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Nascemos. Uma fluorescente nos incendeia o rosto. Um frio no toca as pálpebras não abertas. Alguém nos desprende e sentimos dor. Alguém no bate e sentimos ar. Como conseqüência, gritamos.
Nascemos. Continuamos nos braços de alguém. Nos colocam em uma bacia de água morna. Nossos membros se mexem em convulsão. Nos tocam. Nos limpam. Fazem com que nosso ventre deixe de ter um sentido. Como conseqüência, existimos.
Nascemos. Somos enrolados em uma toalha felpuda. Existe um conforto que não está para o frio das pálpebras e nem para o calor da fluorescente. Aos poucos a retina se acostuma com a luz. Como conseqüência, percebemos.
Nascemos. Uma pessoa nos pega com cuidado. Nos deitam em uma cama ao lado dessa pessoa. Vemos com os olhos recém abertos o que chamaremos de rosto no futuro. Então sentimos uma necessidade que vem da boca. Como conseqüência, choramos.
E se gritamos, existimos, percebemos e choramos nos minutos que se seguem ao nosso nascimento, é porque a próxima etapa será falarmos, pois apesar de nos depararmos com rostos sem-nome em cada esquina, é necessário que um nome seja dado a tudo isso. Caso contrário, não há mais nada, visto que as etapas anteriores já foram vencidas.
Por baixo desse cotidiano de ponteiros, porém, existe uma dança que aprendemos logo ao nascer.
Nossos membros que em convulsão se movem, dão uma pista dessa dança. Nossas pálpebras que no útero se contraem em sonho e mistério, mas no mundo se contraem em pleno frio, também dão pistas dessa dança.
E enquanto não aceitarmos a total ausência de sentido para tudo que não esteja para essa dança, falaremos sem parar daquilo que não sabemos mas que se encontra na raiz da própria fala.
Todo o mais é um ritual profano e divino. Todo o mais convulsiona sêmen e terra em uma mística que traz do cosmo a semente da própria vida.
Se hoje nascemos no incêndio das fluorescentes para depois sermos enrolados em toalhas felpudas, ontem nascíamos na terra, nas folhas, com o cordão umbilical se misturando à placenta recém despovoada no canteiro de alguma casa, seja de barro, madeira ou pedra.
E o tempo?
Começa quando falamos. Começa quando vemos tantos sem-nome se dirigir a nós, que somos obrigados a fazer algo além de gritar, existir, perceber e chorar. Começa quando, ao nomear as coisas, envelhecemos nossa história e o nosso próprio rosto envelhece por pura ilusão dos passos dessa dança que aprendemos mas da qual não queremos saber.
Então morremos.
Morremos sem encontrar sentido algum além daquela dança dos membros e das pálpebras. Morremos entre o sexo e a morbidez do cheiro que exala das entranhas. Morremos sem qualquer compreensão daquilo que vivemos, daquilo pelo quê choramos, daquilo tudo que sentimos.
Não houve nenhum porque no incêndio dos olhos pela fluorescente da sala de cirurgia.
Somente houve um porque para a necessidade da boca.
Essa boca, antes de morrer, irá procurar outras bocas, irá sugar outras bocas, desejará ir além da palavra em outras bocas justamente para gritar, perceber, chorar e existir antes de falar. E por isso essa boca trará consigo a presença da eterna ausência, de um saciar que não sacia, de um ventre que perdeu o sentido quando foi separado daquela que lhe deu a vida, pois amar também é uma forma de fome:
- Eu te fome assim como tu me fome. – e é isso.
Biológicos? Só se for pela comida e pelo desejo.
No mais, apenas o que falamos e apenas o que passamos enquanto falamos para morrermos. História e linguagem: nossa constituição fundamental. Afora esses siameses, ossos e carne para assim sem mais morrermos.
Além? Não, seria demais pedir um além. E seria canalhice dizer que alguém pode ter contato com esse além.
Se nascemos gritando para existir e se existimos para perceber e depois chorar, somente as palavras poderiam ser este além. Antes disso, a dança das pálpebras em sonho e dos membros em convulsão e nada mais. Portanto, nosso messias maior é o verbo, filho da dança e do mistério ao qual jamais teremos acesso mas mesmo assim ouviremos.
Desta maneira, nossa única possibilidade é a ação, pois na inação da morte os microorganismos farão sua parte.
E como naquele nascimento de ontem, voltaremos para a terra.
Afinal, nascemos.
E mesmo assim o mundo continuará a dançar a dança da qual morreremos desconfiando sem jamais aprender.
Se a ampulheta dos dias quebra na areia do tempo,
envidraçando as horas no deserto do agora.
Se o sopro dos anos anula minhas certezas
no calor da imagem perdida de um espelho esfacelado.
