sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre Naked Lunch de David Cronenberg.

O corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição. Se nossa mente é soterrada por mil pensamentos e sensações que ocorrem todas ao mesmo tempo, como dizer que nosso corpo, o qual comporta nossa mente, foi feito para a perfeição? Sendo, portanto, essa distorção possível, quem sabe ela não seja possível ao nível da realidade, muito embora tantos procurem modificar seu corpo de maneira a incutir nele o que se convencionou chamar de personalidade, e tantos outros nasçam com deformidades que carregam pelo resto da vida, como bem demonstrou Tod Browning em Freaks (1932). Entretanto, é no cinema de David Cronenberg que essa distorção do corpo toma o próprio corpo da película. E é em Naked Lunch (1991), que a mente e o corpo, a tal ponto distorcidas, constroem uma obra cinematográfica única, a qual, em sua estrutura primordial, traz consigo o próprio corpo como referência fundamental.

Em Naked Lunch, deparamo-nos com Bill Lee (Peter Weller, em uma interpretação junkie/noir), um homem que é exterminador de baratas e escritor que nada escreve. Para exterminar baratas, esse homem usa um pó amarelo com o qual as baratas se alimentam para engordar, engordar e enfim morrer. Certa feita, contudo, Bill Lee percebe que sua esposa está viciada no pó amarelo que usa para exterminar baratas, sendo que logo em seguida é preso por policiais desprovidos de qualquer fardamento sob acusação de que seu pó amarelo contém na verdade uma droga – e que, para resumir, não extermina barata alguma.

Esse homem, talvez a personificação de William S. Burroughs que escreveu o romance do qual se originou o filme, foge dos policiais ao se deparar com os conselhos de uma barata gigante que tem tremores de prazer com o pó amarelo utilizado, em princípio, para exterminá-la. Ao chegar em casa, Bill Lee vê sua esposa, Joan (uma Judy Davis de olhar atemporal e chapado que lembra uma rock star falida), na companhia de dois amigos, sendo que se um deles lê um poema beat com seus óculos de aros pretos, o outro transa com Joan, como se as palavras do próprio poema fossem a força que impusionasse o sexo.

Ao verem que Bill Lee chegou, os três ficam um tanto constrangidos. Mas enquanto isso, o que Bill Lee faz é ir para o quarto e, como fazia a esposa há sabe-se lá qual tempo, injetar nas veias o pó amarelo que em um momento anterior utilizava para exterminar baratas. E é partindo dessa premissa inicial, que em si já carrega a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, que inicia toda saga do protagonista, pois após sua esposa posicionar um copo na cabeça, encenando um jogo que aparentemente há muito era jogado por ambos, Bill Lee, apontando uma arma em sua direção, ao revés de acertar o copo, acerta a cabeça da própria Joan.

E o que acontece a partir de então? Constipado pela culpa e pelo delírio do vício, Bill Lee, exterminador de baratas e escritor que nada escreve, recebe passagens também de uma barata gigante, só que essa elevada ao nível de frequentadora de pubs, para ir até um local chamado Interzone, sendo que nesse local descobriria a verdadeira razão de tudo o que lhe está acontecendo. E para o quê está essa razão? Principalmente para o fato de que sua esposa, segundo o relato da barata que tinha tremores de prazer na delegacia da qual Bill Lee fugiu, na verdade não é sua esposa, mas sim uma agente treinada para acompanhar os passos do próprio protagonista por uma organização desconhecida com sede justamente em Interzone.



A partir daí, Interzone nos é apresentada como um porto do Oriente repleto de escritores e homossexuais, onde as drogas, normalmente provenientes de insetos, povoam todos os corpos que, por conseqüência, são deformados pela droga. E nesse cenário de escritores e homossexuais, carregando de um lado para o outro sua máquina de escrever que ora se transmuta em apetrechos para o vício, ora se transmuta em insetos que conversam e aconselham Bill Lee, é que o protagonista perceberá que não existe redenção tanto para o vício quanto para a culpa, sendo que o primeiro assim como o segundo jamais deixarão uma pessoa sair sem qualquer sequela nas mãos.

