quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010.

Cerveja na garganta, champagne na geladeira e ano novo chegando. E ainda por cima, o blog completando um ano e pouco de existência. Tudo foi ótimo até agora. E espero que se torne melhor ainda nesse ano que se anuncia daqui uma hora. Um sincero abraço para todos aqueles que me acompanharam até esse momento. E pra não perder o lugar comum, um feliz 2010 a todos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Exercício n° 133.

Não há nada a fazer quando tudo está gasto. Quando a bile expeliu seu musgo no estômago e o estômago vazou para os pulmões, o que resta é a espera. E ela não precisa ser triste: nada precisa, ainda que a terra seja negra e os territórios sejam territórios porque alguém disse que são. A única fronteira do homem é seu corpo. O único obstáculo do homem é sua forma. Pele, carne, tudo que dança no espaço-tempo do cosmo, é esperança aqui e em nenhuma outra parte. As cenas se repetirão e as ramagens da vida, antes plena de expectativas, estarão restritas ao teto de um quarto vazio, onde flores mortas esperam pelo último veneno em um vaso de água podre. Alguns irão te visitar, dirão palavras que esperam ser ditas. Mas a razão, aquela que tu tinhas e acabou perdendo nas brechas do teu crânio, essa jamais retornará. O círculo se fechará a partir do momento que teus olhos cerrarem. Ninguém segurará tua mão. Cairão lágrimas sem remorso. Logo o esquecimento será o único verso da tua existência. Perdurarão engravatados ganhando em cima da tua criação que, antes opaca, oca de sentido, cairá nos olhos daqueles que servem para dizer se ela vende ou não. Após tua morte é que te tornarás único. Após teu fim é que tua palavra será ouvida. Mas de que adianta se nada dirás? Teu sexo tocará apenas a terra úmida de prazeres. Teus braços e ossos serão alimento para vermes, moradores da terra que lá estiveram sempre a te esperar. Tempestades cairão sobre teu túmulo. Sóis nascerão e luas surgirão para tua lápide. Mas lá dentro, tu não perceberás nada. Serás comida e com o tempo nem isso. Se um dia alguém perturbar tua solidão, encontrará teu crânio de olhos arregalados, assustados pela invasão. No mais, apenas prédios, ruídos de carros que cruzam e motos que rangem como cavalos que não sabem o que são. No mais, mulheres atrás de homens e homens atrás de mulheres com a garganta cheirando cerveja. Mas tu não participarás disso. Nem mais lembrarão teu nome. Voltará na memória de alguns poucos tua imagem, teu porte, teu cabelo. Tua palavra, aproveitada por aqueles que agora dirão que ela realmente diz algo, é que ressuscitará teu cheiro a cada olhar caindo sobre ela. Mas nem assim tu estarás presente. Estarás enterrado, cravado nas entranhas da terra até que o final disso tudo chegue. Então te levantarás, percebendo que nada mudou e tudo continua como antes. Os territórios continuam a ser territórios e as armas continuam nas mãos de quem pode ter armas. Tua voz preferirá o retorno, mas já não haverá como retornar. Condenado a essa nova vida, a única coisa que te fará chorar será o primeiro raio de luz tocando teu olho quando todos os vulcões enfim cuspirem o sangue da terra para a pele do mundo. Sorrirás, dizendo que isso é bom e justo. E carbonizado serás eterno, feito de pedra que não se gasta, mas sim perdura como tudo aquilo que não deverias fazer e fez. Esse é o meu conselho. Crê que não sou pessimista. Apenas digo do teu coração, pois orbitar eternamente em torno de si, é como negar que teu rosto só existe por conta de outro rosto que numa tarde te beijou, te amou e disse que o sangue é o espírito do corpo e que devias te contentar com isso. Afinal, estavas vivo. E estarás mais vivo quando antes de seres pedra, te tornes fogo, e antes de seres fogo, percebas plenamente a futilidade da tua forma por vir, arrasada pela argamassa da lava e liquefeita por tudo aquilo quando em vida tu te propôs a gastar pelo teu corpo. No fim das contas, será o teu sorriso que ficará eternamente ancorado na porta da tua lápide, porque nada, absolutamente nada precisa ser triste quando tudo está gasto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Adiós goodbye, INSUFILME.

