são cinco e vinte da tarde e venta lá fora. aqui dentro tenho o ventilador ligado aos meus pés justamente por conta do sol que faz as cortinas da biblioteca terem uma cor de abajur barato. não sei o que isso quer dizer e talvez até me remeta àquele clássico do abajur cor de carne e lençol azul. mas isso seria associação demais para o meu gosto, ainda que de associações sem fim meu pensamento seja feito. logo ao lado do teclado existe uma pequena garrafa d'água. a água está morna mas eu gosto dela assim. ouço ali da sala o som da televisão em algum jogo de futebol. me parece que os narradores apenas olham o jogo que narram em outra televisão para me passar a sua visão na minha televisão. enfim, de uma representação que têm em sua frente, fazem com que surja outra representação e assim por diante, já que o próprio fato de eu estar escrevendo sobre isso agora implica em uma representação diversa daquela que ouço. em realidade, o fato de eu entrar em contato com essa realidade representativa que ao meu pensamento se desloca, implica no fato de que sobre essa realidade representativa eu posiciono a minha intenção para criar a minha própria representação da realidade. neste sentido, se existe uma representação da realidade sendo vista por aqueles que transmitem o jogo a partir do jogo que vêem em outra televisão, existe também uma representação da realidade que é feita por conta do fato de que eu ouço aqui da biblioteca a televisão ligada transmitindo essa partida de futebol. entretanto, se para mim existe uma representação específica dessa realidade, entendo que para os outros que estão nos apartamentos ao lado e mesmo para a minha namorada que está deitada no puff da sala assistindo esse jogo, existam outras representações da realidade. consequentemente, ainda que a matriz que proporciona a representação única de cada um com relação à realidade seja o jogo de futebol que está acontecendo, digamos, na europa, as realidades que emanam dessa matriz são diversas, de modo que para cada um que entra em contato com ela existe uma realidade. contudo, se para cada um que entra em contato com essa matriz específica existe uma realidade, considerando-se que a matriz específica nem é aqui tocada, já que se fala de uma espécie de jogo de espelhos no qual a própria matriz se perde, uma vez que até no cenário onde o jogo se dá existem variadas representações da realidade, tem de existir algo que propicie a própria comunicação entre as pessoas que entram em contato com essa representação da realidade. aliás, isso tem que existir até pelo fato de que se não existisse, nem mesmo a possibilidade de conhecimento seria possível. neste sentido, para que eu fale de uma representação da realidade que me chega aos ouvidos nesta representação da realidade que agora crio em forma de texto, é necessário que exista um padrão mínimo de comunicação entre os próprios espelhos envolvidos nesse jogo. esse padrão, considerando-se que tenho representação sobre representação, fazendo com que a própria matriz daquilo que é representado se perca, é a linguagem. logo, o que propicia o intercâmbio entre essas diversas realidades que são diferentes de pessoa para pessoa são os caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação. porém, a organização dos caracteres lingüísticos que dão margem à própria comunicação variam no tempo e no espaço, levando-se em conta também que variam na forma. não fosse isso, não haveria porquê existirem vários alfabetos ao redor do mundo, sendo que se um brasileiro pegar um texto russo, por exemplo, irá ver mais representações figurativas de expressões verbais do que propriamente letras. entretanto, tendo o conhecimento de que são efetivamente letras faladas por um povo que se utiliza de uma representação gráfica diferente da dele, este brasileiro irá intuir que são efetivamente letras, que são efetivamente uma forma de comunicação gráfica, de modo que isso apenas se dá porque esse sujeito tem o conhecimento de que em um outro lugar do planeta, outras pessoas usam um alfabeto completamente diferente do dele. dentro deste âmbito, pode-se falar até mesmo das reformas ortográficas que são feitas na língua portuguesa. anteontem lia um correio do povo que continha uma fac-símile de uma página do jornal do início do século XX. nesta fac-símile, o modo como os caracteres do nosso alfabeto se organizavam era diverso, ainda que pudesse ser entendido por mim. neste sentido, por conta da similitude da combinação das letras eu pude intuir o significado e o sentido das palavras, ainda que este significado e este sentido das palavras seja único para mim. e por quê? admitindo-se que o significado de uma expressão está subsumido ao contexto no qual esta expressão repousa, o que teremos é uma expressão apontando para a outra de maneira infinita. logo, é da trama de expressões que apontam uma para a outra de maneira infinita que o próprio significado surge. entretanto, partindo do pressuposto de que várias pessoas irão ler este texto, pode-se dizer que várias pessoas irão intuir um sentido diverso desse texto, isso porque no mais das vezes sua educação, e aqui tomando por base o sistema cartesiano que existe em todas as escolas do mundo, praticamente, converge mais para as partes do que para o todo, obnubilando a própria noção de trama lingüística. convergindo mais para as partes do que para o todo, ainda que se admita aqui que o significado de cada expressão é subsumido ao significado de outra expressão, o sentido da trama que propicia o sentido das próprias expressões dificilmente será visto, sendo que ainda que percebido, este sentido será diverso de pessoa para pessoa. desta forma, pode-se corrigir o que foi acima dito no sentido de que no texto repousa o significado e na pessoa que entra em contato com o texto repousa a significância, que consiste justamente no efeito que este significado provoca na pessoa. mas levando a questão mais profundamente, chegaremos à constatação de que o próprio texto foi escrito por uma pessoa. afinal, ainda que os sites de bancos e afins tenham toda uma sistemática que toma decisões por conta da sua estrutura, não se pode esquecer que esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo. se esta sistemática foi feita por uma pessoa ou por um grupo de pessoas ao redor de um mesmo objetivo, pode-se concluir que, ao fazê-la, estas pessoas estão levando para o plano da representação lingüística a intenção que tinham, seja na forma de site ou texto, indo agora em direção ao texto do correio do povo que referi anteriormente. se estas pessoas, prenhes de intenções, irão construir textos e sites, o que irá vazar para os textos e sites são tanto significados quanto significantes. e por que irão vazar tanto significados quanto significantes? porque no instante em que uma coisa é falada, o fato de falarmos a mesma anula o próprio sentido que tínhamos da mesma, pois este sentido, se falado, é uma representação e nunca uma presentação daquilo que se fala. entretanto, se não