sábado, 12 de setembro de 2009

Sobre direito e política.

Direito e política são subsistemas difusos. Mas comunicantes. Por isso temos um sistema jurídico-político.

São comunicantes porque se a política representa o poder, o direito representa a limitação do poder da política. Pode-se dizer que o direito também exerce o poder. Mas o poder exercido pelo direito é limitado pelo próprio direito, fazendo com que ele seja um subsistema que se auto-reproduz.

Essa auto-reprodução, porém, não se dá separada da esfera política. Ao contrário, depende da esfera política. Isso acontece porque o jurídico enquanto lei é formulado pelo político enquanto expressão democrática. E dessa comunicação entre direito e política surge a democracia como método. Logo, algo nada grego e completamente moderno.

Quando dizemos que a democracia tem raiz grega, apenas podemos fazê-lo a partir da representatividade do voto com a intenção de governar uma sociedade. Mas na Grécia Antiga o voto era privilégio de poucos, além do fato de que a democracia representativa nos moldes como a conhecemos inexistia naquela época. O que ocorria então era uma democracia direta, onde os cidadãos exerciam o voto através da discussão em praça pública.

Trazendo essas questões para o suposto impeachment que poderá vir a sofrer a Governardora Yeda, algo pode ser dito. Primeiramente, deve-se falar que o impeachment, nesse caso, ocorreria por conta de uma omissão da Governadora com relação a fraudes no DETRAN efetuadas por seus pares de partido. Se isso se deu, foi por uma questão política.

A partir dessa afirmação, secundariamente se pode afirmar que a própria motivação do processo de impeachment é política. Isso se dá pela proximidade das eleições bem como pela improcedência do pedido de afastamento da Governadora dada pela Justiça Federal em razão da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.

O que está em discussão, portanto, não é a esfera jurídica, mas sim a esfera política.

Partindo da realidade de que a Comissão Parlamentar que irá apurar as irregularidades é composta por deputados do partido da Governadora, é óbvio que essa discussão certamente não renderá o afastamento de Yeda. Ao contrário, apenas acarretará o desgaste político da Governadora. Esse desgaste poderá beneficiar outros partidos nas eleições que se aproximam. Mas juridicamente, certamente não terá nenhuma repercussão, a menos que surjam novas provas contra Yeda.

Isso comprova o fato de que apesar de vivermos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, é o direito e não a política que tem preponderância nessa realidade. Ainda convivemos com o favorecimento com relação a nomeação de Cargos de Confiança, por exemplo. Mas isso é mais um problema social do que um problema político, embora também diga de relações de poder.

Se formos tentar analisar esse cenário a partir do Causo do Seu Juarez, podemos imaginar que o sujeito que seria levado vivo para a cova coletiva certamente se levantaria da maca e correria para ver se dentro da cova não havia mais alguém vivo.

São todos cidadãos, afinal.

E ainda que no Brasil a cidadania seja um projeto a se concretizar talvez no próximo século, desde que tente se reduzir a desigualdade social a partir de uma aproximação dos pontos de partida social, essa revolução já está ocorrendo.

O doutor pode até dizer que estamos mortos, mas jamais poderá afirmar isso se alguém contestar seu método.

É esse nosso caminho.

Por isso a democracia que está para o sistema jurídico-político brasileiro é tão importante.

Mas resta saber qual seria a motivação do cidadão que não estava morto em ir para uma cova verificar se mais alguém está vivo. Senso comunitário? Senso fraterno? Em realidade esses termos se confundem.

O desafio para a democracia, portanto, é construir não uma sociedade, mas uma comunidade.

É uma discussão muito importante, a qual ainda não foi abordada por aqui.

Por isso essa primeira pílula. Seguirá o frasco, a bula e quem sabe o laboratório inteiro de agora em diante. Mas em doses calculadas.

Como dizia uma musiquinha que minha professora da segunda série me obrigava a cantar, “somente o necessário, o extraordinário é demais”.

Mesmo assim, pensar é o mínimo. O máximo seria pensar e agir, estabelecendo uma ligação entre esses dois tempos os quais estão inseridos, por sua vez, em um outro tempo.

E que tempo é esse? A história.

Por isso tudo é imprevisível. E por isso há um sistema jurídico-político para tornarmos as coisas minimamente previsíveis em sociedade. A pergunta é como isso será interpretado por cada pessoa. Aí entra a necessidade de uma equiparação dos pontos de partida social. Caso contrário, a desigualdade fará com que tudo quanto construímos como civilização desabe logo.

