quinta-feira, 4 de junho de 2009

Dos Consensos.

Qual é o valor dos sonhos para quem esquece de si nas horas de todos os dias?

Qual é o amor de alguém que apenas faz as coisas desvirtuado do próprio prazer de fazer essas mesmas coisas?

Haverá prazer sem amor ou o amor nem constitui um prazer e sim um sofrimento, uma perturbação infinita que o gozo do corpo apenas ameniza?

Talvez seja necessário simplesmente esquecer, limpar o espírito dessas fraquezas inúteis que os de fora nos impõem.

Mas até que ponto os de fora não são os de dentro e os de dentro não são os de fora?

Poderei realmente tocar o outro e o outro poderá realmente me tocar, ou minha relação com o outro e do outro comigo se dará simplesmente traçando um diálogo sobre a própria impossibilidade do diálogo?

É possível que sejamos seres solitários, tais como uma mão, tais como a insatisfação de uma mão, cristalizados em um porvir que sequer imaginamos e ao qual a todo momento caminhamos.

Contudo, é possível também que mesmo desconhecendo o outro e até a si próprios, que mesmo não tendo a menor experiência do outro e muitas vezes de si próprios, ainda tenhamos a esperança de transitar entre o sonho e a realidade contemplando lugares que sequer imaginaríamos.

Os signos do real não são a realidade dos signos, pois caso o fossem certamente já teríamos tocado as coisas, o que jamais aconteceu.

Porém, cinzentas manhãs guardam todo e qualquer pensamento luminoso, pois não são todos os sóis que amanhecem para o dia.

As nuvens que se avizinham, o vento que sopra, o barulho das pessoas, dos automóveis na rua, esse coro desvirtuado de sentido que dá o compasso das nossas palavras e até da nossa dança cotidiana, diz muito mais do que parece dizer.

Mas até que ponto haverá um ponto onde dormita o silêncio?

Qual será o subterrâneo desse asfalto, dessa calçada, desse prédio no qual finco meus pés em um concreto que me sustenta no segundo andar?

Estarei nutrindo mais que apenas terra com as energias que me rodeiam, com as paixões que me tomam, com as palavras que vazam dos meus dedos e fazem doer meus braços ainda dormentes de frio e junho?

Saber das coisas e das pessoas, saber do outro, jamais saberei.

E é só disso que sei.

Continuarei nesse destino incerto, porque, afinal das contas, tudo é culpa do destino.

E confessemos: é muito mais fácil responsabilizar o imponderável do que caminhar diante do seu próprio fim.

Talvez aqui e apenas aqui, haja um consenso e nenhum aprendiz.

6 comentários:

Biba disse...

Diante de suas indagações, muitas mais me ocorreram, sobre o amor, o prazer e tudo o mais. Texto intimista e por isso mesmo agradável para mim que gosto de intimismo, me sinto à vontade com isso.

Grande beijo,
Carpe Diem!!

pensar disse...

Adorei!Muitas reflexoes ao cotidiano, a esse mundo cheio de gente sobrevivendo e esquecendo de existir.A pior doenca q nos cerca: a normisse.Escravos de nos mesmos, repeticao, levados a atitude q nem ao menos sabemos o porque...... ate q um dia nos percebemos, nos damos ouvido e ouvimos o silencio; somos o amor em essencia e a falta de vazio.
Sejamos um pouco louco.
Bjs

Marjorie disse...

O cotidiano é um fio tênue entre a vida e o sonho...

Fernando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando disse...

Belo texto mestre.

Faz lembrar de algo que quase se esquece em meio ao "nada" que é nosso cotidiano, celebrado por tantos.

Pergunta: o amor sera uma fuga de nos mesmos em busca do amor no outro para esquecermos daquilo que nem lembramos mais ao olharmos ao espelho?

Fez-me lembrar desta canção...

Flores No Asfalto
Zeca Baleiro

Os sinos dobram, dobro a esquina adiante
O céu me espia mais azul que antes
Os mortos andam como eu nas avenidas
O sangue escorre da mesma ferida

Ergo as mãos pro alto, nos meus dedos os anéis
Flores crescem no asfalto, debaixo dos meus pés

Tudo silencia, ouço só meu coração
A rua acaba e meus sonhos vão
Piso na poça, uma moça estende a mão
Meus olhos brilham, vejo o céu no chão

Ergo as mãos pro alto, nos meus dedos os anéis
Flores crescem no asfalto, debaixo dos meus pés
Deixo o dia para trás
Sono e sonho a noite me traz
Deixo o dia para trás
E a dor...


Um abraço,
Fer

glória disse...

Eduardo, para mim o que existe e o que pode fundir uma coisa e outra, um dentro e um fora, duas matérias separadas são os afectos tratados Espinosa. Afetar e ser afetado produz um tráfego, uma ponte que parece anexar continentes. Criar e afetar são dimensões que produzem fios tênues e invisíveis entre o que está separado pelo olhar. Eu me fundo e navego separada, que nem iceberg, dependendo do que me convoca, do que me alicia. Eu posso ser ilha e continente. Silêncio povoado de personagens que se enlaçam através de coisas sentidas, de estranhamentos, de encontros.

"Mas até que ponto haverá um ponto onde dormita o silêncio?"


esse ponto, até ele é eloquente. E insone.

Esse teu texto é cheio de dobras, lugares de uma fina e preciosa sensibilidade.

bjs homem!