempre o mundo nós é dado de determinada forma, em determinado formato, é acreditar na obra com um senso de dois séculos atrás. é, enfim, acreditar na pureza. em sentido completamente oposto, porém, está a criação, porque a criação é a reorganização do que foi visto, sentido e vivido pelo criador, de modo que este criador pode ter várias influências, pode ter várias sensações para ver, sentir e criar, sendo que todas essas influências que confabulam sensações é que irão determinar a obra. a qualidade da obra, contudo, está para o modo como esse criador trabalha esse jorro, esse ímpeto, esse raio ou relâmpago que provoca a intenção da obra. dizer que existe uma arte gestual é bobagem, pois por mais que a arte seja gestual, a preparação é pré-existente ao próprio gesto, pois para movermos um braço temos que ter a intenção de mover o braço ou pelo menos um motivo externo para fazê-lo. desta maneira, nada acontece porque o gesto se fez obra e se fez tela ou texto. desta maneira, não há que se falar também que uma tela ou texto é a expressão de um gesto. ora, uma tela, um texto, uma película de cinema são recortes do impenetrável. e o que é impenetrável é o movimento. o movimento é impenetrável porque jamais poderemos tocá-lo, porque jamais poderemos sabê-lo fora dos limites da representação. o que vemos do movimento são apenas parcelas de movimento, são apenas fotografias recortadas de uma extensão que nossa percepção não pode alcançar. e nossa percepção não pode alcançar esta extensão porque ela é tão-somente energia. sim: o movimento é energia na medida em que anula o espaço para preenchê-lo com tempo. por isso que nossos sentidos jamais poderão tocá-lo de uma maneira que possibilite a sua compreensão. porém, a mínima noção que podemos ter desse movimento se coaduna na própria possibilidade de criar. se criamos, estamos intuindo o imponderável, estamos perscrutando o que ainda não foi descoberto, ainda que essa minha visão seja deveras afetada pelo bergson. se criamos, estamos entrando no movimento que nos atravessa para que dele algo se incuta em nosso senso e provoque a própria criação. por mais que essa criação seja apenas um fotograma da energia, uma parcela aprisionada do movimento, ela será a única forma de percebê-lo, ela será a única forma de saber da sua existência, pois é essa criação que partirá do silêncio, que partirá da própria possibilidade de dizer que provém desse movimento. e esse movimento é silencioso porque tem uma melodia que não é audível para nós, seres que somente percebem parcelas e jamais percebem o todo visto que o todo é movimento. contudo, podemos ao menos intuir o todo, podemos ao menos desconfiar que tudo é movimento e energia e abrange toda e qualquer parcela do que criamos ou percebemos de uma maneira que abarca todas as coisas existentes ou inexistentes, pois a mera possibilidade de ser já implica existência. e é essa intuição trabalhada pelo artesanato do criador, pela marcenaria do artista, pela implosão e explosão constante de sentimentos tornados conceitos, de sensações tornadas palavras, que redundará na própria criação. desta forma, talvez sempre tenhamos vivido em um tempo que não pode se dizer lógico, pois afinal sempre se fez poesia. (é essa constante atração/repulsão do que digo que me atrai. por isso escrevo dessa forma aqui. é algo físico: o texto é físico.) talvez a tentativa de legar logicidade àquilo que nossos antepassados viveram, seja tão-somente uma visão distorcida do que em realidade acontecia. se essa energia e esse movimento que nos atravessa e nos une em uma corrente eterna é imperscrutável, a realidade é que nunca houve uma teoria que pudesse abarcá-la, pois por mais que a logicizemos, o que acontecerá, o que se verá, será novamente um mero fotograma, uma mera amostra de uma realidade muito maior. desta maneira, dizer que as revoluções do passado não mais podem se realizar hoje em virtude da ilogicidade do nosso tempo que somente segue a lógica supra-sensível e/ou metafísica do capial, é apenas dizer que compreendemos o ontem pelo olhos do hoje porque sabemos os reflexos que esse ontem faz ou fez nesse hoje. o amanhã do nosso hoje não podemos saber porque vivemos nosso hoje. se vivemos nosso hoje, tudo quanto se dizer acerca do amanhã será futurologia sem lógica alguma, porque a própria lógica é fruto do tempo no qual se dá. até mesmo no campo fisiológico é assim, pois se hoje existe um exame que detecta a doença x, talvez amanhã exista um exame que simplesmente diga que a doença x na verdade é a doença y, o que faz com que tudo quanto se sabia caia por terra. e se cai por terra, também sai da terra, também sai do solo. e considerando que nosso solo é a finitude e a própria possibilidade de dizer essa finitude provém do movimento, da energia, é disto que nasce a própria possibilidade. por conseqüência, não há motivo para frustração no fim. a beleza do fim depende do credo. no fundo, o fim é o quanto acreditamos ou não no que fazemos. se acreditamos, mesmo que com aquela fé cega que a tantos mata, o resultado será um. se não acreditamos, o resultado será outro. a relação entre o fim e a crença é a freqüência do movimento, da energia que nos atravessa. e a conseqüência desta relação serão os resultados dos nossos atos. ainda que os signos do real sejam sempre os mesmos e os elementos com os quais trabalha o real possam ser condensados em uma tabela periódica, existe algo que ultrapassa o real que nos é palpável e nos une a todos: coisas, animais, vegetais, minerais. logo, todos tem uma espécie de consciência porque todos são atravessados por essa energia. a freqüência que essa energia toma ao nos atravessar é que dirá daquilo que somos. quem sabe isso esteja para o fato de algo ou alguém ter nos criado. mas prefiro acreditar que essa energia sempre existiu, pois o mistério do criador é melhor do que a certeza da criação. a criação é amostra. o criador é aquele que mostra. se a criação é amostra e o criador mostra esta amostra, melhor desfrutar de um ser que nos dá sensações ao revés de sentidos do que de um sentido que talvez nos privasse de todas as sensações. no fundo, é uma questão de escolha. apontamos nossos controles para o coração do nosso sol, para parafrasear o waters, e o resultado é o que somos. e mais: o que fazemos, por mais