Queremos isso? Não.

Podemos evitar isso? Tentarei elencar algumas possibilidades nos próximos dias.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Causo do Seu Juarez.

O Seu Juarez, amigo de Ijuí, me contou um causo interessante a partir do qual tentarei falar alguma coisa nos próximos dias. O que não sei. Mas falarei, apesar de até o site do Hotmail me dizer que anda pra lá de ocupado pra abrir meus e-mails.

Deixe estar.

É o seguinte (e por hoje é só o seguinte).

Certa feita houve uma epidemia desconhecida em uma cidade do interior. Morreram tantas pessoas que o cemitério lotou. O prefeito, tentanto achar uma saída para o dilema, resolveu que aqueles que morressem pela epidemia deveriam ser enterrados em covas coletivas. “Estão mortos mesmo”, pensou.

Mas foi aí que surgiu outra preocupação: se havia somente um médico por aquelas redondezas, como verificar que todos aqueles que estavam jogados pelas ruas da cidade estavam realmente mortos? Foi então que chamaram o médico e disseram pra ele dar um jeito de fazer isso com a máxima rapidez.

-Rua cheia cheia de mortos não é rua limpa! – disse o prefeito.

O doutor não se fez de rogado e logo chamou dois negros fortes que trabalhavam numa estância ali perto e disse para os dois pegarem uma maca de campanha.

-Resolvemos isso pra já! – falou ao prefeito.

E qual era sua metodologia? Cutucava cada corpo que via pela rua com uma taqüara afiada. Se o sujeito resmungasse, estava vivo. Se nada acontecesse, estava morto. Com essa técnica conseguiu encher uma cova com uns quarenta corpos em pouco tempo.

Mas contam que quando os negros estavam levando pra cova um sujeito meio barbudo, ele se remexeu e disse aflito aos seus carregadores:

-Eu não estou morto!

Nisso um dos negros respondeu:

-Tá morto sim! Não inventa de contrariar o doutor
!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Rosa de Fogo".

Ligo a TV e passa um filme chamado “Rosa de Fogo”. O título original é “Spanish Rose”. Mas chamam ele aqui de “Rosa de Fogo”. A primeira tomada é banal. As tomadas subseqüentes também são banais. Pelas roupas e pelos carros, deduzo que é uma daquelas produções chatíssimas dos anos 80. O que isso poderia me dizer? Absolutamente nada. Então faço um chá de maracujá e venho pra frente do computador. Abrir uns sites de notícia ou alguns blogs seria uma boa pedida. A insônia normalmente é afeita a todo tipo de besteirol.

Lembro de quando era adolescente e passava na madrugada um programa onde mulheres seminuas dançavam dentro de enormes taças de martini. Como sempre fui desses que dorme lá pelas três da manhã e acorda cedo caindo de sono, pá e tá assistia esse programa. Não que seu conteúdo fosse interessante. Longe disso. Era um programa de perguntas e respostas que algum produtor gordo e fedendo uísque bolou pra entreter marmanjos insones ou simplesmente vagabundos. No meu caso era uma mescla de insone com vagabundo, já que todo cara com seus 14 ou 15 anos é mais ou menos assim. Apesar disso, acho que era melhor ver um programa desses do que buscar sites de notícia ou blogs pela rede. Com uma porcaria dessas passando na TV, pelo menos você tinha a possibilidade de enjoar daquilo e buscar um livro na estante. Comigo era o que acontecia. E quando cansava de ler, puxava um caderno e começava a escrever o que me vinha na cabeça. Foram essas noites que me fizeram aprender a escrever razoavelmente com o passar do tempo, apesar de tentar isso sem muito sucesso até agora.

Mas hoje um adolescente ou mesmo um camarada da minha idade certamente não fará isso. Sem sono, cairá na net com a intenção de conversar com desocupados no MSN ou olhar sacanagem nos seus e-mails. Raros são aqueles que ou buscarão um livro na estante ou escreverão em um caderno espiral seja lá o que for. Deve ser por isso que os jovens saem do Ensino Médio escrevendo tão mal e mal sabendo pensar. Parece que somente conseguem pensar dentro do contexto excessivamente resumido da internet. Seu mundo é http://. Pensam que pesquisar é dar um Google em qualquer assunto e deu. Não existe mais o gosto de abrir um livro surrado nas mesas da biblioteca pública. Claro que alguém poderia argumentar que a internet traz muito mais informações que uma biblioteca pública. Mas como dizia o Fausto Wolff, informação não é cultura. E aí que as coisas começam a ficar complicadas.

