quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Atalho dos Torpedos.

Os computadores e os celulares nos roubaram muito da pouca humanidade que tínhamos. Culpa de duas expressões hoje cotidianas: atalhos e torpedos. Se com os computadores ficamos viciados em atalhos, com os celulares ficamos viciados em torpedos. O estranho é que ambas as palavras remetem a uma noção de guerra. Se os atalhos estão para o fato de querermos chegar mais rápido ao inimigo, os torpedos estão para o fato de querermos arrasar o inimigo de uma distância segura. Não é à toa que muita gente acaba namoros via torpedos.

Mas além de nos remeter a uma noção de guerra, os atalhos e os torpedos dizem muito desse imediatismo da atualidade. Perceber isso é fácil quando certas mulheres, ao invés de freqüentar academias ou sofrer com dietas, preferem fazer lipoaspiração. E se quisermos aplicar a mesma lógica aos homens, basta ver o crescente uso de anabolizantes. Logo, tanto um quanto outro fato remete tanto a atalhos quanto a torpedos, porque se por um lado a lipoaspiração e os anabolizantes consistem em atalhos para a beleza, por outro lado consistem em torpedos para a saúde.

Contudo, o mais interessante é que também buscamos atalhos e torpedos nas relações sociais que visam quaisquer conquistas. Uma boa ilustração disso está para o adolescente que ao invés de ler uma obra indicada pelo professor de Literatura, busca o resumo dessa obra na internet. E outro quadro diretamente ligado a isso está para o grande número de “trainees” que existem nas grandes empresas, os quais, em sua maioria jovens no início da carreira, crêem que se em três anos não ocuparem altos cargos empresariais, serão fracassados pelo resto da vida.

A razão desses imediatismos talvez tenha a ver com a expressão latina “carpe diem”. “Carpe diem” quer dizer “viva o dia”, “viva o agora”, “viva o momento” – ou seja: se o ontem já se viu e o amanhã não se vê, importa apenas o hoje. Neste sentido, essa é lógica que move essas pessoas que buscam a beleza ou o sucesso de maneira tão imediatista e desconsideram o processo que precede toda conquista. Porém, muito além da busca pela beleza ou pelo sucesso, a lógica do “carpe diem” faz com que os jovens, por exemplo, falem frases tão imbecis quanto “curta a vida porque a vida é curta” – a qual ilustra muita coisa da qual nem é necessário falar.

Entretanto, o que se esquece ou não se sabe é que a expressão “carpe diem” nasceu em um Império Romano já decadente, entre os séculos III e IV d.C. Também se esquece que se você não liga para o amanhã, é porque você não liga para o ontem e apenas se ilude com o hoje. Resumindo: você não tem a sua própria história. Deixando de ter sua própria história, as portas para o imediatismo estão abertas, fazendo com que você não tenha consciência do processo no qual está inserido justamente por querer atalhos para seus objetivos ao passo que lança torpedos em qualquer obstáculo que signifique um freio para sua intenção de “viver o momento”.

Portanto, longe do fato de ter propiciado a ilusão da aproximação, computadores e celulares propiciaram sim o roubo da pouca humanidade que tínhamos. Claro que existem aspectos positivos, mas a realidade é que esses aspectos são travestidos pela lógica do “carpe diem” – a qual, e disso falarei em outro momento, está ligada com o “ficar” das casas noturnas e com os cartões de crédito que nos estrangulam mês a mês. Nesse ponto é que entra a humanidade – ou melhor: a pouca humanidade que tínhamos –, porque humanidade é ligar para um amigo e falar com seu pai ou seu filho antes dele atender, assim como é sentar para escrever uma carta para uma pessoa que mora longe, ao invés de enviar aquelas irritantes correntes de e-mail ou mesmo crer na farsa que é lembrar do aniversário de alguém por conta do Orkut.

