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Acordou desarvorada de amores.
Queria lembrar dos braços dele, mas não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos dele, mas também não conseguia. Lembrava apenas de um vulto estranho que quanto mais próximo, mais distante ficava.
Por isso que naquele dia, decidiu que tudo deveria acabar. Havia cansado de jogos que escondem cartas por debaixo das mangas.
Sempre fora às claras: se uma briga ir madrugada adentro com pratos voando pelas janelas, ótimo. Porém, se as coisas forem feitas assim como se faz em um escritório, tornando o amor tão corporativo quanto qualquer empresa, já não se reconhecia nisso e portanto tinha de pedir o fim. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo, pois o amor não tem um código e a paixão jamais foi fruto de qualquer jurisprudência.
Mas uma questão se impunha: como pedir o fim?
Simplesmente chegar pra ele e dizer “acabamos”? Inventar o argumento clássico de que precisava se encontrar consigo mesma, visto que estava passando por um momento de transição? Nada disso lhe parecia viável. Aliás, tudo isso tinha o mesmo cheiro dos argumentos dele: ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos postergados pelo trabalho, pelo horário e pela filha que morava em outra cidade. E isso não era mais com ela.
Quando deu a partida no carro, o dia ainda era cinza. Havia uma neblina estranha por detrás dos morros que circundavam a cidade e talvez aquilo quisesse lhe dizer algo, porque a neblina também era cinza. Contudo, ela sabia que as coisas não dizem nada além daquilo que dizemos das coisas. E entrar nesse jogo bobo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual sua vida estava sendo jogada por aquele vulto tão estranho que nem mais braços parecia ter. Então esqueceu ou ao menos tentou esquecer desses detalhes e simplesmente saiu pra rua, ignorando blefes e piscadelas que sua memória queria emergir.
Como manhã e domingo, certamente ele estaria em casa. Não se viam há duas semanas. Apenas o telefone os contatava. E estaria em casa, porque era bem provável que havia saído na noite anterior, que havia enchido a cara, que havia dado fiasco cantando no palco de qualquer pub e que provavelmente havia transado com outra mulher. Mas será que ele havia feito tudo isso ou tudo isso era tão infundado quanto dar qualquer significado pessoal para a neblina cinza detrás dos morros? Tudo não passava de suposição, ela tinha de convir consigo mesma, ainda que toda loucura sempre tivesse raiz em uma suposição.
Quando chegou até a casa dele, estacionou e respirou fundo. Desligou o motor do carro como quem desliga o suor das mãos. Desceu e caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. “Bem coisa de homem”, pensou. Afinal, ele morava sozinho já havia dez anos e estava com trinta e poucos. “Mas trinta e poucos como eu”, concluiu. Só aí, fosse por vaidade ou medo, aquietou enfim a mente.
Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou alguns segundos e apertou pela segunda vez. Ninguém. Já notando a raiva sair dos gerânios que sua mente imaginava em um jardim familiar, colou o polegar na campainha como quem espreme uma garganta. E foi então que ouviu passos se dirigindo até a porta. Os passos aos poucos se aproximaram e a maçaneta girou.
- Sim? – disse um homem dos seus setenta anos, vestindo uma bermuda xadrez e uma camiseta de campanha de vereador.
- O senhor mora aqui? – perguntou ela, sentindo na laringe aquela raiva de gerânios se transformar em estranheza turista.
- Sim. – respondeu seco o homem com cara de quem recém acordou, os cabelos brancos espetados pela moldura do travesseiro e o rosto um tanto molhado pelo tapa da água fria.
Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Conferia com o número da casa dele. Há um ano ela freqüentava aquela casa final de semana sim e final de semana não. Às vezes até nos dias de semana freqüentava aquela casa, isso quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o único remédio para a tristeza era o sexo e a cerveja.
- A senhora deseja alguma coisa? – questionou o homem, coçando os olhos de sono com as costas da mão transparente e interrompendo tudo aquilo que girava ao redor dos cabelos dela.
- Não... – disse rouca. – Acho que me enganei de número...
Com um ar completamente diverso, caminhou por aquela pequena calçada que separava o jardim de gramas e nada mais da própria porta da casa. Já não queria o fim. Queria um começo e até visualizava um recomeço. Mas não sabia do quê.