que atos por vezes mascarem vidas. por isso que sei que existe muito fogo de palha: porque poucos respeitam a criação. a maioria coloca o criador acima da criação, quando em realidade a equação demanda o contrário. por mais que a criação seja fruto do criador, o que vale é a criação e não o criador. o que vale é a representação da sua voz nos ouvidos do outro e não em como você ouve ou deixa de ouvir sua voz própria voz. o que valem são os olhos do outro por sobre seu texto. o que vale é o que você diz e faz, não o que você é. e mais além, o que vale é o que você diz com o que faz e faz com o que diz, pois são dessas relações que talvez provenha uma obra. essa obra, como já falava o leminski, não tem que ser prima: pode ser irmã, tia. e quanto maior for a ordem de parentesco, melhor, pois uma obraesposa (assim sem hífen mesmo, sem barra mesmo) seria o cúmulo da insistência de representar o amor em algo criado: o antinatural no que nos é natural porque somos cultura e letras e signos. porém, o objetivo principal da obra é ser apenas obra, sem hífen ou família, isto porque a família da obra é o próprio universo. logo, que comam torrões de terra esses que colocam o criador acima da obra. é necessário que seja assim. se todos os sonetos fossem publicados, o mundo seria insuportável como um rapper. e sei que sou preconceituoso sim ao falar isso, mas se o preconceito é um pré-conceito, que assim seja, porque ao menos um dia posso mudar de idéia assim como quem troca de pele. por isso que é preciso jogar mesmo que as regras do jogo se dêem no próprio jogar. por isso que é preciso estar atento e dar alento àquilo que do mundo nos chega. pois nós estamos no mundo: pois nós fazemos o nosso mundo ao passo que esse mundo nos faz. e é isso que faz o poema ser esta raça que tão má-qualidade no mais das vezes tem hoje: o ego sobrepuja a criação e faz com que o criador tenha o protagonismo que deveria ser da obra. e isso é puro hedonismo. ora, poesia não é diversão. poesia é algo sério. sério demais para mim, talvez. poesia não é usar drogas ou ler filosofia. poesia é o contrário do que se pensa. poesia é o não-dito. poesia é a irresponsabilidade de dizer o que não pode ser dito. o poeta é um ilusionista. ou melhor: o poeta é um mágico. ou melhorando: o poeta é um alquimista. e sim: rimbaud estava certo, porque o que o criador faz é transformar e transformar sempre, mesmo que o objetivo não seja o ouro, mas sim o outro. e somente quando reconhecermos que é esse o objetivo de toda arte e de nós próprios, é que faremos obras sem a arrogância daquilo que somos ou acreditamos ser, pois a nossa melhor parte sempre está naquilo que calamos ao falar, naquilo que velamos ao mostar, naquilo que damos ao negar e naquilo que negamos ao dar. dessa contradição é que provém a obra. desse paradoxo é que provém a vida, pois é da vontade de sermos um que nascem nossos filhos. e se fosse diferente, não seria humano, porque somos estrangeiros em um tempo que está nos caçando na forma de espaço. afinal, temos corpo. restará, quando muito, alguma poesia. e este é o meu credo, pois é preciso jogar, ainda que a lógica do jogo se dê na frequência do relógio-mor que palpita no coração da coisa, no seio do ser - no movimento, no passar das cartas, no blefe de um simples texto que é puro movimento, tempo por sobre espaço, motivo tornado fundamento para dizer o que diz.

nunca houve nada de sério na minha vida.

pollock.
nunca houve nada de sério na minha vida. acho até que só sou sério ao escrever e às vezes ao falar. e ainda depende do que escrevo e falo. o que talvez não seja bom, porque afinal eu vivo disso. mas fato é que me vejo em palavras. por vezes sonho e sinto em discurso. quando me dou por conta, teço mil universos onde a razão inexiste. somente a palavra: a minha palavra demiurga, ditadora. no mais, vou levando aos trancos. dinheiro arrumo. amigos tenho. contas atraso mas pago. e falando em pagar contas, descumpri uma promessa que fiz de escrever neste espaço nos sábados, nos domingos e nas segundas, sendo que segunda passada nenhuma palavra minha por cá surgiu. e pra falar a verdade, mesmo hoje estou descumprindo com minhas palavras, uma vez que são quatro e pouco da manhã e portanto é domingo, apesar de na minha cabeça ainda ser sábado. nunca gostei dessa insistência em dizer que o dia começa antes de amanhecer. pra mim, as datas do calendário só mudam ao raiar do sol. o que acontece antes é o dia anterior. ou seja: hoje pra mim é sábado. logo, não estou em dívidas para com minha promessa, já que se eu escrever amanhã durante o dia, enquanto houver sol ou enquanto ainda não houver amanhecido a segunda, ainda será domingo. e pra essa contagem sigo tão-somente o calendário do que sinto. mas o que sinto? acho que o tempo dedetiza a vida. o tempo faz com que sigamos ratos rastejando em bueiros. o tempo nos guia por tantas ruas, por tantas esquinas, que tudo se esvai em uma calha imensa. resta saber no telhado de qual casa está esta calha. porém, tudo pode acontecer em um só momento, isto no sentido de que ao tempo em que passamos na rua, a calha escoa água ou éter em nossa cabeça e dilui nosso corpo, fazendo com que o mesmo não rasteje, mas escoe, simplesmente escoe nos bueiros. se passar por ratos, nem ratos serão, já que nomes não existirão. com as baratas acontecerá o mesmo. mas o que acontecerá conosco ao nos esvairmos de todos os signos? o que acontecerá com nossa razão ou com nossa percepção do mundo quando nenhum juízo matemático ou geométrico nos sobrar? ainda existiremos? é nisso que penso ao dizer que o tempo dedetiza a vida como se estivesse atrás de uma praga. o tempo é aquele que nos pega pelos cabelos quando estamos quase chegando no infinito. o tempo é o relógio que desperta, é a mulher que reclama, é a vida que corre e que escorre sem que você perceba. se tudo é uma questão de tempo, quem perde é o espaço. se tudo é uma questão de tempo, uma verdade somente é verdade enquanto transcorre em um determinado espaço de tempo. logo, o espaço resta subsumido ao tempo, de modo que o próprio tempo acaba por anular o espaço. dizer isso novamente me remete a borges. pensar no infinito e no finito sempre me remete a borges. li em algum ensaio seu que se o universo fosse apenas tempo, sua matéria principal seria a