sábado, 10 de janeiro de 2009

É isso que está na foto.

Não enxergo as palavras que falo.

No máximo existem representações negras na tela do computador ou nas folhas que rabisco. As variações existirão por conta da cor da caneta ou da fonte. Quanto à substância das palavras, aquilo que faz com que as palavras sejam palavras, nada enxergo.

Se um publicitário ouvisse isso, talvez risse da minha cara ou mesmo criasse um slogan:

- Palavra: aquilo que não se enxerga.

Claro que eu acharia slogan muito clichê ainda que passasse pelas voltas do meu umbigo e repetiria de pronto:

- Não presta, veja bem...

Contudo ficaria encabulado. Afinal, estava falando com um publicitário. Quem é publicitário deve entender mais de slogans que eu. E considerando o fato de que sou péssimo para títulos, que palpite poderia embutir na visão de um especialista? Certamente todos os meus coros seriam elevados ao patamar do pó por um mero piparote machadiano da oficina do sujeito.

Pensar nisso logo após assistir o Ensaio Sobre a Cegueira do Fernando Meirelles me diz muita coisa. Inclusive que deveria me render ao sono e esquecer de todo as palavras. Mas é certo que sonharei com as cenas do hospício e das ruas, o que ocorrerá de modo mais contundente à medida que me der conta de que tudo quanto vejo só existe para mim como palavra.

Esse ventilador aos meus pés é uma palavra, por exemplo. Do que ele é enquanto ventilador, a coisa em si do ventilador, jamais saberei. Sei que se trata de um objeto que tem algumas pás que amenizam essas noites quentes. Descrever o dito de maneira geométrica talvez fosse uma boa incursão na prática dicionarista. Entretanto essa descrição não passaria de uma descrição feita com palavras. Até meu rosto ou aquilo que penso do meu rosto será uma palavra. E o Charada do Batman me vêm aos sentidos no exato momento em que digo isso.

Me incomoda então essa coisa de saber que minha vida sempre dará a impressão de que é mais filme que vida. Ao recordar de paisagens, ao reviver encontros nas salas de café da memória, o que farei será comparar paisagens e encontros com sentimentos vivenciados ou apenas vistos na tela de tantas películas que diante dos meus olhos passaram. Da mesma forma que acontece com a palavra, minha vida será mais relação que vida, mais preenchimento de algo visível por algo invisível que qualquer outra coisa, assim como ocorre quando falo de tudo quanto me acontece dia após dia.

Sentir uma ponta de dor por isso é normal. Quanto mais você tenta compreender o mundo, as coisas e você mesmo, mais palavras tenta ligar a essa tríade. Mas quando se dá por conta de que essa compreensão sempre será escassa, sem querer entrar em mérito filosófico algum, a fisgada é inevitável, pois por mais que eu tente sempre será pouco. Aí os psicanalistas dirão que minha dor provém de uma necessidade de completude e que por isso desenvolvi uma neurose ou uma angústia, com o que concordo plenamente. Mas junto de mim coloca pelo menos uma dezena de bilhões de pessoas que o resultado será satisfatório.

Lacan se eu não me engano disse que o ser humano era o sintoma e só existia enquanto tal. Interpreto este dizer como signo, como palavra. Somos, enfim, sintoma de algo que nunca alcançamos, seja esse algo o ventilador, eu mesmo ou as vivências que tive com as outras pessoas e com o mundo. A coisa em si kantiana permanecerá velada, coberta por um véu que só é transparente porque digo que é transparente. Enxergar as palavras ou até dizer das palavras será sempre impossível.

Claro que não é de hoje que trago essa constatação comigo. Mesmo se essa constatação fosse nova, não seria privilégio de descobridor algum, uma vez que existe dentro de cada ser humano esperando o momento de explodir a estranheza sem par que consiste na própria existência. Mas se o Meirelles ao adaptar a obra do Saramago que não li conseguiu me tocar dessa forma, trazendo à tona aquilo que há muito acredito ser a razão do meu escrever, é algo que se deve registrar.

Nesses tempos de cinema fácil pra digerir e esquecer, Ensaio Sobre a Cegueira consiste no mínimo em uma experiência artística das mais contundentes, ainda que esse adjetivo seja muito fraco. Mesmo que discorde de algumas cenas do filme, reconhecer essa experiência é o primeiro passo para qualquer análise ou fala, já que é do reconhecimento do objeto, do mundo e das pessoas em relação às palavras, que surgimos enquanto seres pensantes de uma espécie dominante no planeta. E quando esse reconhecimento quase me leva às lágrimas, seja por horror, angústia ou simples deslumbramento por uma química de emoções que não consigo organizar, é sinal de que o objetivo da obra pelo menos quanto a mim se realizou.

Se não se realizasse, poderia me colocar tão distante da obra ao ponto de discorrer acadêmica e hermeticamente sobre a mesma.

Como se realizou, minha distância é impossível e maior na proporção da minha proximidade com aquilo que não pode ser dito.

Assim fico tentando imaginar o que se passou pela cabeça do Saramago após assistir o filme. Porém só consigo fixar na mente a face de felicidade do Meirelles ao perceber que o autor havia aprovado sua realização. Esse meu vício em produtos cinematográficos nunca encontrou com tanta sutileza minhas duas paixões a partir de um acontecimento real: literatura e cinema, Saramago e Meirelles lado a lado. Especular quantas possíveis vidas haviam ali é demais. Porém plenamente realizável.

