quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desintitulados.

Nem só de sexo e dinheiro vive o homem. Sacanagem também é essencial. A democracia surgiu dessa constatação. Mas os cidadãos de bem logo inventaram a ditadura.
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Um peixe não percebe que está no aquário. Seu mundo é o aquário. Tudo quanto ele viver e sentir será restrito ao aquário. E o mar é no máximo um sonho presente na água. Por isso o Brasil precisa de exorcismo. Nosso problema é encosto. Mas ninguém percebe isso. As coisas estão encostadas demais. Se bobear, de tão pesados que andamos, logo perderemos o equilíbrio. E a consciência será nossa cara roxa. Aí nos daremos conta de tudo. A porrada e o tombo são os pais da palavra. Ou pelo menos das cicatrizes.
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Somos todos irmãos. Sempre estamos devendo uns para os outros.
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Dizem que as pessoas podem falar o que pensam. Há previsão constitucional, inclusive. Mas quando a polícia é instruída a recolher cartazes que ofendem a Yeda, existe algo de estranho acontecendo. Alguém escreveu que no começo se queimam livros e depois se queimam pessoas. Cartazes não são livros, mas frases rendem juros. A prova é que as bibliotecas existem. Então o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Nenhum dos dois. Quem vem primeiro é o galo. Porém nesse país eunuco, a extinção é o caminho. Mas talvez o eunuco seja só o guarda. Resta saber quem aproveita o estoque. Ou se o harém não é apenas miragem.
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Se um assassino queima na cadeira elétrica, é justiça. Se um fazendeiro mata ladrões de galinha, é defesa do patrimônio. Mas se alguém se arrisca a dizer a verdade, é burrice. A mentira é o coração do afeto e o motivo dos tapinhas nas costas. Quando muito, de animadas reuniões dançantes e almoços de gente importante. Tanto em um quanto em outro lugar, a conversa é impossível. Nessas circunstâncias, a boca foi feita para outras coisas. E nem todas tem relação com a comida.
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A diferença entre a segurança e o risco, é o tempo de espera para a morte. Depois dela as preocupações acabam. Por isso inventaram a carteira de trabalho. O estranho é alguns reclamarem férias e 13° salário. Certamente não perceberam a liberdade de não ter direitos. A pobreza existe por isso. E o SPC também. São as maravilhas do capitalismo.
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Quando crianças, queremos ser jogador de futebol. Quando adultos, queremos ganhar na loteria. Esses são nossos principais sonhos. Mas entre a impossibilidade da realização de um e outro, é que construímos nossa vida. O grau de sucesso que obtemos é medido pela aproximação com um desses limites. E quem negar é a mulher do padre. Ou seja: a vagabunda da vizinhança. Mas nem por isso pouco bondosa. Afinal, a imoralidade é a razão da felicidade. E a ignorância é sua mãe. Ninguém pode ser feliz abertamente. É pecado.
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Me perguntaram o que eu fazia. Disse que era professor e advogado. Então me falaram:
-Ah! Então você não trabalha quase!
Pensei: nem na Record nem na Globo.
Mas respondi:
-Capaz! Nas horas vagas fabrico foices pra reforçar o orçamento!
Foi aí que percebi que ofendi o sujeito. Ele vestia uma camiseta do Che Guevara.
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Um necrófilo e um suicida são conceitualmente iguais. Perderam a paciência. No meio termo existe a política e a religião. Se uma oferece a salvação pela palavra, outra oferece a salvação pelo silêncio. Mas ninguém explica do que precisamos nos salvar.

9 comentários:

Ana Valeska Maia disse...

Eduardo,
Você tem uma lucidez que percebo em poucos.
Estou sempre por aqui.
Bj grande.

Marjorie Bier disse...

Serão mesmo comentários desentitulados???

João Pedro disse...

Fez-me lembrar a teoria da "espiral do silêncio", da cientista política Elisabeth Noelle-Neumann.

pensar disse...

Tu e' sempre tu ,Edu.Sempre otimas palavras e distintas reflexoes. Adoro tua casinha.Bjao

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Eduardo. Forte seu escrito e de muito confronto. Sacudir intenso. Chama minha atenção 2 frases; "Mas se alguém se arrisca a dizer a verdade, é burrice". Creio que 'burrice' é se calar e falar no palco para que esses 2 atores atuem em total ignorância. E que que antes mesmo das palavras chegarem à boca, nossa caixa mental está em prontidão para nos auxiliar, quando as desfazer em fazer, que seria, estar face a face com o impacto e, batermos à porta do calo e falo como mais seriedade, o tal tirar e colocar de sapatos. Com isso, também, precisamos recorrer ao silencie [ouvir] para um excelente diálogo com esses 2 atores para nos ensinar o quando devemos atuar um ou outro em momentos que cada qual possa protagonizar como habitante vivo no nosso pensamento para um ato em grande expressão. Sobre; "Mas ninguém explica do que precisamos nos salvar", retorno ao ponto em que precisamos nos salvar de nós mesmos, para que o frio de gelar os ossos e o vento cortante no nosso rosto, seja simplesmente, uma sensação revigorante e metamorfal em nosso caráter. Já dizia Clarice Lispector " Eu sou um coração batendo no mundo", mas, penso em que tipo de 'coração' somos, e, caio nas teclas que atuamos em crueldade, e somos umbilicais deste a tal origem.
Bem. Sobre seu escrito brilhante como sempre, me faz observar o sol reluzente que adentra nas montanhas, orquestrando a melodia dis pássaros e anunciando o pôr-do-sol em grande estilo elegante, por mais um dia de treinamento e aprendizado.

ps. Quando possível passe por meu espaço, pois seus comentários muito acrescentam nesta minha construção biográfica, pois é excelente aprender com quem sabe ensinar.

Abraços!

Priscila Cáliga

Í.ta** disse...

obrigado pela visita ao um-sentir.

encontrei aqui muita sapiência e reflexão.
e acidez.
o que é ótimo.

parabéns.

linkado, ok?

abraço.

Cαmilα ♥ disse...

'Então o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Nenhum dos dois. Quem vem primeiro é o galo. Porém nesse país eunuco, a extinção é o caminho. Mas talvez o eunuco seja só o guarda. Resta saber quem aproveita o estoque. Ou se o harém não é apenas miragem.'

Sua percepção é linda. Suas metaforas, perfeitas.
Texto tão lúcido que chega a doer.

Um beijO
Ps. Estava sumida, mas agora voltei. =)

FabioZen disse...

Paisano Eduardo,essa foi pesada "um necrófilo e um suicida são conceitualmente iguais. Perderam a paciência.".Letal!Ri muito...