domingo, 15 de março de 2009

A culpa enfim se instalara.

Generais não gritam. Generais apenas falam. Generais são serenos como o mau que nos trai a cada bondade. Generais não têm todas as honrarias que pensam, mas carregam todos os pensamentos que pensam sobre as honrarias que não têm. Por isso ele enterrou o corpo do vizinho no quintal e plantou gerânios vermelhos por cima. Não que os gerânios vermelhos tivessem algum significado ou mesmo que a morte do vizinho quisesse dizer alguma coisa. Como foi explicado, generais não gritam e são serenos como o mau que nos trai a bondade. E é por isso que sabem de todos os nossos pensamentos.

Não tolerava mais o vizinho. Cortar gramas compulsivamente nunca foi certo. O som da máquina, os fios da máquina podando o verde do chão nunca foi algo no mínimo agradável. E esse motivo é que fez com que o General tomasse aquela decisão. Guardara o machado há anos e era o momento de usá-lo. Matar alguém em nome de outra pessoa não quer dizer nada. O bom é matar por conta e sem qualquer motivo. Só assim o sentido do assassinato se revela.

Não importa a maneira como o machado foi usado. Importa apenas que o crânio do vizinho rachou. E o vizinho morava sozinho. Talvez nem filhos pelo mundo houvesse espalhado. Certamente não passava de um desses seres que por mera compulsão, arrumam a grama e mais precisamente o ato de cortar grama como sustentação para toda sua existência. Mas um ato pode sustentar uma existência? Essa covardia era demais para o General. Caiu então a gota d’água.

O General lembrou de certa vez em uma trincheira. A data se perdera nos calendários. O rádio dizia que as bombas viriam. Mas se passaram três dias e as bombas, que eram bombas inimigas, não vieram. E o que ele e os demais fizeram na trincheira naquele tempo? Comeram terra, fumaram cata toco de cigarro que ainda restava e tudo não passou disso. A expectativa não se tornara real. O anseio não tomara nome. E foi isso que se passou na cabeça do General quando ele usou o machado: a fome com gosto de terra e cigarro.

Quando a lâmina cortou o osso, lembrou daqueles buracos. Lembrou de corpos azuis, lembrou de corpos podres, lembrou de tudo o que vira e cheirara nos tempos em que transitara por outro país. Mas a lembrança não era uma lembrança ruim. Pelo contrário, justificava seu ato e até mesmo o machado perfurando o osso de um só golpe – o vizinho caindo como cai um livro no chão e nada mais.

Talvez esses seres que por aí transitam, não sejam nada mais do que isso: expressionismo alemão que ainda não se definiu, pensou o General, pois não poderia haver outra explicação para a compulsão em cortar grama do vizinho. Tudo nele era preto e branco, apesar da sua casa ser bege. A única cor que ganhou em vida, certamente foi aquela que o machado lhe trouxe na morte. Antes disso, nunca tivera consciência da sua própria existência porque jamais vira seu próprio sangue. E quem jamais viu o seu próprio sangue, jamais saberá da culpa que carrega consigo.

Dessa culpa General sabia. Tanto que ajoelhou nos pregos da cozinha e deixou que as pequenas pontas penetrassem fundo na carne das pernas, de modo que, no entanto, o sangue não chegasse a vazar. As luzes estavam apagadas. Apenas um carro ou outro cruzava pela madrugada. E quando o General percebeu que iria desmaiar, levantou, tomou um banho e foi dormir, deixando o machado e o vizinho na sala de estar. Afinal, o outro dia seria domingo. E domingo é um bom dia para tudo quanto seja relaxante.

Ao acordar, despertou disposto. Logo arrancou a pá que guardava no fundo do guarda roupas e a jogou no quintal cercado por toras de madeira. Antes de iniciar os trabalhos com a pá, porém, foi à floricultura. Comprou duas dúzias de mudas de gerânios vermelhos. E isso seria o suficiente para disfarçar a saliência que o solo faria com o corpo do vizinho e seu respectivo machado.

Até pensara em remover o machado do crânio do vizinho. Mas de certa forma, era um privilégio ser enterrado com um machado na cabeça. Daqui há milhões de anos, quando o quintal do General não for mais quintal mas sim sítio arqueológico, certamente escreverão alguma tese sobre o crânio e o machado. Quem sabe até encontrem vestígios de gerânios vermelhos. Porém, isso já seria pedir demais. A eternidade só existe no Paraíso. E o Paraíso só existe para quem acredita no Paraíso, sendo que para entrar no Paraíso é necessária a culpa. Não é que Deus seja um vampiro: ele apenas cobra seu preço. Trata-se de um Mefistófeles às avessas e só isso. Simples como um contrato.

