domingo, 23 de novembro de 2008

o poema é a raça de um tempo que não pode se dizer lógico.

goya.
o poema é a raça de um tempo que não pode se dizer lógico. por isso tanta centelha e tanto fogo de palha. mas quem haverá de ouvir proposição tão batida? o certo é que virarão as costas e continuarão escamando num eterno trocar de pele. no mais, só rastejarão e engolirão torrões em cada mangue ou cancha. é preciso jogar. por isso que insisto. porém, ao mesmo tempo que é preciso jogar, é preciso saber jogar. jogo sem regras inexiste. a vida tem regras: a linguagem tem regras. por mais que por vezes não saibamos quais são essas regras, existem marcos e marcas que regem tudo o que somos e por conseqüência fazemos. mas somos ao fazer ou fazemos ao ser? na realidade não interessa. o que vale é o que fica. e o que fica é o que é feito. se sentimos o vento de um modo ou as coisas que passam pela nossa frente de outro modo, isso é uma coisa. coisa bem diferente, entretanto, é o que iremos fazer com isso. podemos tão-somente sentir e nos isolarmos nesse invólucro sem nome que chamamos de pele, de olhos, de boca. podemos deixar que as coisas passem, que os carros passem, que as pessoas passem. porém, se existe um arrebatamento que nos leva para outro lado, seja o lado de cordas, seja o lado dos corpos, seja o lado das letras, esse sentir passa a ter conteúdo diferente porque passa a ter conteúdo criativo. dessa criatividade é que nasce aquilo que se entende por criação, a qual jamais irá se separar do criador. a criação, ao contrário, é uma extensão do criador que existe, porém, sem a presença do criador. contudo, se a criação existe sem a presença do criador, o criador está na criação na mesma proporção em que o sangue circula por nossas veias e aciona o coração. (e por qual motivo o coração pára? fica para a próxima: consultarei um vade mécum do corpo humano, prometo, apesar de não confiar na minha promessa.) o criador está na criação porque ela tem o seu suor, porque ela tem o seu querer, porque ela tem o seu amor. se isso vale alguma coisa, dependerá do resultado, dependerá do que foi sentido quando outros, estes completamente desconhecidos do criador (ou não), travaram contato com a criação. mas haverá criação ou possibilidade de criar? creio que sim. ainda que toda obra seja a realocação de alguns componentes básicos que estão presentes em toda criação, toda obra é única, isto porque o modo como estes componentes são alocados na mesma é que define sua identidade. dizer que inexiste possibilidade de criação porque desde sempre o mundo nós é dado de determinada forma, em determinado formato, é acreditar na obra com um senso de dois séculos atrás. é, enfim, acreditar na pureza. em sentido completamente oposto, porém, está a criação, porque a criação é a reorganização do que foi visto, sentido e vivido pelo criador, de modo que este criador pode ter várias influências, pode ter várias sensações para ver, sentir e criar, sendo que todas essas influências que confabulam sensações é que irão determinar a obra. a qualidade da obra, contudo, está para o modo como esse criador trabalha esse jorro, esse ímpeto, esse raio ou relâmpago que provoca a intenção da obra. dizer que existe uma arte gestual é bobagem, pois por mais que a arte seja gestual, a preparação é pré-existente ao próprio gesto, pois para movermos um braço temos que ter a intenção de mover o braço ou pelo menos um motivo externo para fazê-lo. desta maneira, nada acontece porque o gesto se fez obra e se fez tela ou texto. desta maneira, não há que se falar também que uma tela ou texto é a expressão de um gesto. ora, uma tela, um texto, uma película de cinema são recortes do impenetrável. e o que é impenetrável é o movimento. o movimento é impenetrável porque jamais poderemos tocá-lo, porque jamais poderemos sabê-lo fora dos limites da representação. o que vemos do movimento são apenas parcelas de movimento, são apenas fotografias recortadas de uma extensão que nossa percepção não pode alcançar. e nossa percepção não pode alcançar esta extensão porque ela é tão-somente energia. sim: o movimento é energia na medida em que anula o espaço para preenchê-lo com tempo. por isso que nossos sentidos jamais poderão tocá-lo de uma maneira que possibilite a sua compreensão. porém, a mínima noção que podemos ter desse movimento se coaduna na própria possibilidade de criar. se criamos, estamos intuindo o imponderável, estamos perscrutando o que ainda não foi descoberto, ainda que essa minha visão seja deveras afetada pelo bergson. se criamos, estamos entrando no movimento que nos atravessa para que dele algo se incuta em nosso senso e provoque a própria criação. por mais que essa criação seja apenas um fotograma da energia, uma parcela aprisionada do movimento, ela será a única forma de percebê-lo, ela será a única forma de saber da sua existência, pois é essa criação que partirá do silêncio, que partirá da própria possibilidade de dizer que provém desse movimento. e esse movimento é silencioso porque tem uma melodia que não é audível para nós, seres que somente percebem parcelas e jamais percebem o todo visto que o todo é movimento. contudo, podemos ao menos intuir o todo, podemos ao menos desconfiar que tudo é movimento e energia e abrange toda e qualquer parcela do que criamos ou percebemos de uma maneira que abarca todas as coisas existentes ou inexistentes, pois a mera possibilidade de ser já implica existência. e é essa intuição trabalhada pelo artesanato do criador, pela marcenaria do artista, pela implosão e explosão constante de sentimentos tornados conceitos, de sensações tornadas palavras, que redundará na própria criação. desta forma, talvez sempre tenhamos vivido em um tempo que não pode se dizer lógico, pois afinal sempre se fez poesia. (é essa constante atração/repulsão do que digo que me atrai. por isso escrevo dessa forma aqui. é algo físico: o texto é físico.) talvez a tentativa de legar logicidade àquilo que nossos antepassados viveram, seja tão-somente uma visão distorcida do que em realidade acontecia. se essa energia e esse movimento que nos atravessa e nos une em uma corrente eterna é imperscrutável, a realidade é que nunca houve uma teoria que pudesse abarcá-la, pois por mais que a logicizemos, o que acontecerá, o que se verá, será novamente um mero fotograma, uma mera amostra de uma realidade muito maior. desta maneira, dizer que as revoluções do passado não mais podem se realizar hoje em virtude da ilogicidade do nosso tempo que somente segue a lógica supra-sensível e/ou metafísica do capial, é apenas dizer que compreendemos o ontem pelo olhos do hoje porque sabemos os reflexos que esse ontem faz ou fez nesse hoje. o amanhã do nosso hoje não podemos saber porque vivemos nosso hoje. se vivemos nosso hoje, tudo quanto se dizer acerca do amanhã será futurologia sem lógica alguma, porque a própria lógica é fruto do tempo no qual se dá. até mesmo no campo fisiológico é assim, pois se hoje existe um exame que detecta a doença x, talvez amanhã exista um exame que simplesmente diga que a doença x na verdade é a doença y, o que faz com que tudo quanto se sabia caia por terra. e se cai por terra, também sai da terra, também sai do solo. e considerando que nosso solo é a finitude e a própria possibilidade de dizer essa finitude provém do movimento, da energia, é disto que nasce a própria possibilidade. por conseqüência, não há motivo para frustração no fim. a beleza do fim depende do credo. no fundo, o fim é o quanto acreditamos ou não no que fazemos. se acreditamos, mesmo que com aquela fé cega que a tantos mata, o resultado será um. se não acreditamos, o resultado será outro. a relação entre o fim e a crença é a freqüência do movimento, da energia que nos atravessa. e a conseqüência desta relação serão os resultados dos nossos atos. ainda que os signos do real sejam sempre os mesmos e os elementos com os quais trabalha o real possam ser condensados em uma tabela periódica, existe algo que ultrapassa o real que nos é palpável e nos une a todos: coisas, animais, vegetais, minerais. logo, todos tem uma espécie de consciência porque todos são atravessados por essa energia. a freqüência que essa energia toma ao nos atravessar é que dirá daquilo que somos. quem sabe isso esteja para o fato de algo ou alguém ter nos criado. mas prefiro acreditar que essa energia sempre existiu, pois o mistério do criador é melhor do que a certeza da criação. a criação é amostra. o criador é aquele que mostra. se a criação é amostra e o criador mostra esta amostra, melhor desfrutar de um ser que nos dá sensações ao revés de sentidos do que de um sentido que talvez nos privasse de todas as sensações. no fundo, é uma questão de escolha. apontamos nossos controles para o coração do nosso sol, para parafrasear o waters, e o resultado é o que somos. e mais: o que fazemos, por mais que atos por vezes mascarem vidas. por isso que sei que existe muito fogo de palha: porque poucos respeitam a criação. a maioria coloca o criador acima da criação, quando em realidade a equação demanda o contrário. por mais que a criação seja fruto do criador, o que vale é a criação e não o criador. o que vale é a representação da sua voz nos ouvidos do outro e não em como você ouve ou deixa de ouvir sua voz própria voz. o que valem são os olhos do outro por sobre seu texto. o que vale é o que você diz e faz, não o que você é. e mais além, o que vale é o que você diz com o que faz e faz com o que diz, pois são dessas relações que talvez provenha uma obra. essa obra, como já falava o leminski, não tem que ser prima: pode ser irmã, tia. e quanto maior for a ordem de parentesco, melhor, pois uma obraesposa (assim sem hífen mesmo, sem barra mesmo) seria o cúmulo da insistência de representar o amor em algo criado: o antinatural no que nos é natural porque somos cultura e letras e signos. porém, o objetivo principal da obra é ser apenas obra, sem hífen ou família, isto porque a família da obra é o próprio universo. logo, que comam torrões de terra esses que colocam o criador acima da obra. é necessário que seja assim. se todos os sonetos fossem publicados, o mundo seria insuportável como um rapper. e sei que sou preconceituoso sim ao falar isso, mas se o preconceito é um pré-conceito, que assim seja, porque ao menos um dia posso mudar de idéia assim como quem troca de pele. por isso que é preciso jogar mesmo que as regras do jogo se dêem no próprio jogar. por isso que é preciso estar atento e dar alento àquilo que do mundo nos chega. pois nós estamos no mundo: pois nós fazemos o nosso mundo ao passo que esse mundo nos faz. e é isso que faz o poema ser esta raça que tão má-qualidade no mais das vezes tem hoje: o ego sobrepuja a criação e faz com que o criador tenha o protagonismo que deveria ser da obra. e isso é puro hedonismo. ora, poesia não é diversão. poesia é algo sério. sério demais para mim, talvez. poesia não é usar drogas ou ler filosofia. poesia é o contrário do que se pensa. poesia é o não-dito. poesia é a irresponsabilidade de dizer o que não pode ser dito. o poeta é um ilusionista. ou melhor: o poeta é um mágico. ou melhorando: o poeta é um alquimista. e sim: rimbaud estava certo, porque o que o criador faz é transformar e transformar sempre, mesmo que o objetivo não seja o ouro, mas sim o outro. e somente quando reconhecermos que é esse o objetivo de toda arte e de nós próprios, é que faremos obras sem a arrogância daquilo que somos ou acreditamos ser, pois a nossa melhor parte sempre está naquilo que calamos ao falar, naquilo que velamos ao mostar, naquilo que damos ao negar e naquilo que negamos ao dar. dessa contradição é que provém a obra. desse paradoxo é que provém a vida, pois é da vontade de sermos um que nascem nossos filhos. e se fosse diferente, não seria humano, porque somos estrangeiros em um tempo que está nos caçando na forma de espaço. afinal, temos corpo. restará, quando muito, alguma poesia. e este é o meu credo, pois é preciso jogar, ainda que a lógica do jogo se dê na frequência do relógio-mor que palpita no coração da coisa, no seio do ser - no movimento, no passar das cartas, no blefe de um simples texto que é puro movimento, tempo por sobre espaço, motivo tornado fundamento para dizer o que diz.