Me pergunto isso quando penso na expressão “inclusão digital”. O que verdadeiramente significa isso? Com certeza que um conhecimento mínimo do Word é essencial nos dias de hoje. Mas até que ponto vai essa “inclusão digital”? Alguns amigos chegam a me dizer que os livros desaparecerão em seu formato clássico. “O papel será banal”, falam. Rebato que pelo menos para mim não será. Digo que jamais trocarei livros amarelos por um notebook novíssimo. Diante disso, dizem que ainda vou aceitar isso normalmente. E infelizmente começo a acreditar que será possível.

Se lá na minha adolescência, tempo de internet discada e MS-DOS, eu mal ficava no computador a não ser pra jogar Stunts ou Sim Farm, hoje venho para o computador normalmente para escrever. Não mais puxo de um caderno espiral para isso. Minha grafia tem ficado cada vez mais ilegível. De uns anos pra cá, me obriguei a deixá-la decifrável por ser professor e ter a mania de montar esquemas conceituais imensos no quadro. E certamente será algo assim que ocorrerá com a maioria das pessoas. Mas no fundo, ainda que isso dê uma discussão interessante, não me interessa muito. As coisas mudam, a vida muda, nós mudamos. E de uma ou de outra forma, sempre existirão vagabundos e outros nem tão vagabundos assim que passam pela insônia.

Nessa insônia continuarão a existir programas bestas na TV e filmes sem a menor criatividade passando de canal em canal. Permanecerá talvez apenas a palavra que cada um registra seja da forma que for, em livros ou em HDs pela rede. A questão será saber se continuarão traduzindo “Spanish Rose” como “Rosa de Fogo”. Convenhamos que os puritanos chamarão isso de incitação à pornografia. Por essas e outras é que navegar nem sempre significa ter um rumo. Normalmente significa estar à deriva. E pior: sem perspectiva de salvação.

P.S.1: A net também tem suas genialidades fast-food. Descobri que o tal filme é de 1993. A paspalhice não tem idade e muito menos década.

P.S.2: Ainda quanto ao filme, joguei no Google o título do dito pra ver se achava um cartaz e colava aqui. Achei só uma imagem minúscula. Por isso atirei ali em cima uma telinha verde dos tempos jurássicos do MS-DOS. Pelo visto eu nem era nascido quando essa foto foi tirada. E se me perguntarem do diretor do filme, não tive a menor vontade de pesquisar. Dêem um Google nele.

P.S.3: Não se sintam ofendidos com meu texto. Mas se se sentirem, por mim OK. Reconheço que nem tudo que existe na internet seja tão ruim assim. Se tudo fosse, esse espaço e os espaços de vocês que me visitam estariam inclusos. E pelo menos ao nosso gosto não estão. Fato é que não confio nadica de nada na web. Mas é algo como não confiar em mulheres e não viver sem elas. Por isso, isso.

P.S.4: O mês de agosto foi o menos produtivo da história desse blog. Não se trata de uma história longa. Mas isso não sonega o fato da baixa produtividade do mês de agosto. Se eu fosse místico, diria que é culpa dos astros. Faço aniversário no dia 17/08, o que talvez tenha me incutido um karma que me impossibilitou de escrever. Já indo pro lado pragmático, poderia dizer que tive muitos afazeres nesse mês e que essa é a razão do silêncio. Porém nenhuma das duas alternativas serve. A realidade clara e simples é que sem querer acabei dando uma certa roupagem pra esse espaço. E quando costumamos aparecer para as pessoas de chinelo e bermuda, é um tanto estranho aparecermos de terno e gravata numa ocasião completamente banal. Isso explica tudo. Acontece que as coisas não deveriam ser assim. Já postei contos, poemas, crônicas e alguns artigos quase-científicos por aqui – aliás, melhor chamá-los de ensaios, pois é isso que são. Mas com o tempo você acaba meio que canalizando esforços para um tipo de texto e esse texto aprisiona você. É como ser funcionário do Banco do Brasil por mais ou menos 25 anos e achar que será capaz de empreender algum negócio com a grana que veio do programa de demissão voluntária. Simplesmente não cola. Por isso preferi me aquietar. Nesse mês de setembro certamente aparecerão mais algumas coisas por cá. Tentarei voltar praquela minha face de muitas faces que na verdade sempre acusa quem é. É isso ao menos que julgo importante dizer agora. Falar mais seria mentira. Quanto mais prometer. Por isso meus 3 ou 4 leitores podem ficar tranquilos. Eu estou vivo. E não escrevo só pra sentar a ripa no governo ou incitar suicídios em massa. Mas nem tudo que escrevo é publicável. Tenho bom senso. E era isso.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

