quarta-feira, 1 de abril de 2009

E pergunto: surgiria nosso rosto?

A palavra trava o desejo assim que se torna voz. E ainda que sua voz seja mudez azulada ou cinza em uma página branca, nada mais poderá surgir.

Talvez a leitura trame o contrário. Talvez os passos não sejam exatamente estes, sendo que ao invés de engolirmos o sonho, podemos engolir tão-somente o sono.

Mas tudo isso, mesmo que pareça muito, não passará de uma possibilidade traçada ao amanhecer e jamais no amanhecer.

Logo, de que adiantaria?

O tempo continuaria estancando nossas veias. As ruas prosseguiriam em sua servidão cotidiana. E enquanto isso se mostrasse por meio de ruídos descontínuos na madrugada, as coisas estariam bem.

Porém, a voz invariavelmente iria dizer algo porque a pele simplesmente precisava de alguém. Assim, o custo dessa carência seria a verdade que a garganta sentiu mas não deixou passar.

Ao final do dia, restaríamos cansados nos escombros do entardecer por nós mesmos criado. Além, aquém, de um ou de outro lado, nada mais.
Então, talvez nossa única esperança fosse uma sala de cinema repleta de espelhos ovais. Dessa maneira, nossa história seria infinita ao ponto de qualquer palavra jamais poder alcançar essa espiral que está para além do nosso início e do nosso fim, caso ambos realmente existam.

Somente aí, estaríamos fora do reflexo das nossas próprias palavras, distantes do eco da nossa própria voz.

E pergunto: surgiria nosso rosto?

7 comentários:

Américo disse...

Cara, poético,muito poético! Gosto mais quando escreves textos menos longos, mas que não fogem (ao contrário) da profundidade poético-filosófica.
Ah, meu e-mail é: americo_.p@hotmail.com
conversei hoje com meu amigo do jornal. Passei pra ele o endereço do teu blog. Será que ele pode copiar o texto direto do blog? Abraço!

Marlon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pensar disse...

Me pergunto porque certas pessoas nutrem tanto o ego e estao sendo tao desconectadas que necessitam dos olhares alheios e de aprovacoes. Essas sempre precisam de mais e mais, sem saber q o q falta eh a propia aceitacao.
Sera que o q realmente somos eh tudo depois do nada e antes de tudo aquilo que nos impregnaram desde sempre?
Bjos

Anônimo disse...

Cara, estás cada vez mais inspirado. Que textinho perfeiro esse! Poético e ao mesmo tempo despretencioso; verdadeiro. Belíssima forma de expressar o que, nota-se, vem do fundo da alma. Me deixou até mais alegre, e poucas vezes a gente pode dizer isso após uma leitura, em qualquer mídia. Parabéns, cara.

Leandro

Biba disse...

Não visitas mais seus amigos? Estive aqui e gostei do que li. Seu texto é sempre muito lírico e entregue de alma.

Bjs
Carpe Diem!!

Tâmara disse...

Poetico aos extremos hein!?
Lirico ate nas bordas!!
Lindo tudo isso!!!
bjos!

glória disse...

Olá Eduardo, eu retomo a palavra-ventania, a palavra que escorre feito correnteza da vontade de dizer de tudo que atiça o corpo e a imaginação. Engoliremos gasolina se preciso for mas, estancar a vida é uma ordem maldita. Adianta molhar o nosso rosto com palvras geladas da vontade de ir, de tocar, de provar, de se deixar tocar, de se dessarrumar. Para a bebedeira do tédio apenas a força de palavras aquecidas, desavergonhadas. Voltei. bjs