sábado, 7 de março de 2009

E o Fábio Júnior, quem diria, já havia dito tudo isso.

Não sei do meu amanhã. Sequer do meu hoje sei.

Sonho uma vida sem sonhos. Sonho uma vida de sonhos.

Por isso trago essa canção no rosto e essa melodia nos olhos. Por isso esse acorde é minha íris e esses metais são minhas mãos.

Se algo crescerá dessas partes, nada posso prever. Ao revés do amor que minto, não sou cristal cigano. No máximo sou vidro de café quebrado pelo chão da cozinha. Café este que, aliás, ao invés de pela manhã me acordar, me embutiu um sono do qual até agora não me desfiz, como mochila colada à coluna que sobe até o cerebelo.

E ainda que eu queira, a vida está longe de ser como um filme do Lynch.

Sei desses corredores. Sei dessas portas verdes e de tantas faces conhecidas em cada sala por abrir. Sei também desses estertores de verbos que pelos meus dedos escorrem – influência do Raduan que insiste em criar seus coelhos. Mas além de saber disso tudo, nada sei, nada sou além disso que sonho: uma vida sem sonhos – uma vida só sonhos, falando como pessoa e Pessoa.

Não é que eu queira ser um Breton do século XXI. Muito ao contrário dele, não tenho ares de médico e sequer um bisturi para cortar minhas idéias.

Quero, antes disso, que esse acordeon continue juntamente com esses metais e esses acordes de olhos, com esse Beirut que me traz tanto um ar de Kusturica quanto um ar de Jorodowsky, porém desprovido daquela crueldade de ferro quente que queima a película de ambos e as veias de quem os assiste.

E mesmo que tantos queiram, hoje vejo que não somos gado ou rebanho, ainda que o Zé Ramalho nos tenha dito isso a torto e a direito, ou que a voz do Nietzsche nos tenha sussurrado que um cubo só é um cubo porque ninguém soube sair de lá. Os continentes se desprendem, pode acreditar nisso – e me deparar com a Sbornia assim nas torres de Torres, não seria nenhum assombro.

Sonho com essa vida de sonhos, portanto, não como quem quer uma Hollywood, pois nunca me desejei uma calçada que não esteja para o rastro dos navios.

Sonho essa vida de sonhos, como sonha o malabarista de rua com o Cirque du Soleil, sabendo que apesar disso, estou anos-luz de distância desse mesmo malabarista que na minha frente encena com esses galões de trânsito – supernova que descamba em uma coesão do peito e provoca o próprio texto.

Se meu amanhã é incerto, essa incerteza não vem do futuro, mas sim do agora. Do futuro vem apenas o anseio, a síndrome dos barbitúricos que tantos divãs comportam.

Quanto a mim, renego esse analisar, já que sou muito egoísta para falar mais do que falo.

E eis a contradição: se digo da falta de ética desses umbigos/panelas, que por todas as cidades giram seus guetos sem samba, por que não me abro também aos ouvidos de um divã e me entupo de qualquer droga pra suportar o vazio?

Sei que a camada é fina e do sem-nome a hipotermia. Talvez por esse saber, quase profeta de mim, persista em me analisar, parodiando tudo que vejo e sinto na prolixidade de sempre, na angústia de cada nome inventado.

E assim meio capenga, gauche Drummond/Baudelaire, construo e fundamento minha própria ética de fortaleza na carência de tantos braços, amigos e amores, já que o diesel que vem das minhas veias só existe em outros corações.

Mas se meu agora é incerto, como poderei nomear o tempo dessas algas que se prendem à minha medula de sono e mala, neandertalesco das próprias necessidades, faroleiro de uma razão que inexiste distante da plena falta?

Não há janelas, meus amigos: só fendas, seja para nascer, chupar, espiar ou chover.

E essa é minha conclusão.

O certo, contudo, é que o relógio afundou e permaneceu somente o mar e o barco: três personagens distantes que nunca encontrarão margem, pois não existe nenhum farol além das tartamudices da Virginia Wolff e dos meus poemas sem graça.

O certo é que o tempo parou ou sequer um dia existiu.

E o completamente certo, é que seja eu um balzaquiano que nem trinta anos tem e por isso mesmo traz angústias que não suportou e talvez nem suportará.

Mas a única verdade mesmo, é que não me desfaço dos meus planos, quanto mais com estes meus vinte e poucos anos.

