domingo, 15 de março de 2009

A culpa enfim se instalara.

Generais não gritam. Generais apenas falam. Generais são serenos como o mau que nos trai a cada bondade. Generais não têm todas as honrarias que pensam, mas carregam todos os pensamentos que pensam sobre as honrarias que não têm. Por isso ele enterrou o corpo do vizinho no quintal e plantou gerânios vermelhos por cima. Não que os gerânios vermelhos tivessem algum significado ou mesmo que a morte do vizinho quisesse dizer alguma coisa. Como foi explicado, generais não gritam e são serenos como o mau que nos trai a bondade. E é por isso que sabem de todos os nossos pensamentos.

Não tolerava mais o vizinho. Cortar gramas compulsivamente nunca foi certo. O som da máquina, os fios da máquina podando o verde do chão nunca foi algo no mínimo agradável. E esse motivo é que fez com que o General tomasse aquela decisão. Guardara o machado há anos e era o momento de usá-lo. Matar alguém em nome de outra pessoa não quer dizer nada. O bom é matar por conta e sem qualquer motivo. Só assim o sentido do assassinato se revela.

Não importa a maneira como o machado foi usado. Importa apenas que o crânio do vizinho rachou. E o vizinho morava sozinho. Talvez nem filhos pelo mundo houvesse espalhado. Certamente não passava de um desses seres que por mera compulsão, arrumam a grama e mais precisamente o ato de cortar grama como sustentação para toda sua existência. Mas um ato pode sustentar uma existência? Essa covardia era demais para o General. Caiu então a gota d’água.

O General lembrou de certa vez em uma trincheira. A data se perdera nos calendários. O rádio dizia que as bombas viriam. Mas se passaram três dias e as bombas, que eram bombas inimigas, não vieram. E o que ele e os demais fizeram na trincheira naquele tempo? Comeram terra, fumaram cata toco de cigarro que ainda restava e tudo não passou disso. A expectativa não se tornara real. O anseio não tomara nome. E foi isso que se passou na cabeça do General quando ele usou o machado: a fome com gosto de terra e cigarro.

Quando a lâmina cortou o osso, lembrou daqueles buracos. Lembrou de corpos azuis, lembrou de corpos podres, lembrou de tudo o que vira e cheirara nos tempos em que transitara por outro país. Mas a lembrança não era uma lembrança ruim. Pelo contrário, justificava seu ato e até mesmo o machado perfurando o osso de um só golpe – o vizinho caindo como cai um livro no chão e nada mais.

Talvez esses seres que por aí transitam, não sejam nada mais do que isso: expressionismo alemão que ainda não se definiu, pensou o General, pois não poderia haver outra explicação para a compulsão em cortar grama do vizinho. Tudo nele era preto e branco, apesar da sua casa ser bege. A única cor que ganhou em vida, certamente foi aquela que o machado lhe trouxe na morte. Antes disso, nunca tivera consciência da sua própria existência porque jamais vira seu próprio sangue. E quem jamais viu o seu próprio sangue, jamais saberá da culpa que carrega consigo.

Dessa culpa General sabia. Tanto que ajoelhou nos pregos da cozinha e deixou que as pequenas pontas penetrassem fundo na carne das pernas, de modo que, no entanto, o sangue não chegasse a vazar. As luzes estavam apagadas. Apenas um carro ou outro cruzava pela madrugada. E quando o General percebeu que iria desmaiar, levantou, tomou um banho e foi dormir, deixando o machado e o vizinho na sala de estar. Afinal, o outro dia seria domingo. E domingo é um bom dia para tudo quanto seja relaxante.

Ao acordar, despertou disposto. Logo arrancou a pá que guardava no fundo do guarda roupas e a jogou no quintal cercado por toras de madeira. Antes de iniciar os trabalhos com a pá, porém, foi à floricultura. Comprou duas dúzias de mudas de gerânios vermelhos. E isso seria o suficiente para disfarçar a saliência que o solo faria com o corpo do vizinho e seu respectivo machado.

Até pensara em remover o machado do crânio do vizinho. Mas de certa forma, era um privilégio ser enterrado com um machado na cabeça. Daqui há milhões de anos, quando o quintal do General não for mais quintal mas sim sítio arqueológico, certamente escreverão alguma tese sobre o crânio e o machado. Quem sabe até encontrem vestígios de gerânios vermelhos. Porém, isso já seria pedir demais. A eternidade só existe no Paraíso. E o Paraíso só existe para quem acredita no Paraíso, sendo que para entrar no Paraíso é necessária a culpa. Não é que Deus seja um vampiro: ele apenas cobra seu preço. Trata-se de um Mefistófeles às avessas e só isso. Simples como um contrato.

