quarta-feira, 26 de agosto de 2009

É tudo culpa da genética.

Se o certo está na esquerda, por que tanta gente nasce destra? Mas se tanto destro faz besteira por aí, será que o certo está na direita? Talvez a solução do Brasil fosse cortar as mãos da sua política. De um lado temos aqueles que vivem do ranço das pedras do Muro de Berlim. De outro lado temos aqueles que dizem amém para o mercado e dizem que tudo está muito bem, obrigado, desde que suas contas bancárias continuem ronaldianas. Acontece exatamente como em um comercial de banco. Parece que tudo quanto o banco oferece é para o seu bem. Mas o banco quer é que você morra pagando juros em devoção ao contrato que você sequer chegou a ler.

Talvez essa seja a melhor imagem do país nesses tempos em que até a Receita Federal, um dos únicos braços do Estado que funcionam de maneira minimamente aceitável, diz que sofreu e sofre influência política. Antigamente poderíamos dizer que se quiséssemos obter informações confiáveis de qualquer Estado, teríamos de recorrer a sua Receita. Mas se hoje nem isso podemos dizer, devemos confiar em quem? Certamente aquele médico que prometia bebês com genes perfeitos seja o caminho. Desde que, é claro, você não se mostre apetitoso ou apetitosa aos olhos do doutor. Quando se trata de patrimônio genético e de comportamentos que provém desse patrimônio, ninguém tem o dever de se controlar. É tudo culpa da genética.

Assim até poderíamos explicar as coisas que acontecem por aqui. Se acham que o PT tem alguma coisa interessante pra dizer fora o que os supostos intelectuais da USP dizem ser correto, culpa da genética. Se a Dilma e o Padre Fábio de Melo colocaram botox nas suas pelancas, culpa da genética também, ora! Fica muito fácil assim. Melhor do que ficar em mil e um comentários sociais pra explicar as coisas que vemos todos os dias. A partir da genética, poderíamos até explicar porque tarde dessas, quando cruzava pelo centro, vi dois jovens abestalhados tendo sua pampinha socada no chão rebocada pela Brigada. A Igreja Universal fazer seus fiéis vomitar pra expulsar o demônio do corpo também não tem culpa de nada. Só faz o que a Bíblia diz. E a Bíblia, por óbvio, também tem lá seus genes. As empresas farmacêuticas que pedem uns trocados pra OMS pra combater a Gripe A, igualmente são umas coitadas. Tem boas intenções, claro, mas precisam de um financiamentozinho pra fabricar uns comprimidos. Se um casal de amigos financiou sua casa em quinze anos pela Caixa, por que essas empresas não poderiam receber uma mão do Estado?

“Todo humano é bom”, canta o Padre Fábio. Logo, ninguém tem culpa de nada. Há um determinismo religiosamente genético em todas as nossas ações. Acontece que nesses tempos fake plastic trees, temos de descobrir quem manipulou tal e tal gene. E também se esse alguém não deu umazinha meio forçada com o sujeito ou sujeita do qual o gene foi manipulado. Se ele for de esquerda, a manipulação ocorreu por um mundo melhor. Se ele for de direita, tudo não passou de intriga da oposição. Mesmo que a manipulação tenha ocorrido, não houve agenda e nem câmera para registrá-la. É como um senhor da high sociaty que pega michês por aí.

Mas ainda que tudo seja culpa da genética, existem algumas verdades que antecedem até mesmo a genética. Por exemplo: nem adolescentes suportam adolescentes. Outra: vivemos no eterno medo de que a Simone lance outro CD de natal. Mais uma: ninguém jamais gostará de literatura se ler Iracema aos quinze anos. Pra acabar: a única coisa certa das canções de amor é que elas estão mentindo. Mas até a Bidê ou Balde me contraria: “se o sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!” Em quem confiarei então? Sinceramente não sei. A única coisa da qual tenho certeza é que mais me valem as Evidências do Chitãozinho & Chororó do que as evidências do Juízo Final. Convenhamos que é muito melhor chorar o fim com cachaça do que numa frigideira cheia de enxofre e fogo.
Mas se nem nisso eu estiver certo, talvez seja mais lucro dar um jeito de perder o mindinho e me aposentar. Razão? Sem ele, jamais poderei voltar a desfrutar do enorme prazer de limpar o ouvido sem cotonete. Mas no fim a aflição permaneceria: cortaria o mindinho da direita ou da esquerda? De qualquer forma, a mão ficaria e a aposentadoria também. Felicidade rima com oportunidade. Tudo é questão de passar a mão, seja pela genética ou não, ainda que de vez em quando o Boa Noite Cinderela fale mais alto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desintitulados.