Esse blog já foi bom. Mas anda em decadência. Daqui uns dias ele completa um ano. E revendo os textos antigos, percebo que existe uma grande distância entre eles e o que ando escrevendo ultimamente. Talvez seja por conta de novas obrigações e compromissos que me surgiram. Ou talvez seja por conta de eu não conseguir fazer literatura nos últimos tempos. Quem sabe isso seja sinal para que eu dê um tempo para o blog. Ou para que eu pare de escrever por um bom tempo. Mas entre uma e outra alternativa, prefiro o meio termo. Ou seja: prefiro disponibilizar por aqui apenas aquilo que eu creio que seja bom e não textos ao deus-dará de qualquer bobagem que eu escreva.

Sei que não mereço o título de escritor. Ao contrário do meu ego inflado e daquilo que pensam os autores da maioria dos blogs da rede, prefiro não tatuar na minha testa essa palavra. Claro que vontade não falta. Claro que depois de ter escrito algumas coisas boas, você acaba pensando que sempre vai escrever coisas boas. Beira a arrogância. Mas acontece que não é assim que funciona. Não que tenha que fazer calor ou frio ou chuva para um texto sair bom. Não que a gente tenha que estar alegre ou triste para escrever algo decente. Ocorre que existem épocas nas quais a palavra simplesmente não sai como deveria, razão pela qual até mesmo tenho deixado de comentar os blogs dos leitores deste espaço.

Não digo que permanecerei em silêncio. Tagarela como sou, seria pedir demais. Seria quase uma tortura. Mas digo que tomarei maior cuidado antes de divulgar textos por aqui. A rede sempre é muito mais extensa do que a gente imagina. As palavras que aqui foram postadas chegaram a locais e pessoas que eu sequer poderia imaginar. Talvez por isso seja necessário esse esclarecimento ou seja lá o que isso for. Não que eu tenha vergonha do que escrevo. Pelo contrário, costumo dar muito valor para minhas palavras. Aí é que talvez se encontre o erro, porque quando a gente se apega demais a seja lá o que for, costuma fechar os olhos para certas coisas.

Então reconheço ou pelo menos tento reconhecer: o blog anda sim em franca decadência. E de agora em diante, ainda que ele esteja próximo do seu primeiro aniversário, não publicarei textos como de costume. Ficarei mais atento ao que publico. Isso não é sinônimo de interdição. É somente sinônimo de cuidado e respeito pela escrita. E se esse blog foi bom, quem sabe seja sinal de que pode voltar a ser bom. Mas temos de respeitar nosso momento na história. E nesse momento da história desse blog, era isso que eu tinha pra dizer.

Mas nada de adiós goodbye, INSUFILME. Apenas um aceno para a vergonha na cara e para o valor da escrita. E pronto.

A Síndrome do Pink & Cérebro.

Quarta-feira. Durmo de madrugada. Pelas quatro da manhã. Acordo cedo. Pelas oito. Venta e faz frio. Mas existem coisas pra resolver. Bato água gelada na cara, ponho um casaco e saio pra rua. Primeira parada: banco. Chego num dos ditos e vejo uma plaquinha: GREVE. Converso com uma funcionária e ela me informa que continuarão em greve até semana que vem. Digo que é uma luta justa. Quem ganha grana com os bancos são seus acionistas. Trabalhador que é bom fica com o refugo e olhe lá. A funcionária fica feliz com minhas palavras e esboça um olhar quarentão e azul pra mim. Estampa agradecimento. Talvez outra coisa, mas não ligo. Não estou com essa bola toda. Fico contente. Faço umas ligações, cancelo uns pagamentos e vou pra próxima parada: provedor de internet.

