quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De Mentira em Mentira.

Acho curioso o fato das ruas serem batizadas com nomes de alguns “personagens importantes da nossa história”, como o pessoal costuma dizer. Talvez meu estranhamento aconteça porque não acredito que existam “personagens históricos” que possam servir de ponto de referência pra contar qualquer coisa e muito menos que a experiência de vida de alguém ou da humanidade ensina algo além do puro desgosto. Também duvido que 90% dos sujeitos que dão nome para essas ruas fizeram algo importante pelas pessoas. No máximo fizeram algo importante para seus bolsos e para seus herdeiros. É claro que eu posso dar com a língua nos dentes, mas prefiro essa rabugentice do que um dia me lembrar um paspalho que chegou a acreditar que as pessoas fossem essencialmente boas. Por falar nisso, confesso que já tive comigo essa crençazinha. Mas com o tempo me dei conta de que nem eu valia lá grande coisa. Logo me veio a pergunta: por que os outros deveriam valer?

Se eu fosse desses que acredita em horóscopo, diria que isso se dá porque sou leonino e então penso que o mundo gira ao redor do meu umbigo. Haveria uma razão para todos os meus atos e meu destino estaria escrito no movimento dos astros. Mas como não sou dessa turma, apesar de já ter perdido tempo com isso, cheguei a conclusão de que não só eu, mas também a própria humanidade, não vale lá muita coisa. Mas e por qual motivo deveria valer? Partamos do seguinte princípio: para algo ter valor, ou melhor, para o ser humano que pressupõe a humanidade ter valor, sendo que ele não é algo mas alguém, é necessário existir um parâmetro de valor universal. Pois bem: qual é o parâmetro de valor universal para o ser humano? A vida? Se a vida fosse isso, não haveria guerras e nem a pena de morte em qualquer canto do planeta, por exemplo. Portanto a vida não é parâmetro de valor para nada que não esteja relacionado com a mensalidade dos planos de saúde.

Talvez por isso é que para ter a suposição de uma referência nem que seja pra ir na padaria, as ruas são batizadas com nomes de “personagens importantes da nossa história”. E convenhamos que é bem melhor assim do que chamá-las de A, Z, W ou amarelo, vermelho e roxo. Por isso é que pensar demais não faz bem pra ninguém. Mas custa mais de 0,5% da população gastar seus neurônios com algo interessante? Do jeito que a coisa anda, quem gosta de saber a verdade é masoquista, porque se começa a pensar demais, enlouquece. E se chega ao cúmulo de falar o que pensa em público, lascou-se. Mas esses dias me tranquilizei quando um amigo disse que o que está dando dinheiro atualmente são propostas para mudar o mundo. Talvez eu deixe dessa coisa de pensar e invente algum solidarismo empacotado, bonitinho e cheiroso que ajude os descamisados e me traga algum. Afinal, Deus gosta de dar dinheiro pras pessoas: é o Censo do Céu que está desatualizado.


Mas voltando para a questão dos nomes das ruas, a verdade é que não tenho nada contra os tais “personagens históricos”. Acho até bonitinho a gente falar “na Marechal” ou “na Antunes”. É no mínimo uma perversão lingüística, o que é saudável. O que não é saudável, porém, é acreditar que nessa vida alguém faz algo por alguém por caridade. Para os familiares, a esposa e algum que outro amigo, vá lá. Mas pra esse bando de pessoas que passa fome e frio pelas esquinas, ou, para ser generalista, pela humanidade, é puro solidarismo analgésico.

Lembro de uns colegas do segundo grau que iam fazer serviço voluntário “pra contar no currículo”. Paralelo a eles, vou inventar dia desses alguma proposta para mudar o mundo e então virar nome de rua e me tornar um “personagem histórico importante” com grana no bolso, tudo pela vontade divina combinada com meu enorme senso de justiça. Do contrário, certamente serei execrado como um egoísta desalmado por tanta gente solidária e de bom coração que cozinha feijão por aí. Mas um dia descobrirão a verdade. Como diz o André Dahmer, existem dois tipos de pessoas no mundo: os solidários e os egoístas. A diferença entre elas é que se os egoístas são aqueles que destroem a humanidade fantasiados de papões, os solidários são aqueles que apóiam os egoístas fantasiados de anjinhos. E acaba que tudo fica na mesma. No pesar dos comprimidos, batizando ruas ou não, é de mentira em mentira que seguimos nossa vida.

5 comentários:

João Pedro Vicente disse...

Olá! Gostei do seu blog! Mas como seu sobrenome é difícil!

Também tenho um! Adoraria trocar links com você.

Achei seu blog através do seu comentário no blog da Biba Coelho.

Até mais!!

JP
http://gabinetebranco.blogspot.com

Canteiro Pessoal disse...

Eduardo. Estou em falta por passar em seu blog que tanto acrescenta nesta minha construção biográfica. Os dias estão tão corridos que meus olhos ao chegar em casa desfalecem devido ao cansado. Mas, deixo aqui um rastro de que sua escrita e reflexão sobre temas variados está cada vez mais cativador, enriquecimento que leva o leitor por uma busca lá no fundo, na descoberta e redescoberta, assim como se arranca a primeira camada da pele. Do olhar que percorre o além de uma foto 'letral'. O entendimento e reconhecimento de olhos. Olhos não petrificados nem forçados nem medidos. Olhos que avisam: - Olhe... Olhem bem fundo! E no íntimo, no por trás da escrita, garimpar com sensibilidade e mérito, um terreno fundo, profundo e distante de qualquer convenção, robótica que nos foi ensinada e que ainda é trilhante em cultura. Obrigada, por seu porte escrital que removendo de certa forma palavras terminativas nas entranhas até clarear o olhar do que lê para o próximo capítulo. Tão logo não se encontra a explicação, mas resumo num amanhecer diferente.

.beijos e paz!

Priscila Cáliga

A Moni. disse...

Estava lendo o blog da Glória Diógenes e é impossível não reconhecer, como parte dele, os teus comentários. Acho que o nome "comentário" ficou pequeno para tal função. O que você faz, é desdobrar o texto, virá-lo do avesso, conferir seus arremates, insultar, provocar, resignificar.

Aí, né... Tive que vir aqui, ver o que se passa...rs

Também gostei muito dessas cenas cotidianas tratadas com a humanidade crua que é nossa, mas que quase sempre sacamos de eufemismos para não sermos parados no sinal vermelho dos julgamentos.

O problema é: quem julga? quem escolhe os heróis que personificarão as ruas? a qual 'check-list' eles são submetidos?

Você está certo quanto à dureza dos questionamentos e das respostas sugeridas, independente da cara torta dos solidários.

Muito bom! A gente se encontra por aí... Quem sabe no cruzamento da Michael Jackson com a Antonio Carlos Magalhães...rs

P.S.: Blog linkado. Tudo bem, né?

João Pedro disse...

Seus textos são fantásticos!

E por falar em nomes de ruas, ontem descobri que no remoto interior do Maranhão existe uma cidade com o curioso nome Presidente José Sarney...

[!!!]

Marjorie Bier disse...

Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Que sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando barbosa da Silva? Quem sois vós, como todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato.

- Quintana -