Por isso é que muito antes de nos propiciar qualquer aproximação, celulares e computadores, jogando expressões como atalhos e torpedos no cotidiano, fizeram com que nos tornássemos mais e mais distantes. Ao invés de relacionamentos passamos a ter conexões que podem ser desligadas a qualquer momento. O perigo é que aquilo que torna mais fácil uma parte, torna todo o resto mais difícil, já que o melhor atalho para os torpedos é explodir sem sair do lugar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Assoalhos.

um giro de naufrágio previsto habita minhas entranhas
e não há vírus ou vacina que faça o passo cessar
e que faça a mão largar o volante
e a estrada deixar de existir repentinamente
apagando o rastro de quem por ali andava
e por ali dormiu
e por ali tinha olhos masturbatórios
que ardiam na volúpia das chibatas
que sempre estiveram amarradas ao gozo
ao gozo trépido e indecente desses jogos de azar
e desses domingos inúteis que transitam pelas fachadas dos calendários
e dos relógios
e grudam o compromisso na face de quem vivia
de quem sabia mergulhar
e sabia respirar embaixo d'água
mas que agora esqueceu e preferiu sentar quieto
e esperar que o céu desabe
para que todo clichê frasal que desde sempre
entrecorta o pulso de quem julga saber de alguma coisa
tenha razão de ser algo além de um substantivo e um verbo
que percorre qual latido melancólico e prisioneiro
a órbita da madrugada
que meu sangue não presencia e que minha saliva não toca
pois estou só
só como nunca estive antes
com as mãos e os pés úmidos
sabendo que nada posso contra o que sei
e o que não admito
para continuar a viver
a querer buscar
a querer desenterrar o segredo
que me move e que pode estar
bem em cima de mim nesse exato instante que desperdiço
no intuito descabido da conotação que me toma
e que me faz ser aqui
aqui e só aqui
como uma náusea ferrenha
que se tem em uma ressaca de negações
contra hélices e asas e chaminés
que fulminam as paredes do peito
com suas voltas
e suas vidas
expelidas
e tossidas e cuspidas
no mármore de todo altar

domingo, 21 de junho de 2009

"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai!"

Dizem que carrapato não tem pai.
A razão disso não sei.

Dizem que carrapato não tem pai
Talvez pra meter medo na gente.

Mas como não sou tão criança assim, nem pena do carrapato sinto –
E órfão ou não, pra mim tanto faz como tanto fez.

Fico imaginando, isso sim, o sujeito que mata ou caça carrapatos.

(Será que a figura é válida ou a indústria desde sempre a extinguiu?)

Fico imaginando esse sujeito como um fascista, um mentor de holocaustos
Que um dia irá cravar estaca no corpo do último carrapato vivo.
E por descuido, afoito e esfomeado de tão atarefado, irá matar o touro:
Último par de bolas pelas redondezas.

Irá sobrar pasto, penso.

Mas as tetas, as tetas sempre secam,
Me disse um tio quando eu tinha dez anos.

Ensaio Curto n° 1: Do Medo.

O medo é a raiz dos nossos atos.

Seja quando procuramos um emprego ou escolhemos um curso superior para dar um rumo para nossa vida, estamos, quer queiramos quer não, fazendo isso por medo.

Ainda que alguns digam que se trata de uma opção, de um dentre vários caminhos que poderiam ser escolhidos, é o temor que move cada uma das nossas atitudes, sendo que foi esse mesmo temor que fez com que nossos antepassados, em tempos longínquos, inventassem uma religião e mesmo uma organização social para conter os arroubos relacionados ao próprio comportamento humano.

Se cremos em alguma coisa sobrenatural, o fazemos tão-somente para explicar o mundo natural que nos rodeia.

Se aplicamos normas e mais normas por sobre condutas e mais condutas, igualmente o fazemos baseados na crença de que o modo como estamos agindo é o melhor possível, já que determinada estrutura da sociedade assim determinou.

Porém, raras vezes paramos para pensar nas engrenagens complexas que existem por detrás dessas atitudes – e mesmo quando reconhecemos que o medo é a força que move nossos atos, o temor novamente se instala, aqui transfigurado em medo da própria descoberta dos motivos do temor.

Fato é que poderia ser feita uma autópsia psicanalítica ou filosófica das estruturas mentais relacionadas às estruturas culturais que nos subsumem.

Contudo, mesmo essa autópsia estaria impregnada por uma mesma força que as faz submeter o próprio medo ao escúrtineo – e essa força novamente seria o medo.

Logo, como resolver esse impasse?

Se até mesmo os equipamentos que construímos com o correr dos séculos, sejam materiais ou mentais, estão alicerçados no temor, existe alguma saída para além dele?