E essa minha vida de sonhos virá, pode crer, meu chará: só não esmaguei seu pescoço aquele dia no banheiro, porque me escorreu a mão assim como sabonete. E foi por isso que aquela noite você me pôs metano nos olhos, seu safado. Mas aqui está minha vingança: tapa de luva e verbo na sua face de nada. Portanto estamos quites, seja você o outro que em mim habita ou simplesmente o meu silêncio de depois. Mas sei que você não tem nada de bossanovesco, seu grunge chato.

E o Fábio Júnior, quem diria, já havia dito tudo isso.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Para uma Fortaleza.

Para uma Fortaleza.

Tua falta resseca a pele.
Tua falta recende vão.

Tua falta preenche falsa a tarde nublada e fria:
emerge e se sabe fogo, embaça o que acendeu,
forjando e limando solos de sopros que desfalecem.

Tua falta curva poentes e suja o que nunca foi:
deslinha tramas e redes, pescas fosforescentes
de seres que o enxofre cria no vapor do que destrói.

Tua falta é essa ilha, é meu farol e aceno,
vendo de longe a partida de amantes que não se sabem:
percorrem seus desencontros em cada esquina passada
que só a tua presença poderá me trazer presente,
no salto que enfim darei para no fundo encontrar
os corais que são teus cabelos presos por cada onda.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Não fossem os umbigos, Thomas Morus seria eterno.

Provérbios dizem mais do que aparentam. Geralmente são parábolas curtas nascidas da sabedoria popular acerca de constatações lógicas e cotidianas. Por exemplo, falar que “santo de casa não faz milagre”, significa muito mais do que podemos imaginar.

É fato que a sociedade é dividida em “guetos”. Esses “guetos”, ao contrário do que possam pensar senhoras de boa índole, não se encontram apenas nas periferias. Uma das origens da palavra “gueto”, aliás, remete aos bairros nos quais os judeus italianos eram forçados a morar, sendo que por conta da imposição de um determinado regime, seu espaço territorial era aquele bairro e nenhum outro, muito embora este bairro tivesse ligações com outros bairros.

Entretanto, quando falo em “guetos” sociais, falo em facções da sociedade que, por conta de um acordo de favores, defende os interesses dos seus membros frente a quaisquer outros interesses. Essa defesa, porém, pode gerar injustiças quando é contemplada com algum poder, fazendo com que aqueles que pertencem ao “gueto”, tenham regalias que não são legadas àqueles que não pertencem ao “gueto”. Distante do termo “gueto”, poderíamos usar o termo “panelinha”, o qual até discrimina melhor o assunto. A “panelinha” detém estrutura idêntica ao “gueto”, e assim como acontece com o “gueto”, a “panelinha” pode ser contemplada com algum poder, fazendo com que aqueles que não pertencem à “panelinha” não tenham as regalias que os que pertencem à “panelinha” têm.

Acaso esses “guetos” ou “panelinhas” detenham algum poder, com certeza serão árbitros de algumas escolhas da sociedade. Mas se a estrutura tanto dos “guetos” quanto das “panelinhas” defende apenas seus membros, certo é que essas escolhas não irão seguir critérios de respeito àqueles que não pertencem aos “guetos” ou “panelinhas”, fazendo com que a seleção que provenha das escolhas seja completamente desprovida de crédito quanto a qualquer ética.

Em cidades de médio porte como Santo Ângelo, facilmente se nota essa realidade, já que essa mesma realidade se estende a toda e qualquer organização social. Na verdade, existe um quê de infantilidade cruel nos “guetos” ou “panelinhas”, pois se faço parte da “turminha”, posso brincar, considerando-se que se não faço parte da “turminha”, cantarei sozinho no quarto aquilo que ninguém ouve.

Quanto aos “guetos” ou “panelinhas”, temos de admitir que muitas vezes existem benefícios que provém da sua existência, visto que é fato que em dados momentos é necessário que alguém tome as rédeas da sociedade para que haja alguma organização. Mas quando essas rédeas tomadas pelos “guetos” ou “panelinhas”, especificamente com relação à seleção que provenha das escolhas feitas por elas, as quais detém o poder, falta com respeito àqueles que não fazem parte da “turminha”, temos de admitir que todo e qualquer padrão ético é abolido em função de uma estrutura social defensora dos seus próprios interesses.

Aliás, o provérbio “santo de casa não faz milagre”, talvez não se aplique apenas àqueles que pertencem aos “guetos” ou “panelinhas”. Quanto aos demais, assim como os judeus italianos, ficarão isolados em seus espaços territoriais, ainda que tenham certas ligações com outros territórios e mesmo com os “guetos” ou “panelinhas” sociais. O que acontecerá, então, será a formação de novos “guetos” ou “panelinhas” que competirão umas com as outras para deter o poder de escolha com relação a quaisquer seleções.