nunca houve nada de sério na minha vida.

pollock.
nunca houve nada de sério na minha vida. acho até que só sou sério ao escrever e às vezes ao falar. e ainda depende do que escrevo e falo. o que talvez não seja bom, porque afinal eu vivo disso. mas fato é que me vejo em palavras. por vezes sonho e sinto em discurso. quando me dou por conta, teço mil universos onde a razão inexiste. somente a palavra: a minha palavra demiurga, ditadora. no mais, vou levando aos trancos. dinheiro arrumo. amigos tenho. contas atraso mas pago. e falando em pagar contas, descumpri uma promessa que fiz de escrever neste espaço nos sábados, nos domingos e nas segundas, sendo que segunda passada nenhuma palavra minha por cá surgiu. e pra falar a verdade, mesmo hoje estou descumprindo com minhas palavras, uma vez que são quatro e pouco da manhã e portanto é domingo, apesar de na minha cabeça ainda ser sábado. nunca gostei dessa insistência em dizer que o dia começa antes de amanhecer. pra mim, as datas do calendário só mudam ao raiar do sol. o que acontece antes é o dia anterior. ou seja: hoje pra mim é sábado. logo, não estou em dívidas para com minha promessa, já que se eu escrever amanhã durante o dia, enquanto houver sol ou enquanto ainda não houver amanhecido a segunda, ainda será domingo. e pra essa contagem sigo tão-somente o calendário do que sinto. mas o que sinto? acho que o tempo dedetiza a vida. o tempo faz com que sigamos ratos rastejando em bueiros. o tempo nos guia por tantas ruas, por tantas esquinas, que tudo se esvai em uma calha imensa. resta saber no telhado de qual casa está esta calha. porém, tudo pode acontecer em um só momento, isto no sentido de que ao tempo em que passamos na rua, a calha escoa água ou éter em nossa cabeça e dilui nosso corpo, fazendo com que o mesmo não rasteje, mas escoe, simplesmente escoe nos bueiros. se passar por ratos, nem ratos serão, já que nomes não existirão. com as baratas acontecerá o mesmo. mas o que acontecerá conosco ao nos esvairmos de todos os signos? o que acontecerá com nossa razão ou com nossa percepção do mundo quando nenhum juízo matemático ou geométrico nos sobrar? ainda existiremos? é nisso que penso ao dizer que o tempo dedetiza a vida como se estivesse atrás de uma praga. o tempo é aquele que nos pega pelos cabelos quando estamos quase chegando no infinito. o tempo é o relógio que desperta, é a mulher que reclama, é a vida que corre e que escorre sem que você perceba. se tudo é uma questão de tempo, quem perde é o espaço. se tudo é uma questão de tempo, uma verdade somente é verdade enquanto transcorre em um determinado espaço de tempo. logo, o espaço resta subsumido ao tempo, de modo que o próprio tempo acaba por anular o espaço. dizer isso novamente me remete a borges. pensar no infinito e no finito sempre me remete a borges. li em algum ensaio seu que se o universo fosse apenas tempo, sua matéria principal seria a música. pra falar a verdade não sei se foi bem isso que ele falou, mas sinto o que estou lembrando com estas palavras. lembrar ou inventar isso me faz pensar em qual seria o som do nosso tempo. certamente que não seria algo ao feitio de mozart. no máximo estaria perto de um stravinsky, e isto pra ficar nos clássicos. mas acho que mesmo assim seria algo um tanto atrasado demais aquela coisa meio dada do stravinsky. correndo um pouco mais as décadas, eu poderia dizer que nosso tempo é punk rock, que nosso tempo é grunge ou rave. mas nada disso soa como o tempo que sinto. o tempo que sinto soa como o estalar da minha coluna que repentinamente se cansa de estar torta e procura um ângulo reto. o tempo que sinto soa como meus dedos por sobre o teclado, como meu estômago que ronca. tudo isso que soa de mim, soa como o tempo que sinto. os nervos que no pescoço estalam, a garganta que engole saliva, tudo isso canta, tudo isso dá ecos ao tempo que sinto e me faz perceber que estou vivo. dizer que o tempo dedetiza a vida está correto sim, por mais que isso aparentemente dê à vida o condão de uma praga. mas e por quê ser uma praga estaria errado? o que é uma praga? praga me lembra algo que se propaga. e se praga me lembra algo que se propaga, é esse o significado que adotarei. se praga me lembra algo que se propaga, o tempo é aquele que corre atrás dessa praga, que joga ddt nessa praga, que faz com que a mesma pare e diga que nunca mais vai voltar a ser vida. isso me recorda música sertaneja. mas não quero entrar no mérito. fato é que sentei aqui pensando que iria escrever algo interessante. e se tais palavras são interessantes, não tenho a menor noção. o discurso na verdade é como uma loteria, ainda mais quando você não pretende ter controle sobre ele. as coisas vão saindo e depois, caso você pretenda organizá-las, apenas dá uma aparada aqui e ali e pronto. e se existe algum leitor deste espaço, certamente ele já deve estar puto comigo por conta do modo como os textos estão dispostos. entretanto, isso é deliberado e sim!, eu tenho a intenção de dificultar a leitura. talvez com o tempo mude de opinião e mude o formato da disposição dos textos. porém por ora fica assim mesmo. essa coisa de ler também sempre me soou relativa. andar pelas ruas e ver as pessoas andando pelas ruas também é uma forma de ler. a arte se encontra na delimitação do tema, por mais que isso soe científico demais. e somente quando o artista consegue delimitar o tema é que a coisa engrena. caso contrário fica como esse texto: começa daqui, puxa dali, e no fim, por mais que eu saiba que irá retornar ao começo, já que isso sempre acontece por mais que eu não queira, não chega a lugar algum. porém, chegamos a algum lugar com nossa vida? saímos do ventre materno. o médico nos pega e nos bate na bunda. choramos. logo depois umas luzes fluorescentes e umas enfermeiras com máscaras nos pegam. (estaria aí o motivo da tara de tantos homens por enfermeiras?) apenas uma meia-hora depois nos levam pros braços da nossa mãe. lá é que olharemos pros olhos dela e supostamente, segundo ouvi uma vez, formaremos nossa personalidade. mas o que isso quer dizer? porra!, se antes as enfermeiras já nos olharam, a realidade é que nossa personalidade se formou no susto que tomamos com o tapa do médico na nossa bunda e com aquelas mulheres de máscara! não me venham com besteiras! logo, nossa personalidade se forma pelo medo e com o medo por conta do estranhamento. e é esse medo e esse estranhamento que irão guiar toda nossa vida. quando acharmos alguém para amar, isso será estranho. iremos primeiramente estranhar aquele sentimento, aquele tremor, aquele revirar de olhos ao sentir o cheiro daquela mulher. talvez possamos até mesmo nos casar, talvez possamos até mesmo morar com essa mulher, e com o tempo quem sabe as coisas se tornem complicadas, já que não tem graça relacionamento sem briga. que graça teria um romance perfeito, daqueles de eu te amo pra cá e eu te amo pra lá toda hora? isso parece coisa dessas guriazinhas que ficam dizendo que amam as amigas. raios!, quem é que sabe o que é o amor? ninguém sabe e nunca vai saber. uma vez eu disse que o amor é anti-natural. e acho que isso é assim mesmo. e por quê o amor é anti-natural? porque o amor tende a uma unidade que a própria física não permite. se o amor tende a uma unidade que a própria física não permite, ao passo que o amor é anti-natural, nós somos, pelo menos biologicamente, naturais. porém, podemos modificar nosso corpo. podemos colocar silicone, botox, piercing. logo, nem nosso corpo é natural porque nosso corpo pode sofrer intervenções. e se estas intervenções podem modificar o nosso sentido físico para conosco e para com os outros, nosso corpo deixa de ser natural, porque passa a ter um caráter cultural, o que me leva a crer que toda a criação é cultura e que ao mesmo tempo toda criação é impossível. o único processo criativo que existe é o processo do jorro. o resto é trabalho de marceneiro. e o jorro, coisa sexual mesmo, acontece só de vez em quando. não existe essa coisa de encher a cara de drogas ou álcool e sair fazendo obras-primas ou irmãs. isso é coisa de abobado. só quem se dedica ao trabalho de marceneiro pós-jorro é que pode fazer algo que preste. do contrário, porcaria sai, o que talvez se aplique a isto que estou escrevendo. contudo, como sou eu que escrevo, me faço cafetão de mim mesmo, me faço eterna prostituta. só não quero morrer antes do tempo certo de ter gastrite, apesar do meu estômago ainda (ou já) doer (hoje por conta do café). me suicidar sei que não vou, pois quem quer fazer isso nem escreve isso. excluam o kurt cobain desse baile, porque ele já é outra coisa que não sei como falar, porque o bom mesmo é perder os limites e assim ir vivendo e não reconhecendo o próprio garrancho por vezes. o poeta, afinal, é um irresponsável. porém eu sou poesia e por isso não me sujeito, já que sou apenas verbo, o que faz com que tudo mude. e realmente nunca houve algo sério em minha vida. e pra completar o quadro, quero perder a seriedade até mesmo ao escrever, porque na verdade só levamos à sério aquilo no que não acreditamos. é uma fuga. resta saber do quê, porque pra onde já seria pedir demais.


domingo, 16 de novembro de 2008

um gosto de cerveja me desce pela garganta.