música. pra falar a verdade não sei se foi bem isso que ele falou, mas sinto o que estou lembrando com estas palavras. lembrar ou inventar isso me faz pensar em qual seria o som do nosso tempo. certamente que não seria algo ao feitio de mozart. no máximo estaria perto de um stravinsky, e isto pra ficar nos clássicos. mas acho que mesmo assim seria algo um tanto atrasado demais aquela coisa meio dada do stravinsky. correndo um pouco mais as décadas, eu poderia dizer que nosso tempo é punk rock, que nosso tempo é grunge ou rave. mas nada disso soa como o tempo que sinto. o tempo que sinto soa como o estalar da minha coluna que repentinamente se cansa de estar torta e procura um ângulo reto. o tempo que sinto soa como meus dedos por sobre o teclado, como meu estômago que ronca. tudo isso que soa de mim, soa como o tempo que sinto. os nervos que no pescoço estalam, a garganta que engole saliva, tudo isso canta, tudo isso dá ecos ao tempo que sinto e me faz perceber que estou vivo. dizer que o tempo dedetiza a vida está correto sim, por mais que isso aparentemente dê à vida o condão de uma praga. mas e por quê ser uma praga estaria errado? o que é uma praga? praga me lembra algo que se propaga. e se praga me lembra algo que se propaga, é esse o significado que adotarei. se praga me lembra algo que se propaga, o tempo é aquele que corre atrás dessa praga, que joga ddt nessa praga, que faz com que a mesma pare e diga que nunca mais vai voltar a ser vida. isso me recorda música sertaneja. mas não quero entrar no mérito. fato é que sentei aqui pensando que iria escrever algo interessante. e se tais palavras são interessantes, não tenho a menor noção. o discurso na verdade é como uma loteria, ainda mais quando você não pretende ter controle sobre ele. as coisas vão saindo e depois, caso você pretenda organizá-las, apenas dá uma aparada aqui e ali e pronto. e se existe algum leitor deste espaço, certamente ele já deve estar puto comigo por conta do modo como os textos estão dispostos. entretanto, isso é deliberado e sim!, eu tenho a intenção de dificultar a leitura. talvez com o tempo mude de opinião e mude o formato da disposição dos textos. porém por ora fica assim mesmo. essa coisa de ler também sempre me soou relativa. andar pelas ruas e ver as pessoas andando pelas ruas também é uma forma de ler. a arte se encontra na delimitação do tema, por mais que isso soe científico demais. e somente quando o artista consegue delimitar o tema é que a coisa engrena. caso contrário fica como esse texto: começa daqui, puxa dali, e no fim, por mais que eu saiba que irá retornar ao começo, já que isso sempre acontece por mais que eu não queira, não chega a lugar algum. porém, chegamos a algum lugar com nossa vida? saímos do ventre materno. o médico nos pega e nos bate na bunda. choramos. logo depois umas luzes fluorescentes e umas enfermeiras com máscaras nos pegam. (estaria aí o motivo da tara de tantos homens por enfermeiras?) apenas uma meia-hora depois nos levam pros braços da nossa mãe. lá é que olharemos pros olhos dela e supostamente, segundo ouvi uma vez, formaremos nossa personalidade. mas o que isso quer dizer? porra!, se antes as enfermeiras já nos olharam, a realidade é que nossa personalidade se formou no susto que tomamos com o tapa do médico na nossa bunda e com aquelas mulheres de máscara! não me venham com besteiras! logo, nossa personalidade se forma pelo medo e com o medo por conta do estranhamento. e é esse medo e esse estranhamento que irão guiar toda nossa vida. quando acharmos alguém para amar, isso será estranho. iremos primeiramente estranhar aquele sentimento, aquele tremor, aquele revirar de olhos ao sentir o cheiro daquela mulher. talvez possamos até mesmo nos casar, talvez possamos até mesmo morar com essa mulher, e com o tempo quem sabe as coisas se tornem complicadas, já que não tem graça relacionamento sem briga. que graça teria um romance perfeito, daqueles de eu te amo pra cá e eu te amo pra lá toda hora? isso parece coisa dessas guriazinhas que ficam dizendo que amam as amigas. raios!, quem é que sabe o que é o amor? ninguém sabe e nunca vai saber. uma vez eu disse que o amor é anti-natural. e acho que isso é assim mesmo. e por quê o amor é anti-natural? porque o amor tende a uma unidade que a própria física não permite. se o amor tende a uma unidade que a própria física não permite, ao passo que o amor é anti-natural, nós somos, pelo menos biologicamente, naturais. porém, podemos modificar nosso corpo. podemos colocar silicone, botox, piercing. logo, nem nosso corpo é natural porque nosso corpo pode sofrer intervenções. e se estas intervenções podem modificar o nosso sentido físico para conosco e para com os outros, nosso corpo deixa de ser natural, porque passa a ter um caráter cultural, o que me leva a crer que toda a criação é cultura e que ao mesmo tempo toda criação é impossível. o único processo criativo que existe é o processo do jorro. o resto é trabalho de marceneiro. e o jorro, coisa sexual mesmo, acontece só de vez em quando. não existe essa coisa de encher a cara de drogas ou álcool e sair fazendo obras-primas ou irmãs. isso é coisa de abobado. só quem se dedica ao trabalho de marceneiro pós-jorro é que pode fazer algo que preste. do contrário, porcaria sai, o que talvez se aplique a isto que estou escrevendo. contudo, como sou eu que escrevo, me faço cafetão de mim mesmo, me faço eterna prostituta. só não quero morrer antes do tempo certo de ter gastrite, apesar do meu estômago ainda (ou já) doer (hoje por conta do café). me suicidar sei que não vou, pois quem quer fazer isso nem escreve isso. excluam o kurt cobain desse baile, porque ele já é outra coisa que não sei como falar, porque o bom mesmo é perder os limites e assim ir vivendo e não reconhecendo o próprio garrancho por vezes. o poeta, afinal, é um irresponsável. porém eu sou poesia e por isso não me sujeito, já que sou apenas verbo, o que faz com que tudo mude. e realmente nunca houve algo sério em minha vida. e pra completar o quadro, quero perder a seriedade até mesmo ao escrever, porque na verdade só levamos à sério aquilo no que não acreditamos. é uma fuga. resta saber do quê, porque pra onde já seria pedir demais.


domingo, 16 de novembro de 2008

um gosto de cerveja me desce pela garganta.

jan steen.
