quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LATITUDE SERENADA.

Desnecessárias linhas para qualquer contrapeso. Coisas exaurem. Como fumaça. Em mim? Em ti? Nós? Apenas a sensação de tudo ter sido. Presságio de frutos tardios, dourados ressequidos à infinita espera da (a)colhida, embora um senso vitorioso trespasse fracassos oportunos. Inútil a vigília das portas. “Insígnia da lua”, falariam. Ainda que a mestria não esteja para o desvão das frases, o vento continuará soprando. E talvez chova. Seria terra molhada, renovada pela violência da vida. Algumas plantas felizes, como dizia meu pai quando eu era criança. Mas faz tempo que deixei de ser criança e as plantas deixaram de sorrir: meu pragmatismo pára ao primeiro toque. Admitir mais seria dar corda à existência. E de corda, chega a imagem. De qualquer modo, atravessarei ruas. Algumas crianças também. Talvez um guarda guie nossa travessia. Quem sabe, alargando ânimos, haveria uma faixa de segurança. Pé ante pé, cruzaríamos o umbral daquele símbolo cravado no asfalto, arraigamento branco cinzento: cadavérico. Nascendo, a pele, primitiva e consciente, roça a tessitura do fim. Treme e pulsa pressentindo o fim. Tudo continuará, seja do jeito que for. Supostamente do mesmo jeito. Além de supor, nada podemos. Ao atravessar ruas, seja com crianças ou sozinho, não modificarei nada. Os átomos serão os mesmos. Passos podem mudar de terra, de sujeira na sola do sapato, mas ainda serão passos cortando segundos como um ponteiro que assalta minha esfera de ação. Um símbolo não segura nada. No máximo, intenção de comunicar. No mais das vezes, apenas jorro. Jorro e fim. Fecundar a fala é diferente. Tudo provém disso. Há um retrato na minha mesa. Mostra duas pessoas. Continuará a soprar o vento. Chove, ameniza o calor. Minhas expectativas são essas. O dever pode chamar porque hoje estou surdo e me bastam palavras. Persisto. Sempre há o fator surpresa, apesar das faixas de segurança. Sempre haverá alguém para esquecer a fechadura destrancada. Voltar à faixa é mais seguro. Menos patogênico, pois classificável. Fiquemos com a certeza do signo. Fiquemos com a certeza do símbolo. Choverá e as plantas sorrirão suas pétalas como quando eu era criança. Exatamente como meu pai dizia. Nesse momento, atravessarei ruas com algumas crianças. Tudo conspira. Mas não é necessário que viva. Mesmo que o pensamento diga o contrário, conspirar não está para pensar. E se um pneumotórax desabar em choro, haverá tratamento. De resto, o futuro. Ah! o futuro! Um caminhão que não pára na faixa. O pragmatismo. Veja a carne. Veja as veias azuis entre essa cor perolada que medeia teus seios. Não as tocarei e sei que se encontram por debaixo do teu calor marinho e ondulante. E quando tua respiração não der mais conta delas, continuarão ali até que a terra, mestra de ti e de mim, diga que o tempo acabou. Que a vida se foi. E que espalhar húmus é tua sina. Setenta badaladas ao final. E eu atravessando ruas, pensando em travesseiros. Até que o caminhão faça sua parte.
Crédito da imagem: Tripulantes da ISS fotografaram a atmosfera terrestre enquanto a nave Atlantis iniciava viagem de retorno à Terra. Foto: Nasa/Divulgação.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

RÉQUIEM PARA UMA NOITE ESCURA.