E o que isso indica? Indica o egoísmo e a falta de ética diária nas relações humanas, nas quais só respeito o outro se do outro me aproveito. Por isso é que uma sociedade estruturada em função de “guetos” ou “panelinhas”, viverá um eterno clima de Guerra Fria, realidade onde nenhuma bomba atômica explodirá, mas onde as intrigas e as informações falsas irão fluir por todos os lados.

Mas o pior é ainda assim pregarmos que temos de ajudar o próximo ou que somos melhores que fulano ou cicrano. O pior é o elogio seguido do riso que guarda nos caninos a vontade de morder. E qual conclusão tirar disso tudo? Os “guetos” ou “panelinhas” são conseqüências diretas da existência dos nossos umbigos, em torno dos quais, seja por sonho ou egoísmo, esquecemos de ver podridões para criar jardins nativos.

Não fossem os umbigos, Thomas Morus seria eterno.

quarta-feira, 4 de março de 2009

E a vigília é um vão pelo qual outros outros me espiam.

Sou escravo desse outro que em mim habita. Se quero acordar ele dorme. Se quero almoçar ele me enche a barriga de vento.

Mas o pior não é isso. O pior é quando ele começa a me rodear e a me sussurrar que tudo está errado. Me acorda às quatro e meia da manhã e me diz, como quem tudo quer e promete, que algo de muito ruim aconteceu. Faz com que meus olhos ardam mas não pede desculpas. Faz com que minha cabeça lateje como se tivesse sido esfregada na pedra de uma praia.

Mesmo assim, nunca tentei me livrar desse outro que em mim habita. Não sou de guardar rancores.

Certa vez até consegui agarrar seu pescoço quando me assistia no escuro do banheiro. Consegui ao menos notar que ele realmente existe e está aqui, fazendo com que as veias do meu cérebro se dilatem e com que o sangue circule por essas rodovias roxas.

Mas eu queria não um outro de mim que me fizesse isso, e sim uma outra pessoa que me fizesse isso. De nada adianta o prazer não compartilhado. Não há repercussão em um velório sem espectadores. Dançar em um palco solitário é como desfazer nós que não podem ser desfeitos por marinheiros que sequer existiram. Imaginar aplausos de um público com máscaras tem cheiro de necrotério. E a dor solitária não faz sentido algum quando uma criança chora e é noite e não há ninguém no prédio ao lado.

Na verdade eu queria que esse outro que em mim habita se fizesse real. Mas real assim como que materializado de repente, como ocorre naqueles filmes do Fritz Lang que nem cheguei a assistir. Queria olhar seu rosto, tocar seus olhos, perceber que suas pálpebras são tão brancas quanto as minhas, pra deixar de sentir esse medo bobo, esse temor estranho de que algo está errado e de que algo de ruim aconteceu às quatro e meia da manhã depois que dormi no sofá ouvindo o Thom Yorke.

Seria culpa da Inglaterra? Seria culpa dos dias cinzas que ainda não vi? Seria culpa daquilo tudo que deixei de dizer ou fazer ou mesmo de uma noite que fez com que meu corpo quedasse diante da minha vontade? Seria culpa dessa geometria que construo sozinho em um deserto chileno? Simplesmente não sei dizer. Fico com a mudez do Mario Peixoto.

Apenas me sinto levado por um aqueduto romano. Arrastado pelo labirinto das águas, não existe diversão aqui. Existe apenas a necessidade de que o trajeto continue e de que a água chegue em quem tem que chegar. Se eu cair em algum desvão das pedras, talvez esse outro que em mim habita também caia comigo e enfim revele seu nome através de um arranhão na perna.

Mas não: acho que nunca saberei seu nome. Seria demais pedir um canto para o silêncio. Seria ousadia construir uma pirâmide com a terra de outro planeta e usar remos ao invés de mãos.

Por certo continuarei sentindo sua presença quando quero ficar acordado mas ele me faz dormir. Por certo, quando meu estômago se agita e a lua é alta, sentirei que ele é mais real do que eu imagino e que de biológico não tem nada, ainda que jamais possa vê-lo ou ouvi-lo distante da sua própria vontade.