um gosto de cerveja me desce pela garganta. minha língua também tem gosto de cerveja. fazendo com que ela cruze por sobre meus dentes sinto que até mesmo eles tem gosto de cerveja. ouço um ônibus cruzar na rua e sinto um vento agradável de domingo me bater no rosto. aliás, dizer que o vento me bate no rosto é forte demais. mais valeria dizer que o vento acaricia meu rosto. porém, dizer que o vento acaricia meu rosto é meigo demais no sentido de que beira a homossexualidade. logo, prefiro dizer que existe um vento que chega no meu rosto através da janela aberta. pronto. assim tudo fica metódico e quase sistemático como a descrição de um produto eletrônico. mas alguém entende a descrição de um produto eletrônico? existem aqueles manuais que para os incautos de vez em quando servem. mas quando os caras começam a utilizar siglas demais, letras e números desconectados das palavras às quais estas letras e números apontam, já começo a ficar tonto e ligo para um técnico. certamente o técnico, ao chegar no meu apartamento para ajeitar a parabólica ou o dvd ou o computador, daria risada da minha cara se fosse sincero. deve pensar tu é um baita burro! quando exponho meu problema pra ele. contudo, como certamente irá me cobrar uns belos cinqüenta reais para resolver meu problema, fica com uma cara de seriedade de criança no vaso e demora algum tempo, coisa de uns vinte minutos, pra consertar um problema que resolveria em não mais que cinco se fosse levar as coisas verdadeiramente à sério. entretanto, como no seu trabalho se ele levar as coisas verdadeiramente à sério ele perde clientes e por conseqüência dinheiro, fica brincando com uns fiozinhos que conhece há décadas até que grita um achei! e me fala que tudo está resolvido. até entendo essa posição do técnico em eletrônica, frisando aqui que esse termo sempre me soou inefável. para sermos francos, o que é eletrônica? eletrônica pode ser várias coisas que tem a ver com coisas que lidam com eletricidade para funcionar. e como estou com preguiça de visar o dicionário para dar embasamento a estas palavras que agora se fazem texto neste pequeno comentário que faço acerca daquilo que vejo, fico com essa rasa conceituação. entretanto, se o técnico tem que demonstrar seriedade para ter credibilidade e por conta disso passar uma imagem social de profissional, vejo que todos os supostos profissionais também são assim. se um cliente chega no escritório de um advogado querendo se aposentar, por mais que o advogado, averiguando os documentos do cliente veja que este facilmente alcançará a aposentação, ele irá fazer uma cara feia e dizer para o cliente que o processo será difícil e que administrativamente certamente não será resolvido. por conseqüência, o cliente, digamos que um homem do campo, daqueles desdentados e fedendo à cigarro de um real, fará olhos de alerta como que defronte a um pastor alemão nazista e irá perguntar pro advogado se isso não teria perigo algum. o advogado, homem educado, acostumado com os clientes que julgam que um código civil é algo semelhante a bíblia, dirá que não haverá perigo algum e que o cliente certamente até mesmo terá assistência judiciária gratuita. entretanto, quando o cliente pergunta se isso queria dizer que ele não precisaria pagar nada, o advogado entra em um juridiquês tremendo e fala que a gratuidade da justiça tem a ver com os expedientes cartoriais e demais diligências que são da alçada da magistratura, a qual, investida da devida jurisdição, tem um aparato organizacional para que os processos que chegam aos milhares nas mesas dos juízes, que tem de estudar mais de quinze anos para enfim serem juízes!, coisa parecida com bispos, serem julgados e terem uma sentença que será publicada no local de costume, considerando, ainda, que é esta magistratura que cobra custas daqueles que podem pagar e não cobra daqueles que não podem pagar. contudo, percebendo que o cliente nada entendeu, já que continua com aquele olhar aparvalhado de quem acabou de assistir uma missa em latim, o advogado resume que ele não vai ter que pagar as custas do fórum, dos capas-pretas, mas que as custas do advogado, ou seja, do serviço que o advogado irá prestar, ele terá que pagar sim, sendo que para isso terá de assinar um contrato. quando o advogado puxa o contrato, o sujeito olha praquelas cinco laudas e não entende bulhufas. mas diante das explicações largas do advogado ao chamar um cafezinho pra secretaria de mini-saia, que agora até sai daquele discurso da dificuldade processual pra dizer que o processo, isso nos veios judiciais, é praticamente ganho, o zé (digamos que o cliente se chama zé e tem apenas dois centro-avantes (e não sei se existe este hífem nesta palavra) na boca) acaba assinando muito feliz as cinco laudas do contrato, a procuração e até mesmo a declaração de hipossuficiência, o que o zé não entendeu direito mas sabia que tinha a ver com o fato de ele não precisar pagar as custas da justiça. neste sentido, desconfio que o advogado e o técnico em eletrônica tenham muito a ver. por que você procura um técnico em eletrônica? para resolver um problema praticamente inefável que surge em algum aparelho da sua casa que a tempestade da semana passada não queimou. por que você procura um advogado? para resolver um problema praticamente inefável que surge por conta do fato de que você soltou uns cheques frios, eles voltaram, os cobradores estão batendo na porta com uma orquestra chuvosa de fevereiro e você não sabe mais o que fazer. há de se dizer que existe muita semelhança entre as duas profissões pelo menos no âmbito dos pepinos que ambas tem de descascar. entretanto, existe também muita desemelhança entre ambas. pra começar, podem até existir advogados técnicos, daqueles que pegam uma tabela de impostos do lado da declaração de imposto de renda de uma empresa e sabem de cara o que o cliente está pagando pra mais. porém, indo mais e mais fundo na legislação que fez com que aquela tabela e aquela declaração de imposto de renda existam, o advogado vai acabar caindo lá naquele conto do borges da loteria da babilônia. ora, se indo mais e mais fundo naquilo que propiciou o próprio governo cobrar do empresário tal imposto em tal ano o advogado ainda assim for considerado um técnico, temos de internar em um hospício especializado para esquizofrênicos aquele sujeito que deu tal diagnóstico, e por conta disso boa parte das pessoas que ensinam direito nesse nosso país. nesse ponto é que digo que não existem operadores do direito. quem opera são operários, e por mais que existam advogados em escritórios por aí que tenham salários de operários, nós que trabalhamos com o direito não somos operários. ao contrário, nós somos no direito e somos do direito, e sendo no direito e do direito, podemos dialogar tranquilamente com todos os ramos do saber, o que faz com que muitos desses seres que estudam leis creiam que podem falar sobre tudo aquilo que não entendem como se fosse uma descoberta feita tão-somente a partir do seu discurso. porém, em que pese existirem esses defeitos, o advogado não é apenas um técnico ainda que execute trabalhos técnicos. contabilizar notas de expediente, fazer grades de clientes, traçar metas e coisa e tal é coisa muito chata, concordo, e por isso técnica. porém, caso sua atividade seja levada ao âmago da mesma, o que teremos não é uma tecnicidade em si, mas sim pura filosofia. e por quê? lembremos da história. dizem por aí que foram os romanos aqueles que mais contribuíram para o direito. discordo disso em parte. e discordo disso em parte porque na realidade os romanos apenas sistematizaram o excedente do pensamento grego que, apesar de apontar