sábado, 21 de março de 2009

(Literalmente.)

Eu estava de mudança. Mas minha casa não era essa.

Era uma casa que não tinha muros e o contato com os vizinhos era inevitável.

Havia combinado que faria tiro de tinta com minha vizinha da direita. Mas explico: minha vizinha da direita era uma ex-namorada que fabricava a tinta para o tiro de tinta a partir de secreções provindas de defuntos humanos. Ela até quis me mostrar os vidros nos quais guardava as secreções marrons, mas eu não quis ver, disse que não me interessava pelo assunto e que apenas queria fazer tiro de tinta. E esse tiro de tinta seria feito entre eu, minha atual namorada, minha vizinha da direita e ex-namorada e mais suas duas sobrinhas que estavam na sala assistindo televisão enquanto não começava o tiroteio.

Entretanto, logo chegou o pai dessa minha vizinha da direita e ex-namorada e sem mais iniciou um churrasco bem na garagem minúscula onde faríamos o tal tiroteio. Eu nem havia notado que havia uma churrasqueira na garagem, mas de fato havia uma churrasqueira na garagem. Porém, o detalhe é que ele pegou um tronco de dentro da churrasqueira, rachou ele longitudinalmente com um machado que também retirou de dentro da churrasqueira, pôs o mesmo em brasa em cima de uma mesa circular na qual igualmente não havia reparado, e ali fincou o espeto com a carne que trouxera sem que eu também notasse.

Quando perguntei de onde provinha essa técnica, ele disse que inventou essa técnica, me olhando por cima dos seus óculos de aros pretos que me lembravam alguém que só conheci no cinema. Junto dele veio um sujeito gordo que suava por debaixo dos seus cabelos loiros e cacheados e de uma camisa azul-calcinha. Tinha cara de vendedor, daonde deduzi que o pai da minha vizinha da direita e ex-namorada fosse vendedor e chefe do sujeito gordo de cabelos cacheados que supostamente era seu subordinado devido ao azul-calcinha da sua camisa.

Quanto a ela, digo, minha vizinha da direita e ex-namorada, apenas guardou os vidros onde tinha as secreções provindas de defuntos humanos com as quais fabricava as tintas para o tiro de tinta e ficou me olhando da porta do corredor que dava para a garagem com uma cara de desgosto. Não chegou a me mostrar as armas que usaríamos, mas pela sua cara eu nem quis perguntar.

Nisso voltei para casa e vi que no pátio da casa dos meus vizinhos da esquerda, em duas mesas de pedra, havia dois sujeitos estudando, os quais eram justamente os meus vizinhos da esquerda. Um deles tinha uma menina sentada no colo, olhando atentamente para o notebook onde ou ele digitava ferozmente ou ria de possíveis vídeos que via. O outro apenas virava livros e mais livros que se empilhavam por cima da mesa.

Sem nenhum constrangimento, fui falar com eles.

O primeiro estudante, que era o que virava livros e mais livros, me disse que estudava física, sendo que notei que seus livros eram idênticos aos livros de física que eu tinha no segundo grau mas que há mais de seis anos não via. Quando falei pra ele que também tinha vontade de estudar física um dia, que me interessava muito por cosmologia e afins, ele me disse que gostava do Carl Hawking. Perguntei então com todo respeito se ele não havia confundido e misturado o Stephen Hawking com o Carl Sagan e ele me respondeu que sim, que fora isso mesmo, e deu uma risada estranha logo voltando para os livros, percebendo eu então que não haveria mais de incomodá-lo.

Me dirigindo ao segundo estudante, o qual demorou um tanto a falar comigo, descobri que estudava a auto-imolação na história da humanidade. Perguntei dentro de que curso ele fazia isso e ele me respondeu que dentro do curso de comunicação, mas reparei que foi uma resposta meio à contragosto, já que ele me respondeu isso olhando para cima e para a esquerda. Comentei que sua influência talvez tivesse sido o Takashi Miike e os demais cineastas do Oriente que faziam filmes que muito mostravam dessa auto-imolação – da ultraviolência, enfim.

Aí ele também deu uma risada como o outro que estudava física, mas uma risada com maior gordura, já que se o primeiro era magro e tinha olheiras, o segundo usava barba, camiseta preta e estava uns quilos acima do peso normal para sua altura, e me respondeu que mais ou menos, que tinha uns vídeos especiais através dos quais pesquisava sobre o assunto para concluir seu trabalho de graduação, sendo que ele também comentou entredentes que fazia antropologia, mas disso não falou muito, pois a menina que estava sentada no colo dele parecia muito fascinada com um vídeo que passava na tela do seu notebook, o que certamente o excitava. Achei estranho ele estudar a história da auto-imolação na humanidade apenas através de vídeos, mas não quis questionar mais sobre seus estudos porque aquilo não me dizia respeito. E como era dia mas havia pouca luminosidade e eu não estava de frente para o notebook desse segundo estudante, não consegui ver do que se tratava o tal vídeo.