Como poderia ele não estar mais na casa lilás 985? O que fez com que ele saísse de lá repentinamente? Puxou o celular da bolsa e procurou o número dele um tanto nervosa enquanto ouvia o homem fechar a porta uns metros atrás. Discou e o telefone estava desligado. Discou novamente e novamente o telefone estava desligado. Guardou o celular na bolsa e entrou no carro como quem entra em um lugar pela primeira vez, procurando amigos nas mesas de uma pista de dança.
Era manhã e domingo, ela sabia. A neblina por detrás dos morros era cinza como seu carro era cinza e o dia também era cinza. Mas por qual motivo ele não estava mais ali e seu celular estava desligado? Não sabia o que dizer ou sequer o que pensar. Toda a decisão que fizera com que ela pouco dormisse e mesmo assim cedo acordasse, havia se transformado em dúvida. E essa dúvida era tão sem nome quanto qualquer rua não batizada, quanto um começo ou um recomeço sem qualquer placa ou referencial.
Mas foi ao chegar a sua casa, que algo lhe passou pela cabeça. Talvez seus amores já tivessem deixado de florir há muito tempo, assim como mal floriu o seu gerânio de raiva na grama familiar da sua imaginação. Talvez nem árvores um dia houveram e tudo não passasse de mera coincidência que brotara da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância.
Talvez tivesse demorado demais e tudo havia se tornado cinza e desarvorado.
O blefe do amor havia envelhecido e esse era o começo. Seu começo e sua verdade.
Não sei do meu amanhã. Sequer do meu hoje sei.
Sonho uma vida sem sonhos. Sonho uma vida de sonhos.
Por isso trago essa canção no rosto e essa melodia nos olhos. Por isso esse acorde é minha íris e esses metais são minhas mãos.
Se algo crescerá dessas partes, nada posso prever. Ao revés do amor que minto, não sou cristal cigano. No máximo sou vidro de café quebrado pelo chão da cozinha. Café este que, aliás, ao invés de pela manhã me acordar, me embutiu um sono do qual até agora não me desfiz, como mochila colada à coluna que sobe até o cerebelo.
E ainda que eu queira, a vida está longe de ser como um filme do Lynch.
Sei desses corredores. Sei dessas portas verdes e de tantas faces conhecidas em cada sala por abrir. Sei também desses estertores de verbos que pelos meus dedos escorrem – influência do Raduan que insiste em criar seus coelhos. Mas além de saber disso tudo, nada sei, nada sou além disso que sonho: uma vida sem sonhos – uma vida só sonhos, falando como pessoa e Pessoa.
Não é que eu queira ser um Breton do século XXI. Muito ao contrário dele, não tenho ares de médico e sequer um bisturi para cortar minhas idéias.
Quero, antes disso, que esse acordeon continue juntamente com esses metais e esses acordes de olhos, com esse Beirut que me traz tanto um ar de Kusturica quanto um ar de Jorodowsky, porém desprovido daquela crueldade de ferro quente que queima a película de ambos e as veias de quem os assiste.
E mesmo que tantos queiram, hoje vejo que não somos gado ou rebanho, ainda que o Zé Ramalho nos tenha dito isso a torto e a direito, ou que a voz do Nietzsche nos tenha sussurrado que um cubo só é um cubo porque ninguém soube sair de lá. Os continentes se desprendem, pode acreditar nisso – e me deparar com a Sbornia assim nas torres de Torres, não seria nenhum assombro.
Sonho com essa vida de sonhos, portanto, não como quem quer uma Hollywood, pois nunca me desejei uma calçada que não esteja para o rastro dos navios.
Sonho essa vida de sonhos, como sonha o malabarista de rua com o Cirque du Soleil, sabendo que apesar disso, estou anos-luz de distância desse mesmo malabarista que na minha frente encena com esses galões de trânsito – supernova que descamba em uma coesão do peito e provoca o próprio texto.
Se meu amanhã é incerto, essa incerteza não vem do futuro, mas sim do agora. Do futuro vem apenas o anseio, a síndrome dos barbitúricos que tantos divãs comportam.