E quando o General acabou o trabalho, ligou para alguns colegas e jogou pôquer até amanhecer. O estranho é que os gerânios vermelhos floresceram da noite para o dia, como que impelidos por uma força que nem mesmo suas raízes pudessem conter. Era como se suas pétalas se espalhassem quintal afora, transcorrendo como tempo apenas para fecundar outros gerânios pelo mundo.

Percebendo isso, o General ficou feliz. A decadência, enfim, já havia diminuído um tanto. Dera importância ao que considerara importante e fizera o que considerava importante. E isso era o que valia, sendo que ninguém poderia duvidar de sua ética. Até mesmo os policiais que foram chamados pelos outros vizinhos para dizer do sumiço do vizinho do General, ao falar com o General, elogiaram seu canteiro de gerânios vermelhos.

O problema, entretanto, foi que disseram que o vizinho era procurado por um crime qualquer. Não quiseram dizer qual crime era, mas disseram que não era coisa pouca. E foi aí que na mesma noite o General desenterrou o vizinho, arrancou o machado da cabeça dele e abriu a própria testa. Desde então, os cigarros pararam de voar pela janela.

Dizem os que moram lá praquelas redondezas, que os gerânios continuam crescendo, mas enquanto um é vermelho, o outro é verde escuro.

A culpa enfim se instalara.

sábado, 14 de março de 2009

E foi só olhar para os meus pés.

Não me importo que o mendigo bata palmas pra cada carro da rótula. Não me importo que essa manhã traga consigo um dia que será quente. Não me importo que em algum lugar existam pedras que nada construam e somente sirvam para os meus pés.

Somente me importo com aquilo que desconheço. Somente me importo com a parte de mim que é pura sombra.

De resto, não me importo.

Se sei de várias notícias, seja do Oriente ou do Ocidente, não me importo. Informações não são cultura, como já dizia o Fausto Wolff.

Por esse motivo é que me importo com os mistérios, com os desconhecidos, com as ruas pelas quais não cruzei e com as mágicas que ainda aprenderei, pois distante do que não vivi, nada condiz comigo a não ser por mera conveniência, por mera sobrevivência.

Se digo uma coisa ali, se digo outra coisa aqui, se abro a boca para a broca de qualquer dentista, é porque é necessário e ponto final.

Há de se concordar que sem isso nenhuma vida é possível.

Não que tenhamos de abrir mão do compasso do nosso peito. Não que tenhamos de arranjar outro metrônomo que não seja o metrônomo da pele. Mas o fato é que nem sempre nossos desejos e as coisas que consideramos devem ser levadas em conta.

Caso a todo momento pensarmos nisso, o que nos acontecerá será um surto, uma escuridão de loucura, um rompimento da realidade que só abrirá uma noite que sangra toda razão para o vão da irracionalidade.

E não que a irracionalidade seja algo ruim. Pelo contrário, a irracionalidade é necessária. Mas a irracionalidade é tão necessária, como são necessários os pontos dessas grandes empresas, os quais marcam a saída e a entrada dos funcionários.

Por isso que mesmo que tenhamos de conviver com coisas com as quais não nos importamos, essas coisas são necessárias, essas coisas tramam a teia que nos emaranha na vida e nos trazem um sorriso ao rosto de olhos de sono.

E qual é a razão do sorriso? É a mesma razão das pálpebras. É a mesma razão das pernas e pés. É a mesma razão de haver muitos caminhos que seguir e tão poucos passos para dar. É a mesma razão pela qual abraçamos tanto quem gostamos quanto quem não gostamos nessas festas que temos de frequentar para garantir algo nos balcões e no estômago durante o resto do mês.

Mas que não se pense que eu queira extinguir minha sensibilidade.

Muito pelo contrário, quero que ela tenha cada vez mais amplitude.

O fato, contudo, é que desejo uma sensibilidade grávida daquilo que ainda não sou, trazendo no ventre as partes de mim que desconheço, para só então se transformar em palavra.

Do contrário, estaria apenas reproduzindo o que tantos já disseram, o que tantos já quiseram e até certo ponto fizeram. Do contrário, estaria tão-somente seguindo o riscado dessas faces que desconheço mas habitam minha estante.

E é por conta disso que não me importo com manhãs, sóis e pedras, sejam elas do Oriente ou do Ocidente. Estudo isso, escrevo sobre isso, discuto sobre isso, mas não me importo com isso. Tenho afetos com isso, tenho comoções com isso, tenho sentimentos com isso, mas nada disso me traz aquela parte de mim que desconheço.

Se trouxesse, me importaria. Como não traz, não me importo.

E se o mendigo quiser passar o dia batendo palmas pra cada carro que passe na rótula, deixe estar.

Quem sabe ele seja o que existe por detrás dos nossos pensamentos. Quem sabe ele esteja para aqueles que cruzam as ruas presos por ares que nada condicionam e vidros pretos que fazem dos motoristas meras sombras incertas.

Mas o que sou além de uma sombra incerta que busca sua própria materialidade em cada palavra dita?

Sei que as coisas são assim e por isso não me importo.

Por isso é que me importa a beleza, a paixão, o amor, o abraço, o beijo e o carinho. Por isso é que me importa o que não sei dizer mas sei fazer. Por isso meus toques mudos, minhas miudezas finas e os vinhos que nunca tomei. Por isso essas viagens que planejo e com as quais tenho pleno compromisso, muito embora também tenha plena incerteza. Por isso que considerar é sim dar brilho e por isso que a resposta não está apenas no fim.

Se amo o mundo, se vivo em um reino sem rei, se minhas certezas se esvaíram e se o labirinto dos dias esconde algo em cada esquina, nada disso importa.

Importa o que não sou, importa a janela aberta, importa o que não abre, importa o gás que acabou e a água que não irá ferver. Importa tudo aquilo que não fui, porque somente assim é que poderei ser.

No mais, ficam apenas essas palavras, nacos de existência sem qualquer osso ou metria, rasgos sem precisão mas vivos por franqueza e mais nada.

No mais, isso – palavra simples que pode dizer sobre tudo, que pode estar relacionada com tudo e com todos.

Além, somente o que me importa. Porém, é aquém que estou, admito com orgulho.

E foi só olhar para os meus pés.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

Troquei de lugar os móveis. Já não suportava sua posição antiga.

Arrastei a cama prum lado e as estantes pra outro. Arranquei cortinas e deixei que a luz não fosse barrada por nada.

Por conseqüência, acabei dormindo no tapete da sala quase seis da manhã. Quando acordei, lembrei de um homem que vi anteontem.

Ele tinha a barba e o cabelo do Cortázar em Paris. Ele andava de pés descalços e carregava uma sacola preta nos ombros. Sua roupa também era preta e sua calça acabava antes de chegar a ser calça. O estranho é que sua camiseta, também preta, tinha uma espiral branca no centro.

Ao cruzar por mim, ele me olhou com olhar de messias e prosseguiu.

Por curiosidade e um certo pasmo, virei pra lhe ver de costas. Acabei por descobrir que a camiseta preta com espiral era de propaganda política. De uma vereadora, pra ser mais exato, com número e nome estampados.

Claro que achei estranho uma vereadora ter uma camiseta de campanha daquele estilo.

Mas o que é estilo? Pra se franco, não sei. Acho que a definição que mais se aproxima de estilo está para a magreza das modelos.

Porém, apesar do fato de achar estranha a camiseta da vereadora, ontem vi novamente aquele homem na rua.

Estava eu sentando em um bar tomando um café e ele cruzou do outro lado, com a mesma sacola, com a mesma roupa, com a mesma barba e cabelo do Cortázar em Paris e com os pés descalços.

Cheguei a intuir que o mundo queria me dizer alguma coisa. Para além da intuição, pensei que tantos sinais espalhados por aí, caso conectados, devem formar algo além de um labirinto do qual a saída é quase impossível.

Por exemplo: existe uma rua pela qual tenho cruzado normalmente nervoso. Nessa rua, há algumas semanas atrás, eu nem pensava em cruzar. Entretanto, é nessa rua que irei morar daqui algumas semanas.

Logo, o que essas coisas que percebo por dentro e por fora querem me dizer?

Tão-somente dobras de um tempo que não compreendo ou algo mais que isso?

O que quer dizer acordar deitado no tapete da sala com a luz do meio-dia bronzeando meu cansaço?

Deve haver uma ligação em tudo isso. No mínimo, deve haver uma estrutura que diga que as coisas que cruzam por mim, de algum modo irão dizer algo de mim e para mim, nem que este algo esteja para o compasso que bombeia meu sangue. Caso não haja nada e tudo seja fruto do completo acaso, o que existe é apenas um mecanismo que carrego comigo e procura pôr ordem no mundo.

Além do mais, trocar móveis de posição é estabelecer uma nova ordem. Ver o homem vestido de preto com barba e cabelo do Cortázar em Paris, também é uma nova ordem. Mas ordem nova mesmo, é pensar que irei morar na rua pela qual tenho cruzado nervoso.

Será que foram minhas preocupações que fizeram com que surgisse lá um lugar que há tempos desejo para morar?

Será que de alguma forma influenciei tudo quanto me rodeia para que, ainda que este tudo não conspire a meu favor, ao menos transpire alguns átomos condizentes com meu futuro?

Disso nada posso dizer.

Não sou astrólogo. Sou apenas um astrônomo mais amante que amador.

E enquanto não desvendo os segredos do cosmo e as ligações entre tudo que está ao meu redor, levanto do tapete da sala e abro a porta da sacada. Um dia cinza mas claro me fere os olhos com luzes de cirurgia.

Talvez seja necessário que meu amor, cristal cigano por excelência, renegado ao chão da cozinha como vidro de café quebrado, torne-se uma bola de cristal e não apenas cristal cigano. Talvez, ao menos dentro de mim, os lugares tenham que mudar de posição assim como arrastei camas e estantes para só depois arrancar cortinas. Talvez assim, algum rei que desconheço me contrate não como astrônomo, mas sim como astrólogo.

E então aí, observando noite após noite todas as estrelas do céu, eu veja que tudo, seja contido em minha retina, seja retido pelos asfaltos, está justamente para uma espiral. Espiral esta que, em meio ao negror tanto do lençol das estrelas quanto do tecido das camisetas, põe meu senso no labirinto das suposições e faz com que minha percepção procure, para além de um sentido, uma ligação de uma coisa com outra, como se isso fosse me salvar de algum fim.

Mas desconfio que seria uma grande bobagem.

Seria como o Grande Ditador do Chaplin: brincaria com um mundo inflado aos sopros e nada restaria além do meu gabinete. Nele seria a um tempo conde e agrimensor kafkiniano. Dali sairiam todos os meus despachos e relatórios. E também dali é que sairiam todas as minhas palavras, todas as minhas suposições, toda a minha necessidade de organizar, classificar, nomear seres e coisas de tão diversos lugares no único local que é plenamente meu.

E qual é esse local? É o meu talvez. É a minha suposição. É o móvel que arrasto madrugada adentro.

Mas é principalmente essa luz de um dia cinza que me faz nascer às avessas aos vinte e quatro anos de idade, pois não me constituí como sujeito nos olhos de minha mãe. Só sei que me puxaram na cesariana, me deram uns tapas nas costas, me colocaram um farol na cara e a partir disso tive de existir.

Logo, o medo é o que me move. Portanto, é pelo afeto que vivo.

E é por conta disso que mudo os móveis de lugar para depois arrancar as cortinas.

Se é pra ser do medo e do afeto, que ao menos seja franco comigo mesmo e a partir disso construa minhas suposições, as quais, infinitas como qualquer possibilidade, talvez ainda me incutam um olhar de messias nesse templo dos dias.

E só então é que trocarei de papel com o homem com cabelo e barba do Cortázar em Paris. Já não suportarei minha posição antiga. Nômade de mim, apenas serei na aceitação daquilo ao que tento atribuir alguma razão.

E de parede em parede, um dia verei espelhos, já que os reflexos nem sempre estão para as superfícies.

Só aí poderei dizer: o que menos importa é a saída.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Guaxo ao chegar.

Guaxo ao chegar.

sou comuna ressabiado
que não segue o riscado
de qualquer camarada

sou Trótski meeiro
entre um mural de Siqueiros
e a soda da criançada

sou ativista passivo
sem gota de busto altivo
ou coloradas vestes

sou reles sonhador
covarde em meu Equador
anti-tributo à Prestes

sou rasura de mim
sou sempre o mesmo fim
sou orgia e Planalto

sou uma imunda puta
sou aquele que é truta
e cruza os braços num auto

sou só comiseração
arara da humilhação
mais Collor do que Guevara

sou um tal de I don’t no
mirrado num please don’t go
credor que estupra e ampara

sou facho de esperança
em raquítica criança
às margens de um altar

sou grito retumbante
que habita minha estante
todo Médici em seu ar

sou presidente eleito
num coração rarefeito
que mastiga o sofrer

sou cabeça da boca
cheirado e porraloca
global no modo de ver

sou ex-tropicálio usado
Brás Cubas acorrentado
na Disney da dissonância

sou lágrimas de Henfil
imigrante do frio
el fuego de mi estância

sou cria da parabólica
sou a marginal bucólica
sou Glauber que não é rocha

sou mais tiví que tevê
sou quem breca o auê
o que não leu mas atocha

sou do sul e do norte
sou estatística e morte
em filas à la Coimbra

sou gramático e correto
sou de um grupo seleto
que se borra e melindra

sou o sonho devastado
cachaceiro e mau-olhado
sou lamento perdido

sou o dia que amanheceu
sou a mãe que esqueceu
do filho e do Partido

e sou o couro que resiste
e sou o mar que insiste
sou quem quebra pena e tinteiro

pois eu tenho as forças
e talvez tenha as palavras
para destruir as travas

e um dia me ver inteiro

quarta-feira, 11 de março de 2009

Amava o mundo mas o mundo não o amava.

Amava o mundo mas o mundo não o amava. Pelo menos era o que parecia. Iam as manhãs frias, vinham as manhãs frias, violetas morriam em cima da mesa que não dava brecha pro sol por culpa da janela sumida, e as coisas continuavam na mesma. Melhor seria, pensava, que seu antepassados, aquele bando de gringo doido, tivessem morrido em algum naufrágio. E os naufrágios foram tantos! Mas eles conseguiram sobreviver: bichos que saem de uma floresta em chamas, reproduzem, reproduzem, e duas ou três gerações depois ali estava aquela consciência, ali estava ele e o mundo. E o que é o mundo? O mundo é o pomar e suas laranjeiras, com galinhas desocupadas que ciscam aqui e ali, ou é aquele amontoado de palavras pálidas que chamam de lições? Podia ser uma coisa assim como perfeitamente podia ser outra, mas, com o correr dar horas que formam dias, dos dias que formam meses e dos meses que formam anos para formar nosso desgosto, o que mais o incucava era haver vida, haver um par de pulmões e um coração que bombeia o diesel das artérias pra toda e qualquer veiazinha periférica. E esse sentimento, sentimento que era mais dúvida do que sentimento, desde que ninguém duvide de que a dúvida é um sentimento, ia crescendo aos socos dentro daquele corpo mirrado. Gostava de acordar cedo pra ver a geada de inverno cobrindo os campos: aquela fumaça que parecia fumaça de cachimbo por cima do açude cheio de carpas, as aves que madrugavam e soltavam bocejos ao cantar, a neblina que ilimitava os morros e fazia fronteira com lugar nenhum: o estranho tranco daquela realidade que pegava no tranco. Não era letrado, pouco ou nada sabia de prosas ou prosódias, mas quando sentava ao lado do fogão à lenha, caneca fumegando café, filosofava consigo horas a fio. A falta de interlocutores por vezes o perturbava, o que era remediado com uma ida ao banheiro e uma olhada no espelho de bordas marrons, pra logo depois voltar pra banqueta de couro cru e prosseguir com suas especulações solitárias. Decidira, sem saber porque, ali mesmo na banqueta, numa dessas ocasiões de solenidade vã em que decisões sem possibilidade de decisão são tomadas, que deveria dar um nome pra tudo o que considerava. Mas o que é considerar?, pensou de imediato. Considerar é dar brilho, considerar é CON-SI-DE-RAR, e é, enfim, brilhar, ora! Mas, como pode se notar claramente, isso não era suficiente, e o fato dessa consideração sobre o considerar ser cabal pra sua empreitada, o fez matar o ato antes dele se tornar relato, indo dormir, meio ressabiado, quando um quero-quero queria algo no gramado da escola ali perto e a última estrela respingava o céu da quarta-feira recém nascida. Porém, as obsessões, por mais tolas que sejam, e quanto mais tolas são, alfinetam o pé e empedram o pescoço quando menos se espera: a temperança em saber o que é considerar e não-considerar não o largou. E ele queria, lógico!, dar um nome, e um nome novo, percebera na insônia, pra tudo o que considerava. Tentou não pensar em coisa alguma, deixando a mente ao sabor dos nervos, pra ver se algo surgia. E nada surgiu. Por sugestão de um amigo, comeu uns cogumelos arroxeados que achou perto da mangueira, e apenas conseguiu uma dor de barriga daquelas, seguida de uma diarréia repleta de remorço reflexivo que se estendeu por mais de uma semana. Dando por conta de que era necessária, quem sabe, uma dedicação integral da sua parte naquela cruzada, largou de mão quase todos os afazeres e se pôs a freqüentar a biblioteca da cidade, distante quatro quilômetros, por tardes e mais tardes. Revirou livros de todas as espécies. Pesquisou aforismas do grego ao russo. E quando pensou que havia chegado a um ponto, a um consenso, uma decepção nova entrou por debaixo da porta e se instalou ao prazer da calamidade, fazendo tudo ir, novamente e novamente e novamente, ralo adentro. Os conhecidos foram desconhecendo sua face. Não era mais o mesmo. Recitava versos decorarados na espuma de cada chopp, e quando ria, ria aquele riso amalucado de quem sabe que a ponte vai cair mas crê na fundura do rio. O relógio rastejava, os calendários se seguiam, e sua casa, antes simples mas limpa, ia virando um semi-chiqueiro, com garrafas por cima da mesa, com poeira se embrenhando pelos cantos, com frigideira enferrujada transbordando ranço: com o ter e o não-ter de quem vive pra algo que está além. Mas o que é estar além? E o que é o além? O além é o nome que a consideração sobre o considerar não pode alcançar ou é outra coisa? O que é essa outra coisa? E por que ser se o ser sempre foi e será mesmo que nunca seja? Tudo isso pernoitava em sua alma com cara de visita que faz da trouxa guarda-roupa. Não era pra menos: amava o mundo mas o mundo não o amava. E numa noite sem lua, escura feito porão onde trovejam ratos de toca em toca, infartou, perdendo a consideração e o considerar, o nome e o nomear, e chegando, afinal, a uma resposta.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Era uma vez um reino que não tinha rei.

Era uma vez um reino que não tinha rei. Era um reino que não precisava ser reino com R maiúsculo, o que talvez explicasse muita coisa que por lá acontecia. Mas o mais estranho, é que era um reino onde as pessoas não tinham sombra. Sim: ninguém via seu lado escuro, seu lado penumbra, quando andava na rua, e uma luz forte, uma luz forte que não era a luz do sol, pois caso houvesse a luz o sol teria também de haver a luz da lua, vinha de todos os lados, até quando um ou outro desavisado tentava fechar os olhos, sendo que até isso, veja só, era proibido. Mas proibido por quem? Ninguém sabia: sabiam apenas que era proibido desde sempre, apesar de o sempre, como todos desde sempre sabem, não poder ser medido, e ser, além do mais, questão de ponto de vista, questão da vista de um ponto. E nesse reino que não era reino com R maiúsculo e onde ninguém tinha sombra, todos queriam muito muitas coisas que nem sabiam ao certo o que eram. Queriam isso, queriam aquilo, e andavam que nem doido pra lá e pra cá, de olhos estanhados, arregalados, quase vermelhos de tão engraçados, querendo mais e mais. E como não tinham sombra, derrubavam tudo que viam pela frente, fosse folha ou cipó, que pudesse barrar o caminho e consistir, mesmo que de longe, um obstáculo. E a gente de lá, meu caro, hã!, a gente de lá não gostava de obstáculos: queria tudo às claras, e tão, mas tão às claras, que de uma hora pra outra não havia mais nada sobre aquela terra. Nécadepitibiribas: nada, nem res de resmungo. E quando isso aconteceu, ficaram todos pra lá de atarantados. Não tinham mais o que derrubar, não tinham mais com o quê se ocupar, e de tão carregados que estavam, não tinham mais nem o que querer! Imagine só! Foi então que um moleque meio estranho, com cara de enguia, deu uma sugestão: vamos tentar dormir. De início, deram risada da cara dele. Ora!, desde quando se dorme no nosso reino! Pura baboseira! Mas quando ele mesmo se propôs a fechar os olhos e dormir, ferindo a lei universal e que existia desde sempre, como diziam, ficaram meio assim, meio assado, e aos poucos os ânimos exaltados, daqueles que querem feijão-feijão/arroz-arroz, foram se acalmando. Quando se deram por conta, eram dois dormindo, eram três dormindo. Depois quatro, dez, quatorze. E a coisa chegou a tal ponto, que todos decidiram dormir. E sabe o que aconteceu? Nasceu então a sombra. Nasceu como todos nascem: sem dentes e pelada. Mas isso já era alguma coisa. Quando o primeiro acordou e notou que tinha sombra, não sabia se era aquilo ou aquela a coisa preta que lhe seguia por toda parte. Ficou assustado, tremendo de medo, pensando que um deus ou alma penada, pois lá praqueles lados sempre falavam em alma penada, havia encucado consigo, e portanto resolvera lhe afligir pro resto da vida. Porém, quando os outros foram se acordando e percebendo que todos, absolutamente todos tinham sombra, a história mudou de rumo. Era impossível que espíritos e almas penadas fossem em tão grande número e resolvessem encher o saco de tanta gente. Certo que houveram os mais apavorados, que até sugeriram suicídio maciço, mas a covardia, que é o motor da ordem, logo fez às pazes com esses arautos, e em pouco tempo todos estavam a meditar, mão no queixo, pernas cruzadas, sobre o porquê daquele troço preto que passara a seguir seus corpos. Quando, um tempo depois, perceberam que só eles, as pessoas, homens e mulheres, tinham sombra, porque não havia mais o que ter sombra, já que tudo fora consumido, regurgitado, vomitado e execrado do plano digestivo, sentiram uma espécie de dor no fundo da garganta, porque desconfiaram que, caso contrário, outras coisas também teriam sombra. E foi nessas que começou a onda pessimista. Era gente chorando prum canto, era gente escrevendo livros suicidas noutro canto, era gente chorando e lendo livros suicidas e se suicidando noutro canto: enfim, uma porcaria total, um banzé daqueles. O incrível é que o estado de espírito afetou todo povaréu, não poupando merreca humana que fosse, fazendo das massas meros olhos inchados, nublados, cheios de olheiras e máculas de desaprovação para com a vida. Mas adiantava alguma coisa? Se o passado era passado e não podia mais ser passado a limpo, adiantava alguma coisa ficar nesse chove não molha pro resto dos tempos? É claro que não! E aí um sujeito barbudo, que tinha jeito de quem tocava violão, mas nunca vira violão mais gordo, sugeriu que esquecessem de tudo, que a vida era uma baboseira mesmo, e que, já que estavam na fossa, fossa e meia tanto faz!, o que suscitou uma estranha lógica: se tudo não-humano já fora consumido, restava consumir o que era humano. E aí, bem... aí é melhor trancar a moral num quarto escuro, esquecer a ética no aro dos óculos, anuviar todo e qualquer pensamento que cogite algo a não ser seu próprio umbigo e seguir adiante. Muito aconteceu, muito mesmo, e pra não entrar em detalhes sórdidos, porque até bengala de fêmur e sopa de estômago deram pra inventar, vou dizer que aquela gente foi se matando gradativamente. Nenhuma fêmea sequer tinha tempo de ter uma gestação completa, mesmo que isso pá e tá acontecesse, já que as surubas, surubas desavisadas e tão ou mais nojentas que qualquer nóia de imperadorzinho romano, eram diárias, diurnas e noturnas como em alguns jardins de infância. Contudo, a comilança conotativa e denotativa chegou a tal ponto, que o último que restou comeu seu braço esquerdo e acabou por morrer esvaindo em sangue. E talvez aí e somente aí, o reino que não tinha rei ganhou razão de ser: de toda aquela porcalhada de carne que ficou espalhada pela terra, começaram a surgir pequenos bichinhos meio nojentos, meio envergonhados, que no futuro, e no ontem de alguns minutos atrás, seriam atingidos por jatos de aerosol e morreriam pra que eu pudesse dizer malditas baratas! e concluir meu conto com esse sorriso no rosto.

domingo, 8 de março de 2009

Seu começo e sua verdade.

Acordou desarvorada de amores.

Queria lembrar dos braços dele, mas não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos dele, mas também não conseguia. Lembrava apenas de um vulto estranho que quanto mais próximo, mais distante ficava.

Por isso que naquele dia, decidiu que tudo deveria acabar. Havia cansado de jogos que escondem cartas por debaixo das mangas.

Sempre fora às claras: se uma briga ir madrugada adentro com pratos voando pelas janelas, ótimo. Porém, se as coisas forem feitas assim como se faz em um escritório, tornando o amor tão corporativo quanto qualquer empresa, já não se reconhecia nisso e portanto tinha de pedir o fim. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo, pois o amor não tem um código e a paixão jamais foi fruto de qualquer jurisprudência.

Mas uma questão se impunha: como pedir o fim?

Simplesmente chegar pra ele e dizer “acabamos”? Inventar o argumento clássico de que precisava se encontrar consigo mesma, visto que estava passando por um momento de transição? Nada disso lhe parecia viável. Aliás, tudo isso tinha o mesmo cheiro dos argumentos dele: ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos postergados pelo trabalho, pelo horário e pela filha que morava em outra cidade. E isso não era mais com ela.

Quando deu a partida no carro, o dia ainda era cinza. Havia uma neblina estranha por detrás dos morros que circundavam a cidade e talvez aquilo quisesse lhe dizer algo, porque a neblina também era cinza. Contudo, ela sabia que as coisas não dizem nada além daquilo que dizemos das coisas. E entrar nesse jogo bobo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual sua vida estava sendo jogada por aquele vulto tão estranho que nem mais braços parecia ter. Então esqueceu ou ao menos tentou esquecer desses detalhes e simplesmente saiu pra rua, ignorando blefes e piscadelas que sua memória queria emergir.

Como manhã e domingo, certamente ele estaria em casa. Não se viam há duas semanas. Apenas o telefone os contatava. E estaria em casa, porque era bem provável que havia saído na noite anterior, que havia enchido a cara, que havia dado fiasco cantando no palco de qualquer pub e que provavelmente havia transado com outra mulher. Mas será que ele havia feito tudo isso ou tudo isso era tão infundado quanto dar qualquer significado pessoal para a neblina cinza detrás dos morros? Tudo não passava de suposição, ela tinha de convir consigo mesma, ainda que toda loucura sempre tivesse raiz em uma suposição.

Quando chegou até a casa dele, estacionou e respirou fundo. Desligou o motor do carro como quem desliga o suor das mãos. Desceu e caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. “Bem coisa de homem”, pensou. Afinal, ele morava sozinho já havia dez anos e estava com trinta e poucos. “Mas trinta e poucos como eu”, concluiu. Só aí, fosse por vaidade ou medo, aquietou enfim a mente.

Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou alguns segundos e apertou pela segunda vez. Ninguém. Já notando a raiva sair dos gerânios que sua mente imaginava em um jardim familiar, colou o polegar na campainha como quem espreme uma garganta. E foi então que ouviu passos se dirigindo até a porta. Os passos aos poucos se aproximaram e a maçaneta girou.

- Sim? – disse um homem dos seus setenta anos, vestindo uma bermuda xadrez e uma camiseta de campanha de vereador.

- O senhor mora aqui? – perguntou ela, sentindo na laringe aquela raiva de gerânios se transformar em estranheza turista.

- Sim. – respondeu seco o homem com cara de quem recém acordou, os cabelos brancos espetados pela moldura do travesseiro e o rosto um tanto molhado pelo tapa da água fria.

Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Conferia com o número da casa dele. Há um ano ela freqüentava aquela casa final de semana sim e final de semana não. Às vezes até nos dias de semana freqüentava aquela casa, isso quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o único remédio para a tristeza era o sexo e a cerveja.

- A senhora deseja alguma coisa? – questionou o homem, coçando os olhos de sono com as costas da mão transparente e interrompendo tudo aquilo que girava ao redor dos cabelos dela.

- Não... – disse rouca. – Acho que me enganei de número...

Com um ar completamente diverso, caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. Já não queria o fim. Queria um começo e até visualizava um recomeço. Mas não sabia do quê.

Como poderia ele não estar mais na casa lilás 985? O que fez com que ele saísse de lá repentinamente? Puxou o celular da bolsa e procurou o número dele um tanto nervosa enquanto ouvia o homem fechar a porta uns metros atrás. Discou e o telefone estava desligado. Discou novamente e novamente o telefone estava desligado. Guardou o celular na bolsa e entrou no carro como quem entra em um lugar pela primeira vez, procurando amigos nas mesas de uma pista de dança.

Era manhã e domingo, ela sabia. A neblina por detrás dos morros era cinza como seu carro era cinza e o dia também era cinza. Mas por qual motivo ele não estava mais ali e seu celular estava desligado? Não sabia o que dizer ou sequer o que pensar. Toda a decisão que fizera com que ela pouco dormisse e mesmo assim cedo acordasse, havia se transformado em dúvida. E essa dúvida era tão sem nome quanto qualquer rua não batizada, quanto um começo ou um recomeço sem qualquer placa ou referencial.

Mas foi ao chegar a sua casa, que algo lhe passou pela cabeça. Talvez seus amores já tivessem deixado de florir há muito tempo, assim como mal floriu o seu gerânio de raiva na grama familiar da sua imaginação. Talvez nem árvores um dia houveram e tudo não passasse de mera coincidência que brotara da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância.

Talvez tivesse demorado demais e tudo havia se tornado cinza e desarvorado.

O blefe do amor havia envelhecido e esse era o começo. Seu começo e sua verdade.