E quando o General acabou o trabalho, ligou para alguns colegas e jogou pôquer até amanhecer. O estranho é que os gerânios vermelhos floresceram da noite para o dia, como que impelidos por uma força que nem mesmo suas raízes pudessem conter. Era como se suas pétalas se espalhassem quintal afora, transcorrendo como tempo apenas para fecundar outros gerânios pelo mundo.

Percebendo isso, o General ficou feliz. A decadência, enfim, já havia diminuído um tanto. Dera importância ao que considerara importante e fizera o que considerava importante. E isso era o que valia, sendo que ninguém poderia duvidar de sua ética. Até mesmo os policiais que foram chamados pelos outros vizinhos para dizer do sumiço do vizinho do General, ao falar com o General, elogiaram seu canteiro de gerânios vermelhos.

O problema, entretanto, foi que disseram que o vizinho era procurado por um crime qualquer. Não quiseram dizer qual crime era, mas disseram que não era coisa pouca. E foi aí que na mesma noite o General desenterrou o vizinho, arrancou o machado da cabeça dele e abriu a própria testa. Desde então, os cigarros pararam de voar pela janela.

Dizem os que moram lá praquelas redondezas, que os gerânios continuam crescendo, mas enquanto um é vermelho, o outro é verde escuro.

A culpa enfim se instalara.

4 comentários:

Biba disse...

Viu, Du, tem um selo pra você lá meu blog!
Bju
Carpe Diem!!

Adri Antunes disse...

ehe, eu tb ando numa fase de escapulir de tdo o quanto não me dá prazer, mas a ilusão só dura até o fim da noite desse domingo, depois já é segunda e voltamos a realidade!
pra ti tb, bom findiii e lá vamos nóss!
bjuuuu

Lu Paes disse...

Oi, Edu (posso te chamar assim?)!
Texto lindo, para dizer o menos.
A culpa é mesmo algo cruel, ela sempre ronda quem pens que passa longe dela - e num único segundo ataca. traz de volta todas as coisas ruins, todos os 'podres' da pessoa. Mostrar isso por flores e machados é que impressiona.
Eu, particularmente, sou fã de coisas ditas sem serem faladas..explico: a representação das flores, do mesmo modo que, uma vez, eu escrevi em um conto todas as emoções da meninas atráves dos olhos (azuis) de água doce dela. Ora a água era turva, ora límpida, às vezes até marés havia. Tudo não passa de pura representação no mundo da arte. Ainda que eu não me considere artista.

E, talvez toda mulher seja mesmo aeromoça. Eu quero me livrar disso. Esse fim de semana fiz loucuras que há tempos sonhava fazer - vou descrevê-las no meu blog. E tudo isso para me livrar desse sorriso falso (tal qual culpa que se mostra no último suspiro).
Ouvir você dizer que meu texto fez um pouso -espero que perfeito- na sua sensibilidade, me deixou alegre. É isso que eu sempre quis: emocionar. mais do que isso: eu sempre quis emoções.

Beijos da Lu Paes!

glória disse...

Eduardo, você me surpreende, e muito! ontem, as divagaçòes ficavam em nível dos pés e de tudo que implica olhar para fora do campo costumeiro de visào. Hoje, o vizinho é morto por uma razào tão banal quanto o ato de dar importância às coisas desimportantes, um corte de grama, uma intolerância inócua. O extraordinário nasce de uma falta de motivo? É preciso que se instale uma razão instrumental, ter matado alguém que seria "matável" para que o alvo do extraordinário mude de direção? O machado se volta contra o general. A culpa é um significado que relaciona fatos, instala correlações, assim me parece. um ato (isolado) pode sustentar uma existência? é preciso que o sangue e o sofrimento tenham lugar no meu corpo para que a dor do outro transite até o lugar da minha dor. a culpa é a sensaçào de estar no lugar do outro. Os gerânios continuam crescendo, baste que se olhe para os pés. E você Eduardo, doce poeta bem-dito? Como vc. esculpe esses escritos? fico imaginando de onde surgem essas idéias... Eu apenas sei que fico torcendo para que na janela do meu blog apareça algo novo no insufilme.

Quanto aos selos, somos todos egóicos mesmo, uns levam as vaidades a sério outros sào poetas-brincantes, gostam das boas trocas.
Esses selos sào expressòes de gentileza daqueles que lemos com 'bons olhos". que os recebamos! bjs ainda domingueiros!