jan steen.
um gosto de cerveja me desce pela garganta. minha língua também tem gosto de cerveja. fazendo com que ela cruze por sobre meus dentes sinto que até mesmo eles tem gosto de cerveja. ouço um ônibus cruzar na rua e sinto um vento agradável de domingo me bater no rosto. aliás, dizer que o vento me bate no rosto é forte demais. mais valeria dizer que o vento acaricia meu rosto. porém, dizer que o vento acaricia meu rosto é meigo demais no sentido de que beira a homossexualidade. logo, prefiro dizer que existe um vento que chega no meu rosto através da janela aberta. pronto. assim tudo fica metódico e quase sistemático como a descrição de um produto eletrônico. mas alguém entende a descrição de um produto eletrônico? existem aqueles manuais que para os incautos de vez em quando servem. mas quando os caras começam a utilizar siglas demais, letras e números desconectados das palavras às quais estas letras e números apontam, já começo a ficar tonto e ligo para um técnico. certamente o técnico, ao chegar no meu apartamento para ajeitar a parabólica ou o dvd ou o computador, daria risada da minha cara se fosse sincero. deve pensar tu é um baita burro! quando exponho meu problema pra ele. contudo, como certamente irá me cobrar uns belos cinqüenta reais para resolver meu problema, fica com uma cara de seriedade de criança no vaso e demora algum tempo, coisa de uns vinte minutos, pra consertar um problema que resolveria em não mais que cinco se fosse levar as coisas verdadeiramente à sério. entretanto, como no seu trabalho se ele levar as coisas verdadeiramente à sério ele perde clientes e por conseqüência dinheiro, fica brincando com uns fiozinhos que conhece há décadas até que grita um achei! e me fala que tudo está resolvido. até entendo essa posição do técnico em eletrônica, frisando aqui que esse termo sempre me soou inefável. para sermos francos, o que é eletrônica? eletrônica pode ser várias coisas que tem a ver com coisas que lidam com eletricidade para funcionar. e como estou com preguiça de visar o dicionário para dar embasamento a estas palavras que agora se fazem texto neste pequeno comentário que faço acerca daquilo que vejo, fico com essa rasa conceituação. entretanto, se o técnico tem que demonstrar seriedade para ter credibilidade e por conta disso passar uma imagem social de profissional, vejo que todos os supostos profissionais também são assim. se um cliente chega no escritório de um advogado querendo se aposentar, por mais que o advogado, averiguando os documentos do cliente veja que este facilmente alcançará a aposentação, ele irá fazer uma cara feia e dizer para o cliente que o processo será difícil e que administrativamente certamente não será resolvido. por conseqüência, o cliente, digamos que um homem do campo, daqueles desdentados e fedendo à cigarro de um real, fará olhos de alerta como que defronte a um pastor alemão nazista e irá perguntar pro advogado se isso não teria perigo algum. o advogado, homem educado, acostumado com os clientes que julgam que um código civil é algo semelhante a bíblia, dirá que não haverá perigo algum e que o cliente certamente até mesmo terá assistência judiciária gratuita. entretanto, quando o cliente pergunta se isso queria dizer que ele não precisaria pagar nada, o advogado entra em um juridiquês tremendo e fala que a gratuidade da justiça tem a ver com os expedientes cartoriais e demais diligências que são da alçada da magistratura, a qual, investida da devida jurisdição, tem um aparato organizacional para que os processos que chegam aos milhares nas mesas dos juízes, que tem de estudar mais de quinze anos para enfim serem juízes!, coisa parecida com bispos, serem julgados e terem uma sentença que será publicada no local de costume, considerando, ainda, que é esta magistratura que cobra custas daqueles que podem pagar e não cobra daqueles que não podem pagar. contudo, percebendo que o cliente nada entendeu, já que continua com aquele olhar aparvalhado de quem acabou de assistir uma missa em latim, o advogado resume que ele não vai ter que pagar as custas do fórum, dos capas-pretas, mas que as custas do advogado, ou seja, do serviço que o advogado irá prestar, ele terá que pagar sim, sendo que para isso terá de assinar um contrato. quando o advogado puxa o contrato, o sujeito olha praquelas cinco laudas e não entende bulhufas. mas diante das explicações largas do advogado ao chamar um cafezinho pra secretaria de mini-saia, que agora até sai daquele discurso da dificuldade processual pra dizer que o processo, isso nos veios judiciais, é praticamente ganho, o zé (digamos que o cliente se chama zé e tem apenas dois centro-avantes (e não sei se existe este hífem nesta palavra) na boca) acaba assinando muito feliz as cinco laudas do contrato, a procuração e até mesmo a declaração de hipossuficiência, o que o zé não entendeu direito mas sabia que tinha a ver com o fato de ele não precisar pagar as custas da justiça. neste sentido, desconfio que o advogado e o técnico em eletrônica tenham muito a ver. por que você procura um técnico em eletrônica? para resolver um problema praticamente inefável que surge em algum aparelho da sua casa que a tempestade da semana passada não queimou. por que você procura um advogado? para resolver um problema praticamente inefável que surge por conta do fato de que você soltou uns cheques frios, eles voltaram, os cobradores estão batendo na porta com uma orquestra chuvosa de fevereiro e você não sabe mais o que fazer. há de se dizer que existe muita semelhança entre as duas profissões pelo menos no âmbito dos pepinos que ambas tem de descascar. entretanto, existe também muita desemelhança entre ambas. pra começar, podem até existir advogados técnicos, daqueles que pegam uma tabela de impostos do lado da declaração de imposto de renda de uma empresa e sabem de cara o que o cliente está pagando pra mais. porém, indo mais e mais fundo na legislação que fez com que aquela tabela e aquela declaração de imposto de renda existam, o advogado vai acabar caindo lá naquele conto do borges da loteria da babilônia. ora, se indo mais e mais fundo naquilo que propiciou o próprio governo cobrar do empresário tal imposto em tal ano o advogado ainda assim for considerado um técnico, temos de internar em um hospício especializado para esquizofrênicos aquele sujeito que deu tal diagnóstico, e por conta disso boa parte das pessoas que ensinam direito nesse nosso país. nesse ponto é que digo que não existem operadores do direito. quem opera são operários, e por mais que existam advogados em escritórios por aí que tenham salários de operários, nós que trabalhamos com o direito não somos operários. ao contrário, nós somos no direito e somos do direito, e sendo no direito e do direito, podemos dialogar tranquilamente com todos os ramos do saber, o que faz com que muitos desses seres que estudam leis creiam que podem falar sobre tudo aquilo que não entendem como se fosse uma descoberta feita tão-somente a partir do seu discurso. porém, em que pese existirem esses defeitos, o advogado não é apenas um técnico ainda que execute trabalhos técnicos. contabilizar notas de expediente, fazer grades de clientes, traçar metas e coisa e tal é coisa muito chata, concordo, e por isso técnica. porém, caso sua atividade seja levada ao âmago da mesma, o que teremos não é uma tecnicidade em si, mas sim pura filosofia. e por quê? lembremos da história. dizem por aí que foram os romanos aqueles que mais contribuíram para o direito. discordo disso em parte. e discordo disso em parte porque na realidade os romanos apenas sistematizaram o excedente do pensamento grego que, apesar de apontar para termos muito conhecidos mas pouco utilizados por nós atualmente, como ética e política e até mesmo justiça, era deveras inefável. inefável porque os pensadores gregos passavam o dia pensando e tomando uma bebida da qual não lembro o nome, sendo que não sei se era vinho ou cerveja, e tendo lá suas relações com mancebos e prostitutas sagradas aqui e ali. desta maneira, é impossível não pensar de maneira inefável. é algo como você viver na finlândia, ter um bom salário e boas perspectivas de crescimento na sua vida profissional, e mesmo assim se sentir deprimido com a questão da finitude. ora, trazendo isso para as quadras que existem ao meu redor, já que hoje vim almoçar na casa dos meus pais, é algo que não procede. reconheço que por essas bandas existem pessoas que andam pra lá de deprimidas. entretanto, essa depressão é mais por falta de carinho do que por falta de sentido para a finitude da existência. e pra ser mais franco, é mais por falta de grana do que por tudo isso, porque se falta carinho de outra pessoa, e aqui estou falando de carinho sexual, ao menos mãos e dedos existem, dependendo, é claro, de a qual sexo eu esteja me referindo. mas como prefiro que minha definição seja assim meio andrógina, meio david bowie, as coisas ficam por aí mesmo. mas voltando aos romanos, o que acontece é que estes roubaram tudo aquilo que os gregos haviam produzido em termos filosóficos e trouxeram para o plano da faticidade, para o plano dos fatos. desta maneira, a abstração do pensamento grego, ainda que o aristóteles dissesse aquela história de natureza que até hoje nós usamos ao dizer que fulano nasceu pra chefe e cicrano nasceu pra peão, foi levada para a praticidade do pensamento romano, o qual se preocupava com o agora, o que eu acho que tem a ver com o fato de tantos imperadores terem uma tara voraz por irmãs, sobrinhas, mães e afins. existem alguns relatos que referem camelos e anões, mas nisso eu não acredito, porque aí