Repousa em ti revolta incandescente. Em ti crescem veias passadas. Faces passeiam teu corpo em procissão de dor e prazer. Frases ressoam poros em paredes de ontens indetermináveis. Estampa dos pêlos teus, dourados por um sol impressentido. É disso que falo. Há doçura na morbidez do presente, mágoa no riso que medeia caninos. O marrom da terra, da pedra, persiste entre a saliva que molha a boca descendo pelas entranhas. Lá fora vento, talvez silêncio de cada oportunidade. Passa uma lembrança de sol desprovido de luz, de lua desprovida de noite. Andas entre pessoas, reconhece a própria face na janela de uma casa e perguntas: “quem és?” A resposta é a veneziana fechada e um violino do lado de cá. A única permanência é essa: fetiche que tua voz pensa erotizar, crer além da crença, amolda cada falha que entreabre tua angústia. Quem sabe esquecer anos e calendários fosse recomeço. Não é apenas tato deslizando futuro, desviando caminho. Sondar com mãos suaves, estancar a respiração insone de todo negrume pressentido e silenciado. Não basta o desejo furtado da palavra. Não basta a fala que brota da antipatia de sentir. Uma encruzilhada de sorrisos traçada diante do medo. Sem novo mapa, união entre metria e carbono de olhos, a veneziana continuará fechando-se tarde após tarde, ocultando a partitura, razão do violino. Essa luz que ilumina tuas mãos é uma pista. Esse ar úmido que enche teus pulmões traz consigo o caminho. Tuas asas serão alimento para a rocha tingida pelo vermelho dos teus propósitos. Quando estiveres na altura da nuvem mais negra, um pássaro cruzará ao lado e dirá do erro de percurso. Será tão exato quanto o projeto das tuas asas. Distante da grama cairás. Ao lado, o gris do vôo manchará cada pedaço dos teus ossos, soletrando o único ofício que cabia à madrugada. Levantarás e sairás de casa. Cruzarás janelas sem se dar conta dos desfiladeiros. Insciente, novamente perguntarás: “quem és?” A resposta, antes música, freará perto de alguém que cruza na esquina para tatear um grito oco no asfalto quente. Um cemitério surgirá. Num ponto mais alto, feito de ânsia lúgrube, lápide após lápide, coluna após coluna. Por cima um véu de poeira cobre tudo e ficará maior quando teu queixo estilhaçar os vidros da infância. O veludo não será tua segurança e teu pai terá de te carregar nos braços, com o recalque dos olhos fazendo fronteira entre qualquer expectativa futura e presente. Mas crescerás, ganharás mais cicatrizes e passarás várias noites em claro. Dentro de alguns cadernos e no imã de alguns lugares, pedaços de carne furtadas de escuridão esperando reconhecimento. Essa carne brilha dentro de ti. Do sonho rebentará grandezas feitas de lã, rochas e rios. Do sonho tu sentirás a textura do mundo entrelaçando o teu. Essa pele, consciente de intenção, provará da magia de ser ontem, hoje e amanhã no único lugar destinado. Descerás escadas de sonho, verás um espelho cruzar às pressas sem dar conta do surdo apelo que vinha da tua garganta púrpura. Perguntarás: “quem és?” Mas a velocidade será ágil e doce, sepultando luz no coração dos sóis. Tua estrela nascerá, pulsando dentro e fora de ti a florescência da claridade em pétala e chama.
Crédito da imagem: Egon Schiele (1890-1918), pintor austríaco.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010.

Cerveja na garganta, champagne na geladeira e ano novo chegando. E ainda por cima, o blog completando um ano e pouco de existência. Tudo foi ótimo até agora. E espero que se torne melhor ainda nesse ano que se anuncia daqui uma hora. Um sincero abraço para todos aqueles que me acompanharam até esse momento. E pra não perder o lugar comum, um feliz 2010 a todos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Exercício n° 133.