Talvez, levando a construção fílmica de Cronenberg e mesmo o romance de Burroughs ao extremo, possamos enxergar nesse porto do Oriente repleto de homossexuais e escritores, a própria culpa travestida de Bill Lee, o qual, vagando entre o sonho e a realidade, não encontra lugar melhor para descobrir quem é a não ser um porto: local no qual todos desembarcam mas no fim ninguém permanece. Não é à toa que em vários momentos, Bill Lee aparece dormindo na areia de uma praia que não se vê, próximo a um barco destruído, como se a fuga, apesar de tentada, fosse impossível.

Por esses motivos e muitos outros, que Naked Lunch de David Cronenberg segue os traços do realizador de Spider, Crash e The Brood, ao reforçar a tese de que o corpo não foi feito para a perfeição. Se Bill Lee é deformado pela culpa, pelo vício, pela homossexualidade que renega e mesmo pela escrita que julga não ser sua, já que é um escritor que nada escreve, tudo isso não tem apenas consequências internas para o personagem, já que essas consequências vazam para o plano externo de uma maneira que beira o caos, mas traz consigo uma estrutura perfeitamente alinhavada com as intenções de Cronenberg/Burroughs ao nos contar essa história.

Não é necessário dizer, pelo visto até aqui, que nem todos se sentirão satisfeitos com Naked Lunch. Talvez o motivo disso até esteja para o fato de que a tradução do título do romance em português, está para “O Almoço Nú”, muito embora no Brasil tenham lhe batizado com o terrível “Mistérios e Paixões” enquanto filme. Esse almoço nú, refeição que não satisfaz porque traz no próprio corpo o alimento e aquele que se alimenta, seja pelo vício ou pela culpa, a qual, com o correr da trama, também se torna um vício, por vezes nos dobra as curvas do estômago e nos faz pensar que Cronenberg e sua obsessão por insetos quer dizer muito mais do que diz em cada minuto da película – e quer, enfim, apenas nos enojar com um vômito que se prende na garganta.

Mas se o corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição, sendo que toda a distorção, a partir desse ponto fundamental, torna qualquer realidade possível, distante de uma dicotomia que traga mente e corpo como entidades separadas e não contidas em um mesmo emaranhado de incongruências psicológicas e perfeições biológicas, não existe outra maneira de se contar uma história sobre a culpa e o vício sem recair nas conseqüências externas que essa mesma história irá trazer consigo. E se essas conseqüências externas ocorrem em sua maior parte em um porto do Oriente, talvez aí esteja a chave para a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, pois apesar de todos atracarem um dia nesse porto, a partida é inevitável assim como é inevitável o nosso fim.

Por isso é que Naked Lunch é uma experiência estética e fílmica única, trazendo em si um visual bizarro que somente ilustra a bizarrice com a qual nos deparamos todos os dias rua após rua. E apesar do asco que talvez este filme provoque em alguns espectadores, tal asco, como no romance A Náusea de Jean-Paul Sartre, é tão necessário quanto é necessário saber que o vício e a culpa estão diretamente relacionados ao prazer e só por isso nos constituem fundamentalmente. Mas se Sartre nos diz que a náusea está para esse deslocamento do ser humano frente ao mundo, Cronenberg/Burroughs estão além: aceitam esse deslocamento e é a partir dele que falam, sendo que dessa aceitação provém uma obra que deveria receber muito mais aplausos do que recebeu até o momento. Afinal, não são todos que (de)mostram sua personalidade. Quanto mais realizadores cinematográficos.

3 comentários:

pensar disse...

Edu,
Assim como um filme ou um texto,quando o autor escreve ele sabe o que quer passar mas nunca sabe o que atingira.
Teus textos merecem ser degustados devagar para nao perder nenhum sabor.
Tem muita coisa para refletir em cada texto seu.
Adoro isso.
Bjs

Biba disse...

Estive aqui Du, sem reservas. Assisti Naked Lunch há muitos anos e foi bom ler sobre o filme novamente, com um olhar diferenciado, que é o seu.
Beijo e saudade
Carpe Diem!!

glória disse...

ei, estou viajando. agora, numa praia linda, denominada lagoinha. net pega lenta aqui, quando retornar te leio. um bj grande.