Nem só de sexo e dinheiro vive o homem. Sacanagem também é essencial. A democracia surgiu dessa constatação. Mas os cidadãos de bem logo inventaram a ditadura.
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Um peixe não percebe que está no aquário. Seu mundo é o aquário. Tudo quanto ele viver e sentir será restrito ao aquário. E o mar é no máximo um sonho presente na água. Por isso o Brasil precisa de exorcismo. Nosso problema é encosto. Mas ninguém percebe isso. As coisas estão encostadas demais. Se bobear, de tão pesados que andamos, logo perderemos o equilíbrio. E a consciência será nossa cara roxa. Aí nos daremos conta de tudo. A porrada e o tombo são os pais da palavra. Ou pelo menos das cicatrizes.
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Somos todos irmãos. Sempre estamos devendo uns para os outros.
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Dizem que as pessoas podem falar o que pensam. Há previsão constitucional, inclusive. Mas quando a polícia é instruída a recolher cartazes que ofendem a Yeda, existe algo de estranho acontecendo. Alguém escreveu que no começo se queimam livros e depois se queimam pessoas. Cartazes não são livros, mas frases rendem juros. A prova é que as bibliotecas existem. Então o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Nenhum dos dois. Quem vem primeiro é o galo. Porém nesse país eunuco, a extinção é o caminho. Mas talvez o eunuco seja só o guarda. Resta saber quem aproveita o estoque. Ou se o harém não é apenas miragem.
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Se um assassino queima na cadeira elétrica, é justiça. Se um fazendeiro mata ladrões de galinha, é defesa do patrimônio. Mas se alguém se arrisca a dizer a verdade, é burrice. A mentira é o coração do afeto e o motivo dos tapinhas nas costas. Quando muito, de animadas reuniões dançantes e almoços de gente importante. Tanto em um quanto em outro lugar, a conversa é impossível. Nessas circunstâncias, a boca foi feita para outras coisas. E nem todas tem relação com a comida.
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A diferença entre a segurança e o risco, é o tempo de espera para a morte. Depois dela as preocupações acabam. Por isso inventaram a carteira de trabalho. O estranho é alguns reclamarem férias e 13° salário. Certamente não perceberam a liberdade de não ter direitos. A pobreza existe por isso. E o SPC também. São as maravilhas do capitalismo.
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Quando crianças, queremos ser jogador de futebol. Quando adultos, queremos ganhar na loteria. Esses são nossos principais sonhos. Mas entre a impossibilidade da realização de um e outro, é que construímos nossa vida. O grau de sucesso que obtemos é medido pela aproximação com um desses limites. E quem negar é a mulher do padre. Ou seja: a vagabunda da vizinhança. Mas nem por isso pouco bondosa. Afinal, a imoralidade é a razão da felicidade. E a ignorância é sua mãe. Ninguém pode ser feliz abertamente. É pecado.
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Me perguntaram o que eu fazia. Disse que era professor e advogado. Então me falaram:
-Ah! Então você não trabalha quase!
Pensei: nem na Record nem na Globo.
Mas respondi:
-Capaz! Nas horas vagas fabrico foices pra reforçar o orçamento!
Foi aí que percebi que ofendi o sujeito. Ele vestia uma camiseta do Che Guevara.
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Um necrófilo e um suicida são conceitualmente iguais. Perderam a paciência. No meio termo existe a política e a religião. Se uma oferece a salvação pela palavra, outra oferece a salvação pelo silêncio. Mas ninguém explica do que precisamos nos salvar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Simplesmente Maluf.

Sérgio Buarque de Holanda fala que a herança do Brasil para o mundo será o homem cordial. Mas essa cordialidade não se confunde com gentileza, já que a palavra “cordial” provém das palavras latinas “cor” e “cordis”, as quais significam “coração”, designando alguém que age impulsionado pelas emoções e despreza as convenções sociais estabelecidas, o que faz com que exista um reflexo das relações familiares ou privadas nas relações políticas. Um dos motivos para esse comportamento, estaria no fato de que as instituições políticas brasileiras foram concebidas de maneira unilateral e coercitiva, sem diálogo com a população. Então, se por um lado os detentores do poder se utilizaram dessas instituições para favorecer os seus, por outro lado as demais pessoas buscaram meios de burlar os regramentos sociais em busca de favorecimentos para si ou para pessoas da sua relação, criando assim o que alguns chamam de “jeitinho brasileiro”.