já seria demais pro meu gosto e acho que até pro gosto deles. mas dentro disso tudo, o que os romanos fizeram foi pegar o que os gregos falaram, distorcer tudo aquilo e limpar a abstração das pedras de platão para que esta mesma abstração ganhasse status na vida de cada cidadão do império, isto para que este império se estendesse mais e mais, chegando a abarcar, como é do nosso conhecimento desde a sétima série caso não tenhamos gaziado essa aula pra ir jogar futebol, todo mundo conhecido da época. e é aí que engrossa o dedão, como escreveu um grande amigo em uma dissertação no segundo ano da faculdade. engrossa o dedão nesse sentido porque estamos falando de um direito que chegou até nós e acabou por redundar em todo esse aparato estatal insuportável, que tem raízes lá atrás, lá nos idos de não sei quando, apesar de sabermos brevemente qual é o aonde desse quando. se este aparato estatal tem origem lá atrás, lá nos idos de não sei quando, o fato é que a realidade da tabela de impostos que o advogado terá que averiguar ao lado da declaração de imposto de renda de uma empresa qualquer será conseqüência, mesmo que longínqua, de tudo aquilo que ocorreu séculos atrás. neste sentido, quanta putaria existe por detrás de um código! quantos incestos não tiveram que acontecer pra que um dia alguém parasse e dissesse: péra aí, isso é interditado, é como a 285 lá pros lados do pará, se andar quebra e morre! e nisso, um tempo depois, surge o freud e diz do édipo e de toda essa coisa que no final das contas tem a ver novamente com gregos. aliás, me indigno com isso. ontem estava lendo uma história (ou estória, como queiram, já que eu acho que a mitologia merece o H muito mais do que qualquer biografia) que me impressionou. no início era o caos, segundo a mitologia grega, sendo que então surgiram gaia, a terra, e urano, o céu. acontece que urano sempre deitava em cima de gaia em um coito sexual cósmico, o que deve soar bonito para algum emaconhado. e de tanto deitar em cima de gaia e penetrá-la, a dita acabou engravidando. só que como o peso de urano era grande demais, os filhos de gaia ficavam presos dentro do ventre da mesma. revoltada com isso, querendo que seus filhos ganhassem ares, gaia forjou uma foice para crono, filho que estava lá embodocado no ventre de gaia, e este, quando urano foi se debruçar sobre o ventre da mãe com os olhos babando de tara, cortou as partes sexuais do pai, que desde então nunca mais pôde penetrar ninguém (o que, pelo tamanho dele, este presumido, claro, até que foi legal). só que desta castração surgiu uma coisa complicada, porque desta castração surgiu o que chamamos de identidade. surgiu o que nós chamamos de identidade, porque a partir daquele momento os seres deixaram de existir em uma unidade gaia/urano, terra/céu, para existirem, então, entre gaia/urano, entre terra/céu. desta forma, ocorreu a individualização dos filhos de gaia, cujo primeiro, não por acaso, foi crono. e como crono é aquele que diz do tempo, talvez essa seja a primeira dimensão que nos é apresentada enquanto humanos. porém, se o tempo é a primeira dimensão que nós é apresentada enquanto humanos, desde quando somos humanos? a pergunta se torna mais e mais difícil. alguns podem até dizer que dentro dos testículos dos nossos pais já somos humanos. porém eu não descarto a hipótese de que, se isso for verdade, nós sejamos, como disse o oliver stone lá no início da década de noventa, assassinos por natureza, já que seria plenamente normal matar os espermatozóides semelhantes que quisessem também o paraíso do útero. e ao pensar nisso outra coisa me ocorre na cabeça: não seria essa coisa de paraíso ao qual todos os povos querem encontrar algum dia justamente a saudade do útero ou a perda da unidade entre mãe/filho, entre gaia/urano, entre terra/céu, que se dava quando ambos habitavam o mesmo corpo? não saberia dizer. talvez isso encontre um bom paralelo com o fato de que logo acima falei que crono decepou os órgãos sexuais de urano e por conta disso criou indivíduos. mas a questão da individualização é muito mais profunda, porque, afinal, crono comeu todos os seus irmãos com medo de que estes tomassem seu lugar. em realidade, apenas nos tornamos indivíduos no momento em que nos conhecemos. nosso conhecimento é eterno mas finito, porque circunscrito no lapso de tempo no qual estamos vivos. sendo um conhecimento eterno mas finito, o que irá dizer se nos conhecemos ou não é tão-somente o modo como nos damos a conhecer a nós e aos outros. porém, a maior parte das pessoas morre sem se conhecer. se não sabemos como e porquê sentimos tal emoção, de que adianta sentir tal emoção? se não sabemos qual o motivo de ter ressaca, de que adianta o martírio pós-trago? nada disso faz sentido ou talvez faça sentido para aqueles que querem mais sentir que pensar. mas como eu faço parte de um outro time, um time que quer sentir e pensar ao mesmo tempo, fazendo com que o pensamento venha do sentimento assim como o movimento vem daquilo que está parado, não concordo com essa visão. concordo, outrossim, com aqueles que dizem que o coração tem neurônios. aliás, descobrir que os intestinos têm neurônios há alguns meses atrás praticamente me chocou. se os intestinos tem neurônios e geralmente são regulares, pelo menos os meus, o certo é que o pênis é um retardado desses de amarrar em jaula, já que aponta pra tudo quanto é lado deixando você zonzo de tesão. mas não reclamo, uma vez que este é o preço que se paga por ser homem. ser mulher, ao contrário, deve ser muito mais difícil. ouvi falar uma vez que nunca se pode confiar em um ser que sangra sete dias por semana todos os meses do ano e ainda assim demora pacas pra morrer. e concordo plenamente com isso. ocorre que quando o componente daquilo que chamam de amor entra em cena, seja lá o que isso for ou o que isso quer dizer, a coisa muda completamente de figura. muda porque o carinho, o toque nos pés, as mãos nos cabelos, o beijo preguiçoso, faz com que tudo isso tenha cheiro de amor, tenha cheiro de uma relação que transcende os limites do simples sexo, que é, aliás, algo como ser funcionário público caso encarado no sentido maquinal da palavra. se um sujeito é todos os dias uma máquina sexual, há algo de errado com ele. quanto a mim, prefiro essa coisa lassa, essa coisa meio baiana, para tudo aquilo que é sexo e se relaciona com o sexo. não me vale uma rapidinha se esta rapidinha não me deixar dormir sentindo o cheiro do pescoço da mulher. não me vale um ambiente bizarro se este ambiente bizarro não vai me deixar beijar as costas da mulher. sou simples pra essas coisas e acho que o amor também é algo simples nessas coisas, apesar de essas coisas, para acontecerem, terem de ser subsumidas, sem a menor dúvida, a um milagre. e por quê? porque encontrar uma pessoa que você ama dentre seis bilhões de pessoas na face da terra é um milagre, e quando eu falo em milagre não estou falando de deus mas sim apenas de milagre. porém, milagre aponta para algo maior que aponta para algo que é capaz de realizar algo maior. em último grau nesse pelotão de super-homens, teríamos deus, mas prefiro sonegar esta explicação e ficar só com o milagre mesmo, cartesianamente falando. nesse sentido não me importa a teia de significações das palavras e dos termos. nesta maré, não me importa aquilo que vejo ou aquilo que toca minha pele. importa, por outro lado, aquilo que sinto nos lábios daquela que amo, aquilo que me faz ter certos arrepios quando aquela que amo me toca, aquilo que me traz uma tristeza estranha no pós-discussão no qual sempre perco. o fato é que os homens são insuportáveis e as mulheres também, e a saída para a alegria é a bissexualidade. mas como não sou tão evoluído assim, fico com minha primitiva heterossexualidade, a qual tem dado conta das minhas dopaminas desde meus anos adolescentes (aliás, desde os meus cinco anos, isto por conta de uma memória que agora me ocorreu mas que convém não comentar). neste sentido é que não acredito em técnicos. ninguém é técnico de nada. como dizia o pessoa, aliás, camarada pode ser técnico mas louco em tudo o mais, e com pleno direito a sê-lo. afinal das contas, até mesmo o técnico em eletrônica tem uma esposa e talvez uma amante, o que torna sua vida muito mais interessante, pois como dizia o poeta daquela bandinha, sempre é bom uma misturinha. se eu fosse um escritor desses da lavra do chamado realismo, isso muito me interessaria. mas como atualmente nem sei se sou escritor pois sei apenas que escrevo, prefiro me filiar na escola da minha palavra à prestar reverências a algo que em nada tem a ver comigo. e dentro de todo este contexto, o que concluo é que para escrever, o escritor, mesmo insciente do que é, em crise existencial, tem de saber o que quer escrever. caso contrário fará que nem o vinícius de morais, o qual, e que me perdoem os saudosistas, lia suas poesias como quem lê uma bula de remédio. e isso sempre com um whisky, o cachorro engarrafado, ao lado, o que talvez fosse uma tentativa de fazer com que aquele amor soubesse que jamais estaria em outro lugar que não no seu fígado e nos seus pulmões tendo por conseqüência a sua morte, como um prometeu que nada prometeu além de sentir e viver, o que de modo algum tira a qualidade das elegias do morais. por isso que sinto que ao ficar mais de meia-hora sem tomar cerveja, o gosto da mesma de doce passa para amargo. por que esse martírio? deve ser pra beber mais, pois ao menos assim o processo de criação, nem que seja de anos à menos na minha vida, se dá de maneira mais eficaz para que minha língua novamente possa lamber dentes com gosto de cerveja.


