quinta-feira, 19 de março de 2009

E só.

Por que essas folhas secas pelo chão? Onde está a minha voz de ontem?

Será que o vento ou a estiagem levou ou será que ela simplesmente calou?

Qual será o destino dos meus destinos?

Permanecerão cálidos e solenes, como idéias que não semeiam tempestades, ou serão como torrentes violentas de palavras que se fazem água para escorrer da boca em fel?

Poderei tocar esses estertores que me tomam, esse invólucro de luz e sombra em cada face, em cada farelo de barba que o olho permite ver mas no mesmo instante apaga, deixando apenas as nuvens em massas largas no céu, movimentando uma candura felina que desde sempre vi nos meus próprios passos?

E com quê fulgor tocarei o solo?

E com quê calor tocarei teu corpo?

Como irei entrelaçar teus dedos entre os meus se não te tenho ao meu alcance e apenas posso te alcançar no arcabouço da memória, como alguém que está prestar a enfrentar a forca e é cegado pelo sol?

Por que essa coisa que me toma, esse alastramento de claridade por todos os lados, essa manhã imensa que não quer se fazer tarde e muito menos noite, ao invés do conforto que ontem eu tinha, que ontem me preenchia, mas que agora some aos poucos pelas frestas da varanda?

E isso que bebo agora, e os meus poros que influem no curso do tempo sem qualquer resignação ou cansaço mediante a sua própria inutilidade, terá isso algum sentido?

Essa cusparada violenta, essa peste, esse altar que se quebra aos poucos, que racha em sua base quando pretende alicerçar ruídos, tudo isso está presente no meu canto, tudo isso está presente no meu agora, e se da emersão dessa angústia brotar uma flor amarga, florida em carne e vida, não será apenas sinal, mas será tão-somente fatal.

Contudo, que me cubram com as vísceras das frases desgastadas, que me cubram com tudo o que já foi dito e com o sangue de todos aqueles que disseram, pois hoje eu posso ver a fumaça que apaga todas as velas.

Hoje, em meio ao cinismo da minha própria consciência, em meio a voz velada daqueles que me instruem, em meio aos manuais, em meio às técnicas, em meio a todas as vendas e prostitutas que me rodeiam, eu tenho a clarividência da inexistência de um amanhã.

Hoje, mas mais precisamente agora, nesse exato instante no qual os relógios param e amarelecem ao sabor das horas, no qual as roupas desvelam corpos e a nudez me cobre de vergonha defronte minha própria confissão, eu tenho essas folhas secas sob os pés e sinto a umidade da terra me tanger os ossos, me tocar o espírito, fazendo com que em mim renasça o fogo que um dia tive mas que perdi no primeiro instante de vida.

E eu quero a paz da guerra insana e todas as coisas que me envolvem.

E eu quero o lodo, eu quero a lama, eu quero os blocos de pedra que ergueram esse castelo que me afundou.

Se exclamações me agridem ou interrogações me partem, pouco importa.

E se tudo isso acontecer no futuro, no plano imanente de um espelho quebrado, de uma memória riscada, de um diário que se fez ano no exato instante em que foi escrito, também não tem importância.

O que importa é que algo foi feito, é que para além do desejo, para além do projeto, para além de todas as curas para todas as doenças inexistentes, algo foi feito mesmo a partir da ausência, a partir do nada que enaltece seu próprio vazio com o silêncio dessas palavras.

E se existe a futilidade dos outros, dos relacionamentos, dos beijos trocados em festas, dentre cigarros apagados e copos que se enchem de açúcar para logo depois afundar na própria abnegação que reiteram, nada há de ser, nada há de ver, pois tudo o que é vigiado vela, mesmo que esse velar seja póstumo, banhado no ouro que destruiu.

E por que eu deveria me importar?

E por que eu deveria querer te tocar?

E por que eu deveria simplesmente calar, cruzar os braços em cruz e amainar essa febre lassa que me toma de peito e voz para dizer tudo o que sempre senti?

Se tu estás dormindo agora, se tu te cobres com um cobertor azul ou com um lençol branco como tua pele, isso nada quer dizer, assim como nada quer dizer esse adereço, essa frase, esse contexto inábil no qual as existências são traçadas.

O perigo sempre vem da terra, apesar de todas as motivações virem do céu, e estar com as pernas preparadas é mais do que questão de bom senso, é mais do que questão de ter senso, pois a aventura das horas, dos minutos, dos segundos, está muito além de todas as melodias jamais tocadas.

Se alguém pudesse realmente adornar o silêncio com os guizos dessas guirlandas que imagino, desses versos que dobro, que sangro, realmente algo muito bom poderia surgir, mas o fato é que seria apenas um projeto, é que seria apenas uma preparação, um ensaio, o que de modo algum importa, pois o vento e as folhas continuarão a mover os passos, a mover os homens e a fazer com que esses mesmos homens mergulhem nus onde ninguém possa vê-los.