Sim: pois esse outro que em mim habita tem vontade própria e me conduz como marionete dos seus apelos. De certo por não ter corpo, me tirou pra cão de chute, desses nos quais limpam a mão de graxa pra depois esmolar afagos. E por certo seja essa a razão dos meus olhos ardidos, como se um colírio de metano tivesse caído no centro da minha íris e do meu sorriso ventríloquo.

Mas nunca mais reclamarei da sua existência. Sei que sua existência é necessária assim como sei que meus ombros doem. Sei que o dia amanhecerá e talvez novas impressões surjam. Conheço algumas pessoas que podem me ajudar e elas não tem nada de invisíveis. Mas será que elas também não carregam esses outros consigo? Talvez sejamos multidões de nós próprios e não saibamos. Talvez células estejam para Universos assim como copos estão para garrafas, mesmo que toda comparação esbarre na sina inevitável de jamais ter um sentido fora do seu próprio paradoxo.

E admito minha escravidão confessando um amor pela vizinha que desconheço e mal vi. Olho para os meus grilhões como se fossem a pérola que nunca encontrarei. Tenho os olhos manchados de um rímel de hormônios que me faz pressão a cada instante de têmpora, ainda que cabeça, pernas e braços sejam completamente alheios a minha vontade.

Sou escravo do outro que em mim habita sim. E minha escravidão tem o gosto do orgulho desesperado. Tem o prazer dos olhos do orgasmo. E tem a tristeza do que nunca serei.

Ao menos sei que meu coração é ao quadrado e minha angústia será sempre mais céu do que mar, perdida no litoral de uma América Latina que imagino e só assim existe.

E isso é o máximo que posso fazer.

Admito o duplo de mim e me sei reflexo sem precisar de espelho.
Daqueles que rondam a casa, só ouço o passo nas folhas. E a vigília é um vão pelo qual outros outros me espiam.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Já o amor é um cristal cigano.

A amizade é feita de lâmpadas. Os amigos são um apartamento.

Aos dezesseis anos temos várias lâmpadas mas nenhum apartamento.

Aos trinta anos temos um apartamento mas poucas lâmpadas.

E o que dizer desses meus vinte e quatro anos? Acho que apenas posso dizer que semana passada três lâmpadas queimaram e não comprei lâmpadas novas até hoje.

Fico trocando de peça em peça a luz que preciso e pensando se um dia não ficarei no escuro.

Sei que o amor não basta. Amor é amor. Amizade é amizade.

Dizem que amizade é uma forma de amor. Mas não é.

Amizade é reconhecimento. Amor é puro desconhecido.

Amizade é admiração. Amor é querer ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Talvez por isso eu tenha medo de amar e também tenha medo das amizades. E talvez por isso também tenha tantos amigos e tenha um amor muito grande perto de mim, embora certas sombras façam danças de luzes quando fecho os olhos.

Sei que hoje, antes de dormir, irei ler um livro e pensar no meu amanhã preguiçoso com olhos felinos mas tristes.

E não quero demorar pra dormir.

Ao contrário, quero que a lâmpada, mesmo sem meus dedos no interruptor, aos poucos vá se apagando. Se ela queimar, será o reconhecimento do meu sono para que eu possa enfim conhecer o desconhecido que em mim sou.

Quero também fechar os olhos com a calma de uma página alemã manchada de chá e mar. E quero que tudo isso amanheça como se toda luz viesse apenas de uma estrela.

Quanto ao amor?

Talvez ele seja o dia. Ou noites iluminadas

Mas talvez o amor seja apenas um talvez. Viagem de mala sem dono. Explosão do que é um passado presente no futuro.

Por isso acho que a amizade é um diagnóstico.

Já o amor é um cristal cigano.

Resta saber do sonho de qual Deus paralítico.

Não é o sol que levanta. São os sonhos que morrem. Por isso a Latino América é um coração de pedra. Mas sangra assim como olhos que acordam. Então toda cama se torna um altar. Do sexo ao sono, somos todo sacrifício. Resta saber do sonho de qual Deus paralítico.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

E minhas desculpas nada sinceras.

Ninguém nunca me disse nada como você me disse naquele bar.

Lembro que escorria uma baba pelo canto da sua boca e que você sugava essa baba cigarro após cigarro. Lembro dos seus óculos grossos e da sua camisa azul-bebê. E lembro também que disse para você que seus problemas poderiam ser resolvidos lendo Fernando Pessoa. Mas hoje me dói não saber quem você é e não ter pagado mais algumas cervejas para você.