Quanto a mim, renego esse analisar, já que sou muito egoísta para falar mais do que falo.
E eis a contradição: se digo da falta de ética desses umbigos/panelas, que por todas as cidades giram seus guetos sem samba, por que não me abro também aos ouvidos de um divã e me entupo de qualquer droga pra suportar o vazio?
Sei que a camada é fina e do sem-nome a hipotermia. Talvez por esse saber, quase profeta de mim, persista em me analisar, parodiando tudo que vejo e sinto na prolixidade de sempre, na angústia de cada nome inventado.
E assim meio capenga, gauche Drummond/Baudelaire, construo e fundamento minha própria ética de fortaleza na carência de tantos braços, amigos e amores, já que o diesel que vem das minhas veias só existe em outros corações.
Mas se meu agora é incerto, como poderei nomear o tempo dessas algas que se prendem à minha medula de sono e mala, neandertalesco das próprias necessidades, faroleiro de uma razão que inexiste distante da plena falta?
Não há janelas, meus amigos: só fendas, seja para nascer, chupar, espiar ou chover.
E essa é minha conclusão.
O certo, contudo, é que o relógio afundou e permaneceu somente o mar e o barco: três personagens distantes que nunca encontrarão margem, pois não existe nenhum farol além das tartamudices da Virginia Wolff e dos meus poemas sem graça.
O certo é que o tempo parou ou sequer um dia existiu.
E o completamente certo, é que seja eu um balzaquiano que nem trinta anos tem e por isso mesmo traz angústias que não suportou e talvez nem suportará.
Mas a única verdade mesmo, é que não me desfaço dos meus planos, quanto mais com estes meus vinte e poucos anos.
E essa minha vida de sonhos virá, pode crer, meu chará: só não esmaguei seu pescoço aquele dia no banheiro, porque me escorreu a mão assim como sabonete. E foi por isso que aquela noite você me pôs metano nos olhos, seu safado. Mas aqui está minha vingança: tapa de luva e verbo na sua face de nada. Portanto estamos quites, seja você o outro que em mim habita ou simplesmente o meu silêncio de depois. Mas sei que você não tem nada de bossanovesco, seu grunge chato.
E o Fábio Júnior, quem diria, já havia dito tudo isso.
Para uma Fortaleza.
Tua falta resseca a pele.
Tua falta recende vão.
Tua falta preenche falsa a tarde nublada e fria:
emerge e se sabe fogo, embaça o que acendeu,
forjando e limando solos de sopros que desfalecem.
Tua falta curva poentes e suja o que nunca foi:
deslinha tramas e redes, pescas fosforescentes
de seres que o enxofre cria no vapor do que destrói.
Tua falta é essa ilha, é meu farol e aceno,
vendo de longe a partida de amantes que não se sabem:
percorrem seus desencontros em cada esquina passada
que só a tua presença poderá me trazer presente,
no salto que enfim darei para no fundo encontrar
os corais que são teus cabelos presos por cada onda.
Provérbios dizem mais do que aparentam. Geralmente são parábolas curtas nascidas da sabedoria popular acerca de constatações lógicas e cotidianas. Por exemplo, falar que “santo de casa não faz milagre”, significa muito mais do que podemos imaginar.
É fato que a sociedade é dividida em “guetos”. Esses “guetos”, ao contrário do que possam pensar senhoras de boa índole, não se encontram apenas nas periferias. Uma das origens da palavra “gueto”, aliás, remete aos bairros nos quais os judeus italianos eram forçados a morar, sendo que por conta da imposição de um determinado regime, seu espaço territorial era aquele bairro e nenhum outro, muito embora este bairro tivesse ligações com outros bairros.
Entretanto, quando falo em “guetos” sociais, falo em facções da sociedade que, por conta de um acordo de favores, defende os interesses dos seus membros frente a quaisquer outros interesses. Essa defesa, porém, pode gerar injustiças quando é contemplada com algum poder, fazendo com que aqueles que pertencem ao “gueto”, tenham regalias que não são legadas àqueles que não pertencem ao “gueto”. Distante do termo “gueto”, poderíamos usar o termo “panelinha”, o qual até discrimina melhor o assunto. A “panelinha” detém estrutura idêntica ao “gueto”, e assim como acontece com o “gueto”, a “panelinha” pode ser contemplada com algum poder, fazendo com que aqueles que não pertencem à “panelinha” não tenham as regalias que os que pertencem à “panelinha” têm.