Quando voltei para casa, percebi que minha casa não era uma casa, mas sim um terraço, ou uma casa em um terraço, daonde conclui que nós três, ou seja, a casa da minha vizinha da direita e ex-namorada, a casa dos estudantes de física e comunicação e/ou antropologia e talvez também da menina que sentava no colo do último, que era a casa dos meus vizinhos da esquerda, bem como a casa que eu alugava, ficavam situadas em um terraço.

Mas percebi isso só quando olhei pela janela e vi um caminhão de gás quase caído na rua em frente ao prédio, visto que morava em um terraço recém descoberto. Uma caminhonete também havia derrubado o portão do prédio e o zelador estava, apesar disso, calmamente sentado em sua guarita destruída, fumando um cigarro e olhando todo aquele estardalhaço do alto da sua cadeira sem estofamento.

Pensei em ligar para a polícia para avisar do caminhão de gás que trazia, em sua caçamba, vários bujões cheios de gás, mas que tinha um anexo que parecia um anexo desses caminhões que carregam combustível, sendo que a partir desse cenário deduzi que uma explosão era certa. Mas quando fui pegar o telefone para ligar, vieram vários homens vestidos de azul, surgindo de todos os lados, aparentemente da companhia de gás e combustível, ajeitaram o caminhão e seu anexo em alguns instantes e seguiram rua abaixo.

Quanto aos portões do prédio, lembro que um desses homens vestidos de azul deu um pacote ao zelador que fumava calmamente em sua guarita destruída e entrou na caminhonete que havia destruído o portão e a guarita, pois fora esse o caso, muito embora eu tenha esquecido de comentar isso anteriormente. Após entregar o pacote, deu ré e foi atrás do caminhão que já não era mais quase caído.

Saí de perto da janela e disse para minha atual namorada que se quiséssemos, poderíamos denunciar aquele caminhão e mais precisamente aquela companhia de gás e combustível por negligência, porque poderia ter ocorrido uma explosão. Porém, ela não falou nada e foi até a cozinha acho que pra pegar um copo d’água.

Afinal, não era apenas eu que estava de mudança. Nós é que estávamos de mudança.

(Literalmente.)

4 comentários:

Biba disse...

Mudanças são sempre caóticas por mais que a gente arrume tudo em caixas e mais caixas e descreva seus conteúdos com aquelas canetas das quais não lembro o nome agora porque acordei muito cedo de minha insônia. Espero que sua nova casa-terraço lhe traga muitas alegrias e situações menos perigosas como a do caminhão de gás. Nos falamos. Sinto tua falta no Carpe Diem.
Beijos, muitos

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Na verdade, Biba, este é o relato de um sonho que tive. E nada floreado. Sonhei exatamente assim. Vá saber como funciona esse tal de inconsciente. Mas prefiro as nossas poetices que as psicanalices do Freud e do Lacan. Um beijo.

pensar disse...

E vamos poetizando a vida entre prosas e versos.
Tambem tenho vontade de acabar a faculdade de fisica(que deixei pela metade), mas fica para o futuro.Enquanto isso estou com outros projetos.
Me impressionei dos detalhes do sonho.Parece ate que estava acordado.
Bjs

glória disse...

Eduardo, literalmente te digo, tem uma vida que trafega enquanto dorme! você é um homem-feixe fusào de tempos, de personagens, de movimentos. Um continente povoado de sensaçòes à deriva. Uma tinta que dá nova cor à vida, embora sua matéria-prima seja a morte. essas tantas namoradas que espreitam e sacodem teu desejo, também, feixe, migrante, ardente e pagão. esses saberes te recriam qnquanto dormes, Sagan, Hawking, Takashi os estudantes todos teu pensamento flecha-veloz. Homem deve ser muito difícil te habitar. Essa profusào de sensaçòes que pedem passagem, essas ânsias que se agitam e se avolumam em ondas altas. Eu te leio e vagueio em teus sonhos. Essa tua casa é terraço, lugar de abertura, de porosidade, de frente-para-o-mundo. Tua mudança nào cabe num caminhão, nào cabe num navio, é irremovível. Algo deve ficar para que tu possas imprimir novos matizes a outros lugares a serem povoados. Tinta fresca. Dá lombra. um bj poeta do delírio. Hoje vou para Natal. Estou quase (sempre) em trânsito.