sexta-feira, 29 de maio de 2009

Uma Roseira.*

Uma roseira cresce
nas grades brancas da casa
há tempos abandonada.

Ninguém lhe priva de espinhos
ou constrange suas flores
ao apanhar cirandas
no que verte dos cheiros.

Ninguém lhe furta espaço,
ninguém lhe toca ou lhe nota,
e ela, vermelha e verde,
pinta um abraço morno
com tintas lisas e fêmeas.

Mas um dia os dias
irão lhe cobrar razões,
irão lhe tomar perfumes,
irão lhe render estufas,
e ela, vermelha e verde,
não mais será a dona
dos donos mortos da casa
há tempos abandonada.

*Sou viciado em casas abandonadas. A imagem simplesmente me remete a tanta coisa que nem sei o que falar nesse comentário. Hoje queria escrever sobre como consegui algumas comprovações acerca do Princípio da Sincronicidade do Jung ou sobre a razão do último poema aqui postado ter sido dedicado ao Guido Emmel. Entretanto, remexendo alguns escritos antigos, coisa de cinco anos atrás, achei esses versos dando sopa e cheguei a conclusão de que os mesmos seriam mais do que apropriados para este final de maio no qual o frio finalmente chega por esses lados do sul do Brasil. Além disso, estou tremendamente chateado por meu artigo semanal ter saído sem algumas palavras-chave em um jornal aqui da cidade. Porém, perfeição é a última coisa que se pode pedir de mim – quanto mais após essas taças de vinho que me atiçam a mente mas me deixam o corpo no ponto do sono. Por isso, PONTO FINAL. Ah, e com certeza essa fotografia aí em cima veio de Portugal. Só não me perguntem porquê.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Para Guido Emmel.

Me intriga a nota da compra:
perdida, dobrada e suja, marcada por intenção,
me diz pouco de nada ou quase nada de pouco,
ao mencionar alguém que só me chega por nome
e de quem qualquer retrato nem me será lembrança,
pois vai longe aquele ano ali datilografado, e eu,
do tempo impresso, só posso imaginar outros carros
e outros modos que memórias de negativos
projetaram em matinês.

Me intriga essa vida alheia
que cruzou por minhas questões,
sem que eu tivesse tempo
de me certificar da identidade escondida
nas manchas de indicadores que apontaram
mundos num mundo descortinado:
fugas e gases tênues,
nebulosas que são berços,
labirintos espiralados desviando para o vermelho –
talvez bem perto do atalho que me liga ao olhar
impresso em palavras, frases distantes de conclusão,
que silenciam apegos, enervam a noite calma,
do alto de qualquer monte calculando a poesia
dessa coisa sem nome que existe por todo lado
e que está nessas marcas rasas, fracas e apaixonadas,
de um homem quieto que lia estrelas que se apagavam.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Assim me sou mais espelho para desenhar consoantes logo ao sair do banho, suponho.


