quarta-feira, 6 de maio de 2009

O gaúcho da Avenida Brasil.

O gaúcho sentava no meio-fio da Avenida Brasil. A Justiça Federal estava fechada porque era sábado. Os carros e os ônibus que passavam certamente iam para a Fenamilho. Enquanto isso, sol de seca no céu, uma placa de PARE fazia companhia para o gaúcho que não era um gaúcho desses que acha que tradição é vestir a pilcha uma vez por ano na Semana Farroupilha. Ao contrário disso, era um gaúcho negro, barba negra por fazer, palheiro encostado na boca e dois litros de vinho para amansar um mal desconhecido.

Ele não acenava para os passantes como uma pedinte da Praça Rio Branco nos dias do Fórum da Juventude. Também não tinha o semblante sério e desiludido de um sujeito que senta nas muretas de um terreno abandonado da Avenida Getúlio Vargas – e nem mesmo tinha algo a ver com um senhor que implora trocados na Rua 25 de Julho. Distante desses rostos, limitava sua ação à quietude do palheiro e do vinho, biquiando de quando em quando o copo plástico de sua calma.

Cruzando por ali com umas sacolas de mercado, pensei que deveria ter uma câmera fotográfica em mãos. Bem poderia usar a câmera do celular, mas nunca fui de confiar em nada que tenha mais de duas funções. É claro que isso é rabugentice ou quem sabe burrice, mas ninguém que prefere a voz do Google à mudez inquieta das bibliotecas tem o direito de me questionar ou dizer da desrazão das minhas manias.

O fato é que o gaúcho não merecia uma foto de celular. Talvez merecesse um Bresson ou os olhos do Iberê, sendo que de forma alguma o visor do meu telefone teria alguma dignidade para sua imagem. E como sou das letras, das palavras sem voz que facultam meu querer desde a 1ª Série do Ensino Fundamental e do beabá da Professora Marlene nos idos do Odão, me restam essas frases desmerecidas de talento mas impregnadas do que senti – o que bem pode esbarrar na profecia do Gide ao dizer que com belos sentimentos se faz má literatura.

Entretanto, aqui cabem duas perguntas: a) tive um belo sentimento?; b) faço literatura? Diante desses conceitos, prefiro me calar. A palavra está além do pensamento e o sentimento está além da palavra. Com alguma sorte e talento, o porão das frases, aquele que sempre abriga o duplo do Jaime Vaz Brasil, pode traduzir a linguagem desse silêncio. Mas como a sorte apenas me acompanha em alguns momentos de dormência, não interessa nada do meu irrequieto umbigo. Por isso volto ao gaúcho, seu palheiro e seu vinho de garrafa verde.

Então seria mais um desgarrado do Sérgio Napp e do Mario Barbará? Então viriam crianças gritar “o louco! o louco!” como na poesia do Cenair? Tudo isso tem e não tem sentido diante daquela imagem. Fosse eu outro, apenas diria que era um mendigo enchendo a cara na rua. Mas sendo eu esse que fala até das manchas de um muro de limo, isto para parafrasear Quintana, é impossível que o sol de sábado diga somente o casual e cínico juízo da maioria que cruzava e tornava o gaúcho um mero recorte invisível do dia dois de maio.

Confesso que senti vontade de conversar com ele. Sempre fui despachado demais com as línguas das minhas falas. Mas atrapalhar aquela introspecção de vinho e palheiro, seria atrapalhar o desconhecido de um sentir e me igualar a alguns vereadores que pensam que sopões em vilas são garantia de voto. Por isso segui meu rumo com as sacolas na mão. E antes de não mais olhar para o gaúcho, percebi que a placa de PARE era um aviso para mim. Assim é que cheguei em casa, puxei uns papéis velhos da escrivaninha e me surgiram essas frases.

Compadecimento? Pena? Comiseração? Nada disso. Apenas um recorte da vida. Apenas a vida de alguém que jamais voltarei a ver, mas que agora habita meu sentir escrito. Qual vampiro, sugo o sangue do real em uma transfusão contínua para o meu tédio e o meu peito. E após essa depravação de verbos e adjetivos, me calo. Afinal, como disse Vinícius de Moraes, hoje é sábado. E justamente por isso, o gaúcho tem o direito da calma, do palheiro e do vinho no meio-fio da Avenida Brasil, porque a vida, antes de ser um juízo, uma razão ou uma fala, nada mais é que vida.

Além do mais, Marcia Tiburi já falou que os moradores de rua são o inconsciente da cidade. Logo, fica a pergunta, caros santoangelenses:

DE QUAL MAL PADECEMOS?

2 comentários:

glória disse...

é estranho esse paradoxo que se descortina a olhos nús: uns moram em lugares que vão para muito além da necessidade de abrigo dos corpos e outro dormem esquecidos ao relento. os moradores de rua carregam suas roupas nos corpos, improvisam guarda-roupa móveis; fazem das marquises salas de visita, das águas das fontes lugar de banho e do tráfego lugar de ganhar a vida. Eles parecem ver passar o medo nos olhos dos moardores que apenas cruzam as ruas, sem que se teça uma fagulha de encontro, como prenunciou Baudelaire no início das metrópoles e de seu estupor diante dos burburinhos nos "boulevards". Eu também sou acometida por perplexidade e engasgos quando me deparo com esses personagens esquecidos. Tuas linhas deixam escorrer a intensidade de sentimentos e tensões que te habitam e te ultrapassam. Muito tocante também seus escritos lá no Linhas. bjs e bom te ter de volta!

pensar disse...

Oi Edu,
Tu e' otimo mesmo, tudo que ve, tudo que sente se reflete no caminhar das horas.
O importante esta em tudo, nos minimos detalhes.A vida e' o esplendor em si, basta sabermos lidar com os fatos.
BJs