domingo, 8 de março de 2009

Seu começo e sua verdade.

Acordou desarvorada de amores.

Queria lembrar dos braços dele, mas não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos dele, mas também não conseguia. Lembrava apenas de um vulto estranho que quanto mais próximo, mais distante ficava.

Por isso que naquele dia, decidiu que tudo deveria acabar. Havia cansado de jogos que escondem cartas por debaixo das mangas.

Sempre fora às claras: se uma briga ir madrugada adentro com pratos voando pelas janelas, ótimo. Porém, se as coisas forem feitas assim como se faz em um escritório, tornando o amor tão corporativo quanto qualquer empresa, já não se reconhecia nisso e portanto tinha de pedir o fim. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo, pois o amor não tem um código e a paixão jamais foi fruto de qualquer jurisprudência.

Mas uma questão se impunha: como pedir o fim?

Simplesmente chegar pra ele e dizer “acabamos”? Inventar o argumento clássico de que precisava se encontrar consigo mesma, visto que estava passando por um momento de transição? Nada disso lhe parecia viável. Aliás, tudo isso tinha o mesmo cheiro dos argumentos dele: ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos postergados pelo trabalho, pelo horário e pela filha que morava em outra cidade. E isso não era mais com ela.

Quando deu a partida no carro, o dia ainda era cinza. Havia uma neblina estranha por detrás dos morros que circundavam a cidade e talvez aquilo quisesse lhe dizer algo, porque a neblina também era cinza. Contudo, ela sabia que as coisas não dizem nada além daquilo que dizemos das coisas. E entrar nesse jogo bobo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual sua vida estava sendo jogada por aquele vulto tão estranho que nem mais braços parecia ter. Então esqueceu ou ao menos tentou esquecer desses detalhes e simplesmente saiu pra rua, ignorando blefes e piscadelas que sua memória queria emergir.

Como manhã e domingo, certamente ele estaria em casa. Não se viam há duas semanas. Apenas o telefone os contatava. E estaria em casa, porque era bem provável que havia saído na noite anterior, que havia enchido a cara, que havia dado fiasco cantando no palco de qualquer pub e que provavelmente havia transado com outra mulher. Mas será que ele havia feito tudo isso ou tudo isso era tão infundado quanto dar qualquer significado pessoal para a neblina cinza detrás dos morros? Tudo não passava de suposição, ela tinha de convir consigo mesma, ainda que toda loucura sempre tivesse raiz em uma suposição.

Quando chegou até a casa dele, estacionou e respirou fundo. Desligou o motor do carro como quem desliga o suor das mãos. Desceu e caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. “Bem coisa de homem”, pensou. Afinal, ele morava sozinho já havia dez anos e estava com trinta e poucos. “Mas trinta e poucos como eu”, concluiu. Só aí, fosse por vaidade ou medo, aquietou enfim a mente.

Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou alguns segundos e apertou pela segunda vez. Ninguém. Já notando a raiva sair dos gerânios que sua mente imaginava em um jardim familiar, colou o polegar na campainha como quem espreme uma garganta. E foi então que ouviu passos se dirigindo até a porta. Os passos aos poucos se aproximaram e a maçaneta girou.

- Sim? – disse um homem dos seus setenta anos, vestindo uma bermuda xadrez e uma camiseta de campanha de vereador.

- O senhor mora aqui? – perguntou ela, sentindo na laringe aquela raiva de gerânios se transformar em estranheza turista.

- Sim. – respondeu seco o homem com cara de quem recém acordou, os cabelos brancos espetados pela moldura do travesseiro e o rosto um tanto molhado pelo tapa da água fria.

Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Conferia com o número da casa dele. Há um ano ela freqüentava aquela casa final de semana sim e final de semana não. Às vezes até nos dias de semana freqüentava aquela casa, isso quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o único remédio para a tristeza era o sexo e a cerveja.

- A senhora deseja alguma coisa? – questionou o homem, coçando os olhos de sono com as costas da mão transparente e interrompendo tudo aquilo que girava ao redor dos cabelos dela.

- Não... – disse rouca. – Acho que me enganei de número...

Com um ar completamente diverso, caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. Já não queria o fim. Queria um começo e até visualizava um recomeço. Mas não sabia do quê.

Como poderia ele não estar mais na casa lilás 985? O que fez com que ele saísse de lá repentinamente? Puxou o celular da bolsa e procurou o número dele um tanto nervosa enquanto ouvia o homem fechar a porta uns metros atrás. Discou e o telefone estava desligado. Discou novamente e novamente o telefone estava desligado. Guardou o celular na bolsa e entrou no carro como quem entra em um lugar pela primeira vez, procurando amigos nas mesas de uma pista de dança.