Essa realização é a chave para um setor da nossa humanidade que é trancado para qualquer palavra. Ao contrário do que escrevemos no passado, o césamo não se abre com palavras mágicas. Para resolver esse embuste é que se inventa o gênio da lâmpada, o qual carregará todas as respostas em um ritmo 3 por 4. Mas essas respostas serão meros desejos e assim indefinidamente. E quem dirá que não é exatamente desse modo que acontece?

O desejo é insaciável porque o desejo não tem estômago e intestino: o desejo somente é. Transfigurado em questões, a face desse desejo acalmará, mas a distância do desejo com aquilo que deseja nunca ameniza. Se amamos, amamos alguém ou algo ou amamos a representação de alguém ou algo que criamos por meio de palavras? Acredito que o amor transcende a letra e qualquer organização da letra. Contudo muitas vezes nem sabemos quem é a pessoa que amamos e mesmo assim usamos a palavra “amor” como essas adolescentes usam por aí.

Isso não é falta de respeito? Pensar assim seria moralizar a atitude. Pensar assim poderia até ser classificado como retrocesso. Mas considerando que é a palavra que diz do mundo para mim e que só posso conhecer o mundo enquanto palavra, como respeitar o fato de que a palavra “amor” é utilizada assim sem sentido ou significado algum? A realidade é que isso indica algo muito mais profundo. E pra falar a verdade mesmo, a realidade é que isso indica um vazio tremendo, pois por baixo da teia de palavras e frases que todos os dias pronunciamos existe algo que jamais poderemos dizer.

Esse algo que jamais poderemos dizer acontece de vez em quando mas ao mesmo tempo todos os dias. Se digo “acontece” não é por acaso, porque esse algo somente se mostra através da experiência. Quando vivemos algo e não conseguimos falar desse algo ao ponto de inventarmos alguma onomatopéia para tanto, ei-lo aqui, visto que a vocalização vogal não é nada menos que o sentido primitivo do próprio sentir: batalhas, orgasmos, sustos e vitórias. Se conseguíssemos exprimir aquilo que sentimos de outra forma, entretanto, faríamos isso? Certamente não. Mais vale o arrebatamento. Mais vale a experiência. Mais vale o que acontece.

Se não enxergo o que falo, porém, posso ao menos intuir minha fala. Posso relacionar, após isso, minha fala com alguma imagem e a seguir com algum sentimento, já que a própria imagem e mesmo a fala trarão consigo um sentimento. Nesse movimento, contudo, buscando a intuição da fala, irei me perder em um labirinto de imagens. Quando eu me perder posso até mesmo correr o risco de ficar cego pelo próprio movimento das imagens em profusão, pois chegará um ponto em que eu mesmo serei apenas representação: palavra de imagem para mim, para os outros e para o mundo. Mas quando me distanciar desse alvoroço, perceberei que nada disso há realmente e sim apenas dentro dos limites da minha compreensão. Ao perceber isso terei um estranhamento, já que o que me parecia óbvio simplesmente sumiu. O que surgirá então? O silêncio.

E é esse silêncio que cultivo após o filme do Meirelles. Sei que poderia continuar meu texto indefinidamente. Sei que poderia fazer mil análises sociais a partir da trama do Saramago que o Meirelles levou pras telas. Mas não quero falar nada mais além do que falo aqui. O que falo aqui foi não exatamente, mas aproximadamente o reflexo lingüístico daquilo que senti diante do estranhamento que essa obra me causou. Se notei brechas no roteiro não interessa. Se nem todas as atuações foram boas ou não concordei com algumas tomadas de câmera, também não interessa. Interessa que cinema é imagem e sentido através da imagem em movimento. Cinema assim é luz. E se essa luz de imagens em movimento me causou esse silêncio, esse olhar curioso na torneira que goteja lenta madrugada adentro, é porque algo ocorreu, é porque a cegueira foi exposta, seja ela do consumismo ou mesmo do sentido e das palavras.

Isso é arte. Tudo o mais é artesanato.
E acho que o Quintana diz a minha conclusão melhor do que eu: "Da última vez que atravessei aquele corredor escuro/Ele estava cheio de passarinhos mortos." É isso que está na foto.

3 comentários:

tagg disse...

eu ia deixar meu blog branco, tbm. mas fiquei com o pretinho básico. por conta da biografia do Roberto Carlos, que me esforço por terminar de ler antes que volte para São Paulo, não tenho ido a outros textos. e o sr. é prolífico!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

troquei porque aquele preto me passava uma coisa meio down. e não quero isso, de jeito e maneira. agradeço o prolífico. antigamente eu era é prolixo. sorte que as coisas mudaram um pouco. um abraço.

tagg disse...

enfim, agora li seu texto e sua resposta e tbm seu comentário no meu blog (obviamente, não terminei a biografia do Roberto Carlos;-). eu vi o filme e depois li o livro -se complementam. e é bonito pensar que o cinema sirva de olho são pra essa cegueira (a da literatura, que nos dá a ver de outros modos). não sei se já viu, mas indico outra adaptação, para mim ainda melhor: Ligações Perigosas.
eu continuarei com meu pretinho básico por enquanto. o que deixei de lado foram as teorias.