para termos muito conhecidos mas pouco utilizados por nós atualmente, como ética e política e até mesmo justiça, era deveras inefável. inefável porque os pensadores gregos passavam o dia pensando e tomando uma bebida da qual não lembro o nome, sendo que não sei se era vinho ou cerveja, e tendo lá suas relações com mancebos e prostitutas sagradas aqui e ali. desta maneira, é impossível não pensar de maneira inefável. é algo como você viver na finlândia, ter um bom salário e boas perspectivas de crescimento na sua vida profissional, e mesmo assim se sentir deprimido com a questão da finitude. ora, trazendo isso para as quadras que existem ao meu redor, já que hoje vim almoçar na casa dos meus pais, é algo que não procede. reconheço que por essas bandas existem pessoas que andam pra lá de deprimidas. entretanto, essa depressão é mais por falta de carinho do que por falta de sentido para a finitude da existência. e pra ser mais franco, é mais por falta de grana do que por tudo isso, porque se falta carinho de outra pessoa, e aqui estou falando de carinho sexual, ao menos mãos e dedos existem, dependendo, é claro, de a qual sexo eu esteja me referindo. mas como prefiro que minha definição seja assim meio andrógina, meio david bowie, as coisas ficam por aí mesmo. mas voltando aos romanos, o que acontece é que estes roubaram tudo aquilo que os gregos haviam produzido em termos filosóficos e trouxeram para o plano da faticidade, para o plano dos fatos. desta maneira, a abstração do pensamento grego, ainda que o aristóteles dissesse aquela história de natureza que até hoje nós usamos ao dizer que fulano nasceu pra chefe e cicrano nasceu pra peão, foi levada para a praticidade do pensamento romano, o qual se preocupava com o agora, o que eu acho que tem a ver com o fato de tantos imperadores terem uma tara voraz por irmãs, sobrinhas, mães e afins. existem alguns relatos que referem camelos e anões, mas nisso eu não acredito, porque aí já seria demais pro meu gosto e acho que até pro gosto deles. mas dentro disso tudo, o que os romanos fizeram foi pegar o que os gregos falaram, distorcer tudo aquilo e limpar a abstração das pedras de platão para que esta mesma abstração ganhasse status na vida de cada cidadão do império, isto para que este império se estendesse mais e mais, chegando a abarcar, como é do nosso conhecimento desde a sétima série caso não tenhamos gaziado essa aula pra ir jogar futebol, todo mundo conhecido da época. e é aí que engrossa o dedão, como escreveu um grande amigo em uma dissertação no segundo ano da faculdade. engrossa o dedão nesse sentido porque estamos falando de um direito que chegou até nós e acabou por redundar em todo esse aparato estatal insuportável, que tem raízes lá atrás, lá nos idos de não sei quando, apesar de sabermos brevemente qual é o aonde desse quando. se este aparato estatal tem origem lá atrás, lá nos idos de não sei quando, o fato é que a realidade da tabela de impostos que o advogado terá que averiguar ao lado da declaração de imposto de renda de uma empresa qualquer será conseqüência, mesmo que longínqua, de tudo aquilo que ocorreu séculos atrás. neste sentido, quanta putaria existe por detrás de um código! quantos incestos não tiveram que acontecer pra que um dia alguém parasse e dissesse: péra aí, isso é interditado, é como a 285 lá pros lados do pará, se andar quebra e morre! e nisso, um tempo depois, surge o freud e diz do édipo e de toda essa coisa que no final das contas tem a ver novamente com gregos. aliás, me indigno com isso. ontem estava lendo uma história (ou estória, como queiram, já que eu acho que a mitologia merece o H muito mais do que qualquer biografia) que me impressionou. no início era o caos, segundo a mitologia grega, sendo que então surgiram gaia, a terra, e urano, o céu. acontece que urano sempre deitava em cima de gaia em um coito sexual cósmico, o que deve soar bonito para algum emaconhado. e de tanto deitar em cima de gaia e penetrá-la, a dita acabou engravidando. só que como o peso de urano era grande demais, os filhos de gaia ficavam presos dentro do ventre da mesma. revoltada com isso, querendo que seus filhos ganhassem ares, gaia forjou uma foice para crono, filho que estava lá embodocado no ventre de gaia, e este, quando urano foi se debruçar sobre o ventre da mãe com os olhos babando de tara, cortou as partes sexuais do pai, que desde então nunca mais pôde penetrar ninguém (o que, pelo tamanho dele, este presumido, claro, até que foi legal). só que desta castração surgiu uma coisa complicada, porque desta castração surgiu o que chamamos de identidade. surgiu o que nós chamamos de identidade, porque a partir daquele momento os seres deixaram de existir em uma unidade gaia/urano, terra/céu, para existirem, então, entre gaia/urano, entre terra/céu. desta forma, ocorreu a individualização dos filhos de gaia, cujo primeiro, não por acaso, foi crono. e como crono é aquele que diz do tempo, talvez essa seja a primeira dimensão que nos é apresentada enquanto humanos. porém, se o tempo é a primeira dimensão que nós é apresentada enquanto humanos, desde quando somos humanos? a pergunta se torna mais e mais difícil. alguns podem até dizer que dentro dos testículos dos nossos pais já somos humanos. porém eu não descarto a hipótese de que, se isso for verdade, nós sejamos, como disse o oliver stone lá no início da década de noventa, assassinos por natureza, já que seria plenamente normal matar os espermatozóides semelhantes que quisessem também o paraíso do útero. e ao pensar nisso outra coisa me ocorre na cabeça: não seria essa coisa de paraíso ao qual todos os povos querem encontrar algum dia justamente a saudade do útero ou a perda da unidade entre mãe/filho, entre gaia/urano, entre terra/céu, que se dava quando ambos habitavam o mesmo corpo? não saberia dizer. talvez isso encontre um bom paralelo com o fato de que logo acima falei que crono decepou os órgãos sexuais de urano e por conta disso criou indivíduos. mas a questão da individualização é muito mais profunda, porque, afinal, crono comeu todos os seus irmãos com medo de que estes tomassem seu lugar. em realidade, apenas nos tornamos indivíduos no momento em que nos conhecemos. nosso conhecimento é eterno mas finito, porque circunscrito no lapso de tempo no qual estamos vivos. sendo um conhecimento eterno mas finito, o que irá dizer se nos conhecemos ou não é tão-somente o modo como nos damos a conhecer a nós e aos outros. porém, a maior parte das pessoas morre sem se conhecer. se não sabemos como e porquê sentimos tal emoção, de que adianta sentir tal emoção? se não sabemos qual o motivo de ter ressaca, de que adianta o martírio pós-trago? nada disso faz sentido ou talvez faça sentido para aqueles que querem mais sentir que pensar. mas como eu faço parte de um outro time, um time que quer sentir e pensar ao mesmo tempo, fazendo com que o pensamento venha do sentimento assim como o movimento vem daquilo que está parado, não concordo com essa visão. concordo, outrossim, com aqueles que dizem que o coração tem neurônios. aliás, descobrir que os intestinos têm neurônios há alguns meses atrás praticamente me chocou. se os intestinos tem neurônios e geralmente são regulares, pelo menos os meus, o certo é que o pênis é um retardado desses de amarrar em jaula, já que aponta pra tudo quanto é lado deixando você zonzo de tesão. mas não reclamo, uma vez que este é o preço que se paga por ser homem. ser mulher, ao contrário, deve ser muito mais difícil. ouvi falar uma vez que nunca se pode confiar em um ser que sangra sete dias por semana todos os meses do ano e ainda assim demora pacas pra morrer. e