falado, este sentido existiria? a resposta correta é não, tomando por norte o fato de que é a linguagem que propicia o entendimento entre as pessoas, ainda que estas pessoas sejam de espaços e tempos diferentes, o que se comprova pelo fato de eu poder ler um texto de um século atrás em um jornal de anteontem. desta maneira, não se estaria, porém, anulando a possibilidade de conhecimento daquilo do que se fala? por um lado sim e por outro lado não. por um lado sim, porque se apenas podemos representar aquilo do que falamos através da linguagem, aquilo do que falamos é inacessível, de maneira que só pode se dar ao nosso conhecimento na forma de linguagem, de representação gráfica ou sonora de algo visto ou sentido. entretanto, por outro lado não porque o fato de podermos tocar aquilo do que falamos partindo do pressuposto de que se trata de algo existente no mundo, já dá a entender que existe uma realidade exterior ao próprio plano lingüístico que sentimos mas só podemos dizer quando no plano lingüístico. seria simples se aqui eu invocasse heidegger e a questão dos planos hermenêutico e apofântico. contudo, quero levar a pergunta um pouco mais adiante. se logo acima falei que o fato de só podermos dizer as coisas e nós mesmos através da linguagem e logo após referi que isto se tratava de uma via de mão dupla, já que implicava tanto em um nexo positivo quanto em um nexo negativo, é preciso remeter ao fato de que falei isso tomando por base a idéia da trama lingüística. tomando por base a idéia da trama lingüística, chegarei a ocorrência de que tudo aquilo que falo, quando falo, liga-se a cada termo falado, levando-se em conta que o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo. se o conhecimento do sentido de um termo implica no reconhecimento do sentido de outro termo que influi no conhecimento do sentido do primeiro, o que se conclui disso é que o sentido de cada termo não está naquilo que se fala, mas sim nas ligações que são feitas a partir daquilo que se fala. consequentemente, se são as ligações que são feitas a partir daquilo que se fala que propiciam o próprio conhecimento do falado, pode-se pressupor que existe um mundo à parte a ser estudado. neste mundo à parte, as regras de ligação entre os termos, contudo, de forma alguma serão estáticas, isto porque estarão subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos. se subsumidas a sempre novas leituras feitas desses mesmos termos, novamente se traz à tona o plano da intenção, sendo que cada leitura traz em si a intencionalidade daquele que lê, assim como cada escrita traz a si a intencionalidade daquele que escreve. desta maneira, ao passo que se está falando de um sentido que brota naquele que lê, está se falando de um sentido existente naquilo que é lido, de forma que esse sentido irá brotar como significância naquele que lê para só então se acomodar como sentido, ocorrendo isso quando se insere nesta equação o plano da intencionalidade. por conseqüência, se é o plano da intencionalidade que dá sentido às realidades representativas das pessoas, não seria o estudo desta intencionalidade que levaria a algo mais profundo acerca da própria trama lingüística que tento desvendar? a resposta é dúbia, e não haveria como não sê-la. a resposta é dúbia porque no momento em que procuro estudar a intencionalidade tenho eu também uma intenção. logo, intencionalidade sobre intencionalidade, o que se terá serão novamente âmbitos de realidades representativas no plano lingüístico. desta forma, o estudo recairia em uma intenção tentando explicar outras intenções, sendo que por mais que esta intenção tivesse justamente a intenção de explicar aquelas intenções, sempre haveria um fator subterrâneo influindo na sua própria explicação. afinal das contas, não é apenas o fato de ter a capacidade de ler que leva alguém até o gosto pela leitura. nisso influem fatores externos, como a família, os amigos e os amores. por conseguinte, mesmo que uma teoria desse conta da explicação do funcionamento dessa teia lingüística, esta teoria sempre daria margem a outras teorias e assim por diante. porém, o fato é que isso é inevitável. e admitindo que isso é inevitável, pode ser alcançada uma nova dimensão das próprias possibilidades de explicação. se estas possibilidades de explicação sempre implicam em uma simbiose entre a intenção que se tem quando se fala com aquilo que é falado, considerando-se que neste binômio intenção/fala está imbricado o binômio significado/significante, deve-se admitir que nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável. se nada do que é falado está isento desta culpabilidade inevitável, é de se dizer que a pretensão da pureza de uma teoria jamais pode ser aceita, pois é o ser humano que conhece, e onde o humano for somente o humano haverá. e se esta premissa está certa, o fato de termos esta compreensão que temos do universo e das coisas que existem nesse universo, poderia ser completamente diferente se ultrapassássemos certas barreiras da própria compreensão. se existe na maior parte das escolas um plano de ensino de aporte cartesiano, por exemplo, saindo deste paradigma e rumando em direção a um outro paradigma que tenha por norte a teia lingüística daquilo que se chama cultura e que constitui o próprio ser humano enquanto fator por ele criado em concatenação com o cunho biológico, a compreensão será difusa. será difusa porque não lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado unitário, mas lerá as partes ou os termos de um texto levando em conta o seu significado em relação às outras partes e aos outros termos deste texto. consequentemente, apenas uma interpretação holística daquilo que é lido, isto para ter base no exemplo do texto, é que poderá propiciar uma nova compreensão do próprio universo. o ponto máximo da compreensão desse universo talvez encontre ápice no momento em que der foz a um outro universo, este completamente diferente do universo de origem mas composto pelos mesmos caracteres, o que já remete novamente a idéia de teia. neste universo, por sua vez, partindo de um jogo de espelhos inevitável, ou melhor, partindo do próprio reconhecimento da inevitabilidade deste jogo de espelhos, aquilo que é dito será visto de uma maneira completamente diversa da anterior. e se aquilo que é visto será visto de uma maneira completamente diversa da anterior, já que partirá da idéia de teia ao revés da idéia unitária, o próprio sentido do visto irá mudar, influindo, por conseqüência, na própria vida daqueles que vêem, pois se tomarmos por norte o fato de que as palavras de um texto somente existem em ligação às demais palavras existentes nesse texto, e não de uma maneira unitária e (por que não dizer?) individualista, veremos as próprias pessoas com quem convivemos ou não como parcelas necessárias para a nossa própria existência e, por conseqüência, para o nosso próprio sentido na trama do mundo, o qual é feito tanto daquilo que podemos falar quanto daquilo que jamais poderemos levar ao plano