É tudo culpa da genética.

Se o certo está na esquerda, por que tanta gente nasce destra? Mas se tanto destro faz besteira por aí, será que o certo está na direita? Talvez a solução do Brasil fosse cortar as mãos da sua política. De um lado temos aqueles que vivem do ranço das pedras do Muro de Berlim. De outro lado temos aqueles que dizem amém para o mercado e dizem que tudo está muito bem, obrigado, desde que suas contas bancárias continuem ronaldianas. Acontece exatamente como em um comercial de banco. Parece que tudo quanto o banco oferece é para o seu bem. Mas o banco quer é que você morra pagando juros em devoção ao contrato que você sequer chegou a ler.

Talvez essa seja a melhor imagem do país nesses tempos em que até a Receita Federal, um dos únicos braços do Estado que funcionam de maneira minimamente aceitável, diz que sofreu e sofre influência política. Antigamente poderíamos dizer que se quiséssemos obter informações confiáveis de qualquer Estado, teríamos de recorrer a sua Receita. Mas se hoje nem isso podemos dizer, devemos confiar em quem? Certamente aquele médico que prometia bebês com genes perfeitos seja o caminho. Desde que, é claro, você não se mostre apetitoso ou apetitosa aos olhos do doutor. Quando se trata de patrimônio genético e de comportamentos que provém desse patrimônio, ninguém tem o dever de se controlar. É tudo culpa da genética.

Assim até poderíamos explicar as coisas que acontecem por aqui. Se acham que o PT tem alguma coisa interessante pra dizer fora o que os supostos intelectuais da USP dizem ser correto, culpa da genética. Se a Dilma e o Padre Fábio de Melo colocaram botox nas suas pelancas, culpa da genética também, ora! Fica muito fácil assim. Melhor do que ficar em mil e um comentários sociais pra explicar as coisas que vemos todos os dias. A partir da genética, poderíamos até explicar porque tarde dessas, quando cruzava pelo centro, vi dois jovens abestalhados tendo sua pampinha socada no chão rebocada pela Brigada. A Igreja Universal fazer seus fiéis vomitar pra expulsar o demônio do corpo também não tem culpa de nada. Só faz o que a Bíblia diz. E a Bíblia, por óbvio, também tem lá seus genes. As empresas farmacêuticas que pedem uns trocados pra OMS pra combater a Gripe A, igualmente são umas coitadas. Tem boas intenções, claro, mas precisam de um financiamentozinho pra fabricar uns comprimidos. Se um casal de amigos financiou sua casa em quinze anos pela Caixa, por que essas empresas não poderiam receber uma mão do Estado?

“Todo humano é bom”, canta o Padre Fábio. Logo, ninguém tem culpa de nada. Há um determinismo religiosamente genético em todas as nossas ações. Acontece que nesses tempos fake plastic trees, temos de descobrir quem manipulou tal e tal gene. E também se esse alguém não deu umazinha meio forçada com o sujeito ou sujeita do qual o gene foi manipulado. Se ele for de esquerda, a manipulação ocorreu por um mundo melhor. Se ele for de direita, tudo não passou de intriga da oposição. Mesmo que a manipulação tenha ocorrido, não houve agenda e nem câmera para registrá-la. É como um senhor da high sociaty que pega michês por aí.