E assim, despojados de si e de tudo, livres mesmo dos mecanismos dos órgãos, das noções internas e da troca da biles com o álcool amanhecido, certamente ressuscitará em todos a faina divina que outros já provaram, ventilando o vinho em forma de sopro e não apenas vermelho, e não apenas ruivo, mas com todas as cores que a vida tem, com todas as dores que a vida tem, para só então repousar livre, completamente livre, nas asas de uma borboleta morta por cima da placa que dá nome a uma esquina.

Dobrando essa esquina, alguém estará sentado, estará sentado em um banco, braços cruzados mas tranqüilos: alguém que terá a imagem do meu avô e que terá a imagem do meu bisavô que morreu com quase cem anos e com o qual eu mal conversei, mas o qual tinha olhos azuis que tinham cheiro de infinito.

Com esse alguém eu trocarei palavras, eu trocarei palavras como quem troca carinhos, e terei enfim a resposta para todas as dúvidas que me tomam quando penso que não tenho dúvidas e enfim posso dormir em paz.

Terei a resposta, uma resposta em forma de pergunta, que me fará enfim trazer a questão fundamental, traçar o problema cabal que dará conta de toda a realidade para explodir essa mesma realidade no instante seguinte.

Mas o universo, mas o cosmo, mas todas as estrelas que nesse momento meu teto esconde, permanecerão caladas, permanecerão mudas, permanecerão consumindo seu próprio combustível até que um dia explodam ou cheguem até mim na forma de um infarto.

E será aí, morto pelo derradeiro câncer das coisas que não entendo, estourado, completamente consumido pelo meu próprio estopim, que restarei estirado sob os lençóis, que restarei examinado e cortado por alguém de branco.

E meu sangue que antes era poema e o qual por tantas noites me inflamou, e pelo qual tanto sofri e tanto amei, finalmente vazará de uma maneira real, enquanto lá fora as folhas continuarão a cair e secar ao brilho do sol sem que ninguém entenda nada, sem que ninguém faça nada, pois tudo o que foi dito, foi dito, e o que não foi dito, não mais se pode dizer, porque a boca simplesmente calou, porque o fruto simplesmente caiu, e se algum fermento, algum adubo ficou, isso será a terra, e portanto o tempo, que dirá.


Daí o meu canto arcaico. Daí meu feitio de vento. Daí os meus pés que dançam. E só.

4 comentários:

glória disse...

Quando te leio, me perco de um chão mínimo que colonizei para mim. Eu achei minhas terras por acaso. Não possuo bússola nem timoneiro. Olho para o ancoradouro do lugar que imagino ter aportado e me pergunto onde encaixotei minhas vertigens de vastidão. Eu explico Eduardo: eu sou uma cartografa dos lugares de escuridão, de onde possa me acocorar banhada de ausência. Preciso dar nome a esses ventos que me atravessam? Preciso? Eu também anseio que me cubram de vísceras e de saliva como anteparo para frases que se desenham amorfas e gaguejadas. Eu quero o grito dos que não temem romper as barreiras do som, da luz sei lá do que. Eu nem me olho no espelho de olhos abertos, espremo um pouco as pálpebras e produzo minhas próprias nebulosidades. A diferença é que tua fumaça apaga as velas e esse torpor feito névoa que me faz sucumbir vai da popa à proa e eu navego. Acredito em terras-virgens banhadas de um silêncio que revela, de uma história mesclada de poesia e entoada pelos aedos, ordinária e desarmônica. O corpo joga bola com a alma, diz Serres, e eu ainda acredito em empates. Desse modo, meus perigos vêm de mim, nem da terra nem do céu. Eu revelei eu isso para minha mãe que tentava inutilmente me dizer que estava segura ao dormir, “mãe eu não tenho medo de ladrões e nem das aparições tenho medo dos meus pensamentos”. Ela calou-se, impedida de me guardar. Apenas é essa a redenção já por ti definida:

“Com esse alguém eu trocarei palavras, eu trocarei palavras como quem troca carinhos, e terei enfim a resposta para todas as dúvidas que me tomam quando penso que não tenho dúvidas e enfim posso dormir em paz.”

Assim, se o nosso sangue vazar, irrigará uma terra tão erma como as que carregamos e nos fundam. Daí porque o nosso canto reverbera. Eu, desvio minha rota, mesma em vias de desperdício, em caminhos que se afastam dos caminhos. Findo evocando, novamente, Michel Serres:

“quem sabe escrever um pouco pode desenhar um jardim”

E você é o meu jardineiro predileto. (Tuas palavras no meu último texto me fizeram chover)

Biba disse...

Du, depois de correr, de me cansar e tudo o mais, hoje aporto por aqui, num silêncio que não é o costumeiro.
Teu texto me deixou assim, querendo qualquer coisa quê. Enfim, é muito bom te saber.
Beijo grande,
Carpe Diem!!!

Adri Antunes disse...

para retribuir o carinho das palavras, um aceno de que somente as palavras realmente criam pontes, seduzem e amenizam insatisfações! te gosto de ler!
bjuuuu

pensar disse...

Extensamente profundo, intensamente sensibilidade.'Es o garoto da terra que sopra o vento e tira os veus da palavra.
E as entrelinhas ai que as entrelinhas sejam lidas, pois a fala vem com veus de palavras nao ditas, e as nao ditas sao geralmente as mais importantes.
Bjs