Acredito que não.

Acredito que o medo é a demonstração dos nossos atributos mais primitivos, os quais encontram respaldo no sexo e na fome, pois se o sexo é a ânsia da reprodução, a fome é a ânsia de não ter alimentos para sustentar o corpo.

Ainda que hoje o sexo seja vendido mais como pacote de consumo de uma sociedade que vive do consumo, o ato sexual em si, tanto simbólica quanto realmente, resta imantado da própria necessidade de reproduzir mesmo que essa reprodução na grande parte das vezes não se dê.

E com relação à fome, a qual nos dias atuais é fonte de progresso para muitas empresas nefastas que mais nos incutem a gula do que a fome, ocorre o mesmo, já que a própria gula é um atributo temeroso que o sujeito sustenta pela intermitente insatisfação com a quantidade de alimento que ingere.

Assim, movidos pelo medo, tendo ele como reflexo dos nossos instintos mais primitivos que encontram aporte fático no sexo e na fome, somos seres que jamais irão encontrar uma explicação satisfatória para a própria razão do temor.

Pode a ciência perscrutar o espaço sideral, podem nossos neurocientistas dizer que tudo quanto sentimos não passa de um apanhado de substâncias que ao acaso dos acontecimentos nos povoa o cérebro, podem até mesmo inventar teoremas filosóficos e psicanalíticos que digam de cada mínimo movimento humano: nada adiantará.

No fim, todas as nossas criações, todas as nossas invenções, todas as coisas das quais nos orgulhamos por termos feito enquanto indivíduos e enquanto civilização, sempre estarão alicerçadas em um único sentimento, em uma única sensação, em uma única realidade: o medo, essa mão fria que pousa em meu ombro esquerdo nesse exato instante.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Trinômio.

do ângulo que escora
e orbita
meus propósitos
divido a lua em três partes
para que de um lado esteja
minha presença
do outro
minha vida
e no meio meu fim

a

visto a manta do vento:
cimento do efêmero na liga das pedras e da chuva

corto o tecido da noite com meus olhos de musgo
de cafeína
de dopamina alheia a qualquer fator exterior
e partidária das cascatas de ar
que descem pelos telhados
pelas janelas
fazendo com que do fóssil
brote o ruído
brote o quase-sussurro
da natureza
do choque de elementos díspares e harmoniosos
por sobre a cabeleira da cidade quieta
sonolenta
que eu tenho de baixo para cima
da esquerda para a direita
em meus sonhos
em meus ideais vazios
e na pobre utopia sobre a qual tudo o que sou se sustenta

sinto o frio nos meus dedos
sinto o frio na minha garganta
e fecho as comportas
que contém meu ócio
meu opróbrio
para dar vazão ao pouco que ainda me resta
e se gruda
às paredes calcificadas dos meus ossos

visto a manta da pele:
liga efêmera no cimento do corpo e do espírito

b

a face da minha pele
que não é minha pele
em face daquilo que considero
como primordial
ao meu circular concêntrico
e sem centro
esfacela diante da imagem e do silêncio
das gotas
das luzes que ponteiam a madrugada
e se espalham
por todos os caminhos que minha mente inventa
e imanta
com as palavras
das quais o porvir
irá sugar todo valor
e irá enterrar e desterrar
para que as estrelas
finalmente possam ouvir
e fitar
minha face

minha fase

c

trago o mundo no peito

subo as escadarias do meu coração
com a coragem de quem
morre
como indigente
para readquirir sua personalidade
animal
e humana

quando preciso
desço aos porões que me dão medo
para resgatar a garrafa verde
onde guardei todo desgosto
toda galeria das circunstâncias
que de mim se alimentam
para lembrar que não tenho controle sobre nada
e que por mais que minhas
danças
que minhas encenações
procurem não traçar um postulado pisoteado
sempre terei nos pés
a lama de outros séculos
mesclada ao sangue dos que
como eu
pensaram ter encontrado novas terras
na fumaça de algum mapa

vez ou outra
paro num patamar iluminado
para reformular a confiança nos meus membros
e rabiscar algumas linhas tortas
sujas
que possam servir de espátula
para um excesso de tinta que talvez ocorra

trago o mundo no peito
e agora encolho
seguro os joelhos contra o queixo
para que ele não fuja de mim
pelas frestas
de cada verso

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estatura Mediana.