Mas ainda que tudo seja culpa da genética, existem algumas verdades que antecedem até mesmo a genética. Por exemplo: nem adolescentes suportam adolescentes. Outra: vivemos no eterno medo de que a Simone lance outro CD de natal. Mais uma: ninguém jamais gostará de literatura se ler Iracema aos quinze anos. Pra acabar: a única coisa certa das canções de amor é que elas estão mentindo. Mas até a Bidê ou Balde me contraria: “se o sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!” Em quem confiarei então? Sinceramente não sei. A única coisa da qual tenho certeza é que mais me valem as Evidências do Chitãozinho & Chororó do que as evidências do Juízo Final. Convenhamos que é muito melhor chorar o fim com cachaça do que numa frigideira cheia de enxofre e fogo.
Mas se nem nisso eu estiver certo, talvez seja mais lucro dar um jeito de perder o mindinho e me aposentar. Razão? Sem ele, jamais poderei voltar a desfrutar do enorme prazer de limpar o ouvido sem cotonete. Mas no fim a aflição permaneceria: cortaria o mindinho da direita ou da esquerda? De qualquer forma, a mão ficaria e a aposentadoria também. Felicidade rima com oportunidade. Tudo é questão de passar a mão, seja pela genética ou não, ainda que de vez em quando o Boa Noite Cinderela fale mais alto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desintitulados.

Nem só de sexo e dinheiro vive o homem. Sacanagem também é essencial. A democracia surgiu dessa constatação. Mas os cidadãos de bem logo inventaram a ditadura.
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Um peixe não percebe que está no aquário. Seu mundo é o aquário. Tudo quanto ele viver e sentir será restrito ao aquário. E o mar é no máximo um sonho presente na água. Por isso o Brasil precisa de exorcismo. Nosso problema é encosto. Mas ninguém percebe isso. As coisas estão encostadas demais. Se bobear, de tão pesados que andamos, logo perderemos o equilíbrio. E a consciência será nossa cara roxa. Aí nos daremos conta de tudo. A porrada e o tombo são os pais da palavra. Ou pelo menos das cicatrizes.
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Somos todos irmãos. Sempre estamos devendo uns para os outros.
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Dizem que as pessoas podem falar o que pensam. Há previsão constitucional, inclusive. Mas quando a polícia é instruída a recolher cartazes que ofendem a Yeda, existe algo de estranho acontecendo. Alguém escreveu que no começo se queimam livros e depois se queimam pessoas. Cartazes não são livros, mas frases rendem juros. A prova é que as bibliotecas existem. Então o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Nenhum dos dois. Quem vem primeiro é o galo. Porém nesse país eunuco, a extinção é o caminho. Mas talvez o eunuco seja só o guarda. Resta saber quem aproveita o estoque. Ou se o harém não é apenas miragem.
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Se um assassino queima na cadeira elétrica, é justiça. Se um fazendeiro mata ladrões de galinha, é defesa do patrimônio. Mas se alguém se arrisca a dizer a verdade, é burrice. A mentira é o coração do afeto e o motivo dos tapinhas nas costas. Quando muito, de animadas reuniões dançantes e almoços de gente importante. Tanto em um quanto em outro lugar, a conversa é impossível. Nessas circunstâncias, a boca foi feita para outras coisas. E nem todas tem relação com a comida.
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A diferença entre a segurança e o risco, é o tempo de espera para a morte. Depois dela as preocupações acabam. Por isso inventaram a carteira de trabalho. O estranho é alguns reclamarem férias e 13° salário. Certamente não perceberam a liberdade de não ter direitos. A pobreza existe por isso. E o SPC também. São as maravilhas do capitalismo.
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Quando crianças, queremos ser jogador de futebol. Quando adultos, queremos ganhar na loteria. Esses são nossos principais sonhos. Mas entre a impossibilidade da realização de um e outro, é que construímos nossa vida. O grau de sucesso que obtemos é medido pela aproximação com um desses limites. E quem negar é a mulher do padre. Ou seja: a vagabunda da vizinhança. Mas nem por isso pouco bondosa. Afinal, a imoralidade é a razão da felicidade. E a ignorância é sua mãe. Ninguém pode ser feliz abertamente. É pecado.
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Me perguntaram o que eu fazia. Disse que era professor e advogado. Então me falaram:
-Ah! Então você não trabalha quase!
Pensei: nem na Record nem na Globo.
Mas respondi:
-Capaz! Nas horas vagas fabrico foices pra reforçar o orçamento!
Foi aí que percebi que ofendi o sujeito. Ele vestia uma camiseta do Che Guevara.
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Um necrófilo e um suicida são conceitualmente iguais. Perderam a paciência. No meio termo existe a política e a religião. Se uma oferece a salvação pela palavra, outra oferece a salvação pelo silêncio. Mas ninguém explica do que precisamos nos salvar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Simplesmente Maluf.

Sérgio Buarque de Holanda fala que a herança do Brasil para o mundo será o homem cordial. Mas essa cordialidade não se confunde com gentileza, já que a palavra “cordial” provém das palavras latinas “cor” e “cordis”, as quais significam “coração”, designando alguém que age impulsionado pelas emoções e despreza as convenções sociais estabelecidas, o que faz com que exista um reflexo das relações familiares ou privadas nas relações políticas. Um dos motivos para esse comportamento, estaria no fato de que as instituições políticas brasileiras foram concebidas de maneira unilateral e coercitiva, sem diálogo com a população. Então, se por um lado os detentores do poder se utilizaram dessas instituições para favorecer os seus, por outro lado as demais pessoas buscaram meios de burlar os regramentos sociais em busca de favorecimentos para si ou para pessoas da sua relação, criando assim o que alguns chamam de “jeitinho brasileiro”.

Encontramos um precedente disso no comportamento clássico dos indivíduos em relação aos vereadores. No mais das vezes, o brasileiro não vota em um vereador por crer nas propostas do candidato, mas sim porque acredita que poderá obter vantagens no futuro através desse candidato. Essas vantagens, porém, não provém das atitudes legislativas do vereador, mas sim da sua relação com os representantes do Poder Executivo, já que são esses, segundo o senso comum nacional, que efetivamente podem remodelar situações estabelecidas e/ou criar situações que favoreçam o eleitor que inicialmente votou em determinado candidato.

Esse comportamento, portanto, está relacionado a uma forma de navegação social tipicamente nacional, muito presente em uma manchete recorrente nos jornais das últimas semanas: o favorecimento de familiares por alguém que detém determinados poderes em alguma instituição política nacional. Nesse sentido, tenho de dizer que não vejo a razão de tanto estranhamento com o Caso Sarney. As atitudes do Sarney, ao que me parece, estão sendo postas às claras no sentido de dizer de um comportamento completamente estranho frente ao que é moralmente aceito pelo brasileiro, o que é de uma hipocrisia imensa. Concordo que o nepotismo e quaisquer espécies de corrupção devem ser combatidas, mas o fato é que se temos uma sociedade enraizada no conceito de homem cordial, a política invariavelmente irá refletir esse conceito. E talvez isso servisse como uma boa tese de defesa para o Sarney.

Ele poderia alegar que é vítima de um comportamento nacional típico, o qual está tão presente em seu inconsciente que de modo algum pôde pegar algum desvio no decorrer da vida. O senador chamaria psicólogos, filósofos, antropólogos e advogados para dar respaldo a sua defesa, a qual seria rubricada por um parecer psicografado do Rui Barbosa. A Globo então faria uma série de documentários sobre o quanto existe um determinismo inconsciente em todas as atitudes de quem nasce em solo brasileiro. A conclusão viria do Kleiton & Kledir: “coisa de magia, sei lá”. Aí apareceriam alguns remédios tarja preta para combater esse comportamento e tudo estaria perfeito como em um comercial da Monsanto.

Por isso e muito mais, acho ridículo surgirem tantos defensores da moral e dos bons costumes em tempos nos quais a corrupção está nas manchetes de todos os jornais do país. Chego a cogitar que quanto mais as pessoas parecem razoáveis e equilibradas em suas atitudes, com retratos estampados em todas as colunas sociais e coisa e tal, mais sujeira existe por trás dos seus comportamentos. Quem sabe até nos apiedássemos do Sarney se ele seguisse meu conselho de defesa e tudo ocorresse com o aval de especialistas da USP. Ele viraria o símbolo de que no Brasil é impossível ser honesto para que o Maluf, estandarte da desenfreada e injusta perseguição a uma tendência nata de todo brasileiro, com olhos chorosos e melancólicos, finalmente dissesse:

-Eu tenho contas no exterior sim! Mas não é culpa minha! Simplesmente sou brasileiro!

Nisso o Sarney, com a voz embargada de orgulho, bateria nas costas do Maluf e diria:

-Muito me comovo com a confissão de Vossa Excelência! Agora, como eu, és um imortal! E de hoje em diante todo brasileiro, além de ser brasileiro, poderá dizer mundo afora: sou simplesmente... Maluf!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De Mentira em Mentira.

Acho curioso o fato das ruas serem batizadas com nomes de alguns “personagens importantes da nossa história”, como o pessoal costuma dizer. Talvez meu estranhamento aconteça porque não acredito que existam “personagens históricos” que possam servir de ponto de referência pra contar qualquer coisa e muito menos que a experiência de vida de alguém ou da humanidade ensina algo além do puro desgosto. Também duvido que 90% dos sujeitos que dão nome para essas ruas fizeram algo importante pelas pessoas. No máximo fizeram algo importante para seus bolsos e para seus herdeiros. É claro que eu posso dar com a língua nos dentes, mas prefiro essa rabugentice do que um dia me lembrar um paspalho que chegou a acreditar que as pessoas fossem essencialmente boas. Por falar nisso, confesso que já tive comigo essa crençazinha. Mas com o tempo me dei conta de que nem eu valia lá grande coisa. Logo me veio a pergunta: por que os outros deveriam valer?

Se eu fosse desses que acredita em horóscopo, diria que isso se dá porque sou leonino e então penso que o mundo gira ao redor do meu umbigo. Haveria uma razão para todos os meus atos e meu destino estaria escrito no movimento dos astros. Mas como não sou dessa turma, apesar de já ter perdido tempo com isso, cheguei a conclusão de que não só eu, mas também a própria humanidade, não vale lá muita coisa. Mas e por qual motivo deveria valer? Partamos do seguinte princípio: para algo ter valor, ou melhor, para o ser humano que pressupõe a humanidade ter valor, sendo que ele não é algo mas alguém, é necessário existir um parâmetro de valor universal. Pois bem: qual é o parâmetro de valor universal para o ser humano? A vida? Se a vida fosse isso, não haveria guerras e nem a pena de morte em qualquer canto do planeta, por exemplo. Portanto a vida não é parâmetro de valor para nada que não esteja relacionado com a mensalidade dos planos de saúde.

Talvez por isso é que para ter a suposição de uma referência nem que seja pra ir na padaria, as ruas são batizadas com nomes de “personagens importantes da nossa história”. E convenhamos que é bem melhor assim do que chamá-las de A, Z, W ou amarelo, vermelho e roxo. Por isso é que pensar demais não faz bem pra ninguém. Mas custa mais de 0,5% da população gastar seus neurônios com algo interessante? Do jeito que a coisa anda, quem gosta de saber a verdade é masoquista, porque se começa a pensar demais, enlouquece. E se chega ao cúmulo de falar o que pensa em público, lascou-se. Mas esses dias me tranquilizei quando um amigo disse que o que está dando dinheiro atualmente são propostas para mudar o mundo. Talvez eu deixe dessa coisa de pensar e invente algum solidarismo empacotado, bonitinho e cheiroso que ajude os descamisados e me traga algum. Afinal, Deus gosta de dar dinheiro pras pessoas: é o Censo do Céu que está desatualizado.


Mas voltando para a questão dos nomes das ruas, a verdade é que não tenho nada contra os tais “personagens históricos”. Acho até bonitinho a gente falar “na Marechal” ou “na Antunes”. É no mínimo uma perversão lingüística, o que é saudável. O que não é saudável, porém, é acreditar que nessa vida alguém faz algo por alguém por caridade. Para os familiares, a esposa e algum que outro amigo, vá lá. Mas pra esse bando de pessoas que passa fome e frio pelas esquinas, ou, para ser generalista, pela humanidade, é puro solidarismo analgésico.

Lembro de uns colegas do segundo grau que iam fazer serviço voluntário “pra contar no currículo”. Paralelo a eles, vou inventar dia desses alguma proposta para mudar o mundo e então virar nome de rua e me tornar um “personagem histórico importante” com grana no bolso, tudo pela vontade divina combinada com meu enorme senso de justiça. Do contrário, certamente serei execrado como um egoísta desalmado por tanta gente solidária e de bom coração que cozinha feijão por aí. Mas um dia descobrirão a verdade. Como diz o André Dahmer, existem dois tipos de pessoas no mundo: os solidários e os egoístas. A diferença entre elas é que se os egoístas são aqueles que destroem a humanidade fantasiados de papões, os solidários são aqueles que apóiam os egoístas fantasiados de anjinhos. E acaba que tudo fica na mesma. No pesar dos comprimidos, batizando ruas ou não, é de mentira em mentira que seguimos nossa vida.