sábado, 15 de novembro de 2008

são cinco e vinte da tarde e venta lá fora.

iberê camargo.
são cinco e vinte da tarde e venta lá fora. aqui dentro tenho o ventilador ligado aos meus pés justamente por conta do sol que faz as cortinas da biblioteca terem uma cor de abajur barato. não sei o que isso quer dizer e talvez até me remeta àquele clássico do abajur cor de carne e lençol azul. mas isso seria associação demais para o meu gosto, ainda que de associações sem fim meu pensamento seja feito. logo ao lado do teclado existe uma pequena garrafa d'água. a água está morna mas eu gosto dela assim. ouço ali da sala o som da televisão em algum jogo de futebol. me parece que os narradores apenas olham o jogo que narram em outra televisão para me passar a sua visão na minha televisão. enfim, de uma representação que têm em sua frente, fazem com que surja outra representação e assim por diante, já que o próprio fato de eu estar escrevendo sobre isso agora implica em uma representação diversa daquela que ouço. em realidade, o fato de eu entrar em contato com essa realidade representativa que ao meu pensamento se desloca, implica no fato de que sobre essa realidade representativa eu posiciono a minha intenção para criar a minha própria representação da realidade. neste sentido, se existe uma representação da realidade sendo vista por aqueles que transmitem o jogo a partir do jogo que vêem em outra televisão, existe também uma representação da realidade que é feita por conta do fato de que eu ouço aqui da biblioteca a televisão ligada transmitindo essa partida de futebol. entretanto, se para mim existe uma representação específica dessa realidade, entendo que para os outros que estão nos apartamentos ao lado e mesmo para a minha namorada que está deitada no puff da sala assistindo esse jogo, existam outras representações da realidade. consequentemente, ainda que a matriz que proporciona a representação única de cada um com relação à realidade seja o jogo de futebol que está acontecendo, digamos, na europa, as realidades que emanam dessa matriz são diversas, de modo que para cada um que entra em contato com ela existe uma realidade. contudo, se para cada um que entra em contato com essa matriz específica existe uma realidade, considerando-se que a matriz específica nem é aqui tocada, já que se fala de uma espécie de jogo de espelhos no qual a própria matriz se perde, uma vez que até no cenário onde o jogo se dá existem variadas representações da realidade, tem de existir algo que propicie a própria comunicação entre as pessoas que entram em contato com essa representação da realidade. aliás, isso tem que existir até pelo fato de que se não existisse, nem mesmo a possibilidade de conhecimento seria possível. neste sentido, para que eu fale de uma representação da realidade que me chega aos ouvidos nesta representação da realidade que agora crio em forma de texto, é necessário que exista um padrão mínimo de comunicação entre os próprios espelhos envolvidos nesse jogo. esse padrão, considerando-se que tenho representação sobre representação, fazendo com que a própria matriz daquilo que é representado se perca, é a linguagem. logo, o que propicia o intercâmbio entre essas diversas realidades que são diferentes de pessoa para pessoa são os caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação. porém, a organização dos caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação variam no tempo e no espaço, levando-se em conta também que variam na forma. não fosse isso, não haveria porquê existirem vários alfabetos ao redor do mundo, sendo que se um brasileiro pegar um texto russo, por exemplo, irá ver mais representações figurativas de expressões verbais do que propriamente letras. entretanto, tendo o conhecimento de que são efetivamente letras faladas por um povo que se utiliza de uma representação gráfica diferente da dele, este brasileiro irá intuir que são efetivamente letras, que são efetivamente uma forma de comunicação gráfica, de modo que isso apenas se dá porque esse sujeito tem o conhecimento de que em um outro lugar do planeta, outras pessoas usam um alfabeto completamente diferente do dele. dentro deste âmbito, pode-se falar até mesmo das reformas ortográficas que são feitas na língua portuguesa. anteontem lia um correio do povo que continha uma fac-símile de uma página do jornal do início do século XX. nesta fac-símile, o modo como os caracteres do nosso alfabeto se organizavam era diverso, ainda que pudesse ser entendido por mim. neste sentido, por conta da similitude da combinação das letras eu pude intuir o significado e o sentido das palavras, ainda que este significado e este sentido das palavras seja único para mim. e por quê? admitindo-se que o significado de uma expressão está subsumido ao contexto no qual esta expressão repousa, o que teremos é uma expressão apontando para a outra de maneira infinita. logo, é da trama de expressões que apontam uma para a outra de maneira infinita que o próprio significado surge. entretanto, partindo do pressuposto de que várias pessoas irão ler este texto, pode-se dizer que várias pessoas irão intuir um sentido diverso desse texto, isso porque no mais das vezes sua educação, e aqui tomando por base o sistema cartesiano que existe em todas as escolas do mundo, praticamente, converge mais para as partes do que para o todo, obnubilando a própria noção de trama lingüística. convergindo mais para as partes do que para o todo, ainda que se admita aqui que o significado de cada expressão é subsumido ao significado de outra expressão, o sentido da trama que propicia o sentido das próprias expressões dificilmente será visto, sendo que ainda que percebido, este sentido será diverso de pessoa para pessoa. desta forma, pode-se corrigir o que foi acima dito no sentido de que no texto repousa o significado e na pessoa que entra em contato com o texto repousa a significância, que consiste justamente no efeito que este significado provoca na pessoa. mas levando a questão mais profundamente, chegaremos à constatação de que o próprio texto foi escrito por uma pessoa. afinal, ainda que os sites de bancos e afins tenham toda uma sistemática que toma decisões por conta da sua estrutura, não se pode esquecer que esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo. se esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo, pode-se concluir que, ao fazê-la, estas pessoas estão levando para o plano da representação lingüística a intenção que tinham, seja na forma de site ou texto, indo agora em direção ao texto do correio do povo que referi anteriormente. se estas pessoas, prenhes de intenções, irão construir textos e sites, o que irá vazar para os textos e sites são tanto significados quanto significantes. e por que irão vazar tanto significados quanto significantes? porque no instante em que uma coisa é falada, o fato de falarmos a mesma anula o próprio sentido que tínhamos da mesma, pois este sentido, se falado, é uma representação e nunca uma presentação daquilo que se fala. entretanto, se não falado, este sentido existiria? a resposta correta é não, tomando por norte o fato de que é a linguagem que propicia o entendimento entre as pessoas, ainda que estas pessoas sejam de espaços e tempos diferentes, o que se comprova pelo fato de eu poder ler um texto de um século atrás em um jornal de anteontem. desta maneira, não se estaria, porém, anulando a possibilidade de conhecimento daquilo do que se fala? por um lado sim e por outro lado não. por um lado sim, porque se apenas podemos representar aquilo do que falamos através da linguagem, aquilo do que falamos é inacessível, de maneira que só pode se dar ao nosso conhecimento na forma de linguagem, de representação gráfica ou sonora de algo visto ou sentido. entretanto, por outro lado não porque o fato de podermos tocar aquilo do que falamos partindo do pressuposto de que se trata de algo existente no mundo, já dá a entender que existe uma realidade exterior ao próprio plano lingüístico que sentimos mas só podemos dizer quando no plano lingüístico. seria simples se aqui eu invocasse heidegger e a questão dos planos hermenêutico e apofântico. contudo, quero levar a pergunta um pouco mais adiante. se logo acima falei que o fato de só podermos dizer as coisas e nós mesmos através da linguagem e logo após referi que isto se tratava de uma via de mão dupla, já que implicava tanto em um nexo positivo quanto em um nexo negativo, é preciso remeter ao fato de que falei isso tomando por base a idéia da trama lingüística. tomando por base a idéia da trama lingüística, chegarei a ocorrência de que tudo aquilo que falo, quando falo, liga-se a cada termo falado, levando-se em conta que o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo. se o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo que influi no conhecimento do sentido do primeiro, o que se conclui disso é que o sentido de cada termo não está naquilo que se fala, mas sim nas ligações que são feitas a partir daquilo que se fala. consequentemente, se são as ligações que são feitas a partir daquilo que se fala que propiciam o próprio conhecimento do falado, pode-se pressupor que existe um mundo à parte a ser estudado. neste mundo à parte, as regras de ligação entre os termos, contudo, de forma alguma serão estáticas, isto porque estarão subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos. se subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos, novamente se traz à tona o plano da intenção, sendo que cada leitura traz em si a intencionalidade daquele que lê, assim como cada escrita traz a si a intencionalidade daquele que escreve. desta maneira, ao passo que se está falando de um sentido que brota naquele que lê, está se falando de um sentido existente naquilo que é lido, de forma que esse sentido irá brotar como significância naquele que lê para só então se acomodar como sentido, ocorrendo isso quando se insere nesta equação o plano da intencionalidade. por conseqüência, se é o plano da intencionalidade que dá sentido às realidades representativas das pessoas, não seria o estudo desta intencionalidade que levaria a algo mais profundo acerca da própria trama lingüística que tento desvendar? a resposta é dúbia, e não haveria como não sê-la. a resposta é dúbia porque no momento em que procuro estudar a intencionalidade tenho eu também uma intenção. logo, intencionalidade sobre intencionalidade, o que se terá serão novamente âmbitos de realidades representativas no plano lingüístico. desta forma, o estudo recairia em uma intenção tentando explicar outras intenções, sendo que por mais que esta intenção tivesse justamente a intenção de explicar aquelas intenções, sempre haveria um fator subterrâneo influindo na sua própria explicação. afinal das contas, não é apenas o fato de ter a capacidade de ler que leva alguém até o gosto pela leitura. nisso influem fatores externos, como a família, os amigos e os amores. por conseguinte, mesmo que uma teoria desse conta da explicação do funcionamento dessa teia lingüística, esta teoria sempre daria margem a outras teorias e assim por diante. porém, o fato é que isso é inevitável. e admitindo que isso é inevitável, pode ser alcançada uma nova dimensão das próprias possibilidades de explicação. se estas possibilidades de explicação sempre implicam em uma simbiose entre a intenção que se tem quando se fala com aquilo que é falado, considerando-se que neste binômio intenção/fala está imbricado o binômio significado/significante, deve-se admitir que nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável. se nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável, é de se dizer que a pretensão da pureza de uma teoria jamais pode ser aceita, pois é o ser humano que conhece, e onde o humano for somente o humano haverá. e se esta premissa está certa, o fato de termos esta compreensão que temos do universo e das coisas que existem nesse universo, poderia ser completamente diferente se ultrapassássemos certas barreiras da própria compreensão. se existe na maior parte das escolas um plano de ensino de aporte cartesiano, por exemplo, saindo deste paradigma e rumando em direção a um outro paradigma que tenha por norte a teia lingüística daquilo que se chama cultura e que constitui o próprio ser humano enquanto fator por ele criado em concatenação com o cunho biológico, a compreensão será difusa. será difusa porque não lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado unitário, mas lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado em relação às outras partes e aos outros termos deste texto. consequentemente, apenas uma interpretação holística daquilo que é lido, isto para ter base no exemplo do texto, é que poderá propiciar uma nova compreensão do próprio universo. o ponto máximo da compreensão desse universo talvez encontre ápice no momento em que der foz a um outro universo, este completamente diferente do universo de origem mas composto pelos mesmos caracteres, o que já remete novamente a idéia de teia. neste universo, por sua vez, partindo de um jogo de espelhos inevitável, ou melhor, partindo do próprio reconhecimento da inevitabilidade deste jogo de espelhos, aquilo que é dito será visto de uma maneira completamente diversa da anterior. e se aquilo que é visto será visto de uma maneira completamente diversa da anterior, já que partirá da idéia de teia ao revés da idéia unitária, o próprio sentido do visto irá mudar, influindo, por conseqüência, na própria vida daqueles que vêem, pois se tomarmos por norte o fato de que as palavras de um texto somente existem em ligação às demais palavras existentes nesse texto, e não de uma maneira unitária e (por que não dizer?) individualista, veremos as próprias pessoas com quem convivemos ou não como parcelas necessárias para a nossa própria existência e, por conseqüência, para o nosso próprio sentido na trama do mundo, o qual é feito tanto daquilo que podemos falar quanto daquilo que jamais poderemos levar ao plano lingüístico, o que talvez seja a causa da repressão perpetrada pelas leis e pela religião, pois quando nos deparamos com algo que jamais poderá ser dito, é inevitável que ou criemos leis para não dizê-lo, armando cerca ao derredor do indizível, ou criemos leis para explicá-lo a partir daquilo que podemos dizer, dando a este um significado sublime justamente por conta do seu núcleo indizível. contudo, se este fato for aceitado, até aquilo que é dito é uma sublimação para aplacar a falta do que não pode ser dito. logo, a palavra sempre expressa uma ausência, como diria lacan, pois se ela existe é porque algo falta. por conseguinte, se falamos é porque perdemos um jogo do qual jamais poderemos sair. porém, é possível que aqui nem exista a questão da derrota ou da perda, porque em último grau não existem vencedores ou perdedores neste jogo, já que o mesmo é de saída inatingível. é possível que o tempo nos devore nas tramas desse labirinto, fazendo com que esqueçamos da nossa perda em função daquilo que dizemos e criamos para acreditar ou acreditamos para dizer. é possível que esqueçamos de tudo aquilo que jamais poderemos dizer tão-somente pelo fato de termos que viver ou sobreviver sem esta compreensão. porém, ter que viver sem esta compreensão e não ter consciência da mesma não é algo que me cai bem, sendo que prefiro insistir em tentar compreender o modo como ela se dá para que desta forma talvez possa chegar na raiz da mesma e ultrapassá-la, tendo ao meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo apenas por conta da minha teimosa intenção que me presenteará com essa suposta compreensão. e terei aos meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo porque compreendendo ao máximo aquilo que vejo e as próprias possibilidades de ver aquilo que vejo, chegando na raiz última dessa equação, na possibilidade do reflexo que implica no próprio reflexo e portanto implica na palavra, irei desvendar o mecanismo da minha realidade e talvez apagar do meu totem a impossibilidade de ir além desta realidade. se este dia chegar, meus vizinhos serão diferentes, minhas palavras serão diferentes e todos os apartamentos deste prédio serão diferentes. talvez até mesmo as paredes se diluam, já que finalmente verei que elas não existem porque em realidade nada separam: são meras virtualidades da vergonha, meros monolitos do egoísmo. é possível também que todo preconceito entre as pessoas, seja por qual motivo for, também deixe de existir, isto porque não haveriam motivos para desentendimentos já que todo sistema do próprio entendimento seria conhecido, de modo que, ao conhecê-lo, pudéssemos ultrapassar o mesmo em direção a um outro entendimento. mas enquanto isso não chega fico com a cortina que lembra aquela música do ritchie e com o ventilador que ventila meus pés para que eles não sejam tão descascados por este verão que inicia. e ficando com isso, me dou por conta de que irei escrever neste espaço três vezes por semana, mais precisamente no sábado, no domingo e na segunda, o que talvez tenha a ver com o fato de vivermos em um mundo com três dimensões. einsten supôs que a quarta dimensão fosse o tempo. hoje, porém, já são contabilizadas onze dimensões sobrepostas em pequenas cordas que ao soar fazem tudo existir. se isto é verdade não sei, mas o fato é que isso faria com que minha trama de palavras se tornasse um violão, importando agora saber não tanto quem irá tocar, mas sim o quê irá tocar. se for um samba, o mundo será um. se for uma milonga, o mundo será outro. mas o fato de ouvir uns violinos que me chegam da televisão ali da sala, já que minha namorada certamente deve ter mudado de canal, me faz pensar que tanto um samba quanto uma milonga seriam muito pouco para este violão tornado coisa em razão da própria trama de palavras se diluir e dar foz a uma outra realidade. este violão, ao contrário, iria dedilhar a 9ª sinfonia de bethoven, transformando-se aos poucos em todos os instrumentos de uma imensa orquestra do cosmo assim como pôde se transformar em violão. digo isso porque a música é o conhecimento profundo do indizível, é o mais próximo que podemos chegar daquilo que é e somente é, pois ao contrário, ficaremos com blanchot e a morte como o ruído interminável do ser. e entre ficar com este ruído que lembra fábricas e aquela música que lembra vida, que lembra viver e a própria possibilidade de viver, e por conseqüência a grandeza de tudo isso, fico com a segunda talvez porque sejam seis e vinte e dois da tarde e minha garrafa d'água morna esteja no fim, o que faz com que até minhas associações tenham sede e acabem por desfalecer no deserto deste texto. afinal, um abajur cor de carne pode estar coberto por algumas manchas brancas assim como o sol de um deserto pode estar num céu tão azul que por conta do sol parece branco. e por quê? fica para a próxima, pois aqui já lembraria de gaia e urano, ainda que minha sede efetivamente exista - tanto por água quanto por mais palavras: essas perguntas desiludidas que todos os dias me ocorrem.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

um cachorrinho carregava um pedaço de caixa de papelão com a boca ladeira acima.