lingüístico, o que talvez seja a causa da repressão perpetrada pelas leis e pela religião, pois quando nos deparamos com algo que jamais poderá ser dito, é inevitável que ou criemos leis para não dizê-lo, armando cerca ao derredor do indizível, ou criemos leis para explicá-lo a partir daquilo que podemos dizer, dando a este um significado sublime justamente por conta do seu núcleo indizível. contudo, se este fato for aceitado, até aquilo que é dito é uma sublimação para aplacar a falta do que não pode ser dito. logo, a palavra sempre expressa uma ausência, como diria lacan, pois se ela existe é porque algo falta. por conseguinte, se falamos é porque perdemos um jogo do qual jamais poderemos sair. porém, é possível que aqui nem exista a questão da derrota ou da perda, porque em último grau não existem vencedores ou perdedores neste jogo, já que o mesmo é de saída inatingível. é possível que o tempo nos devore nas tramas desse labirinto, fazendo com que esqueçamos da nossa perda em função daquilo que dizemos e criamos para acreditar ou acreditamos para dizer. é possível que esqueçamos de tudo aquilo que jamais poderemos dizer tão-somente pelo fato de termos que viver ou sobreviver sem esta compreensão. porém, ter que viver sem esta compreensão e não ter consciência da mesma não é algo que me cai bem, sendo que prefiro insistir em tentar compreender o modo como ela se dá para que desta forma talvez possa chegar na raiz da mesma e ultrapassá-la, tendo ao meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo apenas por conta da minha teimosa intenção que me presenteará com essa suposta compreensão. e terei aos meus olhos mundos completamente diversos deste que agora vejo porque compreendendo ao máximo aquilo que vejo e as próprias possibilidades de ver aquilo que vejo, chegando na raiz última dessa equação, na possibilidade do reflexo que implica no próprio reflexo e portanto implica na palavra, irei desvendar o mecanismo da minha realidade e talvez apagar do meu totem a impossibilidade de ir além desta realidade. se este dia chegar, meus vizinhos serão diferentes, minhas palavras serão diferentes e todos os apartamentos deste prédio serão diferentes. talvez até mesmo as paredes se diluam, já que finalmente verei que elas não existem porque em realidade nada separam: são meras virtualidades da vergonha, meros monolitos do egoísmo. é possível também que todo preconceito entre as pessoas, seja por qual motivo for, também deixe de existir, isto porque não haveriam motivos para desentendimentos já que todo sistema do próprio entendimento seria conhecido, de modo que, ao conhecê-lo, pudéssemos ultrapassar o mesmo em direção a um outro entendimento. mas enquanto isso não chega fico com a cortina que lembra aquela música do ritchie e com o ventilador que ventila meus pés para que eles não sejam tão descascados por este verão que inicia. e ficando com isso, me dou por conta de que irei escrever neste espaço três vezes por semana, mais precisamente no sábado, no domingo e na segunda, o que talvez tenha a ver com o fato de vivermos em um mundo com três dimensões. einsten supôs que a quarta dimensão fosse o tempo. hoje, porém, já são contabilizadas onze dimensões sobrepostas em pequenas cordas que ao soar fazem tudo existir. se isto é verdade não sei, mas o fato é que isso faria com que minha trama de palavras se tornasse um violão, importando agora saber não tanto quem irá tocar, mas sim o quê irá tocar. se for um samba, o mundo será um. se for uma milonga, o mundo será outro. mas o fato de ouvir uns violinos que me chegam da televisão ali da sala, já que minha namorada certamente deve ter mudado de canal, me faz pensar que tanto um samba quanto uma milonga seriam muito pouco para este violão tornado coisa em razão da própria trama de palavras se diluir e dar foz a uma outra realidade. este violão, ao contrário, iria dedilhar a 9ª sinfonia de bethoven, transformando-se aos poucos em todos os instrumentos de uma imensa orquestra do cosmo assim como pôde se transformar em violão. digo isso porque a música é o conhecimento profundo do indizível, é o mais próximo que podemos chegar daquilo que é e somente é, pois ao contrário, ficaremos com blanchot e a morte como o ruído interminável do ser. e entre ficar com este ruído que lembra fábricas e aquela música que lembra vida, que lembra viver e a própria possibilidade de viver, e por conseqüência a grandeza de tudo isso, fico com a segunda talvez porque sejam seis e vinte e dois da tarde e minha garrafa d'água morna esteja no fim, o que faz com que até minhas associações tenham sede e acabem por desfalecer no deserto deste texto. afinal, um abajur cor de carne pode estar coberto por algumas manchas brancas assim como o sol de um deserto pode estar num céu tão azul que por conta do sol parece branco. e por quê? fica para a próxima, pois aqui já lembraria de gaia e urano, ainda que minha sede efetivamente exista - tanto por água quanto por mais palavras: essas perguntas desiludidas que todos os dias me ocorrem.
sábado, 15 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
um cachorrinho carregava um pedaço de caixa de papelão com a boca ladeira acima.
um cachorrinho carregava um pedaço de caixa de papelão com a boca ladeira acima. sem mais, largou a caixa e seguiu farejando as pedras da rua, procurando sabe-se lá o quê. aí parou e começou a latir em resposta a uns outros latidos que vinham da quadra de cima. de repente, outros dois cachorros surgiram mais abaixo: um poodle, desses de madame mas com a tosa por fazer, meio com cara de decadente, e um outro que a escuridão de um quase-noite não me trouxe distinção, mas que parecia um vira-lata qualquer. esses dois olharam para aquele que estava no meio da ladeira e que havia carregado a caixa até há pouco. nisso desceu uma pampa pintada nas portas com uma cor que a luz dos postes me fez pensar que era amarela, o que fez também com que o cachorrinho da caixa de papelão fosse para o costado da rua e respondesse a mais uns latidos que vinham da quadra de cima e da casa do vizinho, no qual existem três cachorrinhos, também poodles decadentes, presos em um canil minúsculo. fiquei observando aquela cena enquanto batia no meu rosto um vento norte que meu avô sempre disse ser de chuva. entretanto a lua era alta e algumas estrelas ainda podiam ser vistas entre as nuvens, o que me fazia pensar que não iria chover tão logo. porém, lembrei que essa coisa de premonições ou constatações prévias de coisas que estão para acontecer sempre faziam algum sentido. afinal, o fato do meu avô dizer que o vento norte era prenúncio de chuva devia ter alguma fundamentação ancestral. talvez o pai do meu avô, tecnicamente o meu bisavô, tenha dito isso pra ele e ele tenha dito isso pra mim, de modo que aquela fala que se perdia nas décadas ainda encontrava ecos na minha fala. mas pensar em toda essa linha de falas que se perdiam em décadas e de cachorrinhos que subiam a ladeira me fez cansar. logo entrei pra dentro de casa e fechei