Se existe somente o brilho fugidio
de uma estrela temerosa entre o vazio e o fim.
Se pulsa no peito a palavra, o sangue e a voz
emudecendo o ruído de uma agonia que respira.
E se chegar até mim a doença de um passado
construído e erguido com recortes do presente,
quero saber o porque dos meus passos para trás
que avançam sem querer pela rua onde diviso
as parcelas do que fui em seqüências sem razão
que a luz de poucos postes faz chegar aos meus olhos.
Quero ter a nitidez de primeiro olhar o mundo
para só depois saber que o mundo olha pra mim.
Quero a paz de tardes quietas, de praças e de abraços
percorridos pelos passos das flores que estão no chão.
Quero o sabor da minha vida no paladar dos meus rumos.
Quero a lembrança e a certeza de saber que já senti.
Quero entrever momentos de silêncios e suspiros
que só corações molhados pelas chuvas de verão
podem recriar em cenas tão reais que são em sonho.
Quero ter para mim o que amei e vivi –
o que disse a pessoas que nunca mais pude ver.
Quero instantes pequenos com cheiro de doce e riso –
e quero também as coisas que jamais quis desejar.
Mas acima de tudo quero voltar a ser o que fui
quando nada de mim era ação, verbo e corpo.
E quero então saber que minha história só existiu
porque ao sol o infinito resolveu se fazer tempo.
O menino cego,
afogado de luzes,
era uma noite
sem amanhecer.
O gaúcho sentava no meio-fio da Avenida Brasil. A Justiça Federal estava fechada porque era sábado. Os carros e os ônibus que passavam certamente iam para a Fenamilho. Enquanto isso, sol de seca no céu, uma placa de PARE fazia companhia para o gaúcho que não era um gaúcho desses que acha que tradição é vestir a pilcha uma vez por ano na Semana Farroupilha. Ao contrário disso, era um gaúcho negro, barba negra por fazer, palheiro encostado na boca e dois litros de vinho para amansar um mal desconhecido.
Ele não acenava para os passantes como uma pedinte da Praça Rio Branco nos dias do Fórum da Juventude. Também não tinha o semblante sério e desiludido de um sujeito que senta nas muretas de um terreno abandonado da Avenida Getúlio Vargas – e nem mesmo tinha algo a ver com um senhor que implora trocados na Rua 25 de Julho. Distante desses rostos, limitava sua ação à quietude do palheiro e do vinho, biquiando de quando em quando o copo plástico de sua calma.
Cruzando por ali com umas sacolas de mercado, pensei que deveria ter uma câmera fotográfica em mãos. Bem poderia usar a câmera do celular, mas nunca fui de confiar em nada que tenha mais de duas funções. É claro que isso é rabugentice ou quem sabe burrice, mas ninguém que prefere a voz do Google à mudez inquieta das bibliotecas tem o direito de me questionar ou dizer da desrazão das minhas manias.
O fato é que o gaúcho não merecia uma foto de celular. Talvez merecesse um Bresson ou os olhos do Iberê, sendo que de forma alguma o visor do meu telefone teria alguma dignidade para sua imagem. E como sou das letras, das palavras sem voz que facultam meu querer desde a 1ª Série do Ensino Fundamental e do beabá da Professora Marlene nos idos do Odão, me restam essas frases desmerecidas de talento mas impregnadas do que senti – o que bem pode esbarrar na profecia do Gide ao dizer que com belos sentimentos se faz má literatura.
Entretanto, aqui cabem duas perguntas: a) tive um belo sentimento?; b) faço literatura? Diante desses conceitos, prefiro me calar. A palavra está além do pensamento e o sentimento está além da palavra. Com alguma sorte e talento, o porão das frases, aquele que sempre abriga o duplo do Jaime Vaz Brasil, pode traduzir a linguagem desse silêncio. Mas como a sorte apenas me acompanha em alguns momentos de dormência, não interessa nada do meu irrequieto umbigo. Por isso volto ao gaúcho, seu palheiro e seu vinho de garrafa verde.
Então seria mais um desgarrado do Sérgio Napp e do Mario Barbará? Então viriam crianças gritar “o louco! o louco!” como na poesia do Cenair? Tudo isso tem e não tem sentido diante daquela imagem. Fosse eu outro, apenas diria que era um mendigo enchendo a cara na rua. Mas sendo eu esse que fala até das manchas de um muro de limo, isto para parafrasear Quintana, é impossível que o sol de sábado diga somente o casual e cínico juízo da maioria que cruzava e tornava o gaúcho um mero recorte invisível do dia dois de maio.