Não há nada a fazer quando tudo está gasto. Quando a bile expeliu seu musgo no estômago e o estômago vazou para os pulmões, o que resta é a espera. E ela não precisa ser triste: nada precisa, ainda que a terra seja negra e os territórios sejam territórios porque alguém disse que são. A única fronteira do homem é seu corpo. O único obstáculo do homem é sua forma. Pele, carne, tudo que dança no espaço-tempo do cosmo, é esperança aqui e em nenhuma outra parte. As cenas se repetirão e as ramagens da vida, antes plena de expectativas, estarão restritas ao teto de um quarto vazio, onde flores mortas esperam pelo último veneno em um vaso de água podre. Alguns irão te visitar, dirão palavras que esperam ser ditas. Mas a razão, aquela que tu tinhas e acabou perdendo nas brechas do teu crânio, essa jamais retornará. O círculo se fechará a partir do momento que teus olhos cerrarem. Ninguém segurará tua mão. Cairão lágrimas sem remorso. Logo o esquecimento será o único verso da tua existência. Perdurarão engravatados ganhando em cima da tua criação que, antes opaca, oca de sentido, cairá nos olhos daqueles que servem para dizer se ela vende ou não. Após tua morte é que te tornarás único. Após teu fim é que tua palavra será ouvida. Mas de que adianta se nada dirás? Teu sexo tocará apenas a terra úmida de prazeres. Teus braços e ossos serão alimento para vermes, moradores da terra que lá estiveram sempre a te esperar. Tempestades cairão sobre teu túmulo. Sóis nascerão e luas surgirão para tua lápide. Mas lá dentro, tu não perceberás nada. Serás comida e com o tempo nem isso. Se um dia alguém perturbar tua solidão, encontrará teu crânio de olhos arregalados, assustados pela invasão. No mais, apenas prédios, ruídos de carros que cruzam e motos que rangem como cavalos que não sabem o que são. No mais, mulheres atrás de homens e homens atrás de mulheres com a garganta cheirando cerveja. Mas tu não participarás disso. Nem mais lembrarão teu nome. Voltará na memória de alguns poucos tua imagem, teu porte, teu cabelo. Tua palavra, aproveitada por aqueles que agora dirão que ela realmente diz algo, é que ressuscitará teu cheiro a cada olhar caindo sobre ela. Mas nem assim tu estarás presente. Estarás enterrado, cravado nas entranhas da terra até que o final disso tudo chegue. Então te levantarás, percebendo que nada mudou e tudo continua como antes. Os territórios continuam a ser territórios e as armas continuam nas mãos de quem pode ter armas. Tua voz preferirá o retorno, mas já não haverá como retornar. Condenado a essa nova vida, a única coisa que te fará chorar será o primeiro raio de luz tocando teu olho quando todos os vulcões enfim cuspirem o sangue da terra para a pele do mundo. Sorrirás, dizendo que isso é bom e justo. E carbonizado serás eterno, feito de pedra que não se gasta, mas sim perdura como tudo aquilo que não deverias fazer e fez. Esse é o meu conselho. Crê que não sou pessimista. Apenas digo do teu coração, pois orbitar eternamente em torno de si, é como negar que teu rosto só existe por conta de outro rosto que numa tarde te beijou, te amou e disse que o sangue é o espírito do corpo e que devias te contentar com isso. Afinal, estavas vivo. E estarás mais vivo quando antes de seres pedra, te tornes fogo, e antes de seres fogo, percebas plenamente a futilidade da tua forma por vir, arrasada pela argamassa da lava e liquefeita por tudo aquilo quando em vida tu te propôs a gastar pelo teu corpo. No fim das contas, será o teu sorriso que ficará eternamente ancorado na porta da tua lápide, porque nada, absolutamente nada precisa ser triste quando tudo está gasto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Adiós goodbye, INSUFILME.

Esse blog já foi bom. Mas anda em decadência. Daqui uns dias ele completa um ano. E revendo os textos antigos, percebo que existe uma grande distância entre eles e o que ando escrevendo ultimamente. Talvez seja por conta de novas obrigações e compromissos que me surgiram. Ou talvez seja por conta de eu não conseguir fazer literatura nos últimos tempos. Quem sabe isso seja sinal para que eu dê um tempo para o blog. Ou para que eu pare de escrever por um bom tempo. Mas entre uma e outra alternativa, prefiro o meio termo. Ou seja: prefiro disponibilizar por aqui apenas aquilo que eu creio que seja bom e não textos ao deus-dará de qualquer bobagem que eu escreva.