Era manhã e domingo, ela sabia. A neblina por detrás dos morros era cinza como seu carro era cinza e o dia também era cinza. Mas por qual motivo ele não estava mais ali e seu celular estava desligado? Não sabia o que dizer ou sequer o que pensar. Toda a decisão que fizera com que ela pouco dormisse e mesmo assim cedo acordasse, havia se transformado em dúvida. E essa dúvida era tão sem nome quanto qualquer rua não batizada, quanto um começo ou um recomeço sem qualquer placa ou referencial.

Mas foi ao chegar a sua casa, que algo lhe passou pela cabeça. Talvez seus amores já tivessem deixado de florir há muito tempo, assim como mal floriu o seu gerânio de raiva na grama familiar da sua imaginação. Talvez nem árvores um dia houveram e tudo não passasse de mera coincidência que brotara da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância.

Talvez tivesse demorado demais e tudo havia se tornado cinza e desarvorado.

O blefe do amor havia envelhecido e esse era o começo. Seu começo e sua verdade.

9 comentários:

Biba disse...

O que dizer diante de um texto tão limpo e afetuoso, que fala de um amor ambíguo, dormente, triste? Só sei dizer que gostei muito e que acho que você deveria escrever mais desse jeito.
Beijo e meu carinho de domingo
Carpe Diem!!

Adri Antunes disse...

Du,
obrigada!

tagg disse...

típico de macho sumir sem dizer nada. pra mim é um acinte. poderia até pensar ser um recomeço mas, se encontrasse o sujeitinho na rua um dia por acaso, lhe dava uma voadeira e dois dedos enfiados nos olhos pra que pensasse - e não se atrevese a repetir o erro. :)

Simone K. disse...

Eu não teria dito melhor... Obrigada pela bela história! Enfim, o desabafo encontra eco em outra voz, e isso traz uma certa quietude e um Q de alívio quase insano.
Beijos...

Moça do Fio disse...

Que mente confusa, a dela. Adoro personagens assim, complexos, profundos. Insanos.

Parabéns pela construção da moça.

Beijos.

glória disse...

que tempo foi esse que criaram para complexo lugar de sentimentos? as lembranças do amor "embaraçam a minha visão". são tantos os fantasmas que habitam esses vãos, que coexistem ou que sequer se estreitam por um pequeno fio que seja. como pedir o fim? qual o endereço de onde começou algo que já pode ter se perdido em linhas soltas do tempo? esse teu conto é "quântico": quantas dobras de tempo e de possibilidades atravessam a mesma existência? o cinza é uma cor tão desprovida de qualquer matiz. o fim de um amor para mim é roxo, como pancada que deixa marcas. o começo é amerelo que nem os primeiro raios da aurora se "atrepando" no céu. tu deve pensar assim, essa criatura que me escreve consegue ser mais desatinada do que eu! sei lá, tu me dá voltando de sair me espalhando, soltando palavras para todos os lados. tá tarde, amanhã é segunda, dia de trabalhar bem muito, e eu nem sei de onde começou essa verdade. esse tão conto é tão belo, um estili diferenciado. eu gostei muito!bjs

Pedro Antônio disse...

Mestre! De onde sai esse turbilhão de ideias?

Abração.

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA - www.atorremagica.blogspot.com

glória disse...

Tu viu eduardo, meio trôpega de sono, troquei a palavra vontade por voltando? como eu não cometo o erro de subistimer os erros, deixarei assim. vai ver que fica melhor. bj

Lu Paes disse...

Oi, Eduardo!
Tudo Bom?
Nossa, muito obrigada pela visita!
Sabe, eu concordo com você quando você diz que se deve sonhar alto: Quem mira para as estrelas pode não alcançá-las, mas jamais enfiará os pés na lama. Infelizmente, não me recordo de quem é essa frase...
Bom, adorei o seu blog! Seu último texto prendeu minha atenção como poucas coisas prendem. É..não sei, meus quinze anos não me deixam palavra nenhuma para descrevê-lo.
Achei de um sentimento lindo, uma poesia sublime e cheio de metáforas, comparações e palavras perfeitas.
Volte sempre ao 'Trinta Livros'!

beijos da Lu Paes!

ps.: tomei a liberdade de me tornar seguidora de seu blos..se importa?