Encontramos um precedente disso no comportamento clássico dos indivíduos em relação aos vereadores. No mais das vezes, o brasileiro não vota em um vereador por crer nas propostas do candidato, mas sim porque acredita que poderá obter vantagens no futuro através desse candidato. Essas vantagens, porém, não provém das atitudes legislativas do vereador, mas sim da sua relação com os representantes do Poder Executivo, já que são esses, segundo o senso comum nacional, que efetivamente podem remodelar situações estabelecidas e/ou criar situações que favoreçam o eleitor que inicialmente votou em determinado candidato.

Esse comportamento, portanto, está relacionado a uma forma de navegação social tipicamente nacional, muito presente em uma manchete recorrente nos jornais das últimas semanas: o favorecimento de familiares por alguém que detém determinados poderes em alguma instituição política nacional. Nesse sentido, tenho de dizer que não vejo a razão de tanto estranhamento com o Caso Sarney. As atitudes do Sarney, ao que me parece, estão sendo postas às claras no sentido de dizer de um comportamento completamente estranho frente ao que é moralmente aceito pelo brasileiro, o que é de uma hipocrisia imensa. Concordo que o nepotismo e quaisquer espécies de corrupção devem ser combatidas, mas o fato é que se temos uma sociedade enraizada no conceito de homem cordial, a política invariavelmente irá refletir esse conceito. E talvez isso servisse como uma boa tese de defesa para o Sarney.

Ele poderia alegar que é vítima de um comportamento nacional típico, o qual está tão presente em seu inconsciente que de modo algum pôde pegar algum desvio no decorrer da vida. O senador chamaria psicólogos, filósofos, antropólogos e advogados para dar respaldo a sua defesa, a qual seria rubricada por um parecer psicografado do Rui Barbosa. A Globo então faria uma série de documentários sobre o quanto existe um determinismo inconsciente em todas as atitudes de quem nasce em solo brasileiro. A conclusão viria do Kleiton & Kledir: “coisa de magia, sei lá”. Aí apareceriam alguns remédios tarja preta para combater esse comportamento e tudo estaria perfeito como em um comercial da Monsanto.

Por isso e muito mais, acho ridículo surgirem tantos defensores da moral e dos bons costumes em tempos nos quais a corrupção está nas manchetes de todos os jornais do país. Chego a cogitar que quanto mais as pessoas parecem razoáveis e equilibradas em suas atitudes, com retratos estampados em todas as colunas sociais e coisa e tal, mais sujeira existe por trás dos seus comportamentos. Quem sabe até nos apiedássemos do Sarney se ele seguisse meu conselho de defesa e tudo ocorresse com o aval de especialistas da USP. Ele viraria o símbolo de que no Brasil é impossível ser honesto para que o Maluf, estandarte da desenfreada e injusta perseguição a uma tendência nata de todo brasileiro, com olhos chorosos e melancólicos, finalmente dissesse:

-Eu tenho contas no exterior sim! Mas não é culpa minha! Simplesmente sou brasileiro!

Nisso o Sarney, com a voz embargada de orgulho, bateria nas costas do Maluf e diria:

-Muito me comovo com a confissão de Vossa Excelência! Agora, como eu, és um imortal! E de hoje em diante todo brasileiro, além de ser brasileiro, poderá dizer mundo afora: sou simplesmente... Maluf!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De Mentira em Mentira.

Acho curioso o fato das ruas serem batizadas com nomes de alguns “personagens importantes da nossa história”, como o pessoal costuma dizer. Talvez meu estranhamento aconteça porque não acredito que existam “personagens históricos” que possam servir de ponto de referência pra contar qualquer coisa e muito menos que a experiência de vida de alguém ou da humanidade ensina algo além do puro desgosto. Também duvido que 90% dos sujeitos que dão nome para essas ruas fizeram algo importante pelas pessoas. No máximo fizeram algo importante para seus bolsos e para seus herdeiros. É claro que eu posso dar com a língua nos dentes, mas prefiro essa rabugentice do que um dia me lembrar um paspalho que chegou a acreditar que as pessoas fossem essencialmente boas. Por falar nisso, confesso que já tive comigo essa crençazinha. Mas com o tempo me dei conta de que nem eu valia lá grande coisa. Logo me veio a pergunta: por que os outros deveriam valer?