"O mundo sou eu que nomeio", falei no início de maio, mesmo que não saiba o autor da tirinha acima e nem do que me provoca agora esse rebuliço por dentro. Se eu soubesse, faria alguma diferença? Se a libido é uma forma substanciosa de chamar o desejo ou o tesão, o ímpeto e os gestos que o ímpeto gera são os mesmos para todas as pessoas, com algumas variações de ordem aqui e ali. Por isso é que acho que minha alma não passa de mais um órgão das minhas entranhas. Do contrário, nada disso existiria. Podem fazer a autópsia, dou o aval agora mesmo, mas deixem eu morrer primeiro. Meu coração não suporta mais de um bisturi quando em cada beijo há uma denúncia e cada parcela dos lábios desfralda tão-somente uma carência. Há fome e há necessidade de se ter fome pelo mero gosto da pele. Mas há também o vício vizinho que não se avizinha de nós, deixando a grossa espera de algo que nunca vêm. E calamos enquanto vou embora ao som dos meus pés empacotados no tênis. Fica o salivar na língua que dança e esfaima o catre rubro da boca. Mas nada se pode ver, nada se pode fazer, e ainda há de persistir essa vontade imensa de que tudo torne a ser como jamais nos foi – em cada denúncia, em cada carência, em cada futuro, em cada sonho, seja de um maio nomeado ou não, porque rebuliço por rebuliço, sou um poeta-ouriço: basta admitir, nem que seja para o meu coração se cuidar de mim, já que nem todos os bisturis são de metal e absolutamente todos inexistem sem um par de mãos. Por isso concluo: "o mundo sou eu que nomeio" sim, mas só nomeio o mundo que os outros me nomeiam como mundo. No mais, apenas emponcho vazios em cada palavra dita no anagrama dos amanhãs que sobem dos bueiros da madrugada. Se eu cruzar com um bêbado ou um cachorro, é possível que encontre rostos familiares na fumaça do quase-inverno. Porém, antes da familiaridade dita assim, de plancha, tem que existir a familiaridade conquistada e reiterada comigo mesmo. E essa, para vocês que querem de uma vez o aval para a autópsia já autorizada, ainda não conquistei. Portanto aguardem que enquanto isso me cuido de mim e até durmo de lado. Vai saber se aquela frase dos meus dezesseis anos não me aparece letárgica no teto e me pergunta novamente: "O QUE IMPORTA?". Da última vez, lembro que era Carnaval e que acabei me machucando. Dessa vez, qual é a profundidade do meu mergulho? Se eu soubesse, faria alguma diferença? Até aqui, pelo que percebi, mergulharei de qualquer jeito, como quem pula no Ijuí consciente da fundura que desconhece mas intui pelo mero correr do barro. Espero, contudo, que o poço seja profundo e que eu jamais volte a querer tocar o órgão da minha alma: quero que ele continue com suas palpitações rijas mas flácidas, inquietas mas cálidas, apaixonadas mas tímidas, enovelando pus mas vertendo aquilo que me faz viver. Assim me sou mais espelho para desenhar consoantes logo ao sair do banho, suponho. Afinal, "o mundo sou eu que nomeio" e ninguém mais precisa saber do meu alfabeto. A razão? Maio não acabou. Portanto, pode chover chuva fina nas margens verdes do meu coração: único estribo de mim, desfeito à paciência dos mares porque se sabe unicamente rio em todas as suas veias e caminhos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Quando não tenho mais cabeça pros meus pés.

Não sei o que pensar da minha vida. Não sei o que sentir sobre minha vida. Apenas penso e sinto minha vida a partir daquilo que vivi e vivo.

Para além ou aquém disso, existe uma infinitude de possibilidades que certamente já estão inscritas no meu presente mas que ainda não pude perceber.

Quando perceberei? Perceberei?

Desconfio há algum tempo do que o Jung chama de sincronicidade. Não que eu queira ser metafísico e abobado como um daqueles roqueiros de Porto Alegre nos idos dos anos setenta. Mas o fato é que certos eventos tem apenas uma relação casual de sentido entre si e não uma relação de causa-efeito, sendo que essa relação casual de sentido é atribuída justamente pelo sentido que abribuímos aos eventos.

Se estamos procurando um apartamento para alugar, ou melhor, andando na rua com o pensamento em um apartamento para alugar, e vemos logo uma placa que diz de um apartamento no qual alguns meses depois você está morando, algo isso deve dizer além de puro acaso. E não é que eu queira atribuir uma definição a tudo. Se quisesse, acreditaria em algo maior e diria que meu destino é pré-estabelecido. Mas apesar de saber do próprio vir-a-ser eterno e incompleto daquilo que sou, desconfio que alguma coisa gira em sincronia com aquilo que penso e sinto e que acaba abraçando todas as pessoas e coisas do Universo.

Que isso é bonito, é. Mas não chega nem perto da 9ª Sinfonia do Beethoven.

Quem me dera ser músico para poder dizer o indizível.
Quem me dera ser mais do que alguém que escreve por necessidade e porque vê na própria linguagem a única possibilidade de ser para além da própria vida. Quem me dera ser o que nunca fui ou serei porque justamente não sou.

Mas não disse acima que no presente existem possibilidades inscritas que sequer percebemos? Mas não disse acima da sincronicidade do Jung, dos roqueiros de Porto Alegre, das partituras do Beethoven?