Estou sem internet desde terça de manhã. E pra quem necessita disso pra trabalhar, é um caos. Chego na empresa e falo pra uma moça dos meus problemas e da minha necessidade de internet. Ela me olha com olhar de babá e me pergunta: já ligou e desligou o computador? Acho meio estranho. Mas me faço de desentendido e digo que sim. OK, ela diz. Mas você já ligou e desligou a chave da luz? Fico sem munições para a resposta, mas afirmo que fiz isso e que inclusive, nessa madrugada, tive três quedas de luz. A moça, loirinha magrela, olha pra cima e formula outra pergunta: a página do login aparece? Já não sabendo o que dizer, respondo que não, que não dá sequer sinal e que meu computador não está com vírus porque tive que formatar ele semana passada. Fui salvo por um disco rígido que gravou meu estoque de filmes, músicas e textos e não apagou minha vida em bytes. Imagino, engenhando a resposta, que ela dará uma risadinha. Afinal, tentei ser engraçado.

Mas nada disso. Ela permanece séria e irreal como uma atendente de 0800. Eu, ao contrário, começo a ficar irritado. Será que levantei com cara de trouxa? Ou será que levantei com cara de criança? Deve ser porque trabalhei até tarde, estou com olheiras e com os cabelos espevitados por cima dos ouvidos. Deve ser por causa do meu cangol marrom que coloquei por pura preguiça de ajeitar minhas gadeias de gringo-alemão. Mas beleza. A cara de babá que ela fez inicialmente era prenúncio do que viria. A loirinha puxa um formulário e diz que vai fazer uma ordem de serviço. Na primeira hora da tarde tudo se resolverá. Saco do celular e olho o horário: 10 e meia. Questiono: não poderia ser de manhã? Ela arrebata: de manhã a equipe já está ocupada. Vira os olhos para o computador, dobra o formulário manchado de papel carbono e quer me despachar com o canto da franjinha que cai nos seus olhos.

Decido tomar uma atitude. Quer dizer, decido verbalizar uma atitude. Nunca fui de violência. Então digo: olha aqui, trabalho pela internet, tenho compromissos via e-mail e sem internet estou perdendo dinheiro. Logo, preciso da dita o quanto antes, pode ser? Penso que ela irá baixar a guarda. Fui contundente e rígido. Mas percebo que cometi um erro fatal: acabei minha frase com um “pode ser”. Ela me olha como quem olha pro seu priminho de cinco anos e diz: a ordem será cumprida na primeira hora da tarde. Como ela conseguiu me desarmar? Baixo a cabeça, coço a moleira, digo tchau e vou embora resignado.

Caminho no vento, penso na greve dos bancos e na moça do provedor de internet. Um dia terei a calma dos senhores que bebem uísque pra conspirar o futuro da humanidade. Mas presumo que meu desejo seja como o CCE no qual eu jogava Pac-man quando guri: ultrapassado. É a vida. Nada de palavras grandes como “magnificência”. Apenas frases curtas e gerundianas seguidas de greves e loirinhas com olhar de babá. Mas tento esquecer disso. Só espero que até a noite a internet volte. E que até segunda os bancos voltem. Quem me dera ter uma bandinha alemã em Tucunduva! Pode não ser grande coisa, mas é melhor que conviver com loirinhas de 0800 materializadas em mesas de provedores de internet. Qualquer coisa, sempre haverá a possibilidade de tocar teclado numa galeteria de Bento. De funiculí em funiculí e funiculá em funiculá, na próxima noite em claro irei dominar o mundo. É a Síndrome do Pink & Cérebro. E a sina de todo mundo que sonha tão, mas tão alto, que logo é achatado pela realidade. Mas meu CCE permanece no fundo do armário. Desejo que é desejo, nunca é ultrapassado. Vinte e poucos anos é assim mesmo. E chega de se lamentar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Prognóstico (Parte I).

