domingo, 29 de março de 2009

Pela Marquês do Herval.

Não existe pessoa alguma que não reclame da falta de tempo. O que parece é que somos prisioneiros de uma corrida desenfreada e imensa, sendo que caso alguém caia nessa maratona, dificilmente será visto e acabará pisoteado pela multidão. E essa sensação de que a corrida nunca está para o tempo que disponibilizamos para correr e que, por conseqüência, pode gerar o desamparo da queda em meio a tantos que de maneira alguma poderão nos ajudar, já que terão de continuar com a corrida, é que gera, pelo menos ao meu ver, essa profusão de doenças psíquicas no mundo atual – muito embora eu admita que não seja de maneira alguma especialista na área.

Ontem mesmo, enquanto cruzava pela Marquês do Herval, olhei para o chão e vi uma cartela de Rivotril 0,5 mg com dois comprimidos ainda por tomar. Os demais, ao que me pareceu, foram engolidos vorazmente por alguém que desconheço. O motivo pelo qual esse desconhecido engoliu no mínimo oito comprimidos de Rivotril 0,5 mg de uma só vez, certamente jamais saberei. Entretanto, isso não me impede de cogitar algumas hipóteses.

Essas hipóteses, contudo, jamais estarão para a realidade desse desconhecido. Os seus passos podem até ser traçados pelos meus passos de uma maneira praticamente idêntica, mas tal maneira de forma alguma será a mesma, visto que cada um de nós detém uma singularidade alheia a quaisquer comparações. Nesse sentido, acabaria por decair na constatação inicialmente feita, a qual, mesmo que sejamos seres singulares, universaliza uma percepção corriqueira, uma vez que é essa sensação de que a corrida nunca está para o tempo que disponibilizamos para correr, que gera o temor do desamparo da queda em meio a tantos que de maneira alguma poderão nos ajudar se ela ocorrer, considerando-se que podem cair como nós caso pararem. E quanto ao Rivotril 0,5 mg, não passa de mais um analgésico, seja para os males da alma ou do corpo que inevitavelmente estarão contidos em um mesmo local – ou seja: nós mesmos.

E quem disse que alma e corpo formam duas unidades e não apenas uma? Quem disse que existe uma alma impregnada em nosso corpo que com a morte irá se descolar do próprio corpo, assim como alguns adolescentes são mais descolados que outros justamente porque são mais espontâneos e fazem mais bobagens que outros? Que me perdoem os teólogos seja de qual crença for, mas os indícios da ausência dessa dicotomia em nossa constituição fundamental são gritantes – e certas vezes chego a desconfiar que tudo isso, mesmo o que estou dizendo, não passa de pura metafísica furada e “as coisas são o próprio sentido oculto das coisas”, como falou Pessoa por meio do Caeeiro.

E por quais motivos são gritantes os indícios da ausência dessa dicotomia do corpo e da alma em nossa constituição fundamental? Porque nós somos alma e corpo ao mesmo tempo. Porque não existe mal psíquico que não tenha reflexo físico. Porque quando estamos frustrados, quando nos encontramos naquele limbo sentimental de quarto escuro e chuveiro pingando, simplesmente não produzimos, possibilitando então a construção de uma indústria motivacional que tenta, a partir de palavras nem sempre providas da devida ética, colocar nosso ânimo em dia e fazer com que nossos passos sejam para frente e não para trás e para baixo. Mas caso essa indústria motivacional não funcionar, relevando-se que as mais diversas religiões tem se valido dela por milênios com extremo sucesso, atualmente ainda podemos apelar para os psicofármacos, os quais, apesar de até amenizarem por algum tempo esses males do nosso tempo, jamais farão com que nos tornemos curados seja lá do mal que for, o qual pode estar tanto para a depressão quanto para as drogas e vice-versa.

Desta maneira, ao invés de buscarmos apoio em uma indústria motivacional que cresce de modo estrondoso ou mesmo em medicamentos que mais mal do que bem irão nos trazer, talvez seja hora de olharmos para aqueles que caem aos nossos pés nessa corrida coletiva e imensa dos tempos atuais. O desamparo que sentimos não provém somente da falta de tempo ou mesmo do temor com relação ao possível desamparo da queda, mas sim da falta de laços de pele entre as pessoas, laços esses que, longe de serem fugidios como os que movem os jovens pelas casas noturnas da vida, tenham o respeito e a ética como vínculos maiores, já que distantes destes dois traços persistiremos desconhecidos como esse sujeito que pela calçada da Marquês do Herval pensou que remédios iriam aliviar a sua dor de existir.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Da coisa julgada ao prazer: um ensaio sobre os significados.