Tudo me soa interligado demais para estabelecer diferenciações plenas entre uma coisa e outra – entre uma pessoa e outra. Não há hegemonia de saberes assim como não há hegemonia de sentires.

O que há é a hegemonia da própria vida em todos os cantos, jorrando pelos becos das ruas sem nome que nossos peito sequer desconfiava que existiam antes de certas experiências.

Como dar nome para isso?

Domingo desses, acho que dezembro passado, acordei feliz com uma música à Bob Dylan na cabeça. Peguei o violão.

E ela é assim:

Quando não tenho mais cabeça pros meus pés

Já me parece tão normal
Querer algo assim real
Que nunca vai dizer aonde ir
E nesse rumo é que eu sigo
Sabendo que às vezes é preciso
Esquecer de sonhar pra não dormir

Por isso foi que levantei
Sem ter nos olhos qualquer lei
Mas dentro da minha boca a solidão
De saber que amanhecia
Nada mais que mais um dia
Apenas esse sol e o verão

Mas nem por isso me deixei
Levar por isso que eu sei
Porque nem sempre sei o que falar
De tanta coisa que senti
De tanta coisa que eu vi
Ao ponto de sem pontos continuar

Porque o mundo me parece o que é
Quando não tenho mais cabeça pros meus pés
E só me sei sem um horário em qualquer hora
Porque o sentido é um atraso que demora

Até que nós enfim perdemos a paciência
E então dizemos que foi só coincidência
O fato de andarmos mudos ao falar
E tanto ouvirmos sem podermos escutar

Mas não importa o que se diz
Quando se sabe que é feliz
Aquele que não diz e só sorri
Ainda que a foto do sorriso
Seja às vezes um motivo
De uma explosão que está por vir

E neste quadro sem moldura
Mais vale esse pendura
O branco de uma tela de estar
Olhando assim como quem cria
Perto da luz do meio-dia
Para que a noite possa naufragar

Nos olhos de um verde-azulado
De tarde até mesmo alaranjado
Como quem só descasca a razão
E sabe que aquele suco
Antes de ser só um produto
É a prova de que existe um coração

Pulsando forte sob o peito de quem é
Sem um motivo ou razão em qualquer fé
Seguindo apenas com a pressa da paciência
Que sabe que não foi só uma coincidência

Cada encontro em cada rua assim sem nome
Tão deslocada quanto a sorte do pronome
Que só se dá em algum sentido e algum norte
Quando existe uma palavra que dê sorte

Assim como a minha sorte foi traçada
No vento forte que batia na sacada
Enquanto o sol me acordava e me dizia
Que toda vida não passava de um dia

E que por isso entre cantar e só falar
Mais me valia ter a voz para olhar
Todo este mundo que só parece o que é
Quando não tenho mais cabeça pros meus pés


(Preciso dizer mais?

Sim: viverei como um gole d'água em um copo de sol. E isso não é só uma coincidência significativa.)

terça-feira, 19 de maio de 2009

O país dos coitados.

Não somos um país de coitados e nem temos moral pra afirmar isso. Que fomos e ainda somos explorados pelos países do norte durante vários séculos, isso é fato. Que os ídolos da nossa juventude alienada no mais das vezes proferem discursos vazios com face de ideologia burra, isso também é fato. Mas afirmar que por conta disso o Brasil não poderá ter o lugar que merece no cenário mundial é absurdo demais. Entretanto, tendo em vista a própria acomodação do povo brasileiro frente aos fatos do cotidiano, creio que nosso lugar de destaque no cenário mundial é cada vez mais mentiroso do que andam dizendo por aí.

Se o Lula é cumprimentado pelo Obama com ares de bons amigos, vá lá. Mas por qual motivo esse mesmo Lula precisa de uma quase Força Aérea Um se o próprio Primeiro ministro da Inglaterra transita pelo globo com aviões de linha? Sinceramente, tendo em vista as tantas e tamanhas desigualdades sociais que nos acometem, isso chega a ser arquerozo de tão perverso.