concordo plenamente com isso. ocorre que quando o componente daquilo que chamam de amor entra em cena, seja lá o que isso for ou o que isso quer dizer, a coisa muda completamente de figura. muda porque o carinho, o toque nos pés, as mãos nos cabelos, o beijo preguiçoso, faz com que tudo isso tenha cheiro de amor, tenha cheiro de uma relação que transcende os limites do simples sexo, que é, aliás, algo como ser funcionário público caso encarado no sentido maquinal da palavra. se um sujeito é todos os dias uma máquina sexual, há algo de errado com ele. quanto a mim, prefiro essa coisa lassa, essa coisa meio baiana, para tudo aquilo que é sexo e se relaciona com o sexo. não me vale uma rapidinha se esta rapidinha não me deixar dormir sentindo o cheiro do pescoço da mulher. não me vale um ambiente bizarro se este ambiente bizarro não vai me deixar beijar as costas da mulher. sou simples pra essas coisas e acho que o amor também é algo simples nessas coisas, apesar de essas coisas, para acontecerem, terem de ser subsumidas, sem a menor dúvida, a um milagre. e por quê? porque encontrar uma pessoa que você ama dentre seis bilhões de pessoas na face da terra é um milagre, e quando eu falo em milagre não estou falando de deus mas sim apenas de milagre. porém, milagre aponta para algo maior que aponta para algo que é capaz de realizar algo maior. em último grau nesse pelotão de super-homens, teríamos deus, mas prefiro sonegar esta explicação e ficar só com o milagre mesmo, cartesianamente falando. nesse sentido não me importa a teia de significações das palavras e dos termos. nesta maré, não me importa aquilo que vejo ou aquilo que toca minha pele. importa, por outro lado, aquilo que sinto nos lábios daquela que amo, aquilo que me faz ter certos arrepios quando aquela que amo me toca, aquilo que me traz uma tristeza estranha no pós-discussão no qual sempre perco. o fato é que os homens são insuportáveis e as mulheres também, e a saída para a alegria é a bissexualidade. mas como não sou tão evoluído assim, fico com minha primitiva heterossexualidade, a qual tem dado conta das minhas dopaminas desde meus anos adolescentes (aliás, desde os meus cinco anos, isto por conta de uma memória que agora me ocorreu mas que convém não comentar). neste sentido é que não acredito em técnicos. ninguém é técnico de nada. como dizia o pessoa, aliás, camarada pode ser técnico mas louco em tudo o mais, e com pleno direito a sê-lo. afinal das contas, até mesmo o técnico em eletrônica tem uma esposa e talvez uma amante, o que torna sua vida muito mais interessante, pois como dizia o poeta daquela bandinha, sempre é bom uma misturinha. se eu fosse um escritor desses da lavra do chamado realismo, isso muito me interessaria. mas como atualmente nem sei se sou escritor pois sei apenas que escrevo, prefiro me filiar na escola da minha palavra à prestar reverências a algo que em nada tem a ver comigo. e dentro de todo este contexto, o que concluo é que para escrever, o escritor, mesmo insciente do que é, em crise existencial, tem de saber o que quer escrever. caso contrário fará que nem o vinícius de morais, o qual, e que me perdoem os saudosistas, lia suas poesias como quem lê uma bula de remédio. e isso sempre com um whisky, o cachorro engarrafado, ao lado, o que talvez fosse uma tentativa de fazer com que aquele amor soubesse que jamais estaria em outro lugar que não no seu fígado e nos seus pulmões tendo por conseqüência a sua morte, como um prometeu que nada prometeu além de sentir e viver, o que de modo algum tira a qualidade das elegias do morais. por isso que sinto que ao ficar mais de meia-hora sem tomar cerveja, o gosto da mesma de doce passa para amargo. por que esse martírio? deve ser pra beber mais, pois ao menos assim o processo de criação, nem que seja de anos à menos na minha vida, se dá de maneira mais eficaz para que minha língua novamente possa lamber dentes com gosto de cerveja.


sábado, 15 de novembro de 2008

são cinco e vinte da tarde e venta lá fora.

iberê camargo.
são cinco e vinte da tarde e venta lá fora. aqui dentro tenho o ventilador ligado aos meus pés justamente por conta do sol que faz as cortinas da biblioteca terem uma cor de abajur barato. não sei o que isso quer dizer e talvez até me remeta àquele clássico do abajur cor de carne e lençol azul. mas isso seria associação demais para o meu gosto, ainda que de associações sem fim meu pensamento seja feito. logo ao lado do teclado existe uma pequena garrafa d'água. a água está morna mas eu gosto dela assim. ouço ali da sala o som da televisão em algum jogo de futebol. me parece que os narradores apenas olham o jogo que narram em outra televisão para me passar a sua visão na minha televisão. enfim, de uma representação que têm em sua frente, fazem com que surja outra representação e assim por diante, já que o próprio fato de eu estar escrevendo sobre isso agora implica em uma representação diversa daquela que ouço. em realidade, o fato de eu entrar em contato com essa realidade representativa que ao meu pensamento se desloca, implica no fato de que sobre essa realidade representativa eu posiciono a minha intenção para criar a minha própria representação da realidade. neste sentido, se existe uma representação da realidade sendo vista por aqueles que transmitem o jogo a partir do jogo que vêem em outra televisão, existe também uma representação da realidade que é feita por conta do fato de que eu ouço aqui da biblioteca a televisão ligada transmitindo essa partida de futebol. entretanto, se para mim existe uma representação específica dessa realidade, entendo que para os outros que estão nos apartamentos ao lado e mesmo para a minha namorada que está deitada no puff da sala assistindo esse jogo, existam outras representações da realidade. consequentemente, ainda que a matriz que proporciona a representação única de cada um com relação à realidade seja o jogo de futebol que está acontecendo, digamos, na europa, as realidades que emanam dessa matriz são diversas, de modo que para cada um que entra em contato com ela existe uma realidade. contudo, se para cada um que entra em contato com essa matriz específica existe uma realidade, considerando-se que a matriz específica nem é aqui tocada, já que se fala de uma espécie de jogo de espelhos no qual a própria matriz se perde, uma vez que até no cenário onde o jogo se dá existem variadas representações da realidade, tem de existir algo que propicie a própria comunicação entre as pessoas que entram em contato com essa representação da realidade. aliás, isso tem que existir até pelo fato de que se não existisse, nem mesmo a possibilidade de conhecimento seria possível. neste sentido, para que eu fale de uma representação da realidade que me chega aos ouvidos nesta representação da realidade que agora crio em forma de texto, é necessário que exista um padrão mínimo de comunicação entre os próprios espelhos envolvidos nesse jogo. esse padrão, considerando-se que tenho representação sobre representação, fazendo com que a própria matriz daquilo que é representado se perca, é a linguagem. logo, o que propicia o intercâmbio entre essas diversas realidades que são diferentes de pessoa para pessoa são os caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação. porém, a organização dos caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação variam no tempo e no espaço, levando-se em conta também que variam na forma. não fosse isso, não haveria porquê existirem vários alfabetos ao redor do mundo, sendo que se um brasileiro pegar um texto russo, por exemplo, irá ver mais representações figurativas de expressões verbais do que