A pior coisa do Direito são os jargões. Com o tempo, tu usas coisa julgada sem nem saber o que ela é: aí é que o conceito se torna jargão. Sabe que em tal situação isto ou aquilo se torna coisa julgada e ponto. Mas se a pior coisa do Direito são os jargões, com as outras ciências ou mesmo com a nossa vida ocorre o mesmo. Dar tchau ou oi sem querer dar oi ou tchau, é um exemplo clássico disso. E por aí seguimos nossa existência à David Lynch.

O que acontece com esse mecanismo, é que as palavras vão perdendo o próprio significado. E perdendo o próprio significado, vão ganhando outros significados, mas os quais existem em função de uma estrutura que os sustenta e nada mais. O jurista que fala coisa julgada, intui o conceito de coisa julgada no dia a dia a partir de um determinado fenômeno que aparece no sistema com o qual ele trabalha. Sabendo desse conceito em função do sistema com o qual ele trabalha, sabe em qual artigo do Código de Processo Civil tem de buscar a suposição de um remédio processual cabível e por aí acaba a conversa. Talvez possa até pensar para direcionar seus eventuais embargos para uma omissão ou para uma contradição. Mas o fato é que tanto omissões quanto contradições sempre haverão. Então, de qualquer modo, alguma coisa que esse jurista arquitetou irá valer a pena. Isso, sublinho, dentro do sistema no qual ele opera.

Trazendo essa mesma lógica para o dia a dia, o que acontece é um esvaziamento do próprio conteúdo das palavras. Claro que isso pode estar errado e alguém pode pensar: Esvaziamento? Que nada! Porém, as palavras fazem um intercâmbio de significados de acordo com a estrutura que as comporta, sendo que esses significados são mutantes porque a estrutura só existe em função da mutação. Quanto a argumentos contrários, óbvio que os aceito. Mas quando trago a questão do esvaziamento do significado das palavras para o dia a dia através da menção do oi ou do tchau, o que estou falando é que dizemos coisas a torto e a direito sem saber do que estamos falando. Exemplo? Pegue essas menininhas e senhoras que andam com poodles por aí e veja quantas vezes por dia elas dizem meu amor, meu bem e correlatos bobos. Pegou? Pois é. É disso que falo: do quanto usamos as palavras apenas por conveniência em função de estarmos insertos em um determinado campo operacional, mesmo que esse campo seja uma relação do ser canino com o ser humano.

O que ocorre quando se sai do campo técnico-jurídico do qual acima falei e se vai para a vida, é que esse esvaziamento provoca o distanciamento das pessoas, de modo que elas dizem algo ou fazem algo tão-somente pela conveniência desse dizer e desse fazer. Falando e dizendo algo tão-somente pela conveniência, o significado da palavra, se é que ela tem algum depois de tantos sopapos, perde-se por completo, assim como se perde o sorriso logo depois de darmos oi ou tchau para aquele colega chato de escritório. Resumindo, é como se todo ritual social envolto por essas palavras que usamos com cordialidade, dissolve-se em sua própria enunciação a partir do fato de que essa enunciação é vazia de vontade – e portanto nada anuncia, não podendo, assim, enunciar, pois apenas preenche lacunas de um aparelho social. Essas lacunas, por sua vez, já que jamais preenchidas e submetidas ao próprio fato de estarem insertas em um determinado meio, fazem com que a palavra lá adaptada diga apenas o que o sistema comporta e faça o significado da palavra escoar para o bueiro do meramente operatório e de lá não mais sair.

Isso talvez seja um sintoma do que chamam de modernidade, pois é tão comum quanto dizerem pra ti que “um emprego bom é uma dádiva de deus” – assim com letra minúscula mesmo, em respeito a todos os deuses já criados. Dizer isso é minimizar o ser humano ao meramente funcional. Leia-se: se tem um emprego que dê grana suficiente pra pagar as contas e fazer umas festas, OK; se não tem, não é abençoado por uma dádiva de deus. Logo, agir com relação à coisa julgada de uma maneira que tem significado apenas dentro de um sistema, é diametralmente similar ao fato de utilizarmos oi ou tchau em nosso dia a dia. Só não há equivalência com relação à função dos termos em cada sistema: se no cotidiano o oi ou o tchau representam, respectivamente, uma chegada e uma saída, no Direito, com a coisa julgada, podemos adaptar quaisquer adjetivos, sejam eles omissivos, contraditórios ou obscuros – isto porque, como já disse, sempre haverá alguma dessas características em um julgado, ainda que o raciocínio seja perfeito.

Concordo que existem alguns aspectos legais vindos daquelas Súmulas do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, que fazem com que não haja algum desses adjetivos. Mas se o texto se prestasse a uma interpretação dissonante em relação a outros caracteres que podem influir, provindos de bases diversas, em seu enunciar enquanto anunciação de sentido, com certeza cairiam por terra as tais Súmulas. No cotidiano, porém, ocorre diferente: temos a possibilidade de carregar com o sentimento e a sensação que bem entendermos um oi ou um tchau. Deixa-se claro, contudo, que ter uma possibilidade não significa exercer uma possibilidade, de modo que podemos ou não nos subsumir ao sistema, assumindo os riscos dessa falta de anuência em relação às lacunas que escoam dos significados e fazem com que apenas um sentido provindo do seu próprio teor operatório persista.