Claro que existem programas governamentais que criam condições de sobrevivência para as famílias mais pobres. Mas quando a concessão desses programas governamentais no mais das vezes necessita do aval das prefeituras de certos municípios, acabamos por cair na própria falta de coitadice do nosso povo. E por quê? Porque nosso povo é bem mais malandro do que coitado, sendo que esse discurso de que somos um país emergente que integra o que insistem em chamar de Terceiro Mundo, também não passa de uma canalhice.

Se um policial abordar alguém na rua por conta de uma infração de trânsito, é óbvio que alguns irão buscar meios de não serem multados por vias que não passam por nenhum padrão ético e moral. E se é assim, como queremos exigir ética e moral dos nossos governantes, os quais, e disso não me esqueço, dizem até que é chique emprestar dinheiro para o FMI? A depravação e a malandrice do povo brasileiro não tem limites.

Que existem pessoas trabalhadoras e honestas, existem. Mas o fato é que essas pessoas, de tanta sacanagem que todos os dias vêem, ficam se perguntando se realmente vale a pena ser trabalhador e honesto e então acabam por cair na malandrice e na canalhice cara ao nosso povo. E aqui não estou falando daquele malandro do Chico Buarque que passa o dia ganhando trocados em mesas de bilhar. Aqui estou falando daquele malandro que se aproveita dos outros, que mente para os outros, que passa a perna nos outros com o único intuito de se dar bem. Afinal, se tantos “boludos” fazem o que a lei não permite, por qual motivo o povo não poderia fazer o mesmo? Por isso que repito que a corrupção governamental tanto municipal quanto estadual e federal não passa de um reflexo da própria cultura brasileira.

Desde que os portugueses e espanhóis chegaram por aqui, essa cultura se instalou e tomou a face do chamado “jeitinho brasileiro”. Mas esse “jeitinho brasileiro” nada mais é do que um modo bondoso de chamar imoralidade e falta de ética de valor cultural ou o que o seja. E por falar em cultura, quem lê um livro ao invés de ficar assistindo os supostos costumes da Índia na novela das oito? E se lê um livro, que livro lê? Zíbia Gasparetto? Paulo Coelho? Augusto Cury? Lair Ribeiro? Dan Brown? Isso tudo não passa de pura literatura escapista, de pura fuga da realidade, de pura droga que está diretamente relacionada com o próprio crack que anda correndo solto pelas ruas de Santo Ângelo. A única diferença é que se uns matam seus neurônios com uma fumaça tóxica, outros matam seus neurônios com uma cultura besta.

Logo, que não nos façamos de coitados porque coitados não somos. Que fomos explorados, fomos sim. E que ainda somos explorados, somos sim. Mas de quê adianta a constatação desse fato se notícias cobrem notícias e sempre aparece um assassinato da hora pra todo mundo ficar indignado e no dia seguinte esquecer de tudo porque tem que trabalhar por uns trocados para sobreviver? A imbecilidade humana não tem limites. E o único futuro do brasil, como bem disse Olavo de Carvalho, é a perpetuação do Imbecil Coletivo, o qual, da escola à universidade, apenas repassa aos cidadãos uma suposta cultura pausterizada que em nada está para a própria compreensão da realidade.

Somos ainda reféns da Europa e dos Estados Unidos em nossos olhos e ouvidos. Somos ainda reféns de um “jeitinho brasileiro” que é canalha e sacana por natureza. E enquanto não houver uma mudança cultural efetiva em todos esses campos que se dizem detentores do saber e portanto podem vir a ser formadores de opinião, nada disso irá mudar. Continuaremos a ser um país de coitados que, antes de serem coitados, estão mais para bandidos do que qualquer outra coisa. E não me venham falar que um Deus nos salvará. Nossa moral e ética nem com Ele deve estar de bem.

domingo, 17 de maio de 2009

Pela garganta da noite.

Silencia minha voz pela garganta da noite. Na fronteira das estrelas a solidão do que sou. Deixo o campo no horizonte do presente dessas horas. Me aqueço com o fogo calmo de anteontem. Há muito senti dias como suor pelo corpo. Só me resta disso ausência que é pele da memória. Trago pouco comigo pois quase nada sobrou. E os anos hoje me calam antes do sol nascer.

