Em breve esse blog ganhará um coirmão. Ou um vizinho híbrido. Ou seja: outro espaço desse que há quase dois anos aparece por aqui. Aguardem.
Platão tinha sua caverna. Nós temos insufilme. A diferença é que pensamos que quem está de fora não nos enxerga, enquanto nós enxergamos eles, os de fora, com esses olhos negros de dentro. No fim prevalece a superfície. Tudo precisa de um nome. Daí samba, blues e afins. Por falar em afins, Eduardo Matzembacher Frizzo. Prazer.
As desculpas esvaeceram assim que olhou o oceano e percebeu em todos os faróis abajures. As coisas tomavam um alcance diverso, como sonhos que se materializam em água descendo pela corrente com as ondas que as algas traçam nas pedras. Pressentiu a voz do filho subindo a escada. Seus passos eram o silêncio cerzindo fissuras vermelhas.
Quando no Brasil se deu o parto da República, do seu ventre, décadas depois, um homem foi expelido sem vida. Nasceu nu, como todos. Mas por questões éticas, arranjaram-lhe um macacão azul. Ninguém ao redor teve ânimo para reanimá-lo. Não era conveniente. O temor por um coração que pulsa é maior que o medo por um coração que pára.
Acordou do amor. Queria lembrar dos braços dele. Não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos. Não conseguia. Lembrava um rosto estranho que quanto mais próximo, mais distante ia. Havia aprendido jogos que escondem cartas debaixo da manga. Mas sempre fora às claras. Se uma briga ir madrugada adentro, com pratos voando pela janela, ótimo. Mas se as coisas forem feitas como se faz em escritórios, tornando o sentimento uma questão corporativa, pedia a conta. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo.
1°
Existe uma boca que teu tato não trespassa. Ecoa passado no que toca e sente. Brilha na fenda que o peito não traz. Não há cor ou cheiro, forma de ar ou pedra. Agora cerejas mortas na língua. Queres voltar? É tarde. Queres mudar? As cidades são iguais. Mas teus dentes caem um após o outro e tu não sentes nada afora a doçura da morfina. Albinos desfilam agulhas. Uma coelha na casa ao lado. Talvez dê crias, talvez não. Nesse lençol, embalsamado de azul, a lembrança terá voz de vinho branco seco e madrugadas pela rua. Não és capaz de ir além. Queres me chamar? Acenas com o olho. Queres abraços, conselhos, cigarros? Contenta-te com o fato de que estás nu e que um casulo do depois adorna teus tornozelos. Lembras quando caíste atrás do Colégio? Era Carnaval e tu vestias laranja. Lembras quando me conheceste e sentiste coisas que te fazem ser até hoje? Era ali que tu estavas. Mas hoje és incapaz de ultrapassar a idéia. Tua sensibilidade não orvalha poemas nos poros de quaisquer folhas. Teu canto é a métrica incerta daquilo que sabes: opacidade que a palavra tramou enquanto podias falar. As cortinas, pulmões do vento claros de morte, arranjam assombros para noites remediadas. Não há deslumbre nisso. Há vida naquilo que tu foste, não naquilo que tu és. Arranjar cadáveres para cobrir dívidas? Sonegar beijos para fazer acertos? Essa era tua meta. Mas agora, nesse pêlo raspado da virilha, nesse tubo que entra pela garganta, o que mais existe? Ninguém decidirá teu amanhã. Até lá, cerejas mortas ao sol de abril destilarão o que tu poderias ser. Arrependimento não basta: desapego que aceita o mundo. Desculpas são nada: porões infestados de utilidades. Para ti resta o Carnaval, as madrugadas de vinho branco seco, o calor do corpo no sofá e alguns sentires que sobreviverão às traças. De nada valeu teu coração se ele não traduziu toques. Mas tu viveste e foste feliz. Viajaste, conheceste pessoas, aprendeste alguns idiomas e foste aplaudido por platéias de morbidez. Agora não faz diferença. Tens pelo corpo veias roxas, carne ressequida, músculo de sangue que invade teus órgãos. O que te faz humano são lembranças: aquela de quando ganhaste certo livro, de quando encordoaste o entardecer e pensaste que poderias escrever uma obra-prima partindo da perfeita estrutura sobre a essência do amor. Disso jamais te livrarás, ainda que o cano que te desce pela garganta não tenha nada mais com que encher tuas vísceras. Percebeste? Tiveste no máximo dois amigos e uma paixão. Se ela teve nome de amor ou algo que o valha, tu jamais saberás. Mas naquelas tardes, quando minhas mãos escorriam pelas tuas costas adolescentes e tu finalmente te sentias vivo, algo mudou em ti e em mim: a idéia passou a ser corpo. Não há tempo para recuperação. O que há é a expectativa de que a coelha dê crias na casa ao lado. Dentro disso, aquilo que tu não fizeste, aquilo do que tu tinhas medo, aquilo que tu negaste pelos outros que te pareciam reais e vestiam máscaras venezianas. Quando cortarem teu cabelo, colocarem algodão nas tuas narinas, retirarem órgão após órgão sonegando o músculo do teu sangue, preenchendo ossos com palha e seringas, tua lembrança se fará eterna mesmo que tua obra jamais tenha se dado distante daquilo que chamaste de amor. Assim teu brilho aquietará, a terra fará sua parte e o tato do mundo será a paixão que tu jogaste fora por conta das medidas e da impossibilidade de ultrapassar a idéia. Dessa tua arcada sem carne, nascerão cerejas do futuro que jamais imaginaste, polvilhadas por madrugadas e sonhos. Ereção de tudo que tu virás a ser a partir de cada falha, de cada gosto do teu toque, o eco se fará presente para além dos sons que te chegam da rua, povoando teu ventre de vinhos e carnavais. A ossatura do amor, grávida de prazeres, será o nascer do teu corpo, arejando a forma da paixão amanhecida em mais de um abril talhado pela minha e pela tua boca.