Se eu fosse desses que acredita em horóscopo, diria que isso se dá porque sou leonino e então penso que o mundo gira ao redor do meu umbigo. Haveria uma razão para todos os meus atos e meu destino estaria escrito no movimento dos astros. Mas como não sou dessa turma, apesar de já ter perdido tempo com isso, cheguei a conclusão de que não só eu, mas também a própria humanidade, não vale lá muita coisa. Mas e por qual motivo deveria valer? Partamos do seguinte princípio: para algo ter valor, ou melhor, para o ser humano que pressupõe a humanidade ter valor, sendo que ele não é algo mas alguém, é necessário existir um parâmetro de valor universal. Pois bem: qual é o parâmetro de valor universal para o ser humano? A vida? Se a vida fosse isso, não haveria guerras e nem a pena de morte em qualquer canto do planeta, por exemplo. Portanto a vida não é parâmetro de valor para nada que não esteja relacionado com a mensalidade dos planos de saúde.

Talvez por isso é que para ter a suposição de uma referência nem que seja pra ir na padaria, as ruas são batizadas com nomes de “personagens importantes da nossa história”. E convenhamos que é bem melhor assim do que chamá-las de A, Z, W ou amarelo, vermelho e roxo. Por isso é que pensar demais não faz bem pra ninguém. Mas custa mais de 0,5% da população gastar seus neurônios com algo interessante? Do jeito que a coisa anda, quem gosta de saber a verdade é masoquista, porque se começa a pensar demais, enlouquece. E se chega ao cúmulo de falar o que pensa em público, lascou-se. Mas esses dias me tranquilizei quando um amigo disse que o que está dando dinheiro atualmente são propostas para mudar o mundo. Talvez eu deixe dessa coisa de pensar e invente algum solidarismo empacotado, bonitinho e cheiroso que ajude os descamisados e me traga algum. Afinal, Deus gosta de dar dinheiro pras pessoas: é o Censo do Céu que está desatualizado.


Mas voltando para a questão dos nomes das ruas, a verdade é que não tenho nada contra os tais “personagens históricos”. Acho até bonitinho a gente falar “na Marechal” ou “na Antunes”. É no mínimo uma perversão lingüística, o que é saudável. O que não é saudável, porém, é acreditar que nessa vida alguém faz algo por alguém por caridade. Para os familiares, a esposa e algum que outro amigo, vá lá. Mas pra esse bando de pessoas que passa fome e frio pelas esquinas, ou, para ser generalista, pela humanidade, é puro solidarismo analgésico.

Lembro de uns colegas do segundo grau que iam fazer serviço voluntário “pra contar no currículo”. Paralelo a eles, vou inventar dia desses alguma proposta para mudar o mundo e então virar nome de rua e me tornar um “personagem histórico importante” com grana no bolso, tudo pela vontade divina combinada com meu enorme senso de justiça. Do contrário, certamente serei execrado como um egoísta desalmado por tanta gente solidária e de bom coração que cozinha feijão por aí. Mas um dia descobrirão a verdade. Como diz o André Dahmer, existem dois tipos de pessoas no mundo: os solidários e os egoístas. A diferença entre elas é que se os egoístas são aqueles que destroem a humanidade fantasiados de papões, os solidários são aqueles que apóiam os egoístas fantasiados de anjinhos. E acaba que tudo fica na mesma. No pesar dos comprimidos, batizando ruas ou não, é de mentira em mentira que seguimos nossa vida.

terça-feira, 28 de julho de 2009

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador."

Todo poder corrompe. Todo laço é corrupto. Mas a pior democracia é melhor que a melhor ditadura. Se as coisas não são como deveriam ser, é porque o futuro existe, apesar da democracia não se medir por eleições periódicas e sim pelo conflito de interesses no espaço público. Para serem conflitantes esses interesses precisam de voz, a qual não irá partir da classe alta e muito menos da classe baixa, já que toda mudança política que algum dia ocorreu no Brasil partiu da classe média. Mas uma classe média anestesiada pela redução do IPI pra comprar sua TV de plasma ou pelo financiamento do seu Escort 97, não irá fazer nada além de acompanhar interessantíssimos debates futebolísticos. Portanto, não há perspectiva de mudança em médio prazo.