cildo meireles.
um cachorrinho carregava um pedaço de caixa de papelão com a boca ladeira acima. sem mais, largou a caixa e seguiu farejando as pedras da rua, procurando sabe-se lá o quê. aí parou e começou a latir em resposta a uns outros latidos que vinham da quadra de cima. de repente, outros dois cachorros surgiram mais abaixo: um poodle, desses de madame mas com a tosa por fazer, meio com cara de decadente, e um outro que a escuridão de um quase-noite não me trouxe distinção, mas que parecia um vira-lata qualquer. esses dois olharam para aquele que estava no meio da ladeira e que havia carregado a caixa até há pouco. nisso desceu uma pampa pintada nas portas com uma cor que a luz dos postes me fez pensar que era amarela, o que fez também com que o cachorrinho da caixa de papelão fosse para o costado da rua e respondesse a mais uns latidos que vinham da quadra de cima e da casa do vizinho, no qual existem três cachorrinhos, também poodles decadentes, presos em um canil minúsculo. fiquei observando aquela cena enquanto batia no meu rosto um vento norte que meu avô sempre disse ser de chuva. entretanto a lua era alta e algumas estrelas ainda podiam ser vistas entre as nuvens, o que me fazia pensar que não iria chover tão logo. porém, lembrei que essa coisa de premonições ou constatações prévias de coisas que estão para acontecer sempre faziam algum sentido. afinal, o fato do meu avô dizer que o vento norte era prenúncio de chuva devia ter alguma fundamentação ancestral. talvez o pai do meu avô, tecnicamente o meu bisavô, tenha dito isso pra ele e ele tenha dito isso pra mim, de modo que aquela fala que se perdia nas décadas ainda encontrava ecos na minha fala. mas pensar em toda essa linha de falas que se perdiam em décadas e de cachorrinhos que subiam a ladeira me fez cansar. logo entrei pra dentro de casa e fechei a porta da sacada para que o vento não amontoasse pó nos móveis. porém, ao sentar na frente do computador, o calor de novembro me fez ligar o ventilador, fazendo com que um outro vento, dessa vez um vento artificial, batesse nos meus pés suados pelo começo do verão. lembrei nesse momento de um jogo que existe no meu celular. o jogo é mais ou menos assim: um programete manda você pensar em uma palavra e nisso faz várias perguntas a você tentando adivinhar a palavra na qual você pensou. as perguntas às vezes são meio sem pé nem cabeça. por exemplo: você pensa em uma pedra de ouro e ele pergunta se você faria um buraco nela. necessariamente, quer dizer, ele não pergunta se você faria um buraco nela. ele pergunta assim: você faria um buraco nessa coisa? desconsiderando a hipótese de uma aliança, isso soa estranho, convenhamos, mas de vez em quando esse programete adivinha as palavras que você pensa. claro que o programador do programete deve ter pensado em palavras do senso comum que qualquer desocupado pensaria se jogasse um jogo desses no celular. hoje pela manhã, só pra se ter uma idéia, pensei em um ventilador e me pus a jogar o dito jogo. pergunta vai e pergunta vêm, ele me deu a resposta: você está pensando em uma ventoinha elétrica. claro que eu achei isso meio português demais, meio luso demais para o meu senso brasileiro e sulino. quem irá chamar um ventilador de ventoinha elétrica? mas o fato é que o programete havia acertado a palavra ou a coisa na qual eu havia pensado meio com sono e meio acordando pela manhã. pra deixar mais claro o tempo no qual se passou isso, não era necessariamente manhã: era quase-tarde. mas quem define o que é manhã e o que é tarde para quem recém está acordando? a resposta é ninguém. podem até haver definições de tempo marcadas ao sabor das fábricas da vida, mas essas definições não se aplicam àqueles que não trabalham nessas ditas fábricas. contudo, tenho de admitir que era quase-tarde, o que talvez crie certo adjetivo de preguiçoso para quem estiver me lendo, mas isso não há de ser nada, mesmo que o zé carioca não seja dos meus favoritos. porém, pensar que um programete de celular pode adivinhar uma palavra que penso com sono me faz pensar que o meu avô não estava de todo errado ao dizer que o vento norte é prenúncio de chuva. quantas gerações meu bisavô deve ter ouvido para chegar a essa conclusão? viajemos. imaginemos um matzembacher de quinhentos anos atrás. certamente ele estaria na alemanha e vamos supor que ele estaria morando perto da floresta negra, aquela na qual o heidegger tinha uma cabana nos tempos da segunda guerra mundial. essa floresta negra, quatrocentos anos antes do heidegger, certamente era muito maior e mais extensa, sendo que só as bombas aliadas devem ter explodido metade dela, considerando, é claro, que as bombas aliadas tenham lá chegado, sendo que aqui sou totalmente a-historiográfico. logo, quando soprava um vento norte, meu antepassado dizia: é prenúncio de chuva, vai chover, etcetera e tal. não sei como se diz isso em alemão, mas certamente ele diria isso com um sotaque carregado e com o intuito de ir pra mata cortar mais lenha pra não ficar sem almoço no dia seguinte. ou sem lareira pra noite fria. enfim, não interessa. mas séculos depois, décadas depois, meu bisavô falou isso para o meu avô e meu avô falou isso para mim. consequentemente, acabei pensando nisso quando senti bater o vento norte na minha face, ainda que desconfiasse que essa previsão era completamente disparatada daquilo que havia lido em um site na parte da tarde, o qual dizia que chuva só para o final de semana. e levando em conta que é apenas segunda-feira, só podia ser bobagem aquele eco antigo que em meu ouvido se fazia voz. afinal das contas, o que pode o senso de um matzembacher de quinhentos anos atrás contra os telescópios e barômetros dos dias atuais? a intuição me faz querer dizer que pode muito, mas a razão me faz querer dizer que pode pouco. mas só para dar mais foz à voz, opto pela intuição. há de se convir que esta às vezes vale mais que a razão, ainda mais levando ao pé da letra o diagnóstico de certos economistas nesses tempos de bolsas em crise. não dá pra notar que eles tratam a economia como uma mulher prestes a entrar em um surto qualquer? concordo que a própria palavra economia assim como a palavra verdade sejam femininas, mas sopesando o fato de que esses sujeitos se julgam especialistas, acho que não é pra tanto. acontece, enfim, que tais economistas dizem que o mercado está nervoso e que por conta disso a tendência é a economia ficar mais nervosa ainda. será o mercado o marido da economia ou será a economia a amante do mercado? das duas hipóteses fico com a última, pois volátil do jeito que é, a economia só pode ter amantes. portanto, leia-se volátil como infiel, o que chega a ser uma denominação bacana. estranho é que pensar que a economia tem amantes me faz pensar em quem seriam os seus amantes. seriam os estados unidos ou a união européia? se fosse a união européia, há de se convir, a economia seria lésbica. mas se fossem os estados unidos, ela seria um tanto atrasada, já que seria quase que tradicional uma mulher casada com o mercado ter por amante os estados unidos, supondo que ele seja texano e presbiteriano. entretanto, se ela tivesse por amantes tanto os estados unidos quanto a união européia, a qual, só pra não perder o glamour, seria existencialista e fumante, não seria uma hipótese mais cabível? algo me faz pensar que sim, sendo que em tempos de liquidez, e aqui lembro do bauman, tudo se torna frágil e fugidio, até mesmo a fidelidade. e quer algo mais infiel ou volátil que a economia? certamente não há, levando em conta o fato de que ela é casada com um sujeito chamado mercado. contudo, se a economia é infiel e se o programete do meu celular acaba adivinhando que a palavra que penso assim como a premonição do meu avô adivinha que vai chover, quem está certo? a resposta é tanto um quanto outro e mais outro, nunca esquecendo que já me esqueci de quantos falei. se formos levar o assunto à fundo, o fato de tirarmos conclusões imateriais das coisas materiais que nos rodeiam é algo constante. isso até me faz lembrar que o descartes acreditava que a glândula pineal era uma espécie de órgão cerebral que transformava o material em imaterial, isso por conta de uma ilustração dele que vi ontem. entretanto, lembrando que alguns dizem que o ser humano só pode se movimentar no cenário da cultura, e portanto no cenário da linguagem, posição com a qual compactuo, haverá algo material a não ser o imaterial? claramente que não, pelo menos considerando aquilo que podemos conhecer. mas aqui cabe outra pergunta: seria a palavra imaterial sendo que ela está por todas as partes no mundo onde vivemos? há de se concordar, aqui, que palavras nos cercam por todos os lugares. basta sairmos na rua para vermos alguma placa de trânsito dizendo pra não irmos praquele lado ou alguma propaganda dizendo pra comermos tal e tal coisa porque faz bem à saúde. aliás, essa coisa de fazer bem à saúde sempre me soou mal. o porquê disso fica para outra ocasião. mas voltando ao questionamento das palavras serem materiais ou imateriais, a constatação de que essas palavras são anúncios e são placas e até mesmo regem nossas vidas, já que a maior parte dos estados tem constituições e todas as religiões tem livros que dizem o que são essas religiões e no que os fiéis devem crer, serão as palavras algo imaterial? algo me faz pensar que sim. mas ao mesmo tempo algo me faz pensar que não, visto que aquilo que mostra a palavra não se confundiria com a própria palavra. seria como o mecanismo do sonho do freud: aquela coisa de condensação e deslocamento. mas deixo isso pra outra hora também. a realidade, voltando àquilo do que falava, talvez encontre aporte no fato de que as palavras não são materiais nem imateriais. ao contrário, as palavras se dão na intersecção da materialidade com a imaterialidade, no esbarrar de ombros do de dentro com o de fora. logo, o significado dessas palavras existe como que na saída de um estádio após um jogo de domingo. e existe somente porque algum administrador que mal sabe administrar, deixou que as duas torcidas saíssem pelo mesmo portão, o que gerou esbarrões mil e pancadarias lógicas. e é nesse conflito que se dá a palavra, e é nesse esbarrão e nessa confusão da má administração que se dá a palavra: fusão da imaterialidade do sentimento da torcida com a materialidade de um bofetão nas fuças. por causa desses fatores, é que creio que qualquer transformação social que se queira jamais irá se dar de cima para baixo ou mesmo de baixo para cima. ao contrário, qualquer transformação social que se queira precisa de centros irradiadores tanto na parte de cima do estamento social quanto na parte de baixo do estamento social. afinal, relações sociais não são linerares: são em rede. isso pode soar óbvio, mas tomando por norte o fato de que no brasil, por exemplo, temos uma classe média que se divide em outras subclasses de A à Z, é muito mais complicado falar tal coisa. qual seria o fundo do poço da classe média? qual seria o ponto que diria que aqui começa a classe média e aqui começa a classe baixa, como que numa divisão de times da quarta série? são coisas muito difíceis e sempre acaba sobrando um perna-de-pau que vai pra sobra de um dos times jogar de zagueiro. por conseqüência, qualquer transformação social que se queira teria que levar em conta todas essas vicissitudes e ainda por cima utilizar a palavra para levar em conta todas essas vicissitudes. logo, não seria uma transformação de fora pra dentro e nem de dentro pra fora e muito menos de cima pra baixo ou vice-versa: seria uma transformação que se daria no conflito e portanto na própria materialidade imaterial da palavra. seria uma transformação que, por outro lado, somente se daria porque tem pontos conflitantes em si, coisa que não existe tanto nas pretensões comunistas quanto nas pretensões liberalistas, já que ambas carregam consigo um ideal de pureza. e considerando que a pureza é algo inalcançável nos dias atuais, nos quais por mais que queiramos nenhum alvejante irá nos livrar dos ácaros, o palpável teria de passar por essa confusão, sendo que a complicação começa no momento em que o próprio palpável decide passar por essa confusão. e onde começa essa confusão? certamente no instante em que alguém de dentro pensa ter razão e alguém de fora também pensa ter razão. ou melhor, pra ser mais direto, começa no momento em que uma torcida crê em uma coisa e outra torcida crê em outra coisa completamente diferente, sendo que ambas acabam se esbarrando na saída. assim, achar uma via racional em meio a essa profusão de identidades que deixam de ter identidade pelo próprio movimento, pelo próprio conflito, seria o único rumo possível para uma transformação social, sendo que este rumo, ao que se vê pelo menos dos governantes atuais, não irá ser alcançado. mas por algum governo ele foi alcançado? mas algum governo viu o que vemos hoje? a resposta é não, apesar de certas críticas sociais do próprio machado de assis, feitas lá no século XIX, poderem ser aplicadas perfeitamente aos dias atuais. entretanto, isso se deve ao fato de que o brasil é um país mais do que plural. o brasil, em suma, é aquele país no qual pré-modernidade, modernidade e pós-modernidade convivem uma ao lado da outra. é algo como você ter uma carroça, uma fábrica e uma lan house em uma mesma esquina. e quem vive no brasil sabe que isso existe em todas as cidades. portanto, como querer aplicar uma lógica que vem da europa a um espaço que é completamente distinto da europa? o fato é que nós não nos adequamos a qualquer conceito que venha de outro lugar. o fato é que mesmo sendo lidos por olhos daqui, somos quase sempre lidos com conceitos de lá, de modo que não há como haver subsunção. e isso não implica em um senso que quer se livrar de uma suposta espoliação do terceiro mundo pelo primeiro mundo. considerando que a dívida externa do brasil nos dias atuais está praticamente paga, isso de acordo com algumas fontes da imprensa que li por aí, como levar em conta tal subsunção? não há mais que se ter esse sentimento de inferioridade latino-americana, o que era muito caro aos nossos pais e mesmo a alguns que tem a mesma idade que nós, supondo que meu leitor tenha vinte e poucos anos. até porque governos pouco comandam hoje em dia: mais valem empresas. há que se achar, por outro lado, racionalidade em meio ao conflito, e por conta dessa busca há que se achar uma nova racionalidade que se amolde aos dias atuais, que se amolde a essa profusão de crenças que se mostram no cenário social, já que abstração por abstração rima com castração. do contrário, toda e qualquer solução será como uma previsão do tempo que provém de séculos atrás e que chega aos meus ouvidos por conta de uma lembrança do meu avô. do contrário, todo e qualquer ato que diga alguma resposta não passará de um ato que encontra margem naquele programete de celular que adivinha as palavras que penso. e pensar que ele tem ares lusos, ares portugueses, me faz ter um riso irônico que aponta diretamente para o modo como o nosso estado é organizado. mas isso é conversa pra outra hora. o que vale dizer agora é que ao abrir a porta da sacada e olhar para a rua, percebi que os cachorrinhos não mais estão ali. permanece, contudo, soprando um vento norte, e aquela caixa de papelão que o cachorrinho carregava na boca ladeira acima está jogada nas pedras. talvez espere que um carro passe e a arraste para outro lugar, pois imagino que até as coisas tenham alguma consciência. e se fosse uma pampa com as portas pintadas de amarelo, a ironia seria tamanha que nem beiraria o real. porém a luz dos postes sempre ditaria a cor das portas, e isso já tiraria qualquer pretensão de realidade daquilo que vejo: não passaria de previsão. e esta é a beira do real: uma previsão cujo valor vem de nós.