Desnecessárias linhas para qualquer contrapeso. Coisas exaurem. Como fumaça. Em mim? Em ti? Nós? Apenas a sensação de tudo ter sido. Presságio de frutos tardios, dourados ressequidos à infinita espera da (a)colhida, embora um senso vitorioso trespasse fracassos oportunos. Inútil a vigília das portas. “Insígnia da lua”, falariam. Ainda que a mestria não esteja para o desvão das frases, o vento continuará soprando. E talvez chova. Seria terra molhada, renovada pela violência da vida. Algumas plantas felizes, como dizia meu pai quando eu era criança. Mas faz tempo que deixei de ser criança e as plantas deixaram de sorrir: meu pragmatismo pára ao primeiro toque. Admitir mais seria dar corda à existência. E de corda, chega a imagem. De qualquer modo, atravessarei ruas. Algumas crianças também. Talvez um guarda guie nossa travessia. Quem sabe, alargando ânimos, haveria uma faixa de segurança. Pé ante pé, cruzaríamos o umbral daquele símbolo cravado no asfalto, arraigamento branco cinzento: cadavérico. Nascendo, a pele, primitiva e consciente, roça a tessitura do fim. Treme e pulsa pressentindo o fim. Tudo continuará, seja do jeito que for. Supostamente do mesmo jeito. Além de supor, nada podemos. Ao atravessar ruas, seja com crianças ou sozinho, não modificarei nada. Os átomos serão os mesmos. Passos podem mudar de terra, de sujeira na sola do sapato, mas ainda serão passos cortando segundos como um ponteiro que assalta minha esfera de ação. Um símbolo não segura nada. No máximo, intenção de comunicar. No mais das vezes, apenas jorro. Jorro e fim. Fecundar a fala é diferente. Tudo provém disso. Há um retrato na minha mesa. Mostra duas pessoas. Continuará a soprar o vento. Chove, ameniza o calor. Minhas expectativas são essas. O dever pode chamar porque hoje estou surdo e me bastam palavras. Persisto. Sempre há o fator surpresa, apesar das faixas de segurança. Sempre haverá alguém para esquecer a fechadura destrancada. Voltar à faixa é mais seguro. Menos patogênico, pois classificável. Fiquemos com a certeza do signo. Fiquemos com a certeza do símbolo. Choverá e as plantas sorrirão suas pétalas como quando eu era criança. Exatamente como meu pai dizia. Nesse momento, atravessarei ruas com algumas crianças. Tudo conspira. Mas não é necessário que viva. Mesmo que o pensamento diga o contrário, conspirar não está para pensar. E se um pneumotórax desabar em choro, haverá tratamento. De resto, o futuro. Ah! o futuro! Um caminhão que não pára na faixa. O pragmatismo. Veja a carne. Veja as veias azuis entre essa cor perolada que medeia teus seios. Não as tocarei e sei que se encontram por debaixo do teu calor marinho e ondulante. E quando tua respiração não der mais conta delas, continuarão ali até que a terra, mestra de ti e de mim, diga que o tempo acabou. Que a vida se foi. E que espalhar húmus é tua sina. Setenta badaladas ao final. E eu atravessando ruas, pensando em travesseiros. Até que o caminhão faça sua parte.