propriamente letras. entretanto, tendo o conhecimento de que são efetivamente letras faladas por um povo que se utiliza de uma representação gráfica diferente da dele, este brasileiro irá intuir que são efetivamente letras, que são efetivamente uma forma de comunicação gráfica, de modo que isso apenas se dá porque esse sujeito tem o conhecimento de que em um outro lugar do planeta, outras pessoas usam um alfabeto completamente diferente do dele. dentro deste âmbito, pode-se falar até mesmo das reformas ortográficas que são feitas na língua portuguesa. anteontem lia um correio do povo que continha uma fac-símile de uma página do jornal do início do século XX. nesta fac-símile, o modo como os caracteres do nosso alfabeto se organizavam era diverso, ainda que pudesse ser entendido por mim. neste sentido, por conta da similitude da combinação das letras eu pude intuir o significado e o sentido das palavras, ainda que este significado e este sentido das palavras seja único para mim. e por quê? admitindo-se que o significado de uma expressão está subsumido ao contexto no qual esta expressão repousa, o que teremos é uma expressão apontando para a outra de maneira infinita. logo, é da trama de expressões que apontam uma para a outra de maneira infinita que o próprio significado surge. entretanto, partindo do pressuposto de que várias pessoas irão ler este texto, pode-se dizer que várias pessoas irão intuir um sentido diverso desse texto, isso porque no mais das vezes sua educação, e aqui tomando por base o sistema cartesiano que existe em todas as escolas do mundo, praticamente, converge mais para as partes do que para o todo, obnubilando a própria noção de trama lingüística. convergindo mais para as partes do que para o todo, ainda que se admita aqui que o significado de cada expressão é subsumido ao significado de outra expressão, o sentido da trama que propicia o sentido das próprias expressões dificilmente será visto, sendo que ainda que percebido, este sentido será diverso de pessoa para pessoa. desta forma, pode-se corrigir o que foi acima dito no sentido de que no texto repousa o significado e na pessoa que entra em contato com o texto repousa a significância, que consiste justamente no efeito que este significado provoca na pessoa. mas levando a questão mais profundamente, chegaremos à constatação de que o próprio texto foi escrito por uma pessoa. afinal, ainda que os sites de bancos e afins tenham toda uma sistemática que toma decisões por conta da sua estrutura, não se pode esquecer que esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo. se esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo, pode-se concluir que, ao fazê-la, estas pessoas estão levando para o plano da representação lingüística a intenção que tinham, seja na forma de site ou texto, indo agora em direção ao texto do correio do povo que referi anteriormente. se estas pessoas, prenhes de intenções, irão construir textos e sites, o que irá vazar para os textos e sites são tanto significados quanto significantes. e por que irão vazar tanto significados quanto significantes? porque no instante em que uma coisa é falada, o fato de falarmos a mesma anula o próprio sentido que tínhamos da mesma, pois este sentido, se falado, é uma representação e nunca uma presentação daquilo que se fala. entretanto, se não falado, este sentido existiria? a resposta correta é não, tomando por norte o fato de que é a linguagem que propicia o entendimento entre as pessoas, ainda que estas pessoas sejam de espaços e tempos diferentes, o que se comprova pelo fato de eu poder ler um texto de um século atrás em um jornal de anteontem. desta maneira, não se estaria, porém, anulando a possibilidade de conhecimento daquilo do que se fala? por um lado sim e por outro lado não. por um lado sim, porque se apenas podemos representar aquilo do que falamos através da linguagem, aquilo do que falamos é inacessível, de maneira que só pode se dar ao nosso conhecimento na forma de linguagem, de representação gráfica ou sonora de algo visto ou sentido. entretanto, por outro lado não porque o fato de podermos tocar aquilo do que falamos partindo do pressuposto de que se trata de algo existente no mundo, já dá a entender que existe uma realidade exterior ao próprio plano lingüístico que sentimos mas só podemos dizer quando no plano lingüístico. seria simples se aqui eu invocasse heidegger e a questão dos planos hermenêutico e apofântico. contudo, quero levar a pergunta um pouco mais adiante. se logo acima falei que o fato de só podermos dizer as coisas e nós mesmos através da linguagem e logo após referi que isto se tratava de uma via de mão dupla, já que implicava tanto em um nexo positivo quanto em um nexo negativo, é preciso remeter ao fato de que falei isso tomando por base a idéia da trama lingüística. tomando por base a idéia da trama lingüística, chegarei a ocorrência de que tudo aquilo que falo, quando falo, liga-se a cada termo falado, levando-se em conta que o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo. se o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo que influi no conhecimento do sentido do primeiro, o que se conclui disso é que o sentido de cada termo não está naquilo que se fala, mas sim nas ligações que são feitas a partir daquilo que se fala. consequentemente, se são as ligações que são feitas a partir daquilo que se fala que propiciam o próprio conhecimento do falado, pode-se pressupor que existe um mundo à parte a ser estudado. neste mundo à parte, as regras de ligação entre os termos, contudo, de forma alguma serão estáticas, isto porque estarão subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos. se subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos, novamente se traz à tona o plano da intenção, sendo que cada leitura traz em si a intencionalidade daquele que lê, assim como cada escrita traz a si a intencionalidade daquele que escreve. desta maneira, ao passo que se está falando de um sentido que brota naquele que lê, está se falando de um sentido existente naquilo que é lido, de forma que esse sentido irá brotar como significância naquele que lê para só então se acomodar como sentido, ocorrendo isso quando se insere nesta equação o plano da intencionalidade. por conseqüência, se é o plano da intencionalidade que dá sentido às realidades representativas das pessoas, não seria o estudo desta intencionalidade que levaria a algo mais profundo acerca da própria trama lingüística que tento desvendar? a resposta é dúbia, e não haveria como não sê-la. a resposta é dúbia porque no momento em que procuro estudar a intencionalidade tenho eu também uma intenção. logo, intencionalidade sobre intencionalidade, o que se terá serão novamente âmbitos de realidades representativas no plano lingüístico. desta forma, o estudo recairia em uma intenção tentando explicar outras intenções, sendo que por mais que esta intenção tivesse justamente a intenção de explicar aquelas intenções, sempre haveria um fator subterrâneo influindo na sua própria explicação. afinal das contas, não é apenas o fato de ter a capacidade de ler que leva alguém até o gosto pela leitura. nisso influem fatores externos, como a família, os amigos e os amores. por conseguinte, mesmo que uma teoria desse conta da explicação do funcionamento dessa teia lingüística, esta teoria sempre daria margem a outras teorias e assim por diante. porém, o fato é que isso é inevitável. e admitindo que isso é inevitável, pode ser alcançada uma nova dimensão das próprias possibilidades de explicação. se estas possibilidades de explicação sempre implicam em uma simbiose entre a intenção que se tem