domingo, 9 de novembro de 2008

é domingo e sei que o dia será quente.

paul klée.
é domingo e sei que o dia será quente. sei que o dia será quente porque bate um vento que faz as cortinas da biblioteca arfarem como se estivessem respirando após uma corrida. e uma longa corrida. as nuvens, porém, estão brancas, o que talvez queira dizer que logo mais irá chover. entretanto, mesmo que chova, ocorrerá que o calor somente aumentará, isto porque a chuva mais o mormaço desse novembro que inicia quer dizer que o dia será insuportável. mas isso do ponto de vista da temperatura, que fique claro, porque no mais creio que ele será agradável. por isso que tento repensar certas coisas que falei ontem. dizer, por exemplo, que a relação dos nomes com as coisas e os fatos é uma relação negativa talvez esteja errado. a relação dos nomes com as coisas e os fatos é uma relação negativa no sentido de que os nomes nunca estarão para as coisas e para os fatos. ou seja: nosso limite é a palavra, mais precisamente a linguagem ou a cultura. depende, enfim, de quem fala. mas fazer recair o adjetivo negativo sobre essa relação quem sabe seja demais tendo em vista que percebemos essa relação. acredito que antes da evidência de que os nomes são disparatados das coisas e dos fatos ser uma evidência negativa, seja uma evidência que não carrega nenhum pólo elétrico. ou seja: uma evidência neutra, como aqueles elementos da tabela periódica que misturados com outros elementos da mesma tabela periódica se tornam neutros, coisa que nunca entendi. dizer que antes dessa relação ser negativa esta relação é neutra implica em uma posição plenamente existencial frente a própria vida, o que quer dizer que antes mesmo de entrarmos em contato com as coisas e os fatos e com os nomes que trazem ao nosso conhecimento cultural as coisas e os fatos, temos uma neutralidade em relação a eles que se anula ao primeiro contato com os mesmos. logo, antes da negatividade existe a neutralidade. porém, pensar nessa neutralidade talvez seja remeter a instantes intra-uterinos ou mesmo pré-uterinos que jamais poderão ser sondados. pensar nessa neutralidade, enfim, e levando a reflexão mais e mais adiante, talvez remeta mesmo a alguma espécie de eternidade, a alguma espécie de indefinido que justamente por ser indefinido defina tudo. porém, é preciso pensar que essa neutralidade existe porque afinal, antes de termos essa relação de negatividade com os fatos e as coisas, temos uma relação que propicia essa própria negatividade, o que redunda na ocorrência de que em algum momento uma escolha foi feita. contudo, o fator mais angustiante dessa exposição é que essa escolha não nos coube, é que essa escolha de modo algum esteve presente em nosso arbítrio já que mesmo nosso arbítrio inexistia. ou seja: simplesmente fomos jogados em uma realidade que, pela nossa própria natureza, cava um tremendo abismo entre os nomes e os fatos e as coisas. claro que essa abordagem tem por via uma concepção heideggeriana de ser-lançado no mundo para só então se constituir enquanto ser-no-mundo. porém, pensar que o desejo de conhecer as coisas e os fatos gera uma negatividade em relação às coisas e aos fatos por conta da impossível proximidade com os mesmos, implica na necessária ocorrência de um momento de neutralidade no qual nossas escolhas não puderam intervir pelo simples motivo de que inexistiam. e se inexistiam nossas escolhas, outros tomaram essa decisão por nós, sem nem ao menos saber que dessa decisão, impulsionada pelo simples desejo, enfim surgiríamos. esse fatalismo da existência, essa ausência de sentido último para dar sustentação a uma linha lógica que tente explicar a própria existência é o que me ocorre nesta manhã de domingo. minha pele está um tanto grudenta por conta do calor e sei que minhas glândulas suaram justamente para aliviar o calor. porém, não sabem elas que me sinto grudento em um sentido sujo ao sentir o suor calcado no corpo, e quanto a isso não posso fazer nada a não ser tomar um banho, o que mais uma vez é um fatalismo incrível, pois mesmo do nosso corpo não temos o menor controle. claro que conscientes de alguns desejos, ou simplesmente impulsionados por alguns desejos, tomamos esta ou aquela decisão. contudo se tomamos esta ou aquela decisão, isso não quer dizer que esta consciência do desejo seja exatamente uma consciência, porque estar consciente implica em ponderar riscos e amanhãs pelo próprio ato que se pratica. mas se nem o ato que nos gerou muitas vezes foi um ato consciente, já que imerso no simples gozo, quando enfim estamos conscientes? acontece neste sentido que temos apenas alguns modelos explicativos da realidade. sei que a neurociência tem avançado muito nos últimos anos para arranjar constructos químicos para definir nossas indefinições, mas até isso quer dizer de um nomear que será eternamente separado daquilo que nomeia. grosso modo, acaba-se caindo novamente no nôumenon kantiano, no incognoscível da hilda hilst ou no mistério do espírito santo católico, pois tudo se mostra com limites extremamente definidos para se dar a conhecer a nossa possibilidade de conhecer. talvez isso implique em um paradoxo, pois se de um lado temos limites plenamente estabelecidos quanto àquilo que podemos conhecer, de outro lado temos limites inalcançáveis quanto àquilo que jamais iremos conhecer, mas é justamente deste óbvio paradoxo que nem implica em um talvez que surge o drama da existência humana. existência essa que por alguns momentos felizes pelos quais passamos não se torna tão dramática assim. mas o fato é que é sempre necessário algum componente químico, nem que seja a água, para amainar os nossos angustiados sensos da realidade, necessidade esta que aponta para uma ciência que de natural tem a plena humanidade. algum dia eu disse, aliás, que onde o humano for somente o humano encontrará, e é disto que falo quando traço estas linhas. entretanto, sopesando o próprio peso destas linhas, percebo que se trato disso em um instante e em outro instante trato de coisa completamente contrária, pois admito a possibilidade de uma neutralidade pré-lingüística. ou seja: admito a possibilidade de uma existência humana fora dos limites da linguagem, o que estaria para um vir-a-ser-humano e não para um tornar-se humano, já que humano no sentido fisiológico da palavra desde sempre somos. porém, falar de um vir-a-ser-humano está para o próprio conceito daquilo que se considera humano. e partindo do pressuposto de que somente podemos conhecer os nomes das coisas e dos fatos, entende-se que aquilo que é próprio do humano é a linguagem, considerando-se entretanto que o humano não é somente linguagem. mas o fato de eu sentir minha pele grudenta nesta manhã de domingo, por mais que inenarrável frente quaisquer metáforas, já implica em uma forma ou modulação lingüística tão-somente por conta de eu estar falando sobre isso, o que acaba por anular o senso de que, sendo humanos, somos algo além de linguagem. contudo, admitindo que ao sermos humanos no sentido fisiológico estamos em uma condição de vir-a-ser-humano no sentido de conviver com as coisas, com as pessoas e com o mundo, admito que existe um ponto na existência em que a própria existência, por estar em construção, é prenhe de futuro, é prenhe de amanhã e consequentemente de expectativas pelo que será dito. se a existência é prenhe de futuro e de amanhã, por óbvio que também é prenhe de angústia, pois a incerteza do espelho é a pior coisa que existe. explico: imagine você acordando e de repente notando que, da noite para o dia, sua face ganhou uma imensa cicatriz da qual você não tem a mínima noção da origem. podem-se traçar aqui algumas hipóteses, as quais delimito em três para não ser infinito: a) ou você saiu na noite passada, tomou um porre e esqueceu de tudo quanto fez, considerando que você se envolveu em uma briga; b) ou você caiu da cama, esbarrou no bidê e fatiou meia-face por conta dessa inconsciência do sono; c) ou você foi abduzido por alienígenas que introduziram esta cicatriz no seu rosto por puro masoquismo. há de se convir, diante da percepção de que basta uma coisa ser possível para que ela exista, que todas as hipóteses são verdadeiras, levando-se em conta ainda de que basta uma coisa ser possível para que ela exista porque não sabemos do futuro e mesmo assim intuímos o amanhã. contudo, para intuir o amanhã é preciso lembrar do ontem, cavocar algumas cláusulas do passado para elaborar o contrato do dia seguinte e somente assim historiografar o porvir. entretanto, se em algum momento esquecemos do passado, ou seja, não temos a menor consciência da origem, isso quer dizer que todas as hipóteses são possíveis, pois tanto ser abduzido por alienígenas quanto ter se envolvido em uma briga são fatos que, primeiramente no plano da imaginação e secundariamente no plano da experiência, acontecem todos os dias em todos os lugares do mundo. desta forma, intuir que antes da negatividade da nossa relação com as coisas existe uma neutralidade que possibilita a própria relação do humano com as coisas, as pessoas e o mundo através da linguagem, é um caminho que, emoldurando o cenário do hoje, acha as pistas do ontem, assim como o sujeito que cata as roupas de uma desconhecida na manhã de sábado pelo chão do seu quarto. reconstruir o passado com algumas pistas do presente é o que se faz ao falar disso e é também o que se faz quando se constroem máquinas como o grande acelerador de hádrons ou mesmo o telescópio huble. quando o hélio oiticica teve o insight dos parangolés aconteceu o mesmo, pois dançar envolto em arte é perverter a própria noção da forma que está presente em toda a arte, fazendo com que depósitos criativos que antigamente eram estanques se diluam em um presente prenhe de movimento. mais uma vez, vê-se que os níveis da realidade, seja por quais ligações se rumar, estão umbilicalmente coadunados um ao outro, de modo que é impossível dissolver o pai do filho nesta irmandade siamesa completamente surreal. e é impossível dissolver o pai do filho porque criador e criatura são a mesma pessoa, porque palavra e coisa e fato, dentro dos limites humanos, são uma coisa só, apesar de surtirem em nós, por conta do desejo de conhecer, o senso de negatividade daquilo que não se pode conhecer, daquilo que não se pode ter como se fosse um freio imenso que sempre irá nos espremer os dentes. e é por conta desse senso de negatividade que a ciência prossegue tentando conhecer e a arte tentando desvendar o que existe para além da própria ciência, abrindo alas para que o bloco da humanidade tenha ao menos um beco para sambar. nesse beco, talvez nosso passo seja três pra trás e dois pra frente, isto ad infinitum, mas mesmo assim valerá a pena pois haverá movimento e portanto haverá vida. de idêntica maneira, perceber que existe vento e possivelmente prenúncio de chuva por conta das nuvens brancas, ainda que eu me sinta desconfortável, já é algo ótimo, pois consiste em movimento e portanto em vida. logo, torço para que chova, mas para que chova imensamente como talvez tenha chovido aos pré-diluvianos que sobreviveram sem querer a um castigo que nós criamos porque séculos depois escrevemos. por conta disso é que abrirei as cortinas e irei tomar um banho, já que somente a química, seja do vento ou da água, é que constrói tudo o que somos, mesmo que essa química seja o imponderável, o incognoscível, o invisível, aquilo ou aquele que é e simplesmente é.