a porta da sacada para que o vento não amontoasse pó nos móveis. porém, ao sentar na frente do computador, o calor de novembro me fez ligar o ventilador, fazendo com que um outro vento, dessa vez um vento artificial, batesse nos meus pés suados pelo começo do verão. lembrei nesse momento de um jogo que existe no meu celular. o jogo é mais ou menos assim: um programete manda você pensar em uma palavra e nisso faz várias perguntas a você tentando adivinhar a palavra na qual você pensou. as perguntas às vezes são meio sem pé nem cabeça. por exemplo: você pensa em uma pedra de ouro e ele pergunta se você faria um buraco nela. necessariamente, quer dizer, ele não pergunta se você faria um buraco nela. ele pergunta assim: você faria um buraco nessa coisa? desconsiderando a hipótese de uma aliança, isso soa estranho, convenhamos, mas de vez em quando esse programete adivinha as palavras que você pensa. claro que o programador do programete deve ter pensado em palavras do senso comum que qualquer desocupado pensaria se jogasse um jogo desses no celular. hoje pela manhã, só pra se ter uma idéia, pensei em um ventilador e me pus a jogar o dito jogo. pergunta vai e pergunta vêm, ele me deu a resposta: você está pensando em uma ventoinha elétrica. claro que eu achei isso meio português demais, meio luso demais para o meu senso brasileiro e sulino. quem irá chamar um ventilador de ventoinha elétrica? mas o fato é que o programete havia acertado a palavra ou a coisa na qual eu havia pensado meio com sono e meio acordando pela manhã. pra deixar mais claro o tempo no qual se passou isso, não era necessariamente manhã: era quase-tarde. mas quem define o que é manhã e o que é tarde para quem recém está acordando? a resposta é ninguém. podem até haver definições de tempo marcadas ao sabor das fábricas da vida, mas essas definições não se aplicam àqueles que não trabalham nessas ditas fábricas. contudo, tenho de admitir que era quase-tarde, o que talvez crie certo adjetivo de preguiçoso para quem estiver me lendo, mas isso não há de ser nada, mesmo que o zé carioca não seja dos meus favoritos. porém, pensar que um programete de celular pode adivinhar uma palavra que penso com sono me faz pensar que o meu avô não estava de todo errado ao dizer que o vento norte é prenúncio de chuva. quantas gerações meu bisavô deve ter ouvido para chegar a essa conclusão? viajemos. imaginemos um matzembacher de quinhentos anos atrás. certamente ele estaria na alemanha e vamos supor que ele estaria morando perto da floresta negra, aquela na qual o heidegger tinha uma cabana nos tempos da segunda guerra mundial. essa floresta negra, quatrocentos anos antes do heidegger, certamente era muito maior e mais extensa, sendo que só as bombas aliadas devem ter explodido metade dela, considerando, é claro, que as bombas aliadas tenham lá chegado, sendo que aqui sou totalmente a-historiográfico. logo, quando soprava um vento norte, meu antepassado dizia: é prenúncio de chuva, vai chover, etcetera e tal. não sei como se diz isso em alemão, mas certamente ele diria isso com um sotaque carregado e com o intuito de ir pra mata cortar mais lenha pra não ficar sem almoço no dia seguinte. ou sem lareira pra noite fria. enfim, não interessa. mas séculos depois, décadas depois, meu bisavô falou isso para o meu avô e meu avô falou isso para mim. consequentemente, acabei pensando nisso quando senti bater o vento norte na minha face, ainda que desconfiasse que essa previsão era completamente disparatada daquilo que havia lido em um site na parte da tarde, o qual dizia que chuva só para o final de semana. e levando em conta que é apenas segunda-feira, só podia ser bobagem aquele eco antigo que em meu ouvido se fazia voz. afinal das contas, o que pode o senso de um matzembacher de quinhentos anos atrás contra os telescópios e barômetros dos dias atuais? a intuição me faz querer dizer que pode muito, mas a razão me faz querer dizer que pode pouco. mas só para dar mais foz à voz, opto pela intuição. há de se convir que esta às vezes vale mais que a razão, ainda mais levando ao pé da letra o diagnóstico de certos economistas nesses tempos de bolsas em crise. não dá pra notar que eles tratam a economia como uma mulher prestes a entrar em um surto qualquer? concordo que a própria palavra economia assim como a palavra verdade sejam femininas, mas sopesando o fato de que esses sujeitos se julgam especialistas, acho que não é pra tanto. acontece, enfim, que tais economistas dizem que o mercado está nervoso e que por conta disso a tendência é a economia ficar mais nervosa ainda. será o mercado o marido da economia ou será a economia a amante do mercado? das duas hipóteses fico com a última, pois volátil do jeito que é, a economia só pode ter amantes. portanto, leia-se volátil como infiel, o que chega a ser uma denominação bacana. estranho é que pensar que a economia tem amantes me faz pensar em quem seriam os seus amantes. seriam os estados unidos ou a união européia? se fosse a união européia, há de se convir, a economia seria lésbica. mas se fossem os estados unidos, ela seria um tanto atrasada, já que seria quase que tradicional uma mulher casada com o mercado ter por amante os estados unidos, supondo que ele seja texano e presbiteriano. entretanto, se ela tivesse por amantes tanto os estados unidos quanto a união européia, a qual, só pra não perder o glamour, seria existencialista e fumante, não seria uma hipótese mais cabível? algo me faz pensar que sim, sendo que em tempos de liquidez, e aqui lembro do bauman, tudo se torna frágil e fugidio, até mesmo a fidelidade. e quer algo mais infiel ou volátil que a economia? certamente não há, levando em conta o fato de que ela é casada com um sujeito chamado mercado. contudo, se a economia é infiel e se o programete do meu celular acaba adivinhando que a palavra que penso assim como a premonição do meu avô adivinha que vai chover, quem está certo? a resposta é tanto um quanto outro e mais outro, nunca esquecendo que já me esqueci de quantos falei. se formos levar o assunto à fundo, o fato de tirarmos conclusões imateriais das coisas materiais que nos rodeiam é algo constante. isso até me faz lembrar que o descartes acreditava que a glândula pineal era uma espécie de órgão cerebral que transformava o material em imaterial, isso por conta de uma ilustração dele que vi ontem. entretanto, lembrando que alguns dizem que o ser humano só pode se movimentar no cenário da cultura, e portanto no cenário da linguagem, posição com a qual compactuo, haverá algo material a não ser o imaterial? claramente que não, pelo menos considerando aquilo que podemos conhecer. mas aqui cabe outra pergunta: seria a palavra imaterial sendo que ela está por todas as partes no mundo onde vivemos? há de se concordar, aqui, que palavras nos cercam por todos os lugares. basta sairmos na rua para vermos alguma placa de trânsito dizendo pra não irmos praquele lado ou alguma propaganda dizendo pra comermos tal e tal coisa porque faz bem