segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

E aliás, acabou de chiar minha cuia.

Há algum tempo penso seriamente em parar de beber. Geralmente esse pensamento me ocorre quando acordo de ressaca. Estranho que hoje não acordei de ressaca. Mas isso é um mero detalhe. O fato maior, é que beber mais me traz problemas que soluções, já que nunca vi o futuro no fundo das canecas de chopp, muito embora tente me tornar vidente há anos. Mas depois que li que um alemão adivinha o amanhã das pessoas apalpando suas nádegas, creio que o mundo chegou a um grau de putaria que qualquer generalização seria incapaz de descrever.

E por falar em descrições, enquanto as caixinhas de som do meu computador transpiram Meat Puppets, ouço alguns vizinhos ouvindo algumas bandinhas alemãs, dessas de baile de interior e coisa e tal. O refrão que me chega é mais ou menos assim: “oh! Catarina, Catarina, meu amor/deixa eu amar você/oh! Catarina, Catarina, meu amor/estou louco pra te ver”. Considero que o sentimento exposto pelo cantor em comento, do qual não duvido da sinceridade, é tão genuíno quanto este rock dos anos 80 que me chega aos ouvidos. Mas mais genuíno ainda é o chimarrão que me desce estômago adentro, ainda que o calor beire as margens dos quarenta graus nessas terras de Santo Ângelo em fevereiro.

E como sou um sujeito que procura manter certa coerência textual, acho que essa coisa de falar de vidência em copos de chopp e bandinhas mescladas à rock dos anos 80, tem tudo a ver com O Avesso da Psicanálise do Jacques Lacan que ontem peguei na biblioteca da Faculdade na qual leciono. E por quê? Porque de uma ou de outra forma, todas essas coisas falam de desejos do futuro que são tão incertos quanto o fato de uma senhora de cem anos fumar há noventa anos e ter pulmões de vinte anos.

Logo, como entender o mundo?

Um idiota poderia me perguntar:

- Como entenderei o mundo se o mundo não me entende?

Pra esse idiota, responderia o seguinte:

- O mundo não te entende porque o mundo não precisa te entender, caralho!

O idiota me retrucaria (idiotas sempre retrucam):

- Mas eu sou no mundo. Portanto o mundo deve me compreender.

Então eu responderia:

- Você sabe o que é o mundo fora da palavra mundo?

Aí certamente o idiota iria se aquietar ou simplesmente arrumar um compromisso e sumir da conversa.

Por esses motivos que não acredito nesses universos “de dentro” que a Clarice Lispector e a Virgínia Wolff tentaram falar. O Universo é apenas um, ainda que os físicos atualmente falem que somos apenas um Universo em um mar de Multiversos. Mas isso é conversa pra outras horas. O que quero dizer mesmo, é que o futuro inexiste assim como o presente e o passado são completas ilusões. Temos de criar essa cronologia para suportar a existência. Caso contrário, o mundo seria mais caótico do que já está – o que, convenhamos, talvez até fosse bom para que alguns retardados que por aí andam finalmente se toquem.

Não que eu duvide do talento literário da Clarice Lispector e da Virgínia Wolff. Gosto muito de ambas, aliás. Mas como falou o António Lobo Antunes em uma entrevista, ele até achava genial a Clarice antes de descobrir que tudo que ela falou já estava na Virgínia Wolff. Logo, como dizer de universos “de dentro”? É algo tão besta quanto falar em psicologia transpessoal ou psicologia quântica – besteiras que fazem falastrões ganhar rios de dinheiro em tempos de executivos que só lêem livros de auto-ajuda e raciocinam na forma de cifrões. E além do mais, a única coisa que nos consome por dentro é um câncer galopante e uma diarréia pós-feijoada.