li em algum lugar que escrever em caixa baixa está em desuso.

piet mondrian.
li em algum lugar que escrever em caixa baixa está em desuso. ou no mínimo é antiqüado e pretensioso. acho que concordo com isso. mas não sei o que isso quer dizer. escrever em caixa baixa poderia demonstrar certo desleixo se ainda estivéssemos nos tempos das máquinas de escrever, porque estaria para o fato de que aquele que escreve tem preguiça em pressionar aqui e ali a tecla que gera as letras maiúsculas. entretanto hoje não existe porque isso demonstrar desleixo, já que os editores de texto fazem e acontecem nos computadores. e tanto que quando aquele que escreve quer realmente escrever em caixa baixa, precisa recorrer a processadores mais arcaicos como o bloco de notas no qual agora escrevo. caso contrário, a soberania dos processadores de texto sobrepujaria qualquer intenção daquele que escreve, seja em caixa baixa ou baixa e alta como nos ensinaram na escola. porém isso não quer dizer nada. aliás, ao escrever que isso não quer dizer nada e ao notar que comecei a escrever justamente por conta do formato no qual escrevo, noto que sempre digo em um momento do discurso que isso ou aquilo não quer dizer nada. mas infelizmente acontece que é justamente isso. quanto mais se queira dizer, quanto mais se queira fazer ou dar significado àquilo que se quer dizer ou fazer, menos se diz ou se faz. o significado ou o sentido é o oposto da coisa ou da ação, e isso faz com que toda explicação se torne tão redundante quanto um adeus quando nada mais vai certo. mas em algum momento as coisas andaram de maneira correta? o fato de dizermos que isso ou aquilo acontece de maneira correta ou incorreta está diretamente relacionado com a percepção que temos disso ou daquilo. se nosso senso moral aponta para o término de uma amizade, por exemplo, é óbvio que o término dessa amizade se dará porque um dos pólos não mais sabia o que fazer ou como se comportar diante da relação. porém, quem termina amizades? na maior parte das vezes, as pessoas apenas colocam o relacionamento em banho-maria e deixam que as coisas arrefeçam por si. na verdade isso é muito mais fácil do que um ponto final. por isso mais utilizado. mas mais correto seria se voltássemos ao tempo em que ser um autor ou ser um presidente significava alguma coisa. o fato dos estados unidos terem sido atacados em seu símbolo econômico lá nos idos do início deste século revela muito. revela, e aqui não quero me alongar no assunto, que não mais importam identidades, mas sim o poder que essas identidades, sejam elas existentes ou não, geram na trama de relações nas quais influem. isso quer dizer que ser uma ou outra pessoa não tem o menor interesse para as outras pessoas, pois o que realmente interessa é o quanto uma ou outra pessoa simboliza na teia de relações com as outras pessoas. é algo que acontece com uma palavra ou um termo próprio de uma ciência qualquer que, quando deslocado do seu contexto, deixa de ter significado próprio daquela ciência ou mesmo ter significado, já que pode ser completamente ininteligível àqueles que o lêem. fico pensando quando me ocorre isso no que deve acontecer na mente das pessoas que não são detentoras lá de muito conhecimento quando ouvem que inventaram ou construíram o grande acelerador de hádrons. pra começar, quase ninguém sabe o que são hádrons. dentro deste grupo me incluo mais por preguiça do que por sapiência. me incluo, enfim, por ignorância, pois algum tempo atrás um livro do hawking me explicou de maneira esmiuçada tudo isso. mas aconteceu que senti que aquilo era lógica demais para a minha cabeça e simplesmente larguei o livro, olhando pra ele de vez em quando ali na estante, sem saber se ele olha ou não para mim. talvez a nossa relação seja como as relações que se estabelecem entre esses adolescentes tímidos e as primeiras meninas com as quais têm contato nas noites da vida. nessas horas, o menino não sabe se a menina está olhando pra ele com olhar de cobiça ou de malícia no sentido de caçoar da roupa, da calça, da camiseta dele. e aí, tanto por conta do fato de ser tímido quanto por conta do fato de estar inserido em um grupo social, pois invariavelmente irá para a noite com um grupo de amigos, sentirá vergonha caso tome alguma atitude e essa atitude venha a ser frustrada pela reação da menina, considerando que esta vergonha, ainda que provenha de um ato feito diante de pessoas que são tidas como amigas, irá marcar o momento daquele adolescente de uma maneira completamente negativa, de modo que no futuro, e aqui falo no campo da completa relatividade, é possível que este mesmo adolescente até tenha problemas conjugais e acabe aos quarenta anos tendo vinte anos de divã no consultório de um psicanalista qualquer. porém, ainda que eu esteja escrevendo em caixa baixa e deixe que as idéias se relacionem ao sabor do próprio texto, não falo de mim quando falo disso. entretanto, lembro que alguém algum dia disse que nunca falamos de outra pessoa que não seja de nós mesmos, o que talvez anule o que acabei de dizer. mas o fato é que isso nada quer dizer, pois tudo quanto digamos, ao contato com as pessoas, com as coisas e com o mundo, é simplesmente anulado pela completa relação de negatividade que tem com as pessoas, com as coisas e com o mundo, de modo que nossa fala, que nossas construções sobre tudo aquilo que vivemos e somos, sempre estará completamente disparatada daquilo que vivemos e somos. talvez seja hora de invocar o pessoa precisamente na figura do caeeiro pra dizer que as coisas não tem sentido oculto, mas apenas existência. contudo, isso seria muito simples, muito lógico, conecto demais com aquilo que se está falando, fazendo com que o discurso ou o texto, como queira, soem de forma completamente inútil diante daquilo que se propõem a falar. mas o quê o discurso ou o texto se propõem a falar? ou melhor: o quê este discurso ou este texto se propõem a falar? vejamos. comecei por dizer que escrevo em caixa baixa e isso me levou a supremacia dos processadores de texto nestes dias que vivo. logo depois falei de relacionamentos, tanto no plano mundial quanto no plano pessoal, e acabei parando no pessoa pra retornar a falar da caixa baixa. acho, sem maiores pretensões, diante deste quadro, tentando traçar alguma logicidade em todas as linhas que traço, que é justamente este espírito, estas camadas sobrepostas de assuntos que se interligam que é o que quero que as pessoas ouçam. afinal, o grande acelerador de hádrons tem a ver tanto com o presidente eleito dos estados unidos quanto com os adolescentes que nesta noite de sábado sofrem pressão das meninas e dos amigos. e por quê? em suma, porque tudo acaba sendo feito da mesma matéria, e a idêntica sensação de desconfiança do olhar do adolescente diante do olhar da menina é aquela sensação que temos ao sentir que mini-buracos negros podem surgir do grande acelerador de hádrons. mas quem saberá o que são buracos negros se quase ninguém sabe o que são hádrons? lembro que uma senhora idosa esses tempos entendeu uma notícia da televisão sobre um acidente com um ônibus no sentido de que este ônibus havia caído em um buraco negro. fico me perguntando o que essa senhora, lá com seus setenta e tantos anos, entendia por buraco negro, o que me faz lembrar que sábado passado fui na missa e tentei não racionalizar nada do que via. fiquei lá no fundo da igreja, em pé, praticando os mesmos atos que as pessoas ao meu redor praticavam tão-somente por praticar e tão-somente para entrar no clima no qual aquelas pessoas estavam, o que me fez sentir toda aquela simbologia eclesiástica de uma forma completamente diversa do que sinto já há algum tempo. quando eu era adolescente, aliás, participava de um grupo religioso na minha escola. lembro que o nome do grupo era remar. confesso que participava mais pra ir acampar com os amigos e jogar truco do que pra rezar, mas a realidade é que uma coisa levava a outra, então aquilo me fazia bem. pensar nisso me faz ver o quanto é impossível separar todos os campos das nossas vidas. tudo tem a ver com tudo na exata proporção de que tudo é feito da mesma matéria, e pensar de maneira diversa seria como que anular a própria tessitura das coisas, das pessoas e do próprio mundo. acontece que quando se vive de cultura e quando não se sabe o que é o mundo e as coisas a não ser através da linguagem, o que significa cultura, corre-se o risco de que os significados sejam completamente diferentes no tempo e no espaço, o que gera, por sua vez, interpretações completamente diferentes dos fatos em todos os lugares. isto acontece mais ou menos no mesmo grau de complexidade e diferença que existe entre um bairro norte-americano e um bairro israelense. mas entre um bairro norte-americano e um bairro israelense, ainda que se vejam enormes diferenças, haverá a similitude das relações entre as pessoas, pois tanto em um quanto em outro haverão adolescentes tímidos e meninas que irão olhar para adolescentes tímidos. mas a carga deste olhar, ainda que tenha o mesmo desejo, será completamente diferente de um lugar para o outro, pois haverá uma moral e um senso de realidade diverso, o que fará com que a própria realidade, ainda que feita da mesma matéria tanto no ocidente quanto no oriente, tenha uma configuração que se mostre completamente disparatada uma da outra, o que me faz lembrar novamente da questão da caixa baixa, pois antigamente era desleixo escrever em caixa baixa. acho até que foi isso que fez com que o keuroac, mesmo que seu tema fosse um tanto diverso dos temas abordados pelos seus antecessores, fosse considerado aquilo que consideram beat, seja lá o que isso for além de uma batida. claro que o jazz e tudo o mais influenciaram nisso no sentido de que as relações entre os instrumentistas tinham muito a ver com a espontaneidade dos textos. isto é: era proposto um tema e este era improvisado por cada componente da banda em várias escalas harmônicas a uma órbita central, fazendo com que este mesmo tema pudesse se estender ao infinito em infinitas relações. e o desleixo que viram nos beats e que fez com que eles influenciassem até mesmo os hippies tem a ver com essa coisa de se deixar levar, de não atravancar o fluxo das palavras com uma racionalidade estanque que procure a certeza em cada passo, pois, ao contrário do que se supunha lá pelos idos do século XVII, a razão não é tão racional assim. desta maneira, acredito que esse seja o espírito de tudo quanto falarei neste espaço que hoje inauguro. as fatias da realidade serão aqui sobrepostas para que tenham um sentido enquanto sobrepostas, para que existam como existem na vida: uma em cima da outra, uma ao lado da outra, uma dentro da outra e uma fora da outra dando sentido a uma e outra. essa intenção pode soar antiqüada, pode soar até universalista, mas o fato é que é tão pessoal quanto o chá de maracujá com leite que tomo neste calor de trinta e tantos graus na madrugada de sábado. por conta disso é que minha única pretensão em escrever em caixa baixa é essa: escrever em caixa baixa. o que já é pretensão demais e mentira demais. afinal, a forma esconde aquilo que dizemos assim como o insufilme esconde aquilo que dentro do carro fazemos. e tanto nos textos quanto nos carros permanecemos parados enquanto algo anda por nós e em nós, pois se de um lado existe a palavra do outro lado existe a estrada, que é, convenhamos, também uma palavra repleta de buracos assim como todas as palavras são, sejam elas em caixa baixa ou alta.