Reclamamos da alta carga tributária e da violência urbana, mas a questão maior é a nossa apatia frente ao que acontece no país. Falar em mesas de bar ou no Orkut pode ser um começo. Assistir ao Casseta & Planeta é rir da própria tragédia, o que é saudável. Mas ficar só nisso é pura falta de atitude, pois de uma ou de outra forma nossas discussões políticas tiram o corpo fora da própria política. Ou seja: a população faz o papel de “boazinha” e os políticos de “malvados”. Mas como disse Gramsci, o pior diagnóstico não pode passar ao largo da possibilidade de ação.

Por essas razões é que não é possível uma mudança de cunho vertical. Todo radicalismo é burro. A classe alta não fará nada e muito menos a classe baixa fará algo. FHC já falou em 1979 que no Brasil nunca houve um proletariado: apenas um operariado, porque até para a CLT existir, por exemplo, o ditador Getúlio Vargas teve que dar propulsão para a organização dos sindicatos. O povo não se articulou sozinho. Aceitou a merreca da CTPS em troca da sua liberdade. Assim, a única mudança possível parte do reconhecimento de que o poder se dá em rede, como disse Foucault. Dando-se em rede, não existem atores sociais preponderantes, mas sim atores sociais que medem seu papel no espaço público a partir do seu grau de influência no espaço público.

Logo, não me venha falar que é preciso uma política mais humanitária ou algo assim. E nem me venha falar de conscientização. Todo humanismo é um fascismo que conscientiza. Puro adestramento do humano, zoologização. Para quebrar a lógica do imediatismo que nos anestesia com o consumo e provavelmente evoluirá para a autofagia, é necessário que haja profundidade ao invés de velocidade. E para haver profundidade ao invés de velocidade, primeiramente é preciso haver o reconhecimento da alteridade do outro: o outro como igual mas diferente de mim. Precisamos de diálogo para construir conhecimento e reconhecimento: individual e coletivo, igualdade e diferença.

Caímos então na questão ética. Mas como a ética provém da moral, é necessário quebrar o ciclo imediatista de alguma forma. E como somos atores sociais em todas as nossas relações, pense em um corpo. Do mesmo modo, pense em um câncer. Se o câncer se alimenta do corpo, OK. É impossível evitar. Mas lembre que o câncer pode alterar o metabolismo de ao menos um dos órgãos do corpo. E para certos tipos de doença, nenhuma quimioterapia adianta. Mas será que ao invés disso não precisamos de uma análise psicanalítica de mais ou menos três décadas? Se for esse o caso, é possível que confundamos a analista com nossa mãe. Será amor à primeira sessão, o que não tem nada demais. “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”.

Mas antes de tudo isso, acredito que o berço da nossa inércia está para o fato de que jamais houve uma revolução no Brasil. Tivemos apenas revoltas. Nossa independência política é fruto de um acordo de cavalheiros. E de lá pra cá, somente remamos a favor da maré que nos disseram ser a única. Os oligarcas de ontem continuam com nossos cabelos nas mãos: apenas camuflaram o cabresto com ajuda das agências de publicidade. Os laços políticos são reflexo dos laços sociais: uma “cosa nostra” sem senso de justiça. E os laços sociais são corruptos porque são egoístas e ainda assim pregam a compaixão: o solidarismo analgésico desses clubes grã-finos e das grandes empresas. Quanto ao poder do jeito que está aí, é questão edípica. E talvez esteja para uma visão sensual do Brasil. Afinal, todos querem tetas por aqui.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Postas sobre Anil Duran.

Escrever é cada vez mais desaprender. Andar é cada vez mais tropeçar. Não existe linha reta para quem se arrisca. Se existe um traço, esse traço é apenas uma virtualidade geométrica. Retidão é moral escassa. É disso que se destila literatura.