Estatura mediana. Apartamento abarrotado. Pêlos nas pernas e na face. Revistas e livros pelo chão. Músculos por exercitar e ossos bem postados. Janelas fechadas e uma claridade miúda que entra de vez em quando e que vêm dos faróis dos carros da rua. Olhos verde-musgo e pele algo branca algo incolor. Paredes vazadas pela umidade que as ramagens do mofo pincelam. Pés nem pequenos nem grandes e joanetes. Poucas portas que rangem e que não fecham sem um empurrão de ombros. Cabelos gastos pelo descuido que empacota a sala e a cozinha. Goteiras no teto do corredor e uma bacia de alumínio amassada com um toco de cigarro dentro. Quadros pequenos pendurados tortos ao redor de um espelho retangular do quarto com cama de casal. Colchão sem lençol e três travesseiros sem fronhas. Sobrancelha esquerda com dermatite que junho duplica. Copo de extrato de tomate com borra de vinho grudada no fundo em cima do bidê da luminária. Sorriso de cinismo contido quando alguém duvida da sua voz. Carpete com cheiro de velho e de usado e de coisa mal seca. Dedos amarelados e mãos trêmulas distantes da gengiva que arde com bicarbonato de sódio. Guarda-roupas com roupas que estão e não estão na moda. Camiseta preta de banda manchada de esperma há três meses na gaveta mais baixa. Bibelôs na mesa do escritório e na estante do escritório e no frigobar do escritório e nas pilhas de papel impresso que o parquê do escritório sustenta. Porta-retrato com foto de mulher vestindo uma camisa branca e com dentes brancos à mostra. Telefone perto de um globo terrestre de metal e de uma caderneta com capa de couro com manchas de gordura e dedos. Caneta antiga com tinta seca que fora do avô em um cinzeiro âmbar. Cadeira que é verde-musgo que nem seus olhos e que é estofada e confortável e boa de sentar. Panelas sujas a cinco metros de distância. Geladeira velha vazia e uma garrafa de vodka pela metade e um pote de margarina rançosa em cima da mesa azul-celeste que era da casa da mãe. Fogão com quatro bocas com crosta de óleo de fritura. Uma caixa de fósforos perto da torneira que goteja e goteja e goteja. Fluorescente com defeito que forma sombras da chaleira inox no tanque cimentado na área de serviço. Panos sujos pendurados com o friso de manchas de vômito no varal há três dias. Banheiro que não dá descarga e que seria da empregada e que está com a porta escancarada com uma privada onde está sentado. Azulejos de um bege que se aproxima do amarelo e um jornal da semana passada ao lado do papel higiênico e da lixeira vermelha com adesivo limão. Sala e corredor e quarto e escritório e cozinha e área de serviço e banheiro que não dá descarga e que não é o único mas que a pressa requisitou. Batem na porta e é só correspondência. Sua e tem dor de cabeça e talvez precise de uma aspirina e de um chá de macela. É noite ou quase-noite e só agora percebeu que há trinta e duas horas não dorme e que suas pálpebras pesam. Não tem pretensão de atender a porta. Quem bate insiste. Pega o papel higiênico e se limpa e enche um balde na torneira da pia e joga na privada. Levanta as calças e aperta o cinto e vai até a porta com os pés descalços e abre a porta e não há mais ninguém ali. Na soleira há um envelope cor-de-rosa que pega e rasga e desdobra e lê. São letras e sílabas e sinais e palavras e frases num bloco-parágrafo de estatura mediana. E sete meses atrás o apartamento está vazio e duas semanas antes desses sete meses ali mora alguém que raspa os pêlos das pernas e não tem pêlos na face. Esse alguém não esparrama revistas e livros pelo chão e seus músculos não estão por exercitar. Ossos bem postados têm esse alguém que não deixa as janelas fechadas para uma claridade miúda vinda dos faróis dos carros da rua entrar de vez em quando. Não tem pele algo branca algo incolor e nem olheiras roxas de exaustão. Não tem olhos verde-musgo e não se deixa levar pelas paredes vazadas de umidade em ramagens de mofo que o ar que circula não deixa criar. Pés pequenos e sem joanetes ao invés de um meio termo sem lá nem cá. Não importa se as portas rangem e precisam de um empurrão de ombros para fechar porque as portas não precisam fechar por completo. Sala e cozinha estão embrulhadas com cuidado e perfume e goteiras no teto do corredor não existem e nem bacia de alumínio amassada em qualquer peça do apartamento. Colchão sem lençol e três travesseiros sem fronha e quadros pequenos pendurados tortos ao redor de um espelho retangular do quarto com cama de casal nem pensar. Há um espelho oval e uma cama bem arrumada com um edredon rosa-claro. Sobrancelha esquerda delineada e junho como um mês de trabalho duplicado e não de dermatite duplicada. Copo de extrato de tomate só cheio dentro da geladeira e uma garrafa de vinho na gaveta mais baixa do guarda-roupas que tem roupas que estão e não estão na moda e que são de tons escuros. Voz quer como todo mundo mas o cinismo só vêm quando atacam seu orgulho. Dedos finos e mãos suaves e distantes dos lábios vermelhos e espessos. Carpete com cheiro de velho e de usado e de coisa mal seca não pode porque tem renite. Não gosta de camisetas pretas de banda e nem de naftalina mas gosto de esperma já sentiu por umas cinco ou seis vezes e nem sabe o porque da curiosidade. No lugar chamado de escritório existem paredes vazias com uma tela em branco em um cavalete perto da janela. A cinco metros de distância há um fogão com seis bocas e uma mesa verniz de madeira que foi comprada na loja da esquina. Uma taça lascada na borda direita deixa a torneira gotejar e gotejar e gotejar. Fluorescente com defeito não há mas as sombras de uma chaleira esmaltada estão no tanque cimentado da área de serviço. Peduradas no varal duas toalhas de banho brancas e felpudas e um pouco gastas com uma mocinha ingênua costurada em cetim. Banheiro que não daria descarga e que seria da empregada já não dá descarga e já é da empregada. Ninguém na privada olhando os azulejos de um bege que se aproxima do amarelo está perto de um jornal de anteontem mas da porta da frente se escuta um barulho de fechadura que abre. Sala e corredor e quarto e lugar chamado de escritório e cozinha e área de serviço e porta que destranca com a pressa que a fechadura não têm. Entra e tira o casaco e joga em cima do sofá a sacola de supermercado. Rolam laranjas de encontro ao linho que esconde a paisagem que a lâmpada da luminária revela. Ouve um trovão e sente dor no pescoço enosado. Pensa que deveria ligar para alguém. Vai até o telefone ao lado do balcão com tachos de cobre e nesse momento o telefone toca. Silêncio. Riso. Sim, diz, mas com A no final. E o tempo passa e sete meses e duas semanas depois lê uma carta e logo se vê no vidro temperado da janela. Estatura mediana.

