terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Mas as rosas são eternas e por isso mesmo não falam.

O amor é proporcional à dor. Só amamos porque sentimos dor e só sentimos dor porque amamos.

Estavam indo pra a praia passar um belo final de semana. Um desvio da estrada e todos morreram. Casais se casam e pensam que a vida será mil maravilhas. Um não suporta a escova de dentes do outro e tudo acaba.

Talvez por isso existam dias em que eu prefira tomar uma cerveja e um cigarro em um cinzeiro de pedra do que um vinho chileno e azeitonas na mesa de centro da sala. Talvez seja por isso que minha escrita anda tão carregada do que eu sou ao ponto de que tudo o que eu sou está completamente expresso nessas linhas.

E o pior disso tudo, é que talvez isso seja um erro. Mas o melhor disso tudo, é que talvez seja um fingimento.

Que não passo pelos melhores momentos da minha vida, isso é fato. Caso contrário, nem brasileiro seria.

Quanto mais acerto, mais erro. Os meus erros são proporcionais aos meus acertos. E o problema é que costumo acertar demais.

Não me iludo que malas prontas podem ser desfeitas. Nem mesmo me iludo que palavras ditas podem ser desditas por qualquer desvão da física quântica. Mas aceitar que o peito traz coisas que o desejo não consegue conceber, sinceramente me destrói.

E me destrói a tal ponto, que tento juntar os pedaços do que sou no patamar da escadaria da minha racionalidade.

Se sou de porcelana, junto com uma pá cuidadosa e com uma vassoura de papel.

Mas como geralmente sou de vidro, tenho de apelar para tudo aquilo que é sensivelmente grosso e que longe disso não funciona.

A casa que comporta essa escadaria com certeza não é grande. E muito menos tem porta dos fundos. Mas a realidade é que as pessoas que estão nessa casa é que fazem com que tanto meus erros quanto meus acertos tenham algum fundamento.

Caso contrário, nenhum beijo valeria. Caso contrário, nenhum abraço seria nada e ninguém mais nasceria sob a face da terra.

E caso contrário, nenhuma despedida se daria. Por isso hoje escrevo.

A vida é tão triste quanto uma lâmpada queimada em plena madrugada. Você quer ler um livro e nem velas tem em casa. Portanto tem de se contentar com a luz incômoda do computador, a qual mais perturba que ajuda qualquer leitura. E é nesse entremeio de viveres e sentires que acabamos acertando e errando, às vezes querendo cerveja e cinzeiros de pedra e às vezes querendo vinhos chilenos e azeitonas na mesa de centro da sala.

Dentre uma opção e outra, o difícil é manter o autocontrole. No mais das vezes, choramos feito fetos que recém foram espalmados pelos médicos. Nosso corpo se convulsiona histérico, nosso estômago parece criar vida própria e nossa vida parece se diluir em completas lágrimas provindas diretamente da bile, isto porque machucam as maçãs do rosto.

Depois de algum tempo, você até se pergunta se isso tudo valeu a pena ou se valeu a pena o tempo com o qual você passou com aquela pessoa. Pensando e pensando, você nota que valeu, mas assim como a vida, tudo tem um fim. E por mais que o amor seja eterno enquanto dure, como disse o Vinícius, é duro ser eterno em um amor que não dura muito e é mais enquanto que qualquer outra coisa. O presente é o passado esquecido.

Quanto mais humano e racional, menos imune a quaisquer litros de whisky nós somos. E quanto mais whisky houver, menos humanidade haverá. Portanto quais os animais que devemos criar?

É o que perpassa meu coração e minha mente nessa madrugada. Se essa história é verdadeira, caberá a quem me lê. Se ela é falsa, caberá àquele sujeito que passa o dia dentro do elevador perguntando pra qual andar queremos ir.

- Décimo novo – digo ao camarada cinqüentão que veste um quepe da marinha mercante dos sujeitos que apertam os números de elevador.

- Mas Doutor... Aqui não temos décimo nono... – responde ele meio acanhado.

- Não interessa. Primeiro aperta no dez. Pára lá. Depois aperta no nono e pára lá. Com a junção desses dois andares, criamos um andar décimo nono.

- E depois, Doutor?

- Depois me deixa lá embaixo que tenho que procurar as minhas lebres perdidas.