Porém, o fato de se utilizar ou não um ou outro termo, já representa um grande avanço e uma grande possibilidade de liberdade. Por óbvio que nem todos irão querer ser livres: é melhor dizer que amamos alguém do que realmente amar alguém, quanto mais poodles. Entretanto, ter essa possibilidade de fazer com que algumas expressões relativamente comuns não virem jargões repetitivos e sem graça, já implica em um combate a essa chateação toda que é o vocabulário técnico. Concordo que para compreendermos uma ciência é necessário saber seu linguajar assim como aprendemos a chorar para dizermos que estamos com fome ou dor quando bebês. Porém, usar esse linguajar sem possibilitar o seu intercâmbio com outros ramos do saber, é emburrecer o próprio saber, da mesma maneira que deixar de dar uma atenção para o oi ou para o tchau, é um movimento de similitude impressionante e sem ética alguma.

Nesse contexto todo, o que irá importar, seja de um ou de outro lado, é a vontade de quem diz e de quem ouve. Se o juiz não quer saber de omissão, contradição ou obscuridade por conta de uma Súmula Z do Supremo Tribunal Federal, tu tens ainda a chance de buscar um remédio acaso achar algum. Mas já tu não carregares tua fala do próprio significado daquilo que falas, é ser hipócrita demais para um ser humano que prega por aí que todos têm que aprender a trabalhar em grupo, como tantas organizações empresariais fazem. E por favor gente: trabalhar em grupo, OK, é legal e tal, mas fingir sinceridade com risinhos contidos e eu te amo de poodles em cima do trabalho só pra lucrar com os outros, é canalhice demais!

Portanto, se o Direito tem seus jargões e o mais chato dele são esses jargões, na vida ocorre a mesma coisa. É que nem margarina e pão no café da manhã ou pipoca no cinema: alguém inventou isso, a moda pegou e ponto final. Vai de cada um dar um significado diferente a cada uma dessas coisas, nem que seja pra usar a manteiga na amada tal qual o Marlon Brando em O Último Tango em Paris do Bernando Bertolucci. Aí, pelo menos, os significados restam dispersos e ganham uma nova conotação, fundando um sistema dentro do sistema. Ou apenas prazer, sejamos francos, pois usando a manteiga daquela forma que o Marlon Brando usou, vá garantir que o sêmen não vaze e esse mesmo sêmen crie um outro sistema.

E pior: dessa vez humano!

domingo, 22 de março de 2009

De um Renoir.

De um Renoir.

Quedo-me traço solto
do qual tramo tuas vestes.
Sinto-te fluir gotas
até que me ergues vento.

Mas vou assim que percebo
meu rosto em teu movimento –
expiras o meu detalhe,
consomes minha fagulha:

resto-me então desordem
que amanhece tua pele.

sábado, 21 de março de 2009

(Literalmente.)

Eu estava de mudança. Mas minha casa não era essa.

Era uma casa que não tinha muros e o contato com os vizinhos era inevitável.

Havia combinado que faria tiro de tinta com minha vizinha da direita. Mas explico: minha vizinha da direita era uma ex-namorada que fabricava a tinta para o tiro de tinta a partir de secreções provindas de defuntos humanos. Ela até quis me mostrar os vidros nos quais guardava as secreções marrons, mas eu não quis ver, disse que não me interessava pelo assunto e que apenas queria fazer tiro de tinta. E esse tiro de tinta seria feito entre eu, minha atual namorada, minha vizinha da direita e ex-namorada e mais suas duas sobrinhas que estavam na sala assistindo televisão enquanto não começava o tiroteio.

Entretanto, logo chegou o pai dessa minha vizinha da direita e ex-namorada e sem mais iniciou um churrasco bem na garagem minúscula onde faríamos o tal tiroteio. Eu nem havia notado que havia uma churrasqueira na garagem, mas de fato havia uma churrasqueira na garagem. Porém, o detalhe é que ele pegou um tronco de dentro da churrasqueira, rachou ele longitudinalmente com um machado que também retirou de dentro da churrasqueira, pôs o mesmo em brasa em cima de uma mesa circular na qual igualmente não havia reparado, e ali fincou o espeto com a carne que trouxera sem que eu também notasse.