Mas pensar sobre isso ao fazer literatura, faz com que a própria literatura seja obstruída na medida em que a palavra cega o objeto. Racionalizar o ato já é anular o ato. Por esse fato é que a literatura é só. O escritor não tem amigos para sua arte. Conversa de maneira incessante com todas as vozes que sussurram nos seus ouvidos. Alguém pode chamar isso de psicografia. Mas responder a humanidade da escrita com uma metafísica dos medos é fazer com que o próprio projeto humano morra. Por essa razão não é justo culpar o invisível pelas criações que fazem com que o mundo seja mundo e com que nós sejamos nós. Seria no mínimo uma tremenda injustiça com aqueles que estão eterna mas finitamente à deriva e só por conta disso existem.

E pensar nesse existir implica em imaginar paisagens. Essas paisagens podem ser das cores que você quiser, mas em sua maioria serão amarelo ocre porque tudo seca tudo: a flor seca a árvore, a árvore seca a terra, a terra é secada pelo homem que despedaça a árvore e coloca a flor em um vaso pra morrer em uma semana. Tudo assim unitário. Tudo assim singular. Fazer literatura é brincar de hiena: quanto mais carniça melhor. Perguntar da razão dessa tonalidade amarela é demais. Convém apenas aceitar as palavras como elas se apresentam aos sentidos. Pretender mais é pensar na estrutura das frases e assim mostrar o que não deve ser demonstrado. Se fosse, a literatura inexistiria.

Mas escrever sobre isso é convencer você de que o que você faz é literatura. A teoria é que dá a razão da prática. Funciona como uma mentira domingo pela manhã. A voz tentará dissuadir você da sua própria intenção. Você ficará nervoso, tentará abandonar seu cobertor factual. Mas no final ensaiará uma cara de coitado e falará aquilo que inventou por sobre aquilo que fez. O lábio tremerá e as palavras sairão rápidas mas nem por isso isentas de convencimento. É necessário, você admite para si, ainda que saiba que isso também é mentira, garantir o carinho antes de preservar a franqueza.

Um dia você pensará: como hierarquizar o que é humano de você para você e que apenas virtualmente irá em direção aos outros? Ouvir que todos querem ser ouvidos é uma coisa. Ser realmente ouvido é outra. O espaço que existe entre aquele que fala e aquele que ouve é que constrói o sentido. Esse espaço, por sua vez, só existe enquanto obscuridade. Sua essência está distante da sua forma. Talvez nem carregue uma essência. Dizer que o silêncio compõe esse espaço não é um erro. Seria um erro se houvesse uma explicação do silêncio, uma violência no silêncio. Toda palavra é um estupro porque nasce da ausência de consentimento. Aparece, penetra e morre. Permanece o silêncio e seu corpo.

Vale muito contar algo, portanto. Vale também descrever algo, ainda que tanto contar quanto descrever sejam palavras perfeitamente equiparadas quando se fala da escrita. Do contrário, não existiria a necessidade da palavra no papel para organizar aquilo que somos: bastaria a fala. E acaso não é ela mais justa com a nossa própria condição, esvaecendo logo depois que se faz? O que ficará dela será só lembrança. Dessa lembrança é que faremos o que somos, pois aquele momento se fará representação em seguida – como um show onde o que mais se vê são câmeras apontadas para o palco do que a vivência do espetáculo, já que viver o espetáculo implica em conviver com o outro.

Conclusão? A alteridade atrapalha. Imagine então para quem escreve. Aquele que escreve não pode ser interrompido. Os fluxos de raiva serão inevitáveis e redundarão em socos e divórcios. No primeiro caso há a polícia, no segundo caso há a Justiça. Na parcela que resta entre a prevenção e a correção, acontece o escrever: pra quê importunar quem estava quieto? Não interessa se são seis ou sete da manhã: importa é que as palavras estão se fazendo vida na proporção da organização que deflagram naquele que escreve. Esse terá mais dívidas com as palavras do que com seu próprio nome. Afinal, listas sempre são queimadas no final, isso quando não são enviadas para um museu e esquecidas nesse museu, tornando-se pouco a pouco taxidermias de si mesmas.

O cheiro delas é que persistirá por muito tempo se isso ocorrer. Cheiro amarelo, amarelo ocre. Antes de ser enterrado, talvez você invoque algumas para sua lápide e chame isso de epitáfio. Caso isso ocorra, poderá vislumbrar a orelha da sua morada final e terá de se contentar com essa visão. Após ela ninguém lhe escutará: tudo quanto você fez restará opaco, morno, não queimando e muito menos cozinhando. Alguém descobrir seus feitos vinte anos depois é possível. Mas a esperança não é válida para quem fala. Se fosse, não falaria, porque a fala expressa uma ausência e nada mais.