O sujeito me olha com cara de quem viu um cão louco, mas acaba seguindo minhas estipulações. Atá lembra do tempo que morava no interior de Minas Gerais e caçava lebres com espingardas de pressão. Mas não pergunta das minhas lebres em plena cidade. Ninguém pode duvidar de advogados e professores que não usam óculos, vestem terno e ainda por cima carregam uma pasta de couro, como é o meu caso. Ainda que isso soe arrogante, a arrogância é a mãe do desespero. E desesperados todos estamos. Por isso o andar décimo nono, o sujeito com quepe da marinha mercante dos sujeitos que apertam números de elevador e minhas lebres perdidas pelo asfato das esquinas.

Após cumprir com tais diligências, pego minhas coisas e vou embora.

Chego em casa, esquento um leite, assisto um programa qualquer e tento dormir. Como o sono não vem, sinto falta daquela que por um ano esteve do meu lado noite após noite.

Que o amor não acabou, com certeza não acabou. Mas que algo acabou e que as palavras disseram muito mais do que deveriam, isso aconteceu e reconheço.

Por isso reitero que queria criar, assim como o Emplastro Brás Cubras, o Emplastro Eduardo Frizzo, aquele que cura dores de amor, dores de cabeça, dores de solidão e acima de tudo dores de angústia.

E faça a mágica das mágicas: esquecer quem precisa ser esquecido.

Meu desespero talvez seria abrir as janelas e sentir o cheiro não de borboletas azuis, mas sim de flores azuis.

Flores azuis tem cor de cosmo e cosmo tem cor de morte, desespero e infinito. E se o cosmo tem cor de morte, desespero e infinito, eu morreria sem mosqueteiro nem nada. Morreria sem ter estudado em Coimba ou sequer conhecido a Argentina. Morreria como um indigente interiorano que tem algumas histórias pra contar, mas cuja imaginação supera qualquer realidade.

O amor é proporcional à dor sim. Só amamos porque sentimos dor e só sentimos dor porque amamos. E o pior disso tudo é que amamos viver.

Mas algo morreu essa noite e ainda existe água pelas pétalas.

Nenhuma máquina esquecerá disso. Nenhum neurônio matará essa safena.

Mas as rosas são eternas e por isso mesmo não falam.

6 comentários:

Ana Valeska disse...

Teu texto me tocou um bocado, pois enquanto lia não parava de repetir "eu sei o que é isso", "eu sei como é se sentir assim"...
Mas, pelo que sinto de ti, tu não foge da vida.
Agora dói, mas quando é bom é bom demais, né?

Bj.

Biba disse...

Teu texto, forte e verdadeiro, me traz lembranças de minha própria tristeza amanhecida. Apesar de amar, de ser amada, de tudo de bom, enfim, há um buraco-caos dentro de mim que sempre me assombra. Tuas palavras me fizeram lembrar dele. Estou num momento particularmente bom, mas o buraco-caos está sempre à espreita.
Gracias por existir Eduardo.
Beijo,
Carpe Diem!!
PS: seu blog está entre os meus preferidos

pensar disse...

Amor é o extremo, o exagero a magia.O amor é a melhor e a pior coisa.É a vida em seu pleno explendor.Amor é para quem pode, e são poucos.
Você pode, por toda sensibilidade que tuas palavras expressam. Sim toda essa irrealidade nos é real, então calma que o tempo acalma.
Bjs

glória disse...

eu faço parte dos povos que deixam a vida correr em "carne viva". corpos porosos, nunca blindados. te digo de longe, tudo valeu a pena. Embora arda, embora escorra sentimentos gurdados na caixinha mais bela. não lugar para esse desassosêgo. apenas as palavras nos salvam, e uma lufada de criação nos aquieta. te velo daqui! bjs

Marcelo A. de Moura disse...

Triste sem dúvida... Mas vou ficar alheio à isso e recorrer à velha ,e por vezes idiota, fórmula dos otimistas convictos: ver o lado bom. Não por ser otmista, eu não sou, nem por ser idiota, eu me esforço, mas por ter visto coisas ótimas no meio do texto, como a frase da arrogância estar ligada diretamente ao desespero, ou então na passagem onde cita o "esquecer quem precisa ser esquecido". Coisas boas e estáveis dentro de um turbilhão de palavras. Força homem, precisa se reeguer para depois sofrer de novo, se não não tem graça!

Abraço

Lótus disse...

Drummond não, Vinícius!! Foi Vinícius de Moraes quem escreveu isso. // E não por acaso, quando meu filho nasceu, eu fui a primeira pessoa que o tocou. Ele NÃO tomou uma palmada do médico, mas veio para o meu colo. Quando sentiu os pulmões plenos de ar, chorou, de susto. Então encostei-o no meu peito, pele com pele, e ele parou de chorar. Um bom começo, não acha? Pena nem todos os seres humanos serem recepcionados assim.