Confesso que senti vontade de conversar com ele. Sempre fui despachado demais com as línguas das minhas falas. Mas atrapalhar aquela introspecção de vinho e palheiro, seria atrapalhar o desconhecido de um sentir e me igualar a alguns vereadores que pensam que sopões em vilas são garantia de voto. Por isso segui meu rumo com as sacolas na mão. E antes de não mais olhar para o gaúcho, percebi que a placa de PARE era um aviso para mim. Assim é que cheguei em casa, puxei uns papéis velhos da escrivaninha e me surgiram essas frases.
Compadecimento? Pena? Comiseração? Nada disso. Apenas um recorte da vida. Apenas a vida de alguém que jamais voltarei a ver, mas que agora habita meu sentir escrito. Qual vampiro, sugo o sangue do real em uma transfusão contínua para o meu tédio e o meu peito. E após essa depravação de verbos e adjetivos, me calo. Afinal, como disse Vinícius de Moraes, hoje é sábado. E justamente por isso, o gaúcho tem o direito da calma, do palheiro e do vinho no meio-fio da Avenida Brasil, porque a vida, antes de ser um juízo, uma razão ou uma fala, nada mais é que vida.
Além do mais, Marcia Tiburi já falou que os moradores de rua são o inconsciente da cidade. Logo, fica a pergunta, caros santoangelenses:
DE QUAL MAL PADECEMOS?
Pensei que era uma estrela no maio recém nascido.
Até esbocei um pedido lembrando de quem não fui.
Mas quando sombras passaram por trás das nuvens, percebi que era só um morcego.
Ou será que eram outras aves de noite morta?
O fato é que a pergunta não traz nenhuma resposta e tudo quanto direi será só um orbitar ao redor do que não sei.
Por isso é que desisti de qualquer consideração.
Se foram morcegos ou estrelas, que diferença faz?
Em tempos em que o tempo desconfia até da vida, nos quais cantamos o medo das coisas e das pessoas, como poderei tecer pedidos nesta madrugada?
Há somente um desejo que a natureza agride quando sai da própria boca.
E se essa fumaça foi o mote do meu erro, não guardo qualquer grilo, ainda mais quando eles não existem nesta parte da cidade.
Talvez se eu fosse longe, para os campos amanhecidos, a realidade seria outra.
Mas isso é só uma divagação.
Divagação também foi quando aos oito anos joguei moedas em uma fonte de Curitiba para achar um osso de dinossauro.
O que eu queria descobrir?
Queria acaso encontrar a fonte do que não fui em fósseis que a terra deu pra esconder?
Não: fico com as nuvens, ao menos hoje aos meus vinte e quatro.
E se pensei o diverso, estrela, nuvem, morcego, não faz diferença alguma.
O mundo sou eu que nomeio, mesmo que o final nunca traga um ponto.
O estranho ao cruzar por uma casa abandonada perto do Colégio Teresa Verzeri, foi ver inscrições de “seja bem vindo” e “obrigado pela preferência” em uma parede, sendo que nas demais paredes havia desenhos que me lembraram flagelos de qualquer homem das cavernas. À primeira vista, poderia ser mais uma visão corriqueira inscrita no rol cotidiano. Mas por qual motivo cruzar por essa casa me trouxe uma sensação tão estranha, mescla de desapego, desorientação e pena? Tento pensar e me foge a lógica – daí a escrita.
É possível que essa casa seja algo como o mundo atual. Nas casas a alguns metros adiante, cercas elétricas, vidros pretos, carros importados e tudo o que a vida de quem tem dinheiro pode proporcionar. Naquela casa, duas frases sem nexo frente à realidade na qual se encontravam, mato crescendo no pátio e a angústia bordada nas paredes num misto de quebra-costela e ameaça de morte. Tudo bem que alguns digam que a realidade dos dias de hoje nos proporciona mil facetas, mil amores, mil oportunidades em cada palavra dita. Mas a pergunta que deve ser feita é para quem essas mil facetas e oportunidades podem surtir algum efeito.
Será que quem vem de uma família transfigurada pelo vício, pela pobreza, pela falta de afeto que a miséria causa, pode ter essas varetas fincadas na sua realidade? Será que realmente sentimos algo além de pena hipócrita do menino que bate no vidro do restaurante no qual jantamos aos risos? Será que comentar com a esposa dentro do carro da triste realidade daquele menino após dar uns trocados pra ele é realmente comiseração, é realmente compadecimento com essa realidade?
O fato é que a pobreza é o câncer do capitalismo, mas no corpo capitalista o câncer é o centro do sistema. Ou seja: quanto mais pobreza, mais saudável o sistema. Da mesma forma ocorre com o lixo que todos os dias produzimos, fruto de um consumismo que nos faz recorrer a compras e mais compras que só nos proporcionam um gozo imediato para logo após fazer com que a insatisfação se instale. Ou seja: com nossas lixeiras abarrotadas de marcas multicoloridas e nossas mentes que enxotam a inteligência em prol de mastigações intelectuais, todo o sistema funciona perfeitamente bem, toda estrutura está mais do que sadia.