A folha ou a tela são brancas. As letras quase sempre são pretas. Nessa condição é que caminhando você perceberá que se o branco é a união de todas as cores, o preto é a ausência de todas as cores. O preto é opacidade, é condição. Desse horóscopo é que surgirá o seu sentido: interpretação da completude, grito da ignorância, desfazer plural e impossível. Dele você poderá teorizar. Isso trará calma. Só com o tempo é que haverão mais e mais perguntas no patamar da redução das respostas. Essas perguntas serão bolhas: sabão e bolas subindo pelo ar em direção à lua. Confundir a transparência com a escuridão será sintoma da sua condição. A geometria desaparecerá. Caixas deixarão de ser caixas e você duvidará que em algum momento caixas existiram. Permanecerá a proeza das equações, dos números e letras que sua vontade moldou.

Quando essa vontade for moldada, começarão a surgir importâncias. Essas importâncias não poderão ser carregadas em uma sacola. Existirão no máximo enquanto ilustração da sacola, enquanto designação de um suporte nato. Mais que isso será pura paranóia e motivo para choques. Se jogarem você em uma banheira cheia de gelo, não há o que estranhar. Você pediu pra levar. Continuando no limite da resistência, você iria muitos anos ainda. Mas como você resolveu baixar a guarda, os arqueiros invadirão seus terraços e levarão você embora. Você será colocado em uma gaiola e levado por uma trupe e por um exército.

No caminho você tentará dissuadir alguém. Mas perceberá que seus algozes são desprovidos de ouvidos. Seus gritos serão completamente inúteis e você se dará conta de que o carinho se confunde com a vergonha. A vergonha nasce da afronta moral. O carinho nasce do fato de você não suportar essa afronta. Daí o significado do castigo: a gaiola e depois a banheira de gelo. Você rezará um Glória ao Pai se houver nevado nesse dia, pois nu na gaiola você morreria mais rápido. Mas parando de cidade em cidade para que o exército estupre as mulheres e para que a trupe faça suas apresentações, você perceberá que a neve não chegará.

Tentando situar no tempo o seu desejo, construirá um alicerce no mês de julho. Pelos ingredientes com os quais o vento toca sua pele, você se dará conta de que já terão passado no mínimo dois meses de rotina e nada de neve. Implorar ou rezar seriam opções. Mas implorar para o cavaleiro que encabeça a fila? Rezar para o brasão que o cavaleiro traz no escudo? Não que eu queira assustar, mas isso será o mesmo que sobreviver ao oceano sem água doce. Nesse tempo você beberá sua urina. Chegará um ponto em que comerá suas fezes. As fezes e a urina, contudo, tornarão escassa sua resistência. Chegará então o fim sem lápide, mera ocorrência natural de um fato banal: seu fim.

Como resistir? Postergando páginas para gentes do futuro? No metrô lerão sua obra. No coito lerão sua obra. Lerão sua obra principalmente na presença dos outros. Você será a razão da misantropia do século XXI. Você acompanhará todos para todo canto. Bolsas e pastas serão seu esconderijo. Querendo sair, não haverá qualquer resistência. Você sairá e pronto. Do contrário seus pêlos crescerão mais rápido, suas orelhas ficarão pontudas e retangulares ao passo que você nada poderá fazer. A aniquilação total deixaria no mundo apenas a sua palavra, sendo ela benzida ou não, tendo você mastigado a óstia ou não.

Os filhos talvez continuem seu legado. Mas um dia todos cansam de chorar. Sua mulher arranjará outro. Seu cansaço apaziguado irá então aproximar outros: filhos e psicólogas, viúvas e pretendentes. Tendo seu filho um ou dois amigos, bastará para as vodkas que ele ama. Entornará copo após copo no prazer das desproposições. Caindo na Igreja, na praça, tudo será como planejado. Será uma trama sem maiores enleios. Tombo após tombo, tropeço após tropeço, chegará talvez no ponto daquilo que fazia para então deixar de fazer e começar a falar. A geração dessa fala será o passo seguinte. Uma geração sem útero, sexo ou carinho. Uma geração nervosa. Mas nem por isso menos uma geração.