O ser humano não é o centro do mundo. Mas julga que é. A racionalidade é incompatível com nossas ações. E a maioria acredita no contrário. Nossa moralidade no mais das vezes é orientada pela mesquinharia. E justamente por isso menosprezamos tudo aquilo que não gira ao redor do nosso umbigo. Uma vida assim é uma vida egoísta. Uma sociedade assim é uma sociedade egoísta. E uma vida em uma sociedade assim terá o viver como um ato egoísta. E não temos praticamente nada que possa dizer que tudo isso irá mudar. É motivo para falar que a mesa está posta e não há o que possamos fazer? Uma paz assim será uma paz armada. Cada qual estará trancado em sua casa, em seu pequeno reino de consumo, esperando que o vizinho tussa para que o projétil ocupe abrigo. E o assassinato seria só uma redundância, uma manchete. Isso ocorre todos os dias quando julgamos as pessoas pela sua capacidade de consumo. Se determinado sujeito não consegue suportar essa realidade ou está à margem dessa realidade, disparamos nossa moralidade egoísta nesse sujeito. Essa é a razão das drogas, sejam elas compradas nas farmácias ou nas bocas de fumo – a diferença é inexistente, questão de glamour. É também a razão da aparente estagnação das nossas existências, trancafiadas em meio a imagens por sobre imagens que fazem com que cada vez mais o contato com o real não seja possível. Mas o que é o real? O que é a realidade? A resposta terá várias faces, cada qual cuspindo fogo na outra para que todos os olhares fiquem chamuscados. Mas ainda que seja dessa forma, a realidade não tem nada a ver com essa nossa moralidade de todos os dias. A realidade está naquele que passa fome. A realidade está naquele que passa frio. E tudo isso não ocorre apenas porque o governo não faz o que deveria e nem porque as empresas querem lucro e nada mais. Ocorre porque nós acreditamos que isso é normal, é corriqueiro, é fato para o rodapé dos jornais. Ocorre porque não conseguimos sair do cercado que construímos e permanecemos numa eterna vida de gado. Quem nos marcou? Qual é a mão que nas nossas costelas tatuou o ideograma de tamanha falsidade de maneira que sequer sentíssemos e até gostássemos do seu toque? Não tenho a resposta e muito menos tenho a intenção de responder essa pergunta. Mas quando um sistema atual está crise, a sua própria crise aponta o rosto do futuro. Se uma tragédia traz sofrimento para alguns, igualmente traz oportunidades para todos. A tragédia é uma oportunidade. Tudo gira na possibilidade de vermos que realmente uma tragédia está ocorrendo. Conseguimos ver isso se estamos correndo dia após dia vendo as pessoas como instrumentos e não como pessoas? Nascemos e morremos sós. Isso hoje é fato. Mesmo o sexo é um ato solitário. O prazer é como a vida: egoísta numa vida assim. Seremos capazes de sair desse círculo? Ou melhor: quando veremos que se trata de um círculo vicioso ao invés de um círculo virtuoso? A perspectiva de mudança é pouca. Mas existe. Não passa pela pureza da raça ou das idéias. Não passa por primados que digam que uma planta tem a mesma possibilidade de entender o mundo que um ser humano. Passa, por outro lado, pelo fato de que devemos reconhecer que antes de sermos morais, antes de sermos racionais e antes mesmo de vivermos em sociedade, existimos. Existimos desde o momento da concepção, muito antes do nosso olhar ser tocado pelas luzes da sala de cirurgia. Existimos antes de pensar, julgar e chegar a qualquer palavra. E é essa qualidade de existirmos que talvez dirá um rumo possível. Que rumo é esse? Uma reviravolta teocentrista, colando Deus no centro do real, ou um aprisonamento antropocentrista, sublimando o ser humano como sentença maior de tudo? Negativo. Precisamos recolocar a vida no centro do real. Precisamos, ao invés de comprometer ou interferir diretamente na vida, nos integrarmos com a própria vida para que outra vida seja possível. Poucos serão aqueles que terão coragem para isso. Poucos entenderão. Mudar dói. Mudar destrói. Mas a mudança é necessária assim como a dor é necessária. É a única possibilidade de sairmos desse deserto no qual nos encontramos. O ser humano pode não ser o centro do mundo, mas todas as possibilidades do mundo passam pelo ser humano. Por isso, isso: prognóstico primeiro de um sentimento não verbalizado, mas que, à parte qualquer dificuldade, passa diretamente por este olhar: precisamos recolocar a vida como centro do real.