à saúde. aliás, essa coisa de fazer bem à saúde sempre me soou mal. o porquê disso fica para outra ocasião. mas voltando ao questionamento das palavras serem materiais ou imateriais, a constatação de que essas palavras são anúncios e são placas e até mesmo regem nossas vidas, já que a maior parte dos estados tem constituições e todas as religiões tem livros que dizem o que são essas religiões e no que os fiéis devem crer, serão as palavras algo imaterial? algo me faz pensar que sim. mas ao mesmo tempo algo me faz pensar que não, visto que aquilo que mostra a palavra não se confundiria com a própria palavra. seria como o mecanismo do sonho do freud: aquela coisa de condensação e deslocamento. mas deixo isso pra outra hora também. a realidade, voltando àquilo do que falava, talvez encontre aporte no fato de que as palavras não são materiais nem imateriais. ao contrário, as palavras se dão na intersecção da materialidade com a imaterialidade, no esbarrar de ombros do de dentro com o de fora. logo, o significado dessas palavras existe como que na saída de um estádio após um jogo de domingo. e existe somente porque algum administrador que mal sabe administrar, deixou que as duas torcidas saíssem pelo mesmo portão, o que gerou esbarrões mil e pancadarias lógicas. e é nesse conflito que se dá a palavra, e é nesse esbarrão e nessa confusão da má administração que se dá a palavra: fusão da imaterialidade do sentimento da torcida com a materialidade de um bofetão nas fuças. por causa desses fatores, é que creio que qualquer transformação social que se queira jamais irá se dar de cima para baixo ou mesmo de baixo para cima. ao contrário, qualquer transformação social que se queira precisa de centros irradiadores tanto na parte de cima do estamento social quanto na parte de baixo do estamento social. afinal, relações sociais não são linerares: são em rede. isso pode soar óbvio, mas tomando por norte o fato de que no brasil, por exemplo, temos uma classe média que se divide em outras subclasses de A à Z, é muito mais complicado falar tal coisa. qual seria o fundo do poço da classe média? qual seria o ponto que diria que aqui começa a classe média e aqui começa a classe baixa, como que numa divisão de times da quarta série? são coisas muito difíceis e sempre acaba sobrando um perna-de-pau que vai pra sobra de um dos times jogar de zagueiro. por conseqüência, qualquer transformação social que se queira teria que levar em conta todas essas vicissitudes e ainda por cima utilizar a palavra para levar em conta todas essas vicissitudes. logo, não seria uma transformação de fora pra dentro e nem de dentro pra fora e muito menos de cima pra baixo ou vice-versa: seria uma transformação que se daria no conflito e portanto na própria materialidade imaterial da palavra. seria uma transformação que, por outro lado, somente se daria porque tem pontos conflitantes em si, coisa que não existe tanto nas pretensões comunistas quanto nas pretensões liberalistas, já que ambas carregam consigo um ideal de pureza. e considerando que a pureza é algo inalcançável nos dias atuais, nos quais por mais que queiramos nenhum alvejante irá nos livrar dos ácaros, o palpável teria de passar por essa confusão, sendo que a complicação começa no momento em que o próprio palpável decide passar por essa confusão. e onde começa essa confusão? certamente no instante em que alguém de dentro pensa ter razão e alguém de fora também pensa ter razão. ou melhor, pra ser mais direto, começa no momento em que uma torcida crê em uma coisa e outra torcida crê em outra coisa completamente diferente, sendo que ambas acabam se esbarrando na saída. assim, achar uma via racional em meio a essa profusão de identidades que deixam de ter identidade pelo próprio movimento, pelo próprio conflito, seria o único rumo possível para uma transformação social, sendo que este rumo, ao que se vê pelo menos dos governantes atuais, não irá ser alcançado. mas por algum governo ele foi alcançado? mas algum governo viu o que vemos hoje? a resposta é não, apesar de certas críticas sociais do próprio machado de assis, feitas lá no século XIX, poderem ser aplicadas perfeitamente aos dias atuais. entretanto, isso se deve ao fato de que o brasil é um país mais do que plural. o brasil, em suma, é aquele país no qual pré-modernidade, modernidade e pós-modernidade convivem uma ao lado da outra. é algo como você ter uma carroça, uma fábrica e uma lan house em uma mesma esquina. e quem vive no brasil sabe que isso existe em todas as cidades. portanto, como querer aplicar uma lógica que vem da europa a um espaço que é completamente distinto da europa? o fato é que nós não nos adequamos a qualquer conceito que venha de outro lugar. o fato é que mesmo sendo lidos por olhos daqui, somos quase sempre lidos com conceitos de lá, de modo que não há como haver subsunção. e isso não implica em um senso que quer se livrar de uma suposta espoliação do terceiro mundo pelo primeiro mundo. considerando que a dívida externa do brasil nos dias atuais está praticamente paga, isso de acordo com algumas fontes da imprensa que li por aí, como levar em conta tal subsunção? não há mais que se ter esse sentimento de inferioridade latino-americana, o que era muito caro aos nossos pais e mesmo a alguns que tem a mesma idade que nós, supondo que meu leitor tenha vinte e poucos anos. até porque governos pouco comandam hoje em dia: mais valem empresas. há que se achar, por outro lado, racionalidade em meio ao conflito, e por conta dessa busca há que se achar uma nova racionalidade que se amolde aos dias atuais, que se amolde a essa profusão de crenças que se mostram no cenário social, já que abstração por abstração rima com castração. do contrário, toda e qualquer solução será como uma previsão do tempo que provém de séculos atrás e que chega aos meus ouvidos por conta de uma lembrança do meu avô. do contrário, todo e qualquer ato que diga alguma resposta não passará de um ato que encontra margem naquele programete de celular que adivinha as palavras que penso. e pensar que ele tem ares lusos, ares portugueses, me faz ter um riso irônico que aponta diretamente para o modo como o nosso estado é organizado. mas isso é conversa pra outra hora. o que vale dizer agora é que ao abrir a porta da sacada e olhar para a rua, percebi que os cachorrinhos não mais estão ali. permanece, contudo, soprando um vento norte, e aquela caixa de papelão que o cachorrinho carregava na boca ladeira acima está jogada nas pedras. talvez espere que um carro passe e a arraste para outro lugar, pois imagino que até as coisas tenham alguma consciência. e se fosse uma pampa com as portas pintadas de amarelo, a ironia seria tamanha que nem beiraria o real. porém a luz dos postes sempre ditaria a cor das portas, e isso já tiraria qualquer pretensão de realidade daquilo que vejo: não passaria de previsão. e esta é a beira do real: uma previsão cujo valor vem de nós.
domingo, 9 de novembro de 2008
é domingo e sei que o dia será quente.