Quando perguntei de onde provinha essa técnica, ele disse que inventou essa técnica, me olhando por cima dos seus óculos de aros pretos que me lembravam alguém que só conheci no cinema. Junto dele veio um sujeito gordo que suava por debaixo dos seus cabelos loiros e cacheados e de uma camisa azul-calcinha. Tinha cara de vendedor, daonde deduzi que o pai da minha vizinha da direita e ex-namorada fosse vendedor e chefe do sujeito gordo de cabelos cacheados que supostamente era seu subordinado devido ao azul-calcinha da sua camisa.

Quanto a ela, digo, minha vizinha da direita e ex-namorada, apenas guardou os vidros onde tinha as secreções provindas de defuntos humanos com as quais fabricava as tintas para o tiro de tinta e ficou me olhando da porta do corredor que dava para a garagem com uma cara de desgosto. Não chegou a me mostrar as armas que usaríamos, mas pela sua cara eu nem quis perguntar.

Nisso voltei para casa e vi que no pátio da casa dos meus vizinhos da esquerda, em duas mesas de pedra, havia dois sujeitos estudando, os quais eram justamente os meus vizinhos da esquerda. Um deles tinha uma menina sentada no colo, olhando atentamente para o notebook onde ou ele digitava ferozmente ou ria de possíveis vídeos que via. O outro apenas virava livros e mais livros que se empilhavam por cima da mesa.

Sem nenhum constrangimento, fui falar com eles.

O primeiro estudante, que era o que virava livros e mais livros, me disse que estudava física, sendo que notei que seus livros eram idênticos aos livros de física que eu tinha no segundo grau mas que há mais de seis anos não via. Quando falei pra ele que também tinha vontade de estudar física um dia, que me interessava muito por cosmologia e afins, ele me disse que gostava do Carl Hawking. Perguntei então com todo respeito se ele não havia confundido e misturado o Stephen Hawking com o Carl Sagan e ele me respondeu que sim, que fora isso mesmo, e deu uma risada estranha logo voltando para os livros, percebendo eu então que não haveria mais de incomodá-lo.

Me dirigindo ao segundo estudante, o qual demorou um tanto a falar comigo, descobri que estudava a auto-imolação na história da humanidade. Perguntei dentro de que curso ele fazia isso e ele me respondeu que dentro do curso de comunicação, mas reparei que foi uma resposta meio à contragosto, já que ele me respondeu isso olhando para cima e para a esquerda. Comentei que sua influência talvez tivesse sido o Takashi Miike e os demais cineastas do Oriente que faziam filmes que muito mostravam dessa auto-imolação – da ultraviolência, enfim.

Aí ele também deu uma risada como o outro que estudava física, mas uma risada com maior gordura, já que se o primeiro era magro e tinha olheiras, o segundo usava barba, camiseta preta e estava uns quilos acima do peso normal para sua altura, e me respondeu que mais ou menos, que tinha uns vídeos especiais através dos quais pesquisava sobre o assunto para concluir seu trabalho de graduação, sendo que ele também comentou entredentes que fazia antropologia, mas disso não falou muito, pois a menina que estava sentada no colo dele parecia muito fascinada com um vídeo que passava na tela do seu notebook, o que certamente o excitava. Achei estranho ele estudar a história da auto-imolação na humanidade apenas através de vídeos, mas não quis questionar mais sobre seus estudos porque aquilo não me dizia respeito. E como era dia mas havia pouca luminosidade e eu não estava de frente para o notebook desse segundo estudante, não consegui ver do que se tratava o tal vídeo.

Quando voltei para casa, percebi que minha casa não era uma casa, mas sim um terraço, ou uma casa em um terraço, daonde conclui que nós três, ou seja, a casa da minha vizinha da direita e ex-namorada, a casa dos estudantes de física e comunicação e/ou antropologia e talvez também da menina que sentava no colo do último, que era a casa dos meus vizinhos da esquerda, bem como a casa que eu alugava, ficavam situadas em um terraço.

Mas percebi isso só quando olhei pela janela e vi um caminhão de gás quase caído na rua em frente ao prédio, visto que morava em um terraço recém descoberto. Uma caminhonete também havia derrubado o portão do prédio e o zelador estava, apesar disso, calmamente sentado em sua guarita destruída, fumando um cigarro e olhando todo aquele estardalhaço do alto da sua cadeira sem estofamento.

Pensei em ligar para a polícia para avisar do caminhão de gás que trazia, em sua caçamba, vários bujões cheios de gás, mas que tinha um anexo que parecia um anexo desses caminhões que carregam combustível, sendo que a partir desse cenário deduzi que uma explosão era certa. Mas quando fui pegar o telefone para ligar, vieram vários homens vestidos de azul, surgindo de todos os lados, aparentemente da companhia de gás e combustível, ajeitaram o caminhão e seu anexo em alguns instantes e seguiram rua abaixo.

Quanto aos portões do prédio, lembro que um desses homens vestidos de azul deu um pacote ao zelador que fumava calmamente em sua guarita destruída e entrou na caminhonete que havia destruído o portão e a guarita, pois fora esse o caso, muito embora eu tenha esquecido de comentar isso anteriormente. Após entregar o pacote, deu ré e foi atrás do caminhão que já não era mais quase caído.