Por isso é que considero que a artista da literatura que conheço que realmente falou desses universos “de dentro” com alguma dignidade, foi a Hilda Hilst. E por quê? Porque ela sabia que o “de dentro” só é “de dentro” por conta do “de fora”. E que, por conta disso, assim como sempre disse o Carl Sagan, tudo se relaciona com tudo na medida em que tudo é feito da mesma matéria. Se no conto Fluxo a Hilda Hilst fala de um poço que tem por teto uma clarabóia, isso já basta para explicar o pensamento dessa escritora única. E se, quando um jornalista visitou seu rancho, descobriu mais livros de Física do que literatura em suas prateleiras, isso diz muito mais do que qualquer explicação que eu poderia tecer.

Então não me venham com explicações para o mundo. Que dirá para esses universos “de dentro”, os quais são mais umbigo do que qualquer outra coisa, o que infelizmente se prolifera pela internet de uma maneira viral. O problema é que as pessoas pensam que fazer literatura é falar de si. Não nego que sempre estamos falando de nós mesmos. Entretanto, fazer literatura é ir além de si para buscar o incerto que está além e que, por conseqüência, com tudo se relaciona. Se encontraremos esse incerto, não interessa, porque o artista nunca sabe o que vai encontrar. O que interessa é tentar, pois a tentativa é a raiz da arte.

É claro que nossas tentativas podem dar errado. Afinal das contas, nunca vi o futuro no fundo das canecas de chopp e acho que as apalpadelas do alemão servem mais pra sua masturbação noturna do que qualquer outra coisa. Quanto ao Lacan, ele teve a coragem de falar disso que ninguém sabe o que é mas tenta explicar – ou seja: o inconsciente. E são pessoas assim que admiro e estudo.

E neste clarão de domingo à tarde, penso que o dia criptografa a luz. O que nos chega é um código. As artes são as possíveis leituras desse código. As ciências são a corrupção dessa mesma luz, a qual, no final das contas, é mais olho que luz, como se a pupila fosse o prelúdio do sol morto: supernova de jatos, matérias de pendência e tudo nos onze cantos da baba de nós. Isso é tristeza. Guitarras são gritos. Violões, desesperos. Se há um céu, este céu não está no céu. O paraíso é o depois da saudade. O esquecimento é a culpa do amor. E o amor é o que destila os dias.

E enquanto nada disso se resolve, continuo pensando em parar de beber.

E aliás, acabou de chiar minha cuia.

7 comentários:

Franciele disse...

Seu sacana. ;)

Biba disse...

Beber, parar, voltar... Hehe! Conheço essa história ou vontade. Meu irmão, que é Eduardo, como você, ficou nessa onda até que conseguiu parar de verdade. Acho que ele é muito mais entendível (isso existe?) do que antes. No mais, Virginia e Clarice são maravilhosas independente do "de dentro" a que você se refere.
Beijos
Carpe Diem!!!

Rita A. disse...

Você está com raiva? Lendo o seu texto foi essa impressão que tive, e ele está muito bem articulado e coeso. Eu acho que não dá para desprezar as experiências. Todos os escritos que tentei fazer isso, por pudor de usar o meu umbigo, acabaram indo parar no lixo, falsos. Agora, eu aproveito bem o meu umbigo e os umbigos dos outros. Uma umbigada. Beijos, moço. Eu respondi seu comentário (lindo) e sumiu. Depois te mando.

tagg disse...

Estava bebendo tanto que comecei a me descolar da realidade. E tanto estava 'descolada' que achava tudo muito engraçado, a vida colorida e as pessoas muito legais, no geral. Adoeci feio e tive que ficar duas semanas sem beber e fumando um cigarro por dia. Foi ótimo. Gostei de lembrar das minhas noites e de trabalhar sem ressaca - rs.
Voltei a beber e a fumar desgraçadamente (o meu caminho é o do excesso) e só não estou mais feliz porque os sero manos com quem travei algum contato ultimamente não foram devidamente catalogados de acordo com meu nível ultra-alcoólico e me pareceram, portanto, normais demais. Espero sempre que a próxima piada seja a melhor. Ainda que para tanto contribuam algumas doses.

p.s.: não consigo ler Clarice nem Virginia. tento, sempre acho muito chato. Hilda é vida demais, tanto de palavra quanto do que não é palavra, mas também é. Adoro.

