Desnecessárias linhas para qualquer contrapeso. Coisas exaurem. Como fumaça. Em mim? Em ti? Nós? Apenas a sensação de tudo ter sido. Presságio de frutos tardios, dourados ressequidos à infinita espera da (a)colhida, embora um senso vitorioso trespasse fracassos oportunos. Inútil a vigília das portas. “Insígnia da lua”, falariam. Ainda que a mestria não esteja para o desvão das frases, o vento continuará soprando. E talvez chova. Seria terra molhada, renovada pela violência da vida. Algumas plantas felizes, como dizia meu pai quando eu era criança. Mas faz tempo que deixei de ser criança e as plantas deixaram de sorrir: meu pragmatismo pára ao primeiro toque. Admitir mais seria dar corda à existência. E de corda, chega a imagem. De qualquer modo, atravessarei ruas. Algumas crianças também. Talvez um guarda guie nossa travessia. Quem sabe, alargando ânimos, haveria uma faixa de segurança. Pé ante pé, cruzaríamos o umbral daquele símbolo cravado no asfalto, arraigamento branco cinzento: cadavérico. Nascendo, a pele, primitiva e consciente, roça a tessitura do fim. Treme e pulsa pressentindo o fim. Tudo continuará, seja do jeito que for. Supostamente do mesmo jeito. Além de supor, nada podemos. Ao atravessar ruas, seja com crianças ou sozinho, não modificarei nada. Os átomos serão os mesmos. Passos podem mudar de terra, de sujeira na sola do sapato, mas ainda serão passos cortando segundos como um ponteiro que assalta minha esfera de ação. Um símbolo não segura nada. No máximo, intenção de comunicar. No mais das vezes, apenas jorro. Jorro e fim. Fecundar a fala é diferente. Tudo provém disso. Há um retrato na minha mesa. Mostra duas pessoas. Continuará a soprar o vento. Chove, ameniza o calor. Minhas expectativas são essas. O dever pode chamar porque hoje estou surdo e me bastam palavras. Persisto. Sempre há o fator surpresa, apesar das faixas de segurança. Sempre haverá alguém para esquecer a fechadura destrancada. Voltar à faixa é mais seguro. Menos patogênico, pois classificável. Fiquemos com a certeza do signo. Fiquemos com a certeza do símbolo. Choverá e as plantas sorrirão suas pétalas como quando eu era criança. Exatamente como meu pai dizia. Nesse momento, atravessarei ruas com algumas crianças. Tudo conspira. Mas não é necessário que viva. Mesmo que o pensamento diga o contrário, conspirar não está para pensar. E se um pneumotórax desabar em choro, haverá tratamento. De resto, o futuro. Ah! o futuro! Um caminhão que não pára na faixa. O pragmatismo. Veja a carne. Veja as veias azuis entre essa cor perolada que medeia teus seios. Não as tocarei e sei que se encontram por debaixo do teu calor marinho e ondulante. E quando tua respiração não der mais conta delas, continuarão ali até que a terra, mestra de ti e de mim, diga que o tempo acabou. Que a vida se foi. E que espalhar húmus é tua sina. Setenta badaladas ao final. E eu atravessando ruas, pensando em travesseiros. Até que o caminhão faça sua parte.Crédito da imagem: Tripulantes da ISS fotografaram a atmosfera terrestre enquanto a nave Atlantis iniciava viagem de retorno à Terra. Foto: Nasa/Divulgação.


