quarta-feira, 8 de abril de 2009

A pergunta da amante vendada.

Se o mundo fosse um lugar comum, até acharia normal vez em quando assistir notícias esdrúxulas na televisão. Mas o fato é que o mundo não é um lugar comum. Se o Lula disse ser chiquê emprestar dinheiro para o FMI enquanto o país está afogado em dívidas externas – e o legislativo está em vias de aprovar uma lei que posterga à eternidade o pagamento das dívidas da União, dos Estados e dos Municípios –, definitivamente temos de admitir que o mundo não é um lugar comum. Mesmo assim, pulando de canal em canal, me deparei com uma notícia que me fez parar no dito programa.

A tal notícia dizia de uma mulher que transava com espíritos. Toda noite vinha um espírito e fornicava com a mesma. O mais curioso, é que havia imagens do colchão se mexendo pra cima e pra baixo, como se realmente houvesse um espírito por cima do corpo da senhora. Porém, o que me deixou abismado foi o fato da dita cuja não se acordar com o arremeter contínuo do espírito, o qual fazia com que ela, muito embora próxima do orgasmo segundo alguns vocais clássicos do ato, continuasse dormindo.

Pensar nisso me faz lembrar aquela clássica história de que em algum momento da humanidade uma mulher foi fecundada ainda que virgem. Dizer que isso ocorreu lá no período em que éramos antropóides recém perdendo os cílios da nossa macaquice, vá lá. Mas dizer que por conta disso nasceu o que algumas religiões denominam como “salvador da humanidade”, é lerdeza intelectual demais para mim. Primeiramente, porque não posso acreditar que a morte de uma única pessoa possa limpar os pecados de todas, até porque a noção de pecado muda de geração para geração. Se ontem uma filha transar antes do casamento poderia ser considerado um pecado frente aos olhos do pai da menina e mesmo diante da sociedade, hoje isso é mais do que normal. E fazer com que o hímen, uma simples pelezinha que pode ser rompida facilmente, consista em uma questão moral – ou melhor: em um símbolo de moralidade – é algo que francamente não me desce pela garganta.

Contudo, se a mulher dizia que todas as noites um espírito vinha transar consigo, alguma coisa deve existir na constituição psíquica dessa mulher para que ela afirme uma bizarrice dessas. Não que eu duvide de espíritos: pelo contrário, acho até que eles existem e que os Caça Fantasmas deram cabo de uma boa parte deles. Mas se a mulher dissesse que fora violentada por um extraterrestre, eu até levaria a questão mais a sério, mesmo que desconfie que os extraterrestres, caso existam, tem coisas muito melhores para fazer do que seduzir humanas ou visitar esse nosso planetinha de meia-tigela perdido em um braço qualquer da Via-Láctea.

O problema dos seres humanos, neste sentido, está para o fato de que não conseguem se contentar com a simples realidade de que nascem para a morte. E mais do que isso, não conseguem suportar a falta de razão, a falta de sentido para a vida, e então têm de apelar para religiões, remédios, drogas e amores fulminantes, os quais, em alguns lapsos de extrema falta de consciência, ou quem sabe de consciência tremenda sobre a falta de sentido de tudo quanto nos cerca, cometer atos de loucura imensurável, como ocorreu nos Estados Unidos no decorrer dessa semana.

Se não conseguimos suportar o fato de nascermos para a morte e portanto sermos seres finitos, jamais conseguiremos desfrutar completamente a existência. O problema é que existem mil e quinhentas vozes dizendo que existe vida eterna e nos cobrando alguns dízimos no final do mês. Nós não somos seres maiores que uma formiga: essa é a realidade. E o mero fato de termos alguns cromossomos a mais que os macacos não nos faz merecedores de nada além disso que comemos e respiramos dia após dia.

Por isso, ao ver a mulher mostrando inclusive com imagens o espírito balançado seu colchão de solteiro, sinto uma imensa pena dela. Não que eu diga que o espírito não exista, porque podem e devem existir coisas que minha lógica até mesmo desrespeite. Mas com tantas pessoas passando fome, com tantos problemas fazendo com que haja a necessidade de uma união global para salvar nosso planeta, convenhamos que se preocupar com espíritos é uma tremenda bobagem.

Se a mulher sonha que um espírito transa com ela, OK. Mas precisa mostrar isso aos quatro ventos do Brasil? E precisa mostrar isso justamente no dia em que o Lula diz que é chiquê emprestar dinheiro para o FMI? Talvez, antes de chamar analistas econômicos, o nosso governo precise de exorcistas, já que certamente a cegueira do além e da burrice pelo além está afetando a todas as pessoas desse país. Zíbia Gasparetto que o diga, porque essa daí só falta colocar violetas na porta da cadeia, sendo que aí talvez as coisas tomassem um rumo sério. Do contrário, continuaremos como uma nação de bestas quadradas que se agarram em um futuro protegido por um deus que nunca deu às caras e fez esse mundo fora do comum no qual falamos tantas besteiras comuns. E o pior é que aceitamos essas besteiras como uma amante vendada que pergunta:

- Quem dará a próxima chicotada?

3 comentários:

glória disse...

São fantasmas que fazem de qualquer notícia um vácuo da informação. Quais os significantes político subjetivos de um povo que se empresta, que tem sua vida empenhada a revelia. Ser comido por um estrangeiro, seja o fantasma do FMI, seja o tarado que se faz corpo enquanto o corpo dorme. Estranhos dialetos. Eu falo a língua dos que se consomem em intensidades no burburinhos das ruas, vida "real". Os fantasmas são os outros, os fatasmas são os figurantes do teatro político. feliz páscoa amigo distante. bjs

glória disse...

o que você escreve me diz das dobras de mim, me plasma a tantos outros mundos. eu habito um lugar que diz da ilusão de chão; sou passagem por isso mesmo, inscrevo-me em outras linguagens. você lê dialetos. bjs

pensar disse...

Oi Edu,

Esse mundo não é normal, mas tal vez seja real dentro de sua irrealidade.São tantos que acham que são o q pensam, que são o que os outros dizem... no fim são tantas marionetes perdidas no mundo, sobrevivendo.A busca aonde nunca vai se achar.
Acho que isso e esse ego fazem nossa sociedade assim.
Reconhecendo minha pequenez e meu não saber:
Um grande beijo e uma otíma Páscoa