é domingo e sei que o dia será quente. sei que o dia será quente porque bate um vento que faz as cortinas da biblioteca arfarem como se estivessem respirando após uma corrida. e uma longa corrida. as nuvens, porém, estão brancas, o que talvez queira dizer que logo mais irá chover. entretanto, mesmo que chova, ocorrerá que o calor somente aumentará, isto porque a chuva mais o mormaço desse novembro que inicia quer dizer que o dia será insuportável. mas isso do ponto de vista da temperatura, que fique claro, porque no mais creio que ele será agradável. por isso que tento repensar certas coisas que falei ontem. dizer, por exemplo, que a relação dos nomes com as coisas e os fatos é uma relação negativa talvez esteja errado. a relação dos nomes com as coisas e os fatos é uma relação negativa no sentido de que os nomes nunca estarão para as coisas e para os fatos. ou seja: nosso limite é a palavra, mais precisamente a linguagem ou a cultura. depende, enfim, de quem fala. mas fazer recair o adjetivo negativo sobre essa relação quem sabe seja demais tendo em vista que percebemos essa relação. acredito que antes da evidência de que os nomes são disparatados das coisas e dos fatos ser uma evidência negativa, seja uma evidência que não carrega nenhum pólo elétrico. ou seja: uma evidência neutra, como aqueles elementos da tabela periódica que misturados com outros elementos da mesma tabela periódica se tornam neutros, coisa que nunca entendi. dizer que antes dessa relação ser negativa esta relação é neutra implica em uma posição plenamente existencial frente a própria vida, o que quer dizer que antes mesmo de entrarmos em contato com as coisas e os fatos e com os nomes que trazem ao nosso conhecimento cultural as coisas e os fatos, temos uma neutralidade em relação a eles que se anula ao primeiro contato com os mesmos. logo, antes da negatividade existe a neutralidade. porém, pensar nessa neutralidade talvez seja remeter a instantes intra-uterinos ou mesmo pré-uterinos que jamais poderão ser sondados. pensar nessa neutralidade, enfim, e levando a reflexão mais e mais adiante, talvez remeta mesmo a alguma espécie de eternidade, a alguma espécie de indefinido que justamente por ser indefinido defina tudo. porém, é preciso pensar que essa neutralidade existe porque afinal, antes de termos essa relação de negatividade com os fatos e as coisas, temos uma relação que propicia essa própria negatividade, o que redunda na ocorrência de que em algum momento uma escolha foi feita. contudo, o fator mais angustiante dessa exposição é que essa escolha não nos coube, é que essa escolha de modo algum esteve presente em nosso arbítrio já que mesmo nosso arbítrio inexistia. ou seja: simplesmente fomos jogados em uma realidade que, pela nossa própria natureza, cava um tremendo abismo entre os nomes e os fatos e as coisas. claro que essa abordagem tem por via uma concepção heideggeriana de ser-lançado no mundo para só então se constituir enquanto ser-no-mundo. porém, pensar que o desejo de conhecer as coisas e os fatos gera uma negatividade em relação às coisas e aos fatos por conta da impossível proximidade com os mesmos, implica na necessária ocorrência de um momento de neutralidade no qual nossas escolhas não puderam intervir pelo simples motivo de que inexistiam. e se inexistiam nossas escolhas, outros tomaram essa decisão por nós, sem nem ao menos saber que dessa decisão, impulsionada pelo simples desejo, enfim surgiríamos. esse fatalismo da existência, essa ausência de sentido último para dar sustentação a uma linha lógica que tente explicar a própria existência é o que me ocorre nesta manhã de domingo. minha pele está um tanto grudenta por conta do calor e sei que minhas glândulas suaram justamente para aliviar o calor. porém, não sabem elas que me sinto grudento em um sentido sujo ao sentir o suor calcado no corpo, e quanto a isso não posso fazer nada a não ser tomar um banho, o que mais uma vez é um fatalismo incrível, pois mesmo do nosso corpo não temos o menor controle. claro que conscientes de alguns desejos, ou simplesmente impulsionados por alguns desejos, tomamos esta ou aquela decisão. contudo se tomamos esta ou aquela decisão, isso não quer dizer que esta consciência do desejo seja exatamente uma consciência, porque estar consciente implica em ponderar riscos e amanhãs pelo próprio ato que se pratica. mas se nem o ato que nos gerou muitas vezes foi um ato consciente, já que imerso no simples gozo, quando enfim estamos conscientes? acontece neste sentido que temos apenas alguns modelos explicativos da realidade. sei que a neurociência tem avançado muito nos últimos anos para arranjar constructos químicos para definir nossas indefinições, mas até isso quer dizer de um nomear que será eternamente separado daquilo que nomeia. grosso modo, acaba-se caindo novamente no nôumenon kantiano, no incognoscível da hilda hilst ou no mistério do espírito santo católico, pois tudo se mostra com limites extremamente definidos para se dar a conhecer a nossa possibilidade de conhecer. talvez isso implique em um paradoxo, pois se de um lado temos limites plenamente estabelecidos quanto àquilo que podemos conhecer, de outro lado temos limites inalcançáveis quanto àquilo que jamais iremos conhecer, mas é justamente deste óbvio paradoxo que nem implica em um talvez que surge o drama da existência humana. existência essa que por alguns momentos felizes pelos quais passamos não se torna tão dramática assim. mas o fato é que é sempre necessário algum componente químico, nem que seja a água, para amainar os nossos angustiados sensos da realidade, necessidade esta que aponta para uma ciência que de natural tem a plena humanidade. algum dia eu disse, aliás, que onde o humano for somente o humano encontrará, e é disto que falo quando traço estas linhas. entretanto, sopesando o próprio peso destas linhas, percebo que se trato disso em um instante e em outro instante trato de coisa completamente contrária, pois admito a possibilidade de uma neutralidade pré-lingüística. ou seja: admito a possibilidade de uma existência humana fora dos limites da linguagem, o que estaria para um vir-a-ser-humano e não para um tornar-se humano, já que humano no sentido fisiológico da palavra desde sempre somos. porém, falar de um vir-a-ser-humano está para o próprio conceito daquilo que se considera humano. e partindo do pressuposto de que somente podemos conhecer os nomes das coisas e dos fatos, entende-se que aquilo que é próprio do humano é a linguagem, considerando-se entretanto que o humano não é somente linguagem. mas o fato de eu sentir minha pele grudenta nesta manhã de domingo, por mais que inenarrável frente quaisquer metáforas, já implica em uma forma ou modulação lingüística tão-somente por conta de eu estar falando sobre isso, o que acaba por anular o senso de que, sendo humanos, somos algo além de linguagem. contudo, admitindo que ao sermos humanos no sentido fisiológico estamos em uma condição de vir-a-ser-humano no sentido de conviver com as coisas, com as pessoas e com o mundo, admito que existe um ponto na existência em que a própria existência, por estar em construção, é prenhe de futuro, é prenhe de amanhã e consequentemente de expectativas pelo que será dito. se a existência é prenhe de futuro e de amanhã, por óbvio que também é prenhe de angústia, pois a incerteza do espelho é a pior coisa que existe. explico: imagine você acordando e de repente notando que, da noite para o dia, sua face ganhou uma imensa cicatriz da qual você não tem a mínima noção da origem. podem-se traçar aqui algumas hipóteses, as quais delimito em três para não ser