Saí de perto da janela e disse para minha atual namorada que se quiséssemos, poderíamos denunciar aquele caminhão e mais precisamente aquela companhia de gás e combustível por negligência, porque poderia ter ocorrido uma explosão. Porém, ela não falou nada e foi até a cozinha acho que pra pegar um copo d’água.

Afinal, não era apenas eu que estava de mudança. Nós é que estávamos de mudança.

(Literalmente.)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre Naked Lunch de David Cronenberg.

O corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição. Se nossa mente é soterrada por mil pensamentos e sensações que ocorrem todas ao mesmo tempo, como dizer que nosso corpo, o qual comporta nossa mente, foi feito para a perfeição? Sendo, portanto, essa distorção possível, quem sabe ela não seja possível ao nível da realidade, muito embora tantos procurem modificar seu corpo de maneira a incutir nele o que se convencionou chamar de personalidade, e tantos outros nasçam com deformidades que carregam pelo resto da vida, como bem demonstrou Tod Browning em Freaks (1932). Entretanto, é no cinema de David Cronenberg que essa distorção do corpo toma o próprio corpo da película. E é em Naked Lunch (1991), que a mente e o corpo, a tal ponto distorcidas, constroem uma obra cinematográfica única, a qual, em sua estrutura primordial, traz consigo o próprio corpo como referência fundamental.

Em Naked Lunch, deparamo-nos com Bill Lee (Peter Weller, em uma interpretação junkie/noir), um homem que é exterminador de baratas e escritor que nada escreve. Para exterminar baratas, esse homem usa um pó amarelo com o qual as baratas se alimentam para engordar, engordar e enfim morrer. Certa feita, contudo, Bill Lee percebe que sua esposa está viciada no pó amarelo que usa para exterminar baratas, sendo que logo em seguida é preso por policiais desprovidos de qualquer fardamento sob acusação de que seu pó amarelo contém na verdade uma droga – e que, para resumir, não extermina barata alguma.

Esse homem, talvez a personificação de William S. Burroughs que escreveu o romance do qual se originou o filme, foge dos policiais ao se deparar com os conselhos de uma barata gigante que tem tremores de prazer com o pó amarelo utilizado, em princípio, para exterminá-la. Ao chegar em casa, Bill Lee vê sua esposa, Joan (uma Judy Davis de olhar atemporal e chapado que lembra uma rock star falida), na companhia de dois amigos, sendo que se um deles lê um poema beat com seus óculos de aros pretos, o outro transa com Joan, como se as palavras do próprio poema fossem a força que impusionasse o sexo.

Ao verem que Bill Lee chegou, os três ficam um tanto constrangidos. Mas enquanto isso, o que Bill Lee faz é ir para o quarto e, como fazia a esposa há sabe-se lá qual tempo, injetar nas veias o pó amarelo que em um momento anterior utilizava para exterminar baratas. E é partindo dessa premissa inicial, que em si já carrega a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, que inicia toda saga do protagonista, pois após sua esposa posicionar um copo na cabeça, encenando um jogo que aparentemente há muito era jogado por ambos, Bill Lee, apontando uma arma em sua direção, ao revés de acertar o copo, acerta a cabeça da própria Joan.

E o que acontece a partir de então? Constipado pela culpa e pelo delírio do vício, Bill Lee, exterminador de baratas e escritor que nada escreve, recebe passagens também de uma barata gigante, só que essa elevada ao nível de frequentadora de pubs, para ir até um local chamado Interzone, sendo que nesse local descobriria a verdadeira razão de tudo o que lhe está acontecendo. E para o quê está essa razão? Principalmente para o fato de que sua esposa, segundo o relato da barata que tinha tremores de prazer na delegacia da qual Bill Lee fugiu, na verdade não é sua esposa, mas sim uma agente treinada para acompanhar os passos do próprio protagonista por uma organização desconhecida com sede justamente em Interzone.



A partir daí, Interzone nos é apresentada como um porto do Oriente repleto de escritores e homossexuais, onde as drogas, normalmente provenientes de insetos, povoam todos os corpos que, por conseqüência, são deformados pela droga. E nesse cenário de escritores e homossexuais, carregando de um lado para o outro sua máquina de escrever que ora se transmuta em apetrechos para o vício, ora se transmuta em insetos que conversam e aconselham Bill Lee, é que o protagonista perceberá que não existe redenção tanto para o vício quanto para a culpa, sendo que o primeiro assim como o segundo jamais deixarão uma pessoa sair sem qualquer sequela nas mãos.