O idêntico ocorre com a pobreza, sendo que essas vidas desperdiçadas, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, são apenas o produto residual humano que provém dessa lógica que tantos abençoam. E nesse sentido, poderíamos até nos perguntar para onde vai o dinheiro que pagamos em impostos, porque o governo não toma soluções aqui e ali e coisa e tal. Mas a pergunta correta não está para os atos governamentais e sim para os nossos próprios atos, porque aqueles são apenas a conseqüência alargada destes.
Talvez por conta disso que cruzar por essa casa abandonada perto do Colégio Teresa Verzeri, tenha me provocado aquela estranheza, pois enquanto muitas crianças grávidas de futuro freqüentavam a escola, outras tantas crianças grávidas de dor não poderiam ver perspectiva de amanhã para além das próximas horas de suas vidas. Não que eu tenha visto crianças na casa abandonada, não que minhas palavras se direcionem apenas para a infância, mas é que num país que traz em sua bandeira as inscrições de “ordem e progresso”, não deixa de ser curioso haver uma casa abandonada com inscrições de “seja bem vindo” e “obrigado pela preferência”.
Se a ordem realmente existisse para além da vontade daqueles que detém o poder, talvez algum progresso se daria. Mas como a ordem de maneira alguma existe fora das arestas do consumo, cada vez menos acredito em um futuro digno para o Brasil e muito menos para o mundo. Então é que tenho de buscar os olhos daquele garoto que bateu na vidraça do restaurante enquanto eu me empanturrava de pizza e bebia um bom vinho tinto seco. Caso contrário, nada faz sentido e muito menos a escrita tem alguma razão.
Por isso é que o homem não é o lobo do homem, como queria Thomas Hobbes, pois seria depositar muita confiança na nossa espécie a comparação com qualquer cão. Por isso é que combater a miséria é apenas dar paracetamol para a dor de cabeça na expectativa de que ela jamais volte. Por isso é que acreditar na juventude também não traz mais nenhuma esperança, já que aqueles que podem conquistar algo, ou se preocupam com os seus umbigos ou se preocupam com o esquecimento completo de tudo aquilo que é de algum modo importante, assim como fizemos com o isolamento dos detentos e dos loucos – indesejáveis para nosso filminho à Hollywood da década de cinqüenta.
O estranho, contudo, é nos acharmos feitos à imagem e semelhança de Deus. O estranho é acharmos que respingos de ética podem forrar um chão de sofreres. E mais estranho ainda é sermos o eterno país do futuro, o que talvez esteja para o intuito de sorrir desdentado ao samba enquanto alguns sangram sua mais-valia. E justamente por isso, bom brasileiro que sou, abandonei tudo o que acabo de dizer logo após cruzar pela casa abandonada, porque amanhã minha preocupação será o Zé Ramalho que deu pra achar que o Bob Dylan é do nordeste. Afinal das contas, Nei Lisboa já profetizou: “cada povo tem o novo que merece”. E ponto final para minha insônia.
Não existe nada que me faça crer que eu seja alguém.
A mera afirmação de que tenho um corpo não me satisfaz.
Tampouco me satisfaz a afirmação de que tenho uma alma e uma voz.
E se alguns pensam que ter algumas quinquilharias ou mesmo livros me satisfaz, estão completamente enganados.
Logo, não existe nada nem ninguém que me faça crer que eu seja alguém.
Se o Estado Democrático de Direito me concede algumas regalias, ótimo. Não nasci em berço tão pobre que seja hábil para renegar o que meu sangue e meus pais me trouxeram. A ambos, aliás, sou muito grato.
Se a vida me trouxe alguns amores e algumas oportunidades, ótimo também, uma vez que não sou de dispensar nenhum prazer e muito menos os prazeres que posso vir a conquistar com as coisas que nascem justamente do meu trabalho.
Mas além desses desfrutos, os quais jamais me soaram frutos, sei que a mera afirmação de que sou alguém não me diz nada.
Caso soe para alguém, o que até é uma redundância, fico muito feliz.
Quanto a mim, permaneço nessa insatisfação que não está para o ato de comprar e gozar, que não está para o ato de transar e gozar e que também não está para o ato de pensar, falar, escrever e gozar.
De outra forma, minha insatisfação está para o ato de não crer, de jamais crer e de nunca ter crido que sou alguém, muito embora eu desconfie que realmente seja.
Mas fica a pergunta: eu deveria me levar tão à sério?
Alguém sempre é bobo de alguém.
E Wilson Miranda é um Sócrates para mim, já que desses caras apenas desconfio a existência, pois não há hierarquia para a sabedoria e muito menos para o acaso.