Sei que não mereço o título de escritor. Ao contrário do meu ego inflado e daquilo que pensam os autores da maioria dos blogs da rede, prefiro não tatuar na minha testa essa palavra. Claro que vontade não falta. Claro que depois de ter escrito algumas coisas boas, você acaba pensando que sempre vai escrever coisas boas. Beira a arrogância. Mas acontece que não é assim que funciona. Não que tenha que fazer calor ou frio ou chuva para um texto sair bom. Não que a gente tenha que estar alegre ou triste para escrever algo decente. Ocorre que existem épocas nas quais a palavra simplesmente não sai como deveria, razão pela qual até mesmo tenho deixado de comentar os blogs dos leitores deste espaço.

Não digo que permanecerei em silêncio. Tagarela como sou, seria pedir demais. Seria quase uma tortura. Mas digo que tomarei maior cuidado antes de divulgar textos por aqui. A rede sempre é muito mais extensa do que a gente imagina. As palavras que aqui foram postadas chegaram a locais e pessoas que eu sequer poderia imaginar. Talvez por isso seja necessário esse esclarecimento ou seja lá o que isso for. Não que eu tenha vergonha do que escrevo. Pelo contrário, costumo dar muito valor para minhas palavras. Aí é que talvez se encontre o erro, porque quando a gente se apega demais a seja lá o que for, costuma fechar os olhos para certas coisas.

Então reconheço ou pelo menos tento reconhecer: o blog anda sim em franca decadência. E de agora em diante, ainda que ele esteja próximo do seu primeiro aniversário, não publicarei textos como de costume. Ficarei mais atento ao que publico. Isso não é sinônimo de interdição. É somente sinônimo de cuidado e respeito pela escrita. E se esse blog foi bom, quem sabe seja sinal de que pode voltar a ser bom. Mas temos de respeitar nosso momento na história. E nesse momento da história desse blog, era isso que eu tinha pra dizer.

Mas nada de adiós goodbye, INSUFILME. Apenas um aceno para a vergonha na cara e para o valor da escrita. E pronto.

A Síndrome do Pink & Cérebro.

Quarta-feira. Durmo de madrugada. Pelas quatro da manhã. Acordo cedo. Pelas oito. Venta e faz frio. Mas existem coisas pra resolver. Bato água gelada na cara, ponho um casaco e saio pra rua. Primeira parada: banco. Chego num dos ditos e vejo uma plaquinha: GREVE. Converso com uma funcionária e ela me informa que continuarão em greve até semana que vem. Digo que é uma luta justa. Quem ganha grana com os bancos são seus acionistas. Trabalhador que é bom fica com o refugo e olhe lá. A funcionária fica feliz com minhas palavras e esboça um olhar quarentão e azul pra mim. Estampa agradecimento. Talvez outra coisa, mas não ligo. Não estou com essa bola toda. Fico contente. Faço umas ligações, cancelo uns pagamentos e vou pra próxima parada: provedor de internet.

Estou sem internet desde terça de manhã. E pra quem necessita disso pra trabalhar, é um caos. Chego na empresa e falo pra uma moça dos meus problemas e da minha necessidade de internet. Ela me olha com olhar de babá e me pergunta: já ligou e desligou o computador? Acho meio estranho. Mas me faço de desentendido e digo que sim. OK, ela diz. Mas você já ligou e desligou a chave da luz? Fico sem munições para a resposta, mas afirmo que fiz isso e que inclusive, nessa madrugada, tive três quedas de luz. A moça, loirinha magrela, olha pra cima e formula outra pergunta: a página do login aparece? Já não sabendo o que dizer, respondo que não, que não dá sequer sinal e que meu computador não está com vírus porque tive que formatar ele semana passada. Fui salvo por um disco rígido que gravou meu estoque de filmes, músicas e textos e não apagou minha vida em bytes. Imagino, engenhando a resposta, que ela dará uma risadinha. Afinal, tentei ser engraçado.

Mas nada disso. Ela permanece séria e irreal como uma atendente de 0800. Eu, ao contrário, começo a ficar irritado. Será que levantei com cara de trouxa? Ou será que levantei com cara de criança? Deve ser porque trabalhei até tarde, estou com olheiras e com os cabelos espevitados por cima dos ouvidos. Deve ser por causa do meu cangol marrom que coloquei por pura preguiça de ajeitar minhas gadeias de gringo-alemão. Mas beleza. A cara de babá que ela fez inicialmente era prenúncio do que viria. A loirinha puxa um formulário e diz que vai fazer uma ordem de serviço. Na primeira hora da tarde tudo se resolverá. Saco do celular e olho o horário: 10 e meia. Questiono: não poderia ser de manhã? Ela arrebata: de manhã a equipe já está ocupada. Vira os olhos para o computador, dobra o formulário manchado de papel carbono e quer me despachar com o canto da franjinha que cai nos seus olhos.

Decido tomar uma atitude. Quer dizer, decido verbalizar uma atitude. Nunca fui de violência. Então digo: olha aqui, trabalho pela internet, tenho compromissos via e-mail e sem internet estou perdendo dinheiro. Logo, preciso da dita o quanto antes, pode ser? Penso que ela irá baixar a guarda. Fui contundente e rígido. Mas percebo que cometi um erro fatal: acabei minha frase com um “pode ser”. Ela me olha como quem olha pro seu priminho de cinco anos e diz: a ordem será cumprida na primeira hora da tarde. Como ela conseguiu me desarmar? Baixo a cabeça, coço a moleira, digo tchau e vou embora resignado.

Caminho no vento, penso na greve dos bancos e na moça do provedor de internet. Um dia terei a calma dos senhores que bebem uísque pra conspirar o futuro da humanidade. Mas presumo que meu desejo seja como o CCE no qual eu jogava Pac-man quando guri: ultrapassado. É a vida. Nada de palavras grandes como “magnificência”. Apenas frases curtas e gerundianas seguidas de greves e loirinhas com olhar de babá. Mas tento esquecer disso. Só espero que até a noite a internet volte. E que até segunda os bancos voltem. Quem me dera ter uma bandinha alemã em Tucunduva! Pode não ser grande coisa, mas é melhor que conviver com loirinhas de 0800 materializadas em mesas de provedores de internet. Qualquer coisa, sempre haverá a possibilidade de tocar teclado numa galeteria de Bento. De funiculí em funiculí e funiculá em funiculá, na próxima noite em claro irei dominar o mundo. É a Síndrome do Pink & Cérebro. E a sina de todo mundo que sonha tão, mas tão alto, que logo é achatado pela realidade. Mas meu CCE permanece no fundo do armário. Desejo que é desejo, nunca é ultrapassado. Vinte e poucos anos é assim mesmo. E chega de se lamentar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Prognóstico (Parte I).