Acaso esses “guetos” ou “panelinhas” detenham algum poder, com certeza serão árbitros de algumas escolhas da sociedade. Mas se a estrutura tanto dos “guetos” quanto das “panelinhas” defende apenas seus membros, certo é que essas escolhas não irão seguir critérios de respeito àqueles que não pertencem aos “guetos” ou “panelinhas”, fazendo com que a seleção que provenha das escolhas seja completamente desprovida de crédito quanto a qualquer ética.
Em cidades de médio porte como Santo Ângelo, facilmente se nota essa realidade, já que essa mesma realidade se estende a toda e qualquer organização social. Na verdade, existe um quê de infantilidade cruel nos “guetos” ou “panelinhas”, pois se faço parte da “turminha”, posso brincar, considerando-se que se não faço parte da “turminha”, cantarei sozinho no quarto aquilo que ninguém ouve.
Quanto aos “guetos” ou “panelinhas”, temos de admitir que muitas vezes existem benefícios que provém da sua existência, visto que é fato que em dados momentos é necessário que alguém tome as rédeas da sociedade para que haja alguma organização. Mas quando essas rédeas tomadas pelos “guetos” ou “panelinhas”, especificamente com relação à seleção que provenha das escolhas feitas por elas, as quais detém o poder, falta com respeito àqueles que não fazem parte da “turminha”, temos de admitir que todo e qualquer padrão ético é abolido em função de uma estrutura social defensora dos seus próprios interesses.
Aliás, o provérbio “santo de casa não faz milagre”, talvez não se aplique apenas àqueles que pertencem aos “guetos” ou “panelinhas”. Quanto aos demais, assim como os judeus italianos, ficarão isolados em seus espaços territoriais, ainda que tenham certas ligações com outros territórios e mesmo com os “guetos” ou “panelinhas” sociais. O que acontecerá, então, será a formação de novos “guetos” ou “panelinhas” que competirão umas com as outras para deter o poder de escolha com relação a quaisquer seleções.
E o que isso indica? Indica o egoísmo e a falta de ética diária nas relações humanas, nas quais só respeito o outro se do outro me aproveito. Por isso é que uma sociedade estruturada em função de “guetos” ou “panelinhas”, viverá um eterno clima de Guerra Fria, realidade onde nenhuma bomba atômica explodirá, mas onde as intrigas e as informações falsas irão fluir por todos os lados.
Mas o pior é ainda assim pregarmos que temos de ajudar o próximo ou que somos melhores que fulano ou cicrano. O pior é o elogio seguido do riso que guarda nos caninos a vontade de morder. E qual conclusão tirar disso tudo? Os “guetos” ou “panelinhas” são conseqüências diretas da existência dos nossos umbigos, em torno dos quais, seja por sonho ou egoísmo, esquecemos de ver podridões para criar jardins nativos.
Não fossem os umbigos, Thomas Morus seria eterno.
Sou escravo desse outro que em mim habita. Se quero acordar ele dorme. Se quero almoçar ele me enche a barriga de vento.
Mas o pior não é isso. O pior é quando ele começa a me rodear e a me sussurrar que tudo está errado. Me acorda às quatro e meia da manhã e me diz, como quem tudo quer e promete, que algo de muito ruim aconteceu. Faz com que meus olhos ardam mas não pede desculpas. Faz com que minha cabeça lateje como se tivesse sido esfregada na pedra de uma praia.
Mesmo assim, nunca tentei me livrar desse outro que em mim habita. Não sou de guardar rancores.
Certa vez até consegui agarrar seu pescoço quando me assistia no escuro do banheiro. Consegui ao menos notar que ele realmente existe e está aqui, fazendo com que as veias do meu cérebro se dilatem e com que o sangue circule por essas rodovias roxas.
Mas eu queria não um outro de mim que me fizesse isso, e sim uma outra pessoa que me fizesse isso. De nada adianta o prazer não compartilhado. Não há repercussão em um velório sem espectadores. Dançar em um palco solitário é como desfