sábado, 18 de abril de 2009

Qual seria seu rumo?, perguntou-se.

A vida nunca teve um rumo.

O único rumo da vida é a morte, aliás.

Afora este, nada mais existe, nada mais persiste a não ser essa nossa insistência em achar rumos.

Fato é que esses pensamentos lhe arremetiam rajadas de desassossego nas paredes do seu crânio.

E o que fazer com eles era sua maior pergunta.

Seria melhor mudar os mares das suas velas ou seria melhor acender as velas nesses mares nos quais se encontrava, de modo que pudesse traçar uma luz diversa nas arestas de cada onda?

Cada pergunta era um alfinete. E cada alfinete estava no seu olho.

Mas por qual razão no seu olho?

Pela simples razão de que seu olho era a porta anarquista do seu coração.

Pela simples razão de que os corredores sempre dizem mais do que as escadas.

E mais ainda, pela razão de que não se pode viver sempre em um labirinto comendo de dia para dormir de noite e nada mais.

Até sabia que muitos viviam essa realidade, mas para ele ela não servia.

E qual realidade servia então?

Talvez um novo nascimento. Talvez um incêndio. Talvez a anulação de si ou a ênfase para tudo aquilo que era. Ou talvez nada disso.

Restava esperar o coração acalmar e a mente arranjar brio suficiente para pensar. Do contrário, nada de espinha ereta e peito hindu. No máximo um litro de vinho e olhe lá.

Por isso abriu a janela e viu um táxi cruzando a madrugada.

Qual seria seu rumo?, perguntou-se.

A resposta foi o barulho do carro passando e o vento que parou de soprar naquele exato instante.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sobre a arte e o amor.

As mudanças deveriam soar naturais para nossa vida. Entretanto, somos de uma espécie que muito embora passe por mil sobressaltos no decorrer da existência, sempre quer alguma certeza que nos legue o mínimo de tranqüilidade. Mas o fato é que as coisas não são assim. O fato é que de uma hora para outra tudo pode tomar um rumo completamente diverso e a única coisa que poderemos fazer é nos adaptar.

Mas como se adaptar? Qual será nossa face no espelho após o período de adaptação? Se trocar de emprego já implica em uma quantidade imensa de mudanças, que dirá acabar um relacionamento, que dirá romper uma amizade, que dirá mudar uma idéia que há tempos carregávamos como certa, mas que de uma hora para outra percebemos que não é nada daquilo que pensávamos ser.

E nesse emaranhado de sentimentos e ações, talvez somente a certeza de duas coisas possa nos dar algum impulso para aceitar a condição da existência e então perseverar nesse despropósito que é a própria vida. E quais são essas duas coisas? A arte e o amor.

Primeiro a arte, porque todos necessitamos da criação para sermos. Essa criação pode estar para construir uma casa, ter um filho, escrever um livro ou plantar uma árvore. E se parto do pressuposto de que a criação que implica na arte não está apenas restrita às mãos de alguns auto-intitulados sábios de plantão, percebo que todos, sem exceção, alicerçam sua existência sob esta aresta, considerando-se que sem ela a própria vida se tornaria impossível.

Contudo, para além da arte tem de existir o amor. E por que tem de existir o amor? Porque é impossível haver criação sem amor assim como é impossível haver amor sem criação. Logo, temos duas faces da mesma moeda, sendo que o reconhecimento desse padrão existencial talvez possa nos fazer passar pelas mudanças ao menos com o senso de que se a vida é finita, nada que provenha da vida pode ter ares infinitos e portanto carregados de uma certeza imaculável que de modo algum está para aquilo que somos.

Dentro desta abordagem, quem sabe até seja possível que a existência não seja tão vazia de propósito como falei acima. Ainda que estejamos impregnados do absurdo do qual tanto falou Albert Camus, existe a possibilidade de que partindo da intersecção entre amor e arte, nossa vida se revista de uma face completamente diversa, visto que se Camus disse ser a existência um absurdo, disse também que ao ser humano cabia construir um sentido para esse absurdo através da revolta em relação à própria ausência de sentido da vida. Consequentemente, a faceta humana que ganha maior destaque é a arte e portanto a criação, já que através dela a humanidade faz com que a falta de razão última para as coisas do mundo tenha algum sentido a partir da sua própria mundaneidade.

Claro que muitas pessoas dirão que um sentido para a existência de fato existe e que basta olhar para o céu para percebê-lo. Outras tantas dirão que se esse sentido transcendental não existe, cabe a nós buscar o bem-comum no futuro da própria humanidade, o que se daria através das lutas sociais que permeiam a história humana de maneira cabal desde os idos do século XIX. Contudo, diante desses dois discursos se pode perceber também que os mesmos carregam os fatores da criação e do amor como conjugações fundamentais à sua fala, sendo que distantes delas nada são além de palavreados vazios.

E se realmente somos avessos às mudanças apesar das mesmas permearem toda nossa vida, não seria má idéia aceitar o binômio arte e amor como fator constituinte fundamental do ser humano. Assim, talvez algum sentido fosse criado e a maioria de nós não se sentisse tão sozinha quanto se sente atualmente, quanto mais com tantas e tão grandes mudanças em curso.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A pergunta da amante vendada.

Se o mundo fosse um lugar comum, até acharia normal vez em quando assistir notícias esdrúxulas na televisão. Mas o fato é que o mundo não é um lugar comum. Se o Lula disse ser chiquê emprestar dinheiro para o FMI enquanto o país está afogado em dívidas externas – e o legislativo está em vias de aprovar uma lei que posterga à eternidade o pagamento das dívidas da União, dos Estados e dos Municípios –, definitivamente temos de admitir que o mundo não é um lugar comum. Mesmo assim, pulando de canal em canal, me deparei com uma notícia que me fez parar no dito programa.

A tal notícia dizia de uma mulher que transava com espíritos. Toda noite vinha um espírito e fornicava com a mesma. O mais curioso, é que havia imagens do colchão se mexendo pra cima e pra baixo, como se realmente houvesse um espírito por cima do corpo da senhora. Porém, o que me deixou abismado foi o fato da dita cuja não se acordar com o arremeter contínuo do espírito, o qual fazia com que ela, muito embora próxima do orgasmo segundo alguns vocais clássicos do ato, continuasse dormindo.

Pensar nisso me faz lembrar aquela clássica história de que em algum momento da humanidade uma mulher foi fecundada ainda que virgem. Dizer que isso ocorreu lá no período em que éramos antropóides recém perdendo os cílios da nossa macaquice, vá lá. Mas dizer que por conta disso nasceu o que algumas religiões denominam como “salvador da humanidade”, é lerdeza intelectual demais para mim. Primeiramente, porque não posso acreditar que a morte de uma única pessoa possa limpar os pecados de todas, até porque a noção de pecado muda de geração para geração. Se ontem uma filha transar antes do casamento poderia ser considerado um pecado frente aos olhos do pai da menina e mesmo diante da sociedade, hoje isso é mais do que normal. E fazer com que o hímen, uma simples pelezinha que pode ser rompida facilmente, consista em uma questão moral – ou melhor: em um símbolo de moralidade – é algo que francamente não me desce pela garganta.

Contudo, se a mulher dizia que todas as noites um espírito vinha transar consigo, alguma coisa deve existir na constituição psíquica dessa mulher para que ela afirme uma bizarrice dessas. Não que eu duvide de espíritos: pelo contrário, acho até que eles existem e que os Caça Fantasmas deram cabo de uma boa parte deles. Mas se a mulher dissesse que fora violentada por um extraterrestre, eu até levaria a questão mais a sério, mesmo que desconfie que os extraterrestres, caso existam, tem coisas muito melhores para fazer do que seduzir humanas ou visitar esse nosso planetinha de meia-tigela perdido em um braço qualquer da Via-Láctea.

O problema dos seres humanos, neste sentido, está para o fato de que não conseguem se contentar com a simples realidade de que nascem para a morte. E mais do que isso, não conseguem suportar a falta de razão, a falta de sentido para a vida, e então têm de apelar para religiões, remédios, drogas e amores fulminantes, os quais, em alguns lapsos de extrema falta de consciência, ou quem sabe de consciência tremenda sobre a falta de sentido de tudo quanto nos cerca, cometer atos de loucura imensurável, como ocorreu nos Estados Unidos no decorrer dessa semana.

Se não conseguimos suportar o fato de nascermos para a morte e portanto sermos seres finitos, jamais conseguiremos desfrutar completamente a existência. O problema é que existem mil e quinhentas vozes dizendo que existe vida eterna e nos cobrando alguns dízimos no final do mês. Nós não somos seres maiores que uma formiga: essa é a realidade. E o mero fato de termos alguns cromossomos a mais que os macacos não nos faz merecedores de nada além disso que comemos e respiramos dia após dia.

Por isso, ao ver a mulher mostrando inclusive com imagens o espírito balançado seu colchão de solteiro, sinto uma imensa pena dela. Não que eu diga que o espírito não exista, porque podem e devem existir coisas que minha lógica até mesmo desrespeite. Mas com tantas pessoas passando fome, com tantos problemas fazendo com que haja a necessidade de uma união global para salvar nosso planeta, convenhamos que se preocupar com espíritos é uma tremenda bobagem.

Se a mulher sonha que um espírito transa com ela, OK. Mas precisa mostrar isso aos quatro ventos do Brasil? E precisa mostrar isso justamente no dia em que o Lula diz que é chiquê emprestar dinheiro para o FMI? Talvez, antes de chamar analistas econômicos, o nosso governo precise de exorcistas, já que certamente a cegueira do além e da burrice pelo além está afetando a todas as pessoas desse país. Zíbia Gasparetto que o diga, porque essa daí só falta colocar violetas na porta da cadeia, sendo que aí talvez as coisas tomassem um rumo sério. Do contrário, continuaremos como uma nação de bestas quadradas que se agarram em um futuro protegido por um deus que nunca deu às caras e fez esse mundo fora do comum no qual falamos tantas besteiras comuns. E o pior é que aceitamos essas besteiras como uma amante vendada que pergunta:

- Quem dará a próxima chicotada?

terça-feira, 7 de abril de 2009

Apólogo para um Acadêmico.

Droga atrai droga. (Metadônica, só a morte.) As pontes estão içadas, o convés nunca houve. Folhas caem, o funil das árvores é um quadro, é um rol de respingos, e os cadáveres do mistério – de um mistério, dos mistérios: não faz diferença – permanecem impossibilitados, borrados, pois serpenteiam novas ofertas de plaquetas pelas vitrines. Calor há – e trepadas na lembrança e nos livros. Mas algo escapa. A leveza é insuportável. No coração continente, no coração inconsciente, pancada na cabeça, sangue pela rua, estagnada, a felicidade, o riso, os abraços dos amigos na lembrança, enquanto ele, que fodia muitas, que sempre quis (nunca foi), ele, esse amontoado de carne linhada pelo cosmo, pela benevolência de qualquer filho da puta, ele, olhar mirrado, estrangulado de dor, deita, não come, quer e já não pode. Nem lago nem trufa. Nem sombra nem estantes. A demissão foi etapa, mas a restrição enfim chega, friccionada pelas mãos do sonho em preto e branco, pelas mãos da puta subornada. A compra! O petróleo! As finanças e o loby de cada barril... – Pra quê reticências? – (Existe. Ponto.) A redenção custa caro, muito, muito caro, e qualquer roubo socializado, sindicalizado, gramaticalmente excepcional, urge por dedos lisos, violáceos, lúgubres tal o que não foi feito e o que não foi escrito. Dor acaba, em minutos acaba, pode estar certo disso. Mas o asco, essa vontade lacrada, essa miscelânea romana, saxã, esses invasores que entram pelo buraco do céu, essa associação poderosa e sem preceitos, tendo somente barba e tecido de algodão, não cessa, não flui ao contrário, não berra impropérios na cara de traficantes bolivianos, mas entra na lua-de-mel, no salão, no quarto climatizado e naquele que é de polietileno, naquela cama nefasta e beata. Há o sono, o cansaço, o despreparo ferindo mais, mais e mais. Cobrem ídolos para obter espaço, e cada pestanejar da maneira entra pela veia, faz cair baba da boca, babando pus, vermes, necroses de uma vida, de uma traça. Nada foi criado, tudo foi suportado com a dignidade das estupradas. Mas talvez tenha sido bolinação de ônibus, mão por baixo da saia, sabe como é, sem esperma, sem feto, sem retardados nascendo. Talvez não devêssemos nos importar, talvez devêssemos exportar, expropriar, reerguer o cascalho daqueles corpos de ontem, de hoje, de estrias. Talvez o nascimento venha das ondas, dos satélites, e não há porque chorar. Encosta a cabeça, acorda do sonho, pega o avião e vai. Deixa o amor nos homens que freqüentaram teu quarto e na filha que não morreu, mas que sempre esteve nas rodas do teu carro. Não renuncia ao levante, aos infantes. Ergue! Ergue a testa, as orelhas qual pastor alemão, anda! Enumera as catástrofes, a bele époquè, os campos de experiências, essa solidão abstrata e sem fim de cada mãe que dá a luz, que dorme no berço e que amamenta. Não há encanto em ser, não há conforto nas dunas da narina, não há balão vermelho que suba e não estoure. Pouco há. Mas senta, come, bebe, discute, ri, ri que a face gosta. Depois, veja, prevalece a burrice desses estudantes sem culpa, desculpados. Esperança? Um cuspe no mar. Lascívia? Ser freira. Essa paixão é que arrefece. Esse ir é que vai. O que perdura são impressões e nada mais. Mas tudo se estende, tudo envolve tudo, e com os queridos passa, passa rápido. Narcótico da ida, narcótico da volta, sempre narcóticos. E um dia, de susto, as veias viram pó e não há crise: só a certeza do imponderável, do putrefato, do apocalipse dos olhos que fecham – e abrem o infinito.

CANTO XXVIII.

CANTO XXVIII.

Gira, gerânio, gira!

Apesar de estares jurado ao pé da sacada, gira!
Gira dentre fios, dentre turcos, dentre lances.

Se não giramundo, giracaule!,
gerânio, giracaule!

És vermelho! És válvula!
És compressor de vida perto da janela!
E ao invés de manter a pedra do teu olho amarelo, de tigre, gira!,
Gerânio, gira!, pois até o mundo, teu comparsa giralfinete,
Gira e cai – e cai em espiral.

Mas tu tens pétalas, gerânio, pétalas!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

CANTO LXVII.

CANTO LXVII.

O toque silente e frio
dos dedos da mulher,
assustara sua manhã
envolta em setim ruivo.

Abriu os olhos no instinto
de saber o que ocorria –
e eram dois corpos brancos
num dia prematuro.

Ela lhe pediu calma,
pois nada acontecera,
e talvez aquele susto
fora apenas resquício
de um pesadelo,
um sonho.

Ele aos poucos cedeu.
Mas não diante do pedido:
cedeu diante daquilo
que a manhã frisava
e fazia do seu corpo
um corpo só de desejo.

Então os lábios da noite
deixaram a noite ir.

E à palidez da aurora
um rosto se fez real.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

E pergunto: surgiria nosso rosto?

A palavra trava o desejo assim que se torna voz. E ainda que sua voz seja mudez azulada ou cinza em uma página branca, nada mais poderá surgir.

Talvez a leitura trame o contrário. Talvez os passos não sejam exatamente estes, sendo que ao invés de engolirmos o sonho, podemos engolir tão-somente o sono.

Mas tudo isso, mesmo que pareça muito, não passará de uma possibilidade traçada ao amanhecer e jamais no amanhecer.

Logo, de que adiantaria?

O tempo continuaria estancando nossas veias. As ruas prosseguiriam em sua servidão cotidiana. E enquanto isso se mostrasse por meio de ruídos descontínuos na madrugada, as coisas estariam bem.

Porém, a voz invariavelmente iria dizer algo porque a pele simplesmente precisava de alguém. Assim, o custo dessa carência seria a verdade que a garganta sentiu mas não deixou passar.

Ao final do dia, restaríamos cansados nos escombros do entardecer por nós mesmos criado. Além, aquém, de um ou de outro lado, nada mais.
Então, talvez nossa única esperança fosse uma sala de cinema repleta de espelhos ovais. Dessa maneira, nossa história seria infinita ao ponto de qualquer palavra jamais poder alcançar essa espiral que está para além do nosso início e do nosso fim, caso ambos realmente existam.

Somente aí, estaríamos fora do reflexo das nossas próprias palavras, distantes do eco da nossa própria voz.

E pergunto: surgiria nosso rosto?