Talvez, levando a construção fílmica de Cronenberg e mesmo o romance de Burroughs ao extremo, possamos enxergar nesse porto do Oriente repleto de homossexuais e escritores, a própria culpa travestida de Bill Lee, o qual, vagando entre o sonho e a realidade, não encontra lugar melhor para descobrir quem é a não ser um porto: local no qual todos desembarcam mas no fim ninguém permanece. Não é à toa que em vários momentos, Bill Lee aparece dormindo na areia de uma praia que não se vê, próximo a um barco destruído, como se a fuga, apesar de tentada, fosse impossível.

Por esses motivos e muitos outros, que Naked Lunch de David Cronenberg segue os traços do realizador de Spider, Crash e The Brood, ao reforçar a tese de que o corpo não foi feito para a perfeição. Se Bill Lee é deformado pela culpa, pelo vício, pela homossexualidade que renega e mesmo pela escrita que julga não ser sua, já que é um escritor que nada escreve, tudo isso não tem apenas consequências internas para o personagem, já que essas consequências vazam para o plano externo de uma maneira que beira o caos, mas traz consigo uma estrutura perfeitamente alinhavada com as intenções de Cronenberg/Burroughs ao nos contar essa história.

Não é necessário dizer, pelo visto até aqui, que nem todos se sentirão satisfeitos com Naked Lunch. Talvez o motivo disso até esteja para o fato de que a tradução do título do romance em português, está para “O Almoço Nú”, muito embora no Brasil tenham lhe batizado com o terrível “Mistérios e Paixões” enquanto filme. Esse almoço nú, refeição que não satisfaz porque traz no próprio corpo o alimento e aquele que se alimenta, seja pelo vício ou pela culpa, a qual, com o correr da trama, também se torna um vício, por vezes nos dobra as curvas do estômago e nos faz pensar que Cronenberg e sua obsessão por insetos quer dizer muito mais do que diz em cada minuto da película – e quer, enfim, apenas nos enojar com um vômito que se prende na garganta.

Mas se o corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição, sendo que toda a distorção, a partir desse ponto fundamental, torna qualquer realidade possível, distante de uma dicotomia que traga mente e corpo como entidades separadas e não contidas em um mesmo emaranhado de incongruências psicológicas e perfeições biológicas, não existe outra maneira de se contar uma história sobre a culpa e o vício sem recair nas conseqüências externas que essa mesma história irá trazer consigo. E se essas conseqüências externas ocorrem em sua maior parte em um porto do Oriente, talvez aí esteja a chave para a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, pois apesar de todos atracarem um dia nesse porto, a partida é inevitável assim como é inevitável o nosso fim.

Por isso é que Naked Lunch é uma experiência estética e fílmica única, trazendo em si um visual bizarro que somente ilustra a bizarrice com a qual nos deparamos todos os dias rua após rua. E apesar do asco que talvez este filme provoque em alguns espectadores, tal asco, como no romance A Náusea de Jean-Paul Sartre, é tão necessário quanto é necessário saber que o vício e a culpa estão diretamente relacionados ao prazer e só por isso nos constituem fundamentalmente. Mas se Sartre nos diz que a náusea está para esse deslocamento do ser humano frente ao mundo, Cronenberg/Burroughs estão além: aceitam esse deslocamento e é a partir dele que falam, sendo que dessa aceitação provém uma obra que deveria receber muito mais aplausos do que recebeu até o momento. Afinal, não são todos que (de)mostram sua personalidade. Quanto mais realizadores cinematográficos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

E só.

Por que essas folhas secas pelo chão? Onde está a minha voz de ontem?

Será que o vento ou a estiagem levou ou será que ela simplesmente calou?

Qual será o destino dos meus destinos?

Permanecerão cálidos e solenes, como idéias que não semeiam tempestades, ou serão como torrentes violentas de palavras que se fazem água para escorrer da boca em fel?

Poderei tocar esses estertores que me tomam, esse invólucro de luz e sombra em cada face, em cada farelo de barba que o olho permite ver mas no mesmo instante apaga, deixando apenas as nuvens em massas largas no céu, movimentando uma candura felina que desde sempre vi nos meus próprios passos?

E com quê fulgor tocarei o solo?

E com quê calor tocarei teu corpo?

Como irei entrelaçar teus dedos entre os meus se não te tenho ao meu alcance e apenas posso te alcançar no arcabouço da memória, como alguém que está prestar a enfrentar a forca e é cegado pelo sol?

Por que essa coisa que me toma, esse alastramento de claridade por todos os lados, essa manhã imensa que não quer se fazer tarde e muito menos noite, ao invés do conforto que ontem eu tinha, que ontem me preenchia, mas que agora some aos poucos pelas frestas da varanda?

E isso que bebo agora, e os meus poros que influem no curso do tempo sem qualquer resignação ou cansaço mediante a sua própria inutilidade, terá isso algum sentido?