domingo, 20 de setembro de 2009

Linhas sobre Dalí.

Nem sempre as coisas são como a gente quer.

Essa frase soa tão simples que aparentemente não quer dizer nada. Mas o fato de se dizer que a realidade está dissociada da nossa vontade, implica em negar a própria premissa do Iluminismo ao colocar o humano enquanto razão como centro do universo.

Cabe a pergunta: o querer é racional a ponto de ser colocado em contraponto ao racionalismo iluminista ao passo que sua não-realização está para a constatação de uma realidade demasiada humana sobre qualquer ponto de vista?

Chegamos ao ponto chave do questionamento que levanto: o desejo e a razão não traçam rumos separados, mas complementares, um influenciando o outro ao sabor das conveniências. Mas ao se falar em conveniências, logo se pensa nas conveniências que trazem sucesso para uns e fracasso para outros, seja de qual realidade falarmos.

Neste sentido, deve-se dizer que entra em cena um conceito primordial: o inconsciente. Se as coisas nem sempre são como a gente quer em virtude de fatores que implicam tanto o desejo quanto a racionalidade quando direcionados a uma determinada realidade, há de se afirmar que esse mesmo desejo e essa mesma racionalidade, ao se direcionarem para uma realidade exterior, estão imantados do próprio meio do qual essencialmente provém: o inconsciente.

Mas se chega aqui a um impasse que poderia redundar na negação de toda argumentação até agora levantada: como provar o inconsciente com o uso do consciente se o primeiro seria o perfeito contraponto do segundo? Essa argumentação negativa cai por terra quando se diz que podemos pensar a morte, refletir sobre a morte ou mesmo buscar meios de evitar a morte. Dizer que há um inconsciente por detrás de um manto de consciência, implica em dizer que a própria vida, para ser vida, necessita da existência da morte, o que é uma verdade incontestável.

No entanto, apesar de defrontados com tais impasses indissociáveis da própria faticidade humana, ainda haverão críticos, os quais, em suma, dirão que associar a vontade humana – vista aqui como a união do desejo e da racionalidade – a uma realidade inconsciente, implicaria em reafirmar o dogma cristão do livre-arbítrio, sendo os psicanalistas de hoje os párocos de ontem.

Para tal entendimento, há apenas que se afirmar que nem sempre, como disse Tom York, 2 + 2 são 4. Por vezes o resultado pode ser diverso: 2 + 2 = 5. Dessa forma, falar que o desejo e a racionalidade estão ligados a um inconsciente que é formado de acordo com nossa carga genética associada a nossas vivências que formam o próprio cerne do nosso ser, é admitir que, enquanto humanos, não somos exatos, e a mais explícita matemática, quando defrontada com o espelho da realidade que nos circunda, pode expandir sua lógica ao ponto de deixar de ser lógica para o mais racional dos olhares.

Aliás, também se deve questionar o seguinte: ao que nos levou o olhar cartesiano, racionalista, iluminista, tecnicista, buscando o homem como o centro do universo? Acaso não nos levou ao estado de pré-colapso global, no qual todas as forças do planeta, desregradas pela ação humana, digladiam conosco em busca de um controle que escapou das nossas mãos? É justamente o que se depreende de tal premissa que busca uma ação/reação em todas as forças universais, acreditando que a abstração proveniente de tal metáfora científica é suficiente para sintetizar humanamente o próprio universo.