Tainá :) disse...

Estava tentando, uma vez, convenser um amigo a não mais beber. "Beber não tem graça nem fundamento", eu disse. Ele me respondeu: "o fundamento é que tem graça, sua boba!"

Mesmo assim, continuo sem entender. Mas, lhe dou o mesmo conselho: pare!

Ah, lendo seu texto, percebi um certa revolta não-sei-de-quê.


Acho Clarice Lispector magnífica.

E o "de dentro" se ver "por fora", mas só se sente por dentro.


Fica bem ;*

glória disse...

eduardo, eu sou que nem o óbelix, caí no caldeirào do druida e nasci meio delírio, meio idílio. isso nào que dizer que um tanto de lucidez fique guardada para momentos fora da embriaguês. essa mistura de nitidez com imprecisào, abre fendas de possibilidades. São essas frestas que burlam as burocracias, as vigílias incessantes da ordem e da repetição. beber ou ficar sem beber nào muda muita coisa para mim.você entende? perdào ser meio clariciana: eu não consigo me disfarçar de mim mesma. quando bebo, de preferência um vinho bem incorpado, me vejo trafegando em dobras, como um traçado fora das linhas retas. Eu sou passagem entre um "fora" que se retesa em toda a pele, superfície das sensações de profundidade e um dentro com a cara para o mundo. minha borboleta acaba de pedir dançar sob as ondas d voz de norah jones e um sax divino. Nào tem carnaval melhor. adorei a idéia do blog. bejim cearense.

tagg disse...

trecho de postagem de faz tempo, qdo tentava ler Clarice.

3.6.07

ode ao inseticida

não matarei a barata ao amanhecer
nem o áporo, se me vê, teme, em instante ímpar e único
o escaravelho (ao ranger de escadas em que passos meus)
antes sabe a velha música
e a compreenderá e amará sempre

aranhas, ratos, salamandras
mariposas, formigas, escorpiões
todos têm de mim todo respeito
como têm do povo qualquer governo
já que basta a qualquer grupelho
para estar quieto, como se enfermo,
a posse da razão antiga e tanto
como se chicote

basta a razão inseticida e por isso
louvo e bendigo e sobretudo
faço saber que existe
o baygon, velho amigo
que cessaria
que findaria
a angústia de kafka, clarice, graciliano

sobretudo de clarice,
a quem aquele faltou,
restando apenas uma malsucedida
tentativa de homicídio

baygon, faço grátis o merchandising,
para que pudesse
fazer de mais interessantes coisas
a própria vida

baygon, e outros haverá (ai, meu deus, a gramática normativa),
certeiros como john wayne e, como ele, modestos.

baygon, e outros haverá,
que não nos deixem enganar pelo
exoesquelesto da barata chinfrim
que só queria (ai, clarice)
uma passagem .

contra mário em sua ode anti-ode
faço uma ode:
viva ao insetecida
viva aos inseticidas
que nos livrem
por décadas, por séculos,
por mil milênios,
das filhas das putas das baratas
e outros animais repugnantes

para os nascidos a década de 70:
que nos livrem, os inseticidas,
dos bichos escrotos.

"vão se fuder."

p.s.: 'Todo mundo é confuso, como vozes na noite'. Não calo não pelo umbigo, nem pelo 'de dentro', não calo só por sentir lágrimas quentes vertendo dentro no silêncio da noite. Não calo - se calasse, concordaria com algo qualquer que sou eu mas que abomino. Alguma coragem existe em dizer, ainda que só para você ou meia dúzia de amigos. Nessa coragem há muito menos vaidade que nas fotos com as quais nos damos a ver, não acha? O perigo é a incapacidade da ilusão.
Hey, estou de trago, como diz você. Um brinde!