O ser humano não é o centro do mundo. Mas julga que é. A racionalidade é incompatível com nossas ações. E a maioria acredita no contrário. Nossa moralidade no mais das vezes é orientada pela mesquinharia. E justamente por isso menosprezamos tudo aquilo que não gira ao redor do nosso umbigo. Uma vida assim é uma vida egoísta. Uma sociedade assim é uma sociedade egoísta. E uma vida em uma sociedade assim terá o viver como um ato egoísta. E não temos praticamente nada que possa dizer que tudo isso irá mudar. É motivo para falar que a mesa está posta e não há o que possamos fazer? Uma paz assim será uma paz armada. Cada qual estará trancado em sua casa, em seu pequeno reino de consumo, esperando que o vizinho tussa para que o projétil ocupe abrigo. E o assassinato seria só uma redundância, uma manchete. Isso ocorre todos os dias quando julgamos as pessoas pela sua capacidade de consumo. Se determinado sujeito não consegue suportar essa realidade ou está à margem dessa realidade, disparamos nossa moralidade egoísta nesse sujeito. Essa é a razão das drogas, sejam elas compradas nas farmácias ou nas bocas de fumo – a diferença é inexistente, questão de glamour. É também a razão da aparente estagnação das nossas existências, trancafiadas em meio a imagens por sobre imagens que fazem com que cada vez mais o contato com o real não seja possível. Mas o que é o real? O que é a realidade? A resposta terá várias faces, cada qual cuspindo fogo na outra para que todos os olhares fiquem chamuscados. Mas ainda que seja dessa forma, a realidade não tem nada a ver com essa nossa moralidade de todos os dias. A realidade está naquele que passa fome. A realidade está naquele que passa frio. E tudo isso não ocorre apenas porque o governo não faz o que deveria e nem porque as empresas querem lucro e nada mais. Ocorre porque nós acreditamos que isso é normal, é corriqueiro, é fato para o rodapé dos jornais. Ocorre porque não conseguimos sair do cercado que construímos e permanecemos numa eterna vida de gado. Quem nos marcou? Qual é a mão que nas nossas costelas tatuou o ideograma de tamanha falsidade de maneira que sequer sentíssemos e até gostássemos do seu toque? Não tenho a resposta e muito menos tenho a intenção de responder essa pergunta. Mas quando um sistema atual está crise, a sua própria crise aponta o rosto do futuro. Se uma tragédia traz sofrimento para alguns, igualmente traz oportunidades para todos. A tragédia é uma oportunidade. Tudo gira na possibilidade de vermos que realmente uma tragédia está ocorrendo. Conseguimos ver isso se estamos correndo dia após dia vendo as pessoas como instrumentos e não como pessoas? Nascemos e morremos sós. Isso hoje é fato. Mesmo o sexo é um ato solitário. O prazer é como a vida: egoísta numa vida assim. Seremos capazes de sair desse círculo? Ou melhor: quando veremos que se trata de um círculo vicioso ao invés de um círculo virtuoso? A perspectiva de mudança é pouca. Mas existe. Não passa pela pureza da raça ou das idéias. Não passa por primados que digam que uma planta tem a mesma possibilidade de entender o mundo que um ser humano. Passa, por outro lado, pelo fato de que devemos reconhecer que antes de sermos morais, antes de sermos racionais e antes mesmo de vivermos em sociedade, existimos. Existimos desde o momento da concepção, muito antes do nosso olhar ser tocado pelas luzes da sala de cirurgia. Existimos antes de pensar, julgar e chegar a qualquer palavra. E é essa qualidade de existirmos que talvez dirá um rumo possível. Que rumo é esse? Uma reviravolta teocentrista, colando Deus no centro do real, ou um aprisonamento antropocentrista, sublimando o ser humano como sentença maior de tudo? Negativo. Precisamos recolocar a vida no centro do real. Precisamos, ao invés de comprometer ou interferir diretamente na vida, nos integrarmos com a própria vida para que outra vida seja possível. Poucos serão aqueles que terão coragem para isso. Poucos entenderão. Mudar dói. Mudar destrói. Mas a mudança é necessária assim como a dor é necessária. É a única possibilidade de sairmos desse deserto no qual nos encontramos. O ser humano pode não ser o centro do mundo, mas todas as possibilidades do mundo passam pelo ser humano. Por isso, isso: prognóstico primeiro de um sentimento não verbalizado, mas que, à parte qualquer dificuldade, passa diretamente por este olhar: precisamos recolocar a vida como centro do real.