infinito: a) ou você saiu na noite passada, tomou um porre e esqueceu de tudo quanto fez, considerando que você se envolveu em uma briga; b) ou você caiu da cama, esbarrou no bidê e fatiou meia-face por conta dessa inconsciência do sono; c) ou você foi abduzido por alienígenas que introduziram esta cicatriz no seu rosto por puro masoquismo. há de se convir, diante da percepção de que basta uma coisa ser possível para que ela exista, que todas as hipóteses são verdadeiras, levando-se em conta ainda de que basta uma coisa ser possível para que ela exista porque não sabemos do futuro e mesmo assim intuímos o amanhã. contudo, para intuir o amanhã é preciso lembrar do ontem, cavocar algumas cláusulas do passado para elaborar o contrato do dia seguinte e somente assim historiografar o porvir. entretanto, se em algum momento esquecemos do passado, ou seja, não temos a menor consciência da origem, isso quer dizer que todas as hipóteses são possíveis, pois tanto ser abduzido por alienígenas quanto ter se envolvido em uma briga são fatos que, primeiramente no plano da imaginação e secundariamente no plano da experiência, acontecem todos os dias em todos os lugares do mundo. desta forma, intuir que antes da negatividade da nossa relação com as coisas existe uma neutralidade que possibilita a própria relação do humano com as coisas, as pessoas e o mundo através da linguagem, é um caminho que, emoldurando o cenário do hoje, acha as pistas do ontem, assim como o sujeito que cata as roupas de uma desconhecida na manhã de sábado pelo chão do seu quarto. reconstruir o passado com algumas pistas do presente é o que se faz ao falar disso e é também o que se faz quando se constroem máquinas como o grande acelerador de hádrons ou mesmo o telescópio huble. quando o hélio oiticica teve o insight dos parangolés aconteceu o mesmo, pois dançar envolto em arte é perverter a própria noção da forma que está presente em toda a arte, fazendo com que depósitos criativos que antigamente eram estanques se diluam em um presente prenhe de movimento. mais uma vez, vê-se que os níveis da realidade, seja por quais ligações se rumar, estão umbilicalmente coadunados um ao outro, de modo que é impossível dissolver o pai do filho nesta irmandade siamesa completamente surreal. e é impossível dissolver o pai do filho porque criador e criatura são a mesma pessoa, porque palavra e coisa e fato, dentro dos limites humanos, são uma coisa só, apesar de surtirem em nós, por conta do desejo de conhecer, o senso de negatividade daquilo que não se pode conhecer, daquilo que não se pode ter como se fosse um freio imenso que sempre irá nos espremer os dentes. e é por conta desse senso de negatividade que a ciência prossegue tentando conhecer e a arte tentando desvendar o que existe para além da própria ciência, abrindo alas para que o bloco da humanidade tenha ao menos um beco para sambar. nesse beco, talvez nosso passo seja três pra trás e dois pra frente, isto ad infinitum, mas mesmo assim valerá a pena pois haverá movimento e portanto haverá vida. de idêntica maneira, perceber que existe vento e possivelmente prenúncio de chuva por conta das nuvens brancas, ainda que eu me sinta desconfortável, já é algo ótimo, pois consiste em movimento e portanto em vida. logo, torço para que chova, mas para que chova imensamente como talvez tenha chovido aos pré-diluvianos que sobreviveram sem querer a um castigo que nós criamos porque séculos depois escrevemos. por conta disso é que abrirei as cortinas e irei tomar um banho, já que somente a química, seja do vento ou da água, é que constrói tudo o que somos, mesmo que essa química seja o imponderável, o incognoscível, o invisível, aquilo ou aquele que é e simplesmente é.
li em algum lugar que escrever em caixa baixa está em desuso.
piet mondrian.
li em algum lugar que escrever em caixa baixa está em desuso. ou no mínimo é antiqüado e pretensioso. acho que concordo com isso. mas não sei o que isso quer dizer. escrever em caixa baixa poderia demonstrar certo desleixo se ainda estivéssemos nos tempos das máquinas de escrever, porque estaria para o fato de que aquele que escreve tem preguiça em pressionar aqui e ali a tecla que gera as letras maiúsculas. entretanto hoje não existe porque isso demonstrar desleixo, já que os editores de texto fazem e acontecem nos computadores. e tanto que quando aquele que escreve quer realmente escrever em caixa baixa, precisa recorrer a processadores mais arcaicos como o bloco de notas no qual agora escrevo. caso contrário, a soberania dos processadores de texto sobrepujaria qualquer intenção daquele que escreve, seja em caixa baixa ou baixa e alta como nos ensinaram na escola. porém isso não quer dizer nada. aliás, ao escrever que isso não quer dizer nada e ao notar que comecei a escrever justamente por conta do formato no qual escrevo, noto que sempre digo em um momento do discurso que isso ou aquilo não quer dizer nada. mas infelizmente acontece que é justamente isso. quanto mais se queira dizer, quanto mais se queira fazer ou dar significado àquilo que se quer dizer ou fazer, menos se diz ou se faz. o significado ou o sentido é o oposto da coisa ou da ação, e isso faz com que toda explicação se torne tão redundante quanto um adeus quando nada mais vai certo. mas em algum momento as coisas andaram de maneira correta? o fato de dizermos que isso ou aquilo acontece de maneira correta ou incorreta está diretamente relacionado com a percepção que temos disso ou daquilo. se nosso senso moral aponta para o término de uma amizade, por exemplo, é óbvio que o término dessa amizade se dará porque um dos pólos não mais sabia o que fazer ou como se comportar diante da relação. porém, quem termina amizades? na maior parte das vezes, as pessoas apenas colocam o relacionamento em banho-maria e deixam que as coisas arrefeçam por si. na verdade isso é muito mais fácil do que um ponto final. por isso mais utilizado. mas mais correto seria se voltássemos ao tempo em que ser um autor ou ser um presidente significava alguma coisa. o fato dos estados unidos terem sido atacados em seu símbolo econômico lá nos idos do início deste século revela muito. revela, e aqui não quero me alongar no assunto, que não mais importam identidades, mas sim o poder que essas identidades, sejam elas existentes ou não, geram na trama de relações nas quais influem. isso quer dizer que ser uma ou outra pessoa não tem o menor interesse para as outras pessoas, pois o que realmente interessa é o quanto uma ou outra pessoa simboliza na teia de relações com as outras pessoas. é algo que acontece com uma palavra ou um termo próprio de uma ciência qualquer que, quando deslocado do seu contexto, deixa de ter significado próprio daquela ciência ou mesmo ter significado, já que pode ser completamente ininteligível àqueles que o lêem. fico pensando quando me ocorre isso no que deve acontecer na mente das pessoas que não são detentoras lá de muito conhecimento quando ouvem que inventaram ou construíram o grande acelerador de hádrons. pra começar, quase ninguém sabe o que são hádrons. dentro deste grupo me incluo mais por preguiça do que por sapiência. me incluo, enfim, por ignorância, pois algum tempo atrás um livro do hawking me explicou de maneira esmiuçada tudo isso. mas aconteceu que senti que aquilo era lógica demais para a minha cabeça e simplesmente larguei o livro, olhando pra ele de vez em quando ali na estante, sem saber se ele olha ou não para mim. talvez a nossa relação seja como as relações que se estabelecem entre esses adolescentes tímidos e as primeiras meninas com as quais têm contato nas noites da vida. nessas