Você me contou que trabalhou no exército como engenheiro e que estava aposentado. Contou também que havia se divorciado e seus filhos não tinham mais contato com você. De vez em quando uma filha de Curitiba vinha lhe visitar. Fora isso era só você, sua aposentadoria e alguns serviços, os quais se tornavam cada vez mais escassos.

Confesso que cheguei a pensar que você achou que eu era bicha. Cheguei a pensar que você achou que eu conversava com você porque queria transar com você seja da forma que fosse. Mas apesar de ter pensado isso enquanto conversava com você, a cada palavra notava que de alguma forma eu poderia ajudar você e que não importava se você quisesse me comer ou quisesse que eu comesse você.

Se isso tivesse acontecido, aliás, eu não lembraria dessas palavras e minha vida talvez tivesse tomado um rumo completamente diferente. Quem sabe o mesmo ocorresse com a sua vida e existe até a possibilidade de que estivéssemos hoje morando juntos. Afinal, você me disse que gostava de literatura e eu sempre puxo conversa em bar com quem fala que gosta de literatura.

E como fui muito franco com você, talvez você não se deu por conta de que eu gosto é de mulheres e que homens não me interessam. Se um dia me interessarem, admitirei sem problemas. Mas hoje e naquele tempo, homens não me interessam a não ser para parcerias dentre cervejas e para amigos dentre conversas.

Porém, felizmente ou infelizmente, lembrando de você agora, vejo seus olhos cansados e amarelados por detrás dos óculos grossos, sua camisa azul-bebê amassada, o cigarro queimando seus dedos e a cerveja escorrendo água pela mesa da Brahma. Mas principalmente vejo você sugando aquela baba do canto da boca cigarro após cigarro.

Você me contou que fez muitas coisas erradas na vida e eu não lembro das coisas que você me contou. Mas lembro que você me contou que errou com seus filhos e com sua ex-mulher e que hoje se sentia completamente sozinho. Disse que de vez em quando pagava umas putas da Avenida Brasil e que isso era o máximo de amor que sentia. Além dessas putas, seu amor estava guardado nas fotografias.

O estranho é que não lembro se você falou que sentia algum arrependimento pelos seus erros. Lembro que você disse do seu apartamento empoeirado. Lembro da dúzia de cervejas que tomamos. Lembro que eu disse pra você ir pegar um Fernando Pessoa na Biblioteca Pública. Lembro da sua camisa azul-bebê e dos seus olhos cansados e amarelados. Mas não lembro de nenhum arrependimento em tudo que ouvi de você.

Como se passaram mais de cinco anos, talvez você nem esteja vivo e eu esteja inventando memórias. Talvez você tenha morrido e estas palavras se direcionem tão-somente ao nada, o que invariavelmente aconteceria, porque ainda que você esteja vivo, temos de convir que ler Fernando Pessoa não irá resolver nenhum problema seu. O que falei foi somente pra você deixar de se sentir sozinho e sentir que alguém já sentiu tudo aquilo que você sentia. Em cada cigarro e cerveja que compartilhamos, foi exatamente essa minha intenção. Se você percebeu isso, não sei. O que sei é que fui embora feliz naquela madrugada quase-manhã, pois pensei que havia ajudado alguém.

Mas é possível que alguém ajude alguém? É possível que tudo quanto falei para você tenha se perdido na ressaca que você teve? Chego a pensar que se você achou que eu era bicha, talvez tenha até se masturbado pensando em mim quando chegou em casa. Porém tenho de confessar que sua baba escorrendo pelo canto da boca era extremamente repulsiva e não sei como não vomitei ao ouvir aquilo chiado de lábios que não se continha cigarro após cigarro.

Hoje eu posso dizer que estou bem. Já quanto a você, não posso dizer nada. Lembro apenas que nossa conversa aconteceu em um Bar chamado Farroupilha em um mês de inverno de uns cinco anos atrás ou mais. Além disso, lembro que havia ido em uma festa no Clube Gaúcho e que estava um tanto exaltado por um Bukowski que havia lido há tarde. Mas o que me deixa tranqüilo é que eu não lhe indiquei Bukowski, mas sim Fernando Pessoa.

Ou será que isso foi um erro?

O Bukowski começa Hollywood com o seguinte parágrafo:

“Eu morava num conjunto de casas populares na Carlton Way, perto da Wersten. Tinha cinqüenta e oito anos e ainda tentava ser escritor profissional e vencer na vida apenas com a máquina de escrever. Iniciara esse curioso meio de vida aos cinqüenta anos. Mas não se pode viver sempre escrevendo, e havia muito espaço a preencher. Eu o preenchia com uísque, cerveja e mulheres. Acabei me enchendo da maioria das mulheres e me concentrei no uísque e na cerveja.”