Essa cusparada violenta, essa peste, esse altar que se quebra aos poucos, que racha em sua base quando pretende alicerçar ruídos, tudo isso está presente no meu canto, tudo isso está presente no meu agora, e se da emersão dessa angústia brotar uma flor amarga, florida em carne e vida, não será apenas sinal, mas será tão-somente fatal.

Contudo, que me cubram com as vísceras das frases desgastadas, que me cubram com tudo o que já foi dito e com o sangue de todos aqueles que disseram, pois hoje eu posso ver a fumaça que apaga todas as velas.

Hoje, em meio ao cinismo da minha própria consciência, em meio a voz velada daqueles que me instruem, em meio aos manuais, em meio às técnicas, em meio a todas as vendas e prostitutas que me rodeiam, eu tenho a clarividência da inexistência de um amanhã.

Hoje, mas mais precisamente agora, nesse exato instante no qual os relógios param e amarelecem ao sabor das horas, no qual as roupas desvelam corpos e a nudez me cobre de vergonha defronte minha própria confissão, eu tenho essas folhas secas sob os pés e sinto a umidade da terra me tanger os ossos, me tocar o espírito, fazendo com que em mim renasça o fogo que um dia tive mas que perdi no primeiro instante de vida.

E eu quero a paz da guerra insana e todas as coisas que me envolvem.

E eu quero o lodo, eu quero a lama, eu quero os blocos de pedra que ergueram esse castelo que me afundou.

Se exclamações me agridem ou interrogações me partem, pouco importa.

E se tudo isso acontecer no futuro, no plano imanente de um espelho quebrado, de uma memória riscada, de um diário que se fez ano no exato instante em que foi escrito, também não tem importância.

O que importa é que algo foi feito, é que para além do desejo, para além do projeto, para além de todas as curas para todas as doenças inexistentes, algo foi feito mesmo a partir da ausência, a partir do nada que enaltece seu próprio vazio com o silêncio dessas palavras.

E se existe a futilidade dos outros, dos relacionamentos, dos beijos trocados em festas, dentre cigarros apagados e copos que se enchem de açúcar para logo depois afundar na própria abnegação que reiteram, nada há de ser, nada há de ver, pois tudo o que é vigiado vela, mesmo que esse velar seja póstumo, banhado no ouro que destruiu.

E por que eu deveria me importar?

E por que eu deveria querer te tocar?

E por que eu deveria simplesmente calar, cruzar os braços em cruz e amainar essa febre lassa que me toma de peito e voz para dizer tudo o que sempre senti?

Se tu estás dormindo agora, se tu te cobres com um cobertor azul ou com um lençol branco como tua pele, isso nada quer dizer, assim como nada quer dizer esse adereço, essa frase, esse contexto inábil no qual as existências são traçadas.

O perigo sempre vem da terra, apesar de todas as motivações virem do céu, e estar com as pernas preparadas é mais do que questão de bom senso, é mais do que questão de ter senso, pois a aventura das horas, dos minutos, dos segundos, está muito além de todas as melodias jamais tocadas.

Se alguém pudesse realmente adornar o silêncio com os guizos dessas guirlandas que imagino, desses versos que dobro, que sangro, realmente algo muito bom poderia surgir, mas o fato é que seria apenas um projeto, é que seria apenas uma preparação, um ensaio, o que de modo algum importa, pois o vento e as folhas continuarão a mover os passos, a mover os homens e a fazer com que esses mesmos homens mergulhem nus onde ninguém possa vê-los.

E assim, despojados de si e de tudo, livres mesmo dos mecanismos dos órgãos, das noções internas e da troca da biles com o álcool amanhecido, certamente ressuscitará em todos a faina divina que outros já provaram, ventilando o vinho em forma de sopro e não apenas vermelho, e não apenas ruivo, mas com todas as cores que a vida tem, com todas as dores que a vida tem, para só então repousar livre, completamente livre, nas asas de uma borboleta morta por cima da placa que dá nome a uma esquina.

Dobrando essa esquina, alguém estará sentado, estará sentado em um banco, braços cruzados mas tranqüilos: alguém que terá a imagem do meu avô e que terá a imagem do meu bisavô que morreu com quase cem anos e com o qual eu mal conversei, mas o qual tinha olhos azuis que tinham cheiro de infinito.

Com esse alguém eu trocarei palavras, eu trocarei palavras como quem troca carinhos, e terei enfim a resposta para todas as dúvidas que me tomam quando penso que não tenho dúvidas e enfim posso dormir em paz.

Terei a resposta, uma resposta em forma de pergunta, que me fará enfim trazer a questão fundamental, traçar o problema cabal que dará conta de toda a realidade para explodir essa mesma realidade no instante seguinte.

Mas o universo, mas o cosmo, mas todas as estrelas que nesse momento meu teto esconde, permanecerão caladas, permanecerão mudas, permanecerão consumindo seu próprio combustível até que um dia explodam ou cheguem até mim na forma de um infarto.