quando se fala com aquilo que é falado, considerando-se que neste binômio intenção/fala está imbricado o binômio significado/significante, deve-se admitir que nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável. se nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável, é de se dizer que a pretensão da pureza de uma teoria jamais pode ser aceita, pois é o ser humano que conhece, e onde o humano for somente o humano haverá. e se esta premissa está certa, o fato de termos esta compreensão que temos do universo e das coisas que existem nesse universo, poderia ser completamente diferente se ultrapassássemos certas barreiras da própria compreensão. se existe na maior parte das escolas um plano de ensino de aporte cartesiano, por exemplo, saindo deste paradigma e rumando em direção a um outro paradigma que tenha por norte a teia lingüística daquilo que se chama cultura e que constitui o próprio ser humano enquanto fator por ele criado em concatenação com o cunho biológico, a compreensão será difusa. será difusa porque não lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado unitário, mas lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado em relação às outras partes e aos outros termos deste texto. consequentemente, apenas uma interpretação holística daquilo que é lido, isto para ter base no exemplo do texto, é que poderá propiciar uma nova compreensão do próprio universo. o ponto máximo da compreensão desse universo talvez encontre ápice no momento em que der foz a um outro universo, este completamente diferente do universo de origem mas composto pelos mesmos caracteres, o que já remete novamente a idéia de teia. neste universo, por sua vez, partindo de um jogo de espelhos inevitável, ou melhor, partindo do próprio reconhecimento da inevitabilidade deste jogo de espelhos, aquilo que é dito será visto de uma maneira completamente diversa da anterior. e se aquilo que é visto será visto de uma maneira completamente diversa da anterior, já que partirá da idéia de teia ao revés da idéia unitária, o próprio sentido do visto irá mudar, influindo, por conseqüência, na própria vida daqueles que vêem, pois se tomarmos por norte o fato de que as palavras de um texto somente existem em ligação às demais palavras existentes nesse texto, e não de uma maneira unitária e (por que não dizer?) individualista, veremos as próprias pessoas com quem convivemos ou não como parcelas necessárias para a nossa própria existência e, por conseqüência, para o nosso próprio sentido na trama do mundo, o qual é feito tanto daquilo que podemos falar quanto daquilo que jamais poderemos levar ao plano lingüístico, o que talvez seja a causa da repressão perpetrada pelas leis e pela religião, pois quando nos deparamos com algo que jamais poderá ser dito, é inevitável que ou criemos leis para não dizê-lo, armando cerca ao derredor do indizível, ou criemos leis para explicá-lo a partir daquilo que podemos dizer, dando a este um significado sublime justamente por conta do seu núcleo indizível. contudo, se este fato for aceitado, até aquilo que é dito é uma sublimação para aplacar a falta do que não pode ser dito. logo, a palavra sempre expressa uma ausência, como diria lacan, pois se ela existe é porque algo falta. por conseguinte, se falamos é porque perdemos um jogo do qual jamais poderemos sair. porém, é possível que aqui nem exista a questão da derrota ou da perda, porque em último grau não existem vencedores ou perdedores neste jogo, já que o mesmo é de saída inatingível. é possível que o tempo nos devore nas tramas desse labirinto, fazendo com que esqueçamos da nossa perda em função daquilo que dizemos e criamos para acreditar ou acreditamos para dizer. é possível que esqueçamos de tudo aquilo que jamais poderemos dizer tão-somente pelo fato de termos que viver ou sobreviver sem esta compreensão. porém, ter que viver sem esta compreensão e não ter consciência da mesma não é algo que me cai bem, sendo que prefiro insistir em tentar compreender o modo como ela se dá para que desta forma talvez possa chegar na raiz da mesma e ultrapassá-la, tendo ao meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo apenas por conta da minha teimosa intenção que me presenteará com essa suposta compreensão. e terei aos meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo porque compreendendo ao máximo aquilo que vejo e as próprias possibilidades de ver aquilo que vejo, chegando na raiz última dessa equação, na possibilidade do reflexo que implica no próprio reflexo e portanto implica na palavra, irei desvendar o mecanismo da minha realidade e talvez apagar do meu totem a impossibilidade de ir além desta realidade. se este dia chegar, meus vizinhos serão diferentes, minhas palavras serão diferentes e todos os apartamentos deste prédio serão diferentes. talvez até mesmo as paredes se diluam, já que finalmente verei que elas não existem porque em realidade nada separam: são meras virtualidades da vergonha, meros monolitos do egoísmo. é possível também que todo preconceito entre as pessoas, seja por qual motivo for, também deixe de existir, isto porque não haveriam motivos para desentendimentos já que todo sistema do próprio entendimento seria conhecido, de modo que, ao conhecê-lo, pudéssemos ultrapassar o mesmo em direção a um outro entendimento. mas enquanto isso não chega fico com a cortina que lembra aquela música do ritchie e com o ventilador que ventila meus pés para que eles não sejam tão descascados por este verão que inicia. e ficando com isso, me dou por conta de que irei escrever neste espaço três vezes por semana, mais precisamente no sábado, no domingo e na segunda, o que talvez tenha a ver com o fato de vivermos em um mundo com três dimensões. einsten supôs que a quarta dimensão fosse o tempo. hoje, porém, já são contabilizadas onze dimensões sobrepostas em pequenas cordas que ao soar fazem tudo existir. se isto é verdade não sei, mas o fato é que isso faria com que minha trama de palavras se tornasse um violão, importando agora saber não tanto quem irá tocar, mas sim o quê irá tocar. se for um samba, o mundo será um. se for uma milonga, o mundo será outro. mas o fato de ouvir uns violinos que me chegam da televisão ali da sala, já que minha namorada certamente deve ter mudado de canal, me faz pensar que tanto um samba quanto uma milonga seriam muito pouco para este violão tornado coisa em razão da própria trama de palavras se diluir e dar foz a uma outra realidade. este violão, ao contrário, iria dedilhar a 9ª sinfonia de bethoven, transformando-se aos poucos em todos os instrumentos de uma imensa orquestra do cosmo assim como pôde se transformar em violão. digo isso porque a música é o conhecimento profundo do indizível, é o mais próximo que podemos chegar daquilo que é e somente é, pois ao contrário, ficaremos com blanchot e a morte como o ruído interminável do ser. e entre ficar com este ruído que lembra fábricas e aquela música que lembra vida, que lembra viver e a própria possibilidade de viver, e por conseqüência a grandeza de tudo isso, fico com a segunda talvez porque sejam seis e vinte e dois da tarde e minha garrafa d'água morna esteja no fim, o que faz com que até minhas associações tenham sede e acabem por desfalecer no deserto deste texto. afinal, um abajur cor de carne pode estar coberto por algumas manchas brancas assim como o sol de um deserto pode estar num céu tão azul que por conta do sol parece branco. e por quê? fica para a próxima, pois aqui já lembraria de gaia e urano, ainda que minha sede efetivamente exista - tanto por água quanto por mais palavras: essas perguntas desiludidas que todos os dias me ocorrem.