Madruguei com água fria os olhos cheios de lua, porque me deu na veneta de deixar a porta aberta pra que ali da cozinha a janela mostrasse a idéia do que era o céu de um meio de maio.

Quando meus pés rangeram as tábuas brutas do assoalho, ouvi ao longe o canto de uma coruja acordada. Um vento semeava folhas com geadas e amanheceres – e venezianas sopravam chiados frios visitantes.

Apaguei todas as luzes, puxei os panos da cama, mas antes de me deitar e me confundir com as coisas, divisei no meu encalço o caminho do luar desenhando minha sombra. Vi contornos nublados, precisos e verticais, que estancavam o óleo de traços fracos medidos.

Um medo estranho, um anseio, um desejo da minha face nas poucas cinzas do chão, fez meu cotidiano passo verter pulso diverso na casa acostumada. Dei largo ao gesto impensado de feiras e de semanas com o sono sem chave que o inverno abraçou.

Dormi como quem acorda, abri um mundo fechado – e um sol de brilho incolor uniu em nó a corrente do que se passou em mim.

Me afoguei no açude que fica perto daqui. Moldei os dedos no barro de uns peixes invisíveis. Pulmões, coração pesado fluindo sangue de um poço à beira de secar na corda que rompia e que cortava as palavras. Não busquei movimento ou qualquer reação. Soltei membro por membro na angústia que me tomava. Havia uma força nas costas, havia uma força no ventre, havia uma força em mim que dizia ser a entrega o único rumo livre. Sussurrava tão suave, em tons de resposta e consolo, que percebi a pergunta minando pouco a pouco na voz vaga do peito. Por mais que eu não soubesse qual era a interrogação, o imenso de mim disse frases feitas de um suspiro – e o corpo sentiu o lodo que saía dos poros.

Um astro surgiu no alto, secou a terra molhada, o sal tumultuou minha língua, turvou o gosto da lama – e pedras de um deserto brotaram então afiadas como flores sem vida.

Me vi de areia e dor jogado no infinito, rastejando em direção a uma luz distante. A boca já saturada era carne e mosca sem qualquer distinção entre presa e predador.

Os pontos ao meu redor não inspiravam nascer senão pelo couro gasto, de rugas, mapas e vales, que um lagarto exibia fora de sua toca. Tinha um ar de esfinge na simulada estátua daquela sua aspereza.

Movi os tornozelos para que os joelhos apoiassem os metros que haviam de ser vencidos palmo por palmo. Então um riso impreciso que não se sabia grito, corou meu rosto de fome – mas com felicidade.

Pensei transitar cidades, interiores, divisas – e quando a escuridão caiu por cima daquilo, olhei para trás o nada que havia percorrido.

Foi coisa de lua, eu sei. Não cruzo mais limites. Não presta colher verde o que se come vermelho. Eu devia ter freado o que me tomou inteiro. Se fosse assim não teria despertado desse jeito. Não teria corrido, esbarrado no sofá para ver no espelho aquele que sempre fui. Não teria depois me flagrado com o que agora devora o sossego que persegui. Mas não adianta remorso – e tudo já transbordou nas nuvens que sangram mais um amanhecer.

A água, a falta dela, o fim lado a lado, a dupla monotonia de pequeno intervalo, cobriu com um sonho aquilo que eu escondia nas penas do meu próprio leito.

Como pode ser possível a minha maré virar os corais de um repouso? Como pode a represa de repente ceder ao peso de uma visão?

Nem sei se existe resposta. Então me sento e calo nesta madrugada pouca sorvendo quieto a mágoa na bomba do chimarrão.

Talvez meu engano todo não passe de um respingo, de uma toada fraca em meio a todo esse caos. Mas quis me encontrar promessa em qualquer desejo meu e não divisei os vãos daquilo que realizei.

Então meu sonho é vida, minha condição de fim – e só posso erguer este muro com minhas velhas lembranças que silenciam minha voz pela garganta da noite.

sábado, 16 de maio de 2009

O que é pior: solidão na terra ou no mar?

O que é pior: solidão na terra ou no mar?

Somos estátuas contemplando o vazio.

Talvez esculturas existam por isso e ninguém as compreenda.

É dolorido demais ficar frente a frente consigo.