quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Lago.

Se a própria presença do outro destitui a possibilidade de sinceridade, haverá vida possível? A calma que me atribuo não é uma sensação de paz. O que sinto é um tumulto travestido de mansidão, como se folhas simplesmente caíssem na superfície de um lago, o qual, ao mover lentamente seu corpo em espirais, provocasse essas palavras. Haveria o sol que entraria por dentre as copas das árvores, e haveria também um canto distante, talvez um barítono buscando o tom inexistente de seu próprio ser. Os lamentos, as pessoas, os carros, tudo isso estaria distante, muito, muito distante, e limpo de todos os sentidos para poder tocar todos os sentimentos, realmente meu coração iria pulsar e não simplesmente bater. Mas é possível que essa seja uma grande demonstração de egoísmo, pois com os olhos desejosos de sonho tenho as mãos imersas em realidade. É totalmente possível que nessa floresta que imagino, nesse lago, nessas árvores, nesse chão do qual não falei mas que tinge o lago de lodo e dá sustentação para as árvores que em conjunto formam a floresta, houvesse uma cerca, uma cerca imensa mas feita de madeira assim como as árvores, isto com a única diferença de que seria madeira morta, de que seria madeira seca. Do outro lado da cerca o mundo explodiria, o caos colidiria com o caos e daria luz à um novo rol de divindades, a uma nova mitologia inominável, pois provinda simplesmente da racionalidade, pois nascida simplesmente do desejo de ser o que se é sem saber que ser o que se é também é ser o que o outro é. Entretanto, locado em minha floresta, apenas desfrutando de um ar limpo que as folhas iriam filtrar, nada disso eu sentiria, nada disso iria realmente me afetar, pois o manto verde e o manto azul, o manto da terra que emerge em vida e o manto do céu que respiro, dariam a devida proteção e o devido deslumbramento que seriam necessários para o próprio prosseguimento da minha vida. Porém, eu pensaria no que haveria de existir para além da cerca, mesmo que da própria cerca eu não tivesse certeza. Eu imaginaria, e imaginando certamente veria no lago o reflexo do pensamento em meus olhos, o que faria com que toda noite fosse vermelha, jamais imersa na escuridão. No meu quarto de relva, deitado em um travesseiro de pedra que em outro tempo dava perfeita sustentação aos meus anseios, iria arder na ânsia do depois, iria arder na ânsia do além, e envolvido pela tranqüilidade de tudo eu iria buscar a inquietude de todos. Mas onde estavam todos se havia apenas eu naquele recanto, naquela floresta, na beira daquele lago? Em algum momento a coragem me tomaria ao ponto de eu correr pela mata, rasgando pele e roupa nos galhos e nas flores para me jogar contra a cerca e deixar a marca da minha ânsia em um barulho seco que assustaria os pássaros? Não. Certamente eu iria ponderar. Eu iria comer algum fruto vermelho como a noite, quem sabe uma maçã, e o que ficaria de mim seriam apenas os dentes e a saliva em marcas na carne branca: nada de cerca ou ossos. O que eu desejaria seria o calor, o calor do dorso, o calor do corpo, o calor das mãos, já que minhas mãos, buscando abrigo e adeus, não iriam bastar para dar conta dos meus sonhos. Assustado por qualquer pesadelo, certamente me jogaria na água, formando espirais maiores, muito maiores e engolidas pela luz da lua que acharia graça daquela revolta coalescente, daquela revolta imanente, que da terra e pela terra almejaria alcançar o céu às margens de um lago.

4 comentários:

Joice Nunes disse...

que bello!

pensar disse...

Edu,
Como um lago manso, reflete nós.Como uma água ondulada somos qdo os pensamentos nos invadem e nao podemos mais saber quem somos, mas continuamos a navegar.Navegar é preciso e eu entendi isso até demais e não paro de navegar. Me faz ver beleza no mais simples.

Bjs

Marjorie disse...

Você afunda um pouco o lago com seus sapatos. Desperta um som de raízes com isso. A altura do som quase alcança os olhos...

Juliana disse...

Na minha humilde opinião teu melhor texto.
Ju Zatt