Já o Pessoa começa Mensagem com o seguinte texto:

“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso.
Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e (a minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tornou o misticismo da nossa Raça.”

Em primeiro lugar, duas considerações: Fernando Pessoa era poeta e Bukowski era romancista, apesar de ter publicado alguma poesia.

Em segundo lugar, mais duas considerações: Fernando Pessoa era português e Bukowski era americano.

Em terceiro lugar, as últimas duas considerações: Mensagem do Pessoa não tem nada a ver com Hollywood do Bukowski.

Mas por qual motivo então essa duas obras me vêm às mãos quando lembro de você que sugava baba cigarro após cigarro e deixava a água escorrer do copo de cerveja na mesa da Brahma?

Talvez na verdade, enquanto você estava para o Bukowski que há tarde eu havia lido, eu estava para o Pessoa que toda noite lia e continuo lendo. Talvez enquanto você estava no amor das putas da Avenida Brasil, eu estava madrugando em algum livro ou escrevendo algum poema que jamais publicarei. Por isso é que talvez eu tenha feito um grande mal a você, porque a verdade é que tentei passar para você uma receita de mim.

Disse para você ler Pessoa. Disse para você não se sentir sozinho no mundo porque todos se sentiam sozinhos no mundo. E ouvi todas as suas histórias para esquecer de todas as suas histórias e lembrar apenas da repulsa que senti pela sua baba e pelos seus dedos queimados pelo cigarro.

Disse tanto para você, que hoje vejo que queria que você simplesmente tentasse compreender o mundo como eu compreendo. Queria apenas que você soubesse que as vozes estão por todas as partes e que se estamos sozinhos, ao menos nas ruas existem pessoas. Queria que alguém ouvisse alguns conselhos adolescentes e tivesse seus cinqüenta e poucos anos ouvindo os conselhos adolescentes de um Estudante de Direito. Queria que a lembrança do meu ego se transformasse no pó do seu apartamento e que talvez você até roubasse todos os livros do Fernando Pessoa da Biblioteca Pública.

E foi por conta disso que voltei feliz para casa, pensando que havia ajudado alguém, quando na verdade havia apenas falado do meu egoísmo, da minha falta de compreensão do outro e da minha extrema dificuldade em sair de mim ao tentar entender o outro.

Portanto, meu caro senhor, muito embora certamente você não lembre de mim, peço desculpas pelas minhas palavras. Peço desculpas pelos meus ouvidos e pela minha boca e até mesmo por você ter se aberto comigo da forma como se abriu. Talvez você tenha se enforcado no dia seguinte por culpa minha. Talvez sua vida tenha mudado completamente no dia seguinte por culpa minha. Mas fatos são fatos e o fato é que você certamente acordou de ressaca e apenas lembrou que um rapaz falou bastante do Fernando Pessoa em um Bar chamado Farroupilha e que isso foi tudo. O fato é que você certamente até pensou em ir na Biblioteca Pública, mas também pensou que um livro é apenas um livro e não uma pessoa, mesmo que eu desconfie que tenha prometido escrever um livro sobre sua história.

Se prometi, novamente peço desculpas, meu caro senhor, pois o máximo que escreverei sobre sua história serão essas frases que estão chegando ao fim. Talvez o futuro me traga algo, mas se eu for trabalhar somente com possibilidades, cairei na completa loucura. Afinal, talvez agora você esteja morto assim como eu agora esteja escrevendo.

E foi apenas aí que Pessoa e Bukowski ao mesmo tempo.

E por quê?

Porque as faces da solidão jamais podem ser sós. Sempre existem fotografias e apartamentos empoeirados. Sempre existe a angústia de ser e a saudade feita de pedra que jamais desmontará o passado. Sempre existe a engenharia do ontem construindo o prédio do hoje e os alicerces do amanhã. E sempre existem as mulheres que nos visitam nas memórias de camas e berços.

E o que sempre lembrarei, é que escorria uma baba pelo canto da sua boca e que você sugava essa baba cigarro após cigarro e eu sentia repulsa daquilo tudo e não compreendia você. Mas mesmo assim voltei para casa feliz. Até pensei que uma árvore seca pudesse ser o retrato do sol que nascia. Mas logo senti nojo de você e tudo se perdeu na decadência de mim. Restaram somente essas linhas. E minhas desculpas nada sinceras.