terça-feira, 14 de abril de 2009

Sobre a arte e o amor.

As mudanças deveriam soar naturais para nossa vida. Entretanto, somos de uma espécie que muito embora passe por mil sobressaltos no decorrer da existência, sempre quer alguma certeza que nos legue o mínimo de tranqüilidade. Mas o fato é que as coisas não são assim. O fato é que de uma hora para outra tudo pode tomar um rumo completamente diverso e a única coisa que poderemos fazer é nos adaptar.

Mas como se adaptar? Qual será nossa face no espelho após o período de adaptação? Se trocar de emprego já implica em uma quantidade imensa de mudanças, que dirá acabar um relacionamento, que dirá romper uma amizade, que dirá mudar uma idéia que há tempos carregávamos como certa, mas que de uma hora para outra percebemos que não é nada daquilo que pensávamos ser.

E nesse emaranhado de sentimentos e ações, talvez somente a certeza de duas coisas possa nos dar algum impulso para aceitar a condição da existência e então perseverar nesse despropósito que é a própria vida. E quais são essas duas coisas? A arte e o amor.

Primeiro a arte, porque todos necessitamos da criação para sermos. Essa criação pode estar para construir uma casa, ter um filho, escrever um livro ou plantar uma árvore. E se parto do pressuposto de que a criação que implica na arte não está apenas restrita às mãos de alguns auto-intitulados sábios de plantão, percebo que todos, sem exceção, alicerçam sua existência sob esta aresta, considerando-se que sem ela a própria vida se tornaria impossível.

Contudo, para além da arte tem de existir o amor. E por que tem de existir o amor? Porque é impossível haver criação sem amor assim como é impossível haver amor sem criação. Logo, temos duas faces da mesma moeda, sendo que o reconhecimento desse padrão existencial talvez possa nos fazer passar pelas mudanças ao menos com o senso de que se a vida é finita, nada que provenha da vida pode ter ares infinitos e portanto carregados de uma certeza imaculável que de modo algum está para aquilo que somos.

Dentro desta abordagem, quem sabe até seja possível que a existência não seja tão vazia de propósito como falei acima. Ainda que estejamos impregnados do absurdo do qual tanto falou Albert Camus, existe a possibilidade de que partindo da intersecção entre amor e arte, nossa vida se revista de uma face completamente diversa, visto que se Camus disse ser a existência um absurdo, disse também que ao ser humano cabia construir um sentido para esse absurdo através da revolta em relação à própria ausência de sentido da vida. Consequentemente, a faceta humana que ganha maior destaque é a arte e portanto a criação, já que através dela a humanidade faz com que a falta de razão última para as coisas do mundo tenha algum sentido a partir da sua própria mundaneidade.

Claro que muitas pessoas dirão que um sentido para a existência de fato existe e que basta olhar para o céu para percebê-lo. Outras tantas dirão que se esse sentido transcendental não existe, cabe a nós buscar o bem-comum no futuro da própria humanidade, o que se daria através das lutas sociais que permeiam a história humana de maneira cabal desde os idos do século XIX. Contudo, diante desses dois discursos se pode perceber também que os mesmos carregam os fatores da criação e do amor como conjugações fundamentais à sua fala, sendo que distantes delas nada são além de palavreados vazios.

E se realmente somos avessos às mudanças apesar das mesmas permearem toda nossa vida, não seria má idéia aceitar o binômio arte e amor como fator constituinte fundamental do ser humano. Assim, talvez algum sentido fosse criado e a maioria de nós não se sentisse tão sozinha quanto se sente atualmente, quanto mais com tantas e tão grandes mudanças em curso.

2 comentários:

glória disse...

amor e arte representam o eterno encontro, algumas vezes sem retorno, tenso, teso, tesudo entre eros e tanatos, entre o achar e o se perder que parecem não ter fim. é o corpo que sinaliza o feixe infinito de lihas de fuga que nos habitam e nos convocam a criar. criamos porque nào suportamos esse vácuo povoado de sentimentos sem um nome de batismo, é a "coisa" que instaura a vontade de dar formas à obra de arte, aos contornos do corpo do outro, amado ou nào. Eu me perco quando tento delimitar as linhas e limites do ato de criar e de me dissolver em percursos de prazer. Eu nào sei de mim quando tento forjar mecanismos de uma certa "economia" de vastidão. eu preciso tangenciar os lugares onde se movimentam tantas pulsòes que nem "sou eu", que apenas me convocam a migrar e criar.gosto de deixar escorrer essas falas imtespestivas que festejam teus escritos. gostei homem, bjs

pensar disse...

Que otimo, se escorre , se transborda, se esvazia.Desforme somos nos mesmos.Amor e arte. Bjs