horas, o menino não sabe se a menina está olhando pra ele com olhar de cobiça ou de malícia no sentido de caçoar da roupa, da calça, da camiseta dele. e aí, tanto por conta do fato de ser tímido quanto por conta do fato de estar inserido em um grupo social, pois invariavelmente irá para a noite com um grupo de amigos, sentirá vergonha caso tome alguma atitude e essa atitude venha a ser frustrada pela reação da menina, considerando que esta vergonha, ainda que provenha de um ato feito diante de pessoas que são tidas como amigas, irá marcar o momento daquele adolescente de uma maneira completamente negativa, de modo que no futuro, e aqui falo no campo da completa relatividade, é possível que este mesmo adolescente até tenha problemas conjugais e acabe aos quarenta anos tendo vinte anos de divã no consultório de um psicanalista qualquer. porém, ainda que eu esteja escrevendo em caixa baixa e deixe que as idéias se relacionem ao sabor do próprio texto, não falo de mim quando falo disso. entretanto, lembro que alguém algum dia disse que nunca falamos de outra pessoa que não seja de nós mesmos, o que talvez anule o que acabei de dizer. mas o fato é que isso nada quer dizer, pois tudo quanto digamos, ao contato com as pessoas, com as coisas e com o mundo, é simplesmente anulado pela completa relação de negatividade que tem com as pessoas, com as coisas e com o mundo, de modo que nossa fala, que nossas construções sobre tudo aquilo que vivemos e somos, sempre estará completamente disparatada daquilo que vivemos e somos. talvez seja hora de invocar o pessoa precisamente na figura do caeeiro pra dizer que as coisas não tem sentido oculto, mas apenas existência. contudo, isso seria muito simples, muito lógico, conecto demais com aquilo que se está falando, fazendo com que o discurso ou o texto, como queira, soem de forma completamente inútil diante daquilo que se propõem a falar. mas o quê o discurso ou o texto se propõem a falar? ou melhor: o quê este discurso ou este texto se propõem a falar? vejamos. comecei por dizer que escrevo em caixa baixa e isso me levou a supremacia dos processadores de texto nestes dias que vivo. logo depois falei de relacionamentos, tanto no plano mundial quanto no plano pessoal, e acabei parando no pessoa pra retornar a falar da caixa baixa. acho, sem maiores pretensões, diante deste quadro, tentando traçar alguma logicidade em todas as linhas que traço, que é justamente este espírito, estas camadas sobrepostas de assuntos que se interligam que é o que quero que as pessoas ouçam. afinal, o grande acelerador de hádrons tem a ver tanto com o presidente eleito dos estados unidos quanto com os adolescentes que nesta noite de sábado sofrem pressão das meninas e dos amigos. e por quê? em suma, porque tudo acaba sendo feito da mesma matéria, e a idêntica sensação de desconfiança do olhar do adolescente diante do olhar da menina é aquela sensação que temos ao sentir que mini-buracos negros podem surgir do grande acelerador de hádrons. mas quem saberá o que são buracos negros se quase ninguém sabe o que são hádrons? lembro que uma senhora idosa esses tempos entendeu uma notícia da televisão sobre um acidente com um ônibus no sentido de que este ônibus havia caído em um buraco negro. fico me perguntando o que essa senhora, lá com seus setenta e tantos anos, entendia por buraco negro, o que me faz lembrar que sábado passado fui na missa e tentei não racionalizar nada do que via. fiquei lá no fundo da igreja, em pé, praticando os mesmos atos que as pessoas ao meu redor praticavam tão-somente por praticar e tão-somente para entrar no clima no qual aquelas pessoas estavam, o que me fez sentir toda aquela simbologia eclesiástica de uma forma completamente diversa do que sinto já há algum tempo. quando eu era adolescente, aliás, participava de um grupo religioso na minha escola. lembro que o nome do grupo era remar. confesso que participava mais pra ir acampar com os amigos e jogar truco do que pra rezar, mas a realidade é que uma coisa levava a outra, então aquilo me fazia bem. pensar nisso me faz ver o quanto é impossível separar todos os campos das nossas vidas. tudo tem a ver com tudo na exata proporção de que tudo é feito da mesma matéria, e pensar de maneira diversa seria como que anular a própria tessitura das coisas, das pessoas e do próprio mundo. acontece que quando se vive de cultura e quando não se sabe o que é o mundo e as coisas a não ser através da linguagem, o que significa cultura, corre-se o risco de que os significados sejam completamente diferentes no tempo e no espaço, o que gera, por sua vez, interpretações completamente diferentes dos fatos em todos os lugares. isto acontece mais ou menos no mesmo grau de complexidade e diferença que existe entre um bairro norte-americano e um bairro israelense. mas entre um bairro norte-americano e um bairro israelense, ainda que se vejam enormes diferenças, haverá a similitude das relações entre as pessoas, pois tanto em um quanto em outro haverão adolescentes tímidos e meninas que irão olhar para adolescentes tímidos. mas a carga deste olhar, ainda que tenha o mesmo desejo, será completamente diferente de um lugar para o outro, pois haverá uma moral e um senso de realidade diverso, o que fará com que a própria realidade, ainda que feita da mesma matéria tanto no ocidente quanto no oriente, tenha uma configuração que se mostre completamente disparatada uma da outra, o que me faz lembrar novamente da questão da caixa baixa, pois antigamente era desleixo escrever em caixa baixa. acho até que foi isso que fez com que o keuroac, mesmo que seu tema fosse um tanto diverso dos temas abordados pelos seus antecessores, fosse considerado aquilo que consideram beat, seja lá o que isso for além de uma batida. claro que o jazz e tudo o mais influenciaram nisso no sentido de que as relações entre os instrumentistas tinham muito a ver com a espontaneidade dos textos. isto é: era proposto um tema e este era improvisado por cada componente da banda em várias escalas harmônicas a uma órbita central, fazendo com que este mesmo tema pudesse se estender ao infinito em infinitas relações. e o desleixo que viram nos beats e que fez com que eles influenciassem até mesmo os hippies tem a ver com essa coisa de se deixar levar, de não atravancar o fluxo das palavras com uma racionalidade estanque que procure a certeza em cada passo, pois, ao contrário do que se supunha lá pelos idos do século XVII, a razão não é tão racional assim. desta maneira, acredito que esse seja o espírito de tudo quanto falarei neste espaço que hoje inauguro. as fatias da realidade serão aqui sobrepostas para que tenham um sentido enquanto sobrepostas, para que existam como existem na vida: uma em cima da outra, uma ao lado da outra, uma dentro da outra e uma fora da outra dando sentido a uma e outra. essa intenção pode soar antiqüada, pode soar até universalista, mas o fato é que é tão pessoal quanto o chá de maracujá com leite que tomo neste calor de trinta e tantos graus na madrugada de sábado. por conta disso é que minha única pretensão em escrever em caixa baixa é essa: escrever em caixa baixa. o que já é pretensão demais e mentira demais. afinal, a forma esconde aquilo que dizemos assim como o insufilme esconde aquilo que dentro do carro fazemos. e tanto nos textos quanto nos carros permanecemos parados enquanto algo anda por nós e em nós, pois se de um lado existe a palavra do outro lado existe a estrada, que é, convenhamos, também uma palavra repleta de buracos assim como todas as palavras são, sejam elas em caixa baixa ou alta.
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