Exercício n° 104.

A vida é feita de embrulhos. Mas o amor não pede às pazes. Por isso as margaridas sofrem pelas janelas e ninguém escuta suas pétalas. Se escutassem, talvez nossos passos seriam sempre outonais e todas as dores passassem como passa o vento às quatro horas da tarde. Não interessaria se haveria um sax dando voz às paixões. Interessaria apenas cada presente de pele que as cortinas do terceiro andar presenciaram. Sobre tudo cairia a paz: quieta, encerraria versos de lábios em cada fresta de beijo.
***
A voz do domingo é felina. Agarra o edredon com unhas de quero-mais. Não deixa o sol ser mais que suco. E o ar é um meio-dia de lençol não lavado pela lembrança. Falta-nos ir além da espera para que a saudade não seja somente um copo de luz. Sem isso continuaremos cegos: mariposas em torno da lâmpada, náufragos do coração, ecos do que não fomos. E permaneceremos lacrados na ânsia do vôo.
***
A liberdade só existe quando a imaginação é solta. Do contrário, as grades permanecem fechadas tanto para a pele quanto para a terra – e as notas são apenas fragrâncias que não seremos capazes de sentir. Se existe um ponto final a ser tomado, ele precisa ser também um início. Longe disso, as gotas que caem na preguiça das horas jamais trarão vida. E existirão apenas esses pássaros que de propósito quebraram as próprias asas por puro medo.