E será aí, morto pelo derradeiro câncer das coisas que não entendo, estourado, completamente consumido pelo meu próprio estopim, que restarei estirado sob os lençóis, que restarei examinado e cortado por alguém de branco.

E meu sangue que antes era poema e o qual por tantas noites me inflamou, e pelo qual tanto sofri e tanto amei, finalmente vazará de uma maneira real, enquanto lá fora as folhas continuarão a cair e secar ao brilho do sol sem que ninguém entenda nada, sem que ninguém faça nada, pois tudo o que foi dito, foi dito, e o que não foi dito, não mais se pode dizer, porque a boca simplesmente calou, porque o fruto simplesmente caiu, e se algum fermento, algum adubo ficou, isso será a terra, e portanto o tempo, que dirá.


Daí o meu canto arcaico. Daí meu feitio de vento. Daí os meus pés que dançam. E só.

terça-feira, 17 de março de 2009

Melhor que isso, apenas isso, Françoise.

Você me despiu com sua beleza. Não sei como suportei a vergonha. Uma namorada dos dezesseis anos me dizia que o amor era patético. Somente fui confirmar sua frase anos depois.

Você me despiu com sua beleza, porque estava deitada nua sob o telhado como na canção do Leonard Cohen. Mas sua beleza não me despiu somente porque era bela. Ao contrário disso, sua beleza me despiu porque carregava uma tristeza extrema de se saber finita diante da luz da lua.

Eu vi seus seios entre as sombras das suas mãos. Eu vi suas mãos que apoiavam sua cabeça como um travesseiro de ossos e carne. Eu vi suas coxas relaxadas e seus olhos que ora abriam ora fechavam, feito faróis que diziam o momento exato da lua brilhar mais ou brilhar menos.

Mas o que você não sabia, é que a lua não brilha. Você não sabia o óbvio que é o fato da lua brilhar apenas por conta do sol. E talvez por conta disso, essa dor me invadiu de repente ao lembrar do seu corpo sob o telhado, pois é possível que eu tenha inventado sua beleza e ela de maneira alguma existiu um dia.

Não que eu queira sonegar os fatos: isso realmente ocorreu, assino embaixo. Uma amiga do passado me confessou, aliás, que gostava de fumar no telhado. Disse que se sentia como uma gata. Todas as noites, abria a janela e sentava diante das estrelas, querendo que sua solidão se aprofundasse mais e mais em cada fumaça expelida.

Lembro que quando a visitei, escrevi um poema no seu quarto. Era um poema que falava de vidros quebrados e é só disso que lembro. Dei de presente pra ela esse poema e naquele dia ela pendurou ele com um alfinete azul em um mural por cima da escrivaninha. Hoje, porém, não sei se esse poema existe, mas da última vez que vi essa amiga, ela estava com cinco cores diferentes no cabelo.

E pensar nisso não me traz nada de bom. Lembrar de uma beleza que me despiu no telhado e de uma amiga que buscava a solidão no próprio telhado, apenas me remete ao lado do que sou que tento deixar de lado pra suportar esses padrões que os dias me soletram. Contudo, caso um dia eu deixar de lembrar dessas coisas, haverá no mínimo um desabamento, um desmoronamento do que sou e por conseqüência uma inibição de tudo quanto possa ser.

E o que dizer da inibição? A inibição é amarela. Mas não é amarela como a luz de um poste. A inibição é amarela como a cirrose é amarela e aparece quando há o desgaste. Por isso não quero essa inibição e prefiro a vergonha e a dor vestidas do azul da lua de um epitáfio que sequer chegarei a escrever. De que adiantaria se eu não veria se o trabalho ficou bem feito? Talvez por isso os poemas tenham que sair das gavetas.

Hoje, tentando remontar seu corpo sob o telhado, vestido de noite e pele, com os olhos presos em algum lugar entre a França que não conheço e a Portugal na qual não vivo, vejo que fui além da vergonha justamente porque tenho a capacidade de falar. Quanto ao medo, também fui além porque tenho a capacidade de existir. E se me disserem que existir e falar não são capacidades, voltem para seus espelhos, pois estão completamente enganados.

Descobri também que não era amor e muito menos paixão o que sua nudez me despertou, pois ainda não havia ouvido sua voz. Você apenas me deslumbrou e redundou nesse poema de prosa incerta. Se você ainda existe, não sei, mas desconfio que as fumaças da minha amiga continuam pagando juros para sua solidão.

E talvez eu também continue na ponta do alfinete, preso como um caco de vidro nos pés do dono. Com sorte, talvez eu continue preso aos seus pés, ainda que jamais conheça suas pernas.

Melhor que isso, nada. Melhor que isso, apenas isso, Françoise.