Onde o homem for, somente o homem haverá, e não há Kubrick ou Hawking que neguem tal fato, sendo que nosso olhar, nossa vivência, nossa existência, a tudo contamina – e a tal ponto que, ao nascermos numa realidade previamente dada enquanto cultura, jamais seremos capazes de sair dessa mesma realidade, já que a própria condição da nossa existência recai nessa realidade na qual nascemos, crescemos e quem sabe morremos.

Mas e essa última afirmação, como fica? Quem sabe morremos?

Partindo do ponto de que nascemos inseridos em uma cultura e a nossa própria possibilidade de ser humanos está adstrita a essa cultura, pode-se dizer que de alguma forma o humano morre, sendo que de boca em boca, de palavra em palavra, a carga cultural de gerações e mais gerações atravessa qualquer dizer? Não, o humano não morre, o homem jamais morre, apenas se transforma cultura: cultura dada de boca em boca, de palavra em palavra, e, por vezes, de obra em obra, perpetuando a solidão terrestre pelo vácuo universal de jamais termos alguém que olha por nós.

Dizer que morremos, então, é o mesmo que dizer que não-vivemos, uma vez que apenas podemos viver enquanto cultura. Assim, se nossa condição existencial é a carga genética no sentido biológico e a carga cultural no sentido vivencial que, somadas, criam justamente essa condição, deve-se admitir que se a carga cultural no sentido vivencial faz nós sermos o que somos, a carga genética no sentido biológico, falecendo, não torna moribundo o humano, mas apenas faz certo corpo deixar de ocupar certo espaço no sentido físico que permanecerá, em contrapartida, ocupado no sentido imaterial: no sentido cultural.

No entanto, é óbvio o fato de que a aceitação dessa realidade, uma vez que a clareira que ela aponta ao mesmo tempo alenta e atordoa com uma angústia imensa, não será aceita por muitos. Não haverá de se admitir jamais que jamais morremos, mas apenas nos tornamos simplesmente cultura, assim como não haverá de se provar cabalmente jamais a existência do próprio inconsciente, pois dele apenas temos sintomas, jamais realizações concretas.

Se o inconsciente está ligado à vontade, à racionalidade e à cultura enquanto condição humana, falar do inconsciente implica em falar do contexto imaterial da própria existência humana, que, enquanto calcada na materialidade, jamais irá compreender a imaterialidade que a possibilita – pois ela própria é tão-somente cultura.

Nem sempre as coisas são como a gente quer, realmente. E tanto, que nem mesmo quem acaba de fazer esta reflexão, moldado por dizeres de lembrança e arrependimento, detém a real capacidade de dizer que chegou ao resultado que esperava

E o que esperava? E o que é real? E o que é um resultado?

Racionalidade, desejo, inconsciente, cultura, existência: humanidade.

É isso que esse domingo me fala. São as minhas linhas sobre Dalí.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A Liberdade da Palavra.

O artigo que abaixo publico desvirtua um tanto do contexto desse blog. O motivo é que ele consiste na coluna semanal (todas as quintas-feiras) que escrevo para o jornal A Tribuna Regional da cidade de Santo Ângelo (RS), local onde resido. Porém, seu teor fala de temas universais, razão pela qual decidi postá-lo aqui.
Logo, abaixo segue o mesmo.

Escrever não é só ordenar idéias em palavras. Escrever é dedicação. Escrever é obediência a determinadas regras. Vez ou outra me pego pervertendo o português. Isso é triste. Ainda que consiga uma mínima coerência textual, isso não basta. Quanto mais no espaço exíguo de uma coluna. Ao falar disso lembro de Dostoiévski e outros tantos autores que inicialmente estruturaram seus livros publicando capítulo após capítulo em jornais. Isso daria certo hoje em dia? Presumo que não. Minha negatividade com relação a esse ponto é simples. Mais vale se atirar numa poltrona e desfrutar das beldades que a tela encena do que sentar, ler e imaginar o que se passa em determinado livro. Com certeza alguns argumentarão que o livro traz maior liberdade de imaginação para quem lê. Mas aí entra outra pergunta: as pessoas querem liberdade? A resposta é não: as pessoas querem prisões de liberdade.