Aparentada com todas as gerações precedentes, haverá a tentativa de definição. Haverá o ímpeto do conceito. Precisões e necessidades inúteis estarão na sua fala. Você teorizará pela voz de outro aquilo que disse ontem. E desaprenderá com todos os seus tropeços: o
ciclo se fechará.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Revolução Francesa e o Solidarismo Analgésico.

Venho tratando nas últimas semanas das implicações do senso imediatista na sociedade atual. Tenho referido que vivemos em uma sociedade onde impera a Lógica do “Carpe Diem”, na qual o imediatismo tanto com relação às pessoas quanto com relação às coisas faz com que o processo de aproximação se dê em razão do consumo. Essa aproximação dada em razão do consumo, faz com que a liberdade se dê enquanto liberdade de consumir. Dando-se a liberdade relacionada com a possibilidade de consumo em uma determinada estrutura social, se alguns terão a possibilidade de desfrutar das maravilhas dessa sociedade, outros passarão a vida buscando essa liberdade sem jamais alcançá-la. Desta maneira, se o significado da liberdade está relacionado com a possibilidade de consumo, chega-se a conclusão de que se a liberdade existe, ela é para poucos.

Entretanto, é possível que ainda se fale em liberdade se a própria liberdade é para poucos? A conclusão óbvia é que não. Certo é que hoje temos mais liberdade em relação ao passado. Mas mais liberdade implica em uma graduação da liberdade e não necessariamente em liberdade. A liberdade, contudo, será sempre uma graduação da liberdade e não necessariamente liberdade porque apenas será liberdade em relação a algo ou alguém. Portanto, mesmo que se critique a liberdade atual relacionada com a possibilidade de consumir, esta é somente uma face da liberdade a partir das suas condições de existência.

Porém, partindo dos lemas da Revolução Francesa, cujo marco se deu em 14 de julho de 1789 com a Queda da Bastilha, estes baseados na tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”, pode-se dizer que as conquistas do Estado Moderno que se formou a partir de então estiveram relacionadas com esses ideais. Apesar disso, ainda que a liberdade e a igualdade sejam garantias constitucionais, por exemplo, elas não passam de estipulações formais ao invés de estipulações com reflexos efetivamente materiais. Isto se dá em razão do simples fato de que nascemos iguais tão-somente porque nascemos nus, já que nossa igualdade estará sempre relacionada com a estrutura social na qual nascemos. O mesmo ocorre com a liberdade, porque é clara a conclusão de que a liberdade apenas se dá em uma sociedade igualitária, sendo impossível a efetivação da liberdade em uma sociedade desigual.

Mas e a fraternidade? Com relação a esta, é de se dizer que a fraternidade implica em solidariedade e solidariedade é a face que a sociedade atual menos demonstra. Alguns podem dizer que o brasileiro é solidário, que sempre ajuda seu semelhante quando este necessita. Mas a realidade é que a solidariedade do brasileiro atualmente é impulsionada por determinações da mídia, durando o tempo que dura o estardalhaço midiático que evoca a própria solidariedade. Neste sentido, com certeza que temos solidariedade para com aqueles que nos são próximos, para com nossos amigos e nossa família e, em alguns casos, certas pessoas demonstram uma solidariedade franca em relação aos mais necessitados. Mas o que ocorre em uma sociedade onde impera a Lógica do “Carpe Diem”, é que a solidariedade existe mais para ajudar a si próprio do que para ajudar os outros, já que, muito embora o mundo desabe ao nosso redor, se nos atrelamos a alguma ação dita “humanitária”, ao menos podemos dizer que “fizemos nossa parte”. E se fizemos nossa parte, livramo-nos da culpa de termos ficado de braços cruzados. Trata-se assim de um solidarismo analgésico.

Em face de tudo isso, ainda que os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” tenham impulsionado gerações na luta política, a estrutura social e econômica na qual estamos posicionados e a qual estamos presos, absorveu esses ideais e os transformou em objetos de consumo. Transformando ideais em objetos de consumo, talvez tenhamos que, para efetivamente fazer com que idéias se tornem ações, não vê-los como ideais, mas sim como possibilidades de movimento para a mudança da realidade. Caso não houver essa transformação de idéia em movimento, permaneceremos presos à concepção de que uma sociedade igualitária não passa de uma utopia inatingível. Portanto, antes de uma revolução social, precisamos de uma revolução do pensamento para que a própria revolução social ocorra, pois um outro mundo é possível somente com uma mudança do pensamento acerca do próprio mundo.