sexta-feira, 13 de março de 2009

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

Troquei de lugar os móveis. Já não suportava sua posição antiga.

Arrastei a cama prum lado e as estantes pra outro. Arranquei cortinas e deixei que a luz não fosse barrada por nada.

Por conseqüência, acabei dormindo no tapete da sala quase seis da manhã. Quando acordei, lembrei de um homem que vi anteontem.

Ele tinha a barba e o cabelo do Cortázar em Paris. Ele andava de pés descalços e carregava uma sacola preta nos ombros. Sua roupa também era preta e sua calça acabava antes de chegar a ser calça. O estranho é que sua camiseta, também preta, tinha uma espiral branca no centro.

Ao cruzar por mim, ele me olhou com olhar de messias e prosseguiu.

Por curiosidade e um certo pasmo, virei pra lhe ver de costas. Acabei por descobrir que a camiseta preta com espiral era de propaganda política. De uma vereadora, pra ser mais exato, com número e nome estampados.

Claro que achei estranho uma vereadora ter uma camiseta de campanha daquele estilo.

Mas o que é estilo? Pra se franco, não sei. Acho que a definição que mais se aproxima de estilo está para a magreza das modelos.

Porém, apesar do fato de achar estranha a camiseta da vereadora, ontem vi novamente aquele homem na rua.

Estava eu sentando em um bar tomando um café e ele cruzou do outro lado, com a mesma sacola, com a mesma roupa, com a mesma barba e cabelo do Cortázar em Paris e com os pés descalços.

Cheguei a intuir que o mundo queria me dizer alguma coisa. Para além da intuição, pensei que tantos sinais espalhados por aí, caso conectados, devem formar algo além de um labirinto do qual a saída é quase impossível.

Por exemplo: existe uma rua pela qual tenho cruzado normalmente nervoso. Nessa rua, há algumas semanas atrás, eu nem pensava em cruzar. Entretanto, é nessa rua que irei morar daqui algumas semanas.

Logo, o que essas coisas que percebo por dentro e por fora querem me dizer?

Tão-somente dobras de um tempo que não compreendo ou algo mais que isso?

O que quer dizer acordar deitado no tapete da sala com a luz do meio-dia bronzeando meu cansaço?

Deve haver uma ligação em tudo isso. No mínimo, deve haver uma estrutura que diga que as coisas que cruzam por mim, de algum modo irão dizer algo de mim e para mim, nem que este algo esteja para o compasso que bombeia meu sangue. Caso não haja nada e tudo seja fruto do completo acaso, o que existe é apenas um mecanismo que carrego comigo e procura pôr ordem no mundo.

Além do mais, trocar móveis de posição é estabelecer uma nova ordem. Ver o homem vestido de preto com barba e cabelo do Cortázar em Paris, também é uma nova ordem. Mas ordem nova mesmo, é pensar que irei morar na rua pela qual tenho cruzado nervoso.

Será que foram minhas preocupações que fizeram com que surgisse lá um lugar que há tempos desejo para morar?

Será que de alguma forma influenciei tudo quanto me rodeia para que, ainda que este tudo não conspire a meu favor, ao menos transpire alguns átomos condizentes com meu futuro?

Disso nada posso dizer.

Não sou astrólogo. Sou apenas um astrônomo mais amante que amador.

E enquanto não desvendo os segredos do cosmo e as ligações entre tudo que está ao meu redor, levanto do tapete da sala e abro a porta da sacada. Um dia cinza mas claro me fere os olhos com luzes de cirurgia.

Talvez seja necessário que meu amor, cristal cigano por excelência, renegado ao chão da cozinha como vidro de café quebrado, torne-se uma bola de cristal e não apenas cristal cigano. Talvez, ao menos dentro de mim, os lugares tenham que mudar de posição assim como arrastei camas e estantes para só depois arrancar cortinas. Talvez assim, algum rei que desconheço me contrate não como astrônomo, mas sim como astrólogo.

E então aí, observando noite após noite todas as estrelas do céu, eu veja que tudo, seja contido em minha retina, seja retido pelos asfaltos, está justamente para uma espiral. Espiral esta que, em meio ao negror tanto do lençol das estrelas quanto do tecido das camisetas, põe meu senso no labirinto das suposições e faz com que minha percepção procure, para além de um sentido, uma ligação de uma coisa com outra, como se isso fosse me salvar de algum fim.

Mas desconfio que seria uma grande bobagem.

Seria como o Grande Ditador do Chaplin: brincaria com um mundo inflado aos sopros e nada restaria além do meu gabinete. Nele seria a um tempo conde e agrimensor kafkiniano. Dali sairiam todos os meus despachos e relatórios. E também dali é que sairiam todas as minhas palavras, todas as minhas suposições, toda a minha necessidade de organizar, classificar, nomear seres e coisas de tão diversos lugares no único local que é plenamente meu.

E qual é esse local? É o meu talvez. É a minha suposição. É o móvel que arrasto madrugada adentro.

Mas é principalmente essa luz de um dia cinza que me faz nascer às avessas aos vinte e quatro anos de idade, pois não me constituí como sujeito nos olhos de minha mãe. Só sei que me puxaram na cesariana, me deram uns tapas nas costas, me colocaram um farol na cara e a partir disso tive de existir.

Logo, o medo é o que me move. Portanto, é pelo afeto que vivo.

E é por conta disso que mudo os móveis de lugar para depois arrancar as cortinas.

Se é pra ser do medo e do afeto, que ao menos seja franco comigo mesmo e a partir disso construa minhas suposições, as quais, infinitas como qualquer possibilidade, talvez ainda me incutam um olhar de messias nesse templo dos dias.

E só então é que trocarei de papel com o homem com cabelo e barba do Cortázar em Paris. Já não suportarei minha posição antiga. Nômade de mim, apenas serei na aceitação daquilo ao que tento atribuir alguma razão.

E de parede em parede, um dia verei espelhos, já que os reflexos nem sempre estão para as superfícies.

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

3 comentários:

Biba disse...

Sempre pensei que existe uma coisa chamada sincronicidade e por detrás dela, acontecimentos e formas tomam lugar. A sincronicidade do destino quando nos coloca frente a frente com um desconhecido que acaba por se tornar alguém muito especial para nós. Alguém que nem mesmo com a distância deixa de ser nosso mimo no olhar. A sincronicidade, Du, está batendo à sua porta...
Beijos da moça da Serra
Carpe Diem!!!

pensar disse...

Te sinto cada dia mais sintonizado, e sincronizado.tua fala sincera me encanta.Bjs

Pedro Antônio disse...

Ufa!

Valeu pelo comentário.

Abração!

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA - www.atorremagica.blogspot.com