Artaud dizia que a liberdade total viria com a ausência do corpo. Enquanto estivermos confinados nessa carne e nesses ossos que nos fazem humanos, jamais seremos livres. Isso é uma crítica, uma provocação. Nosso limite é a morte. O que não propicia, para um pensamento que se queira minimamente lógico, crendices do tipo “pós-morte”. Não entendo como tanta gente fala disso se ninguém conseguiu ir para o outro lado e voltar para dizer como acontecem as coisas por lá. O fato em si é que é o medo que alicerça toda e qualquer crença. E é também o medo que alicerça todo e qualquer agrupamento humano.

Rosseau, Hobbes e Locke são unânimes ao dizer que os seres humanos construíram o Estado para ordenar suas vidas. Caso assim não fosse, não teríamos faixas de segurança, não teríamos direito ao voto e muito menos eu teria o direito de falar o que estou falando. Mas a questão central que Rosseau, Hobbes e Locke colocam é que existe um contrato tácito entre as pessoas que vivem em sociedade para que o Estado lhes dê as mínimas condições de sobrevivência. E falar desse assunto pode gerar várias polêmicas.

Tentando setorizar essas polêmicas, vejamos o Bolsa Família. O que ele tenta fazer, baseado no pensamento de John Rawls, é equiparar os pontos de partida social. Isso quer dizer que todas as pessoas deveriam ter as mínimas condições de partida econômica na sociedade para conquistar e efetivamente concretizar suas ambições. Os puritanos, defensores da moral e dos bons costumes, certamente dirão que isso é auxiliar vagabundo. Mas eles apenas dizem isso porque para eles não é interessante que haja o mínimo de igualdade social entre os cidadãos. Afetaria sua riqueza, seu poder. Então não me venham falar que é preciso aprender a pescar ao invés de dar o peixe. Nem todos os riachos tem peixes e nem todas as pessoas detém condições mínimas para pescar.

Mas voltando para a questão da liberdade, trata-se de algo que muito me atordoa. Ninguém jamais conseguiu conceituá-la. Deve-se dizer também que toda e qualquer espécie de liberdade está inserida em um contexto de relações de poder. Portanto, junto com Artaud, digo que a única liberdade possível é a ausência do corpo. Mas como apenas podemos ser apenas enquanto corpos, o que nos resta? Poderia escrever um poema. Mas para me fazer minimamente inteligível, tenho de escrever parágrafos um tanto encadeados para chegar a uma idéia final. E qual a idéia final? A simples, boba e óbvia idéia de que não há final. No Universo nada tem fim: tudo continua. E quando aceitarmos isso, finalmente saberemos da nossa condição essencial: seres-para-a-morte, como disse Heidegger, mas que detém as condições de seres-para-a-vida a partir da consciência de que estamos aqui por um curto espaço de tempo e é nele que devemos fazer o possível para descobrir alguma coisa acerca desse mistério que é a vida e a morte.

Com a escrita acontece o mesmo. Desvendei algo com essas palavras? Não. Como diz o amigo Érico Müller, jogo idéias para cima e que caiam na cabeça de quem cair. Essa é minha intenção. Se eu quisesse trazer respostas, viraria demagogo. Como suscito perguntas, quero provocar o pensar. Mas os que duvidam das minhas letras, me aguardem. Razão? Não sei, mas descobrirei. E é essa a força que move minha existência, quer ela siga padrões gramaticais ou não. Arrogância? Não. Apenas sou humano. E minha liberdade é a palavra, o sangue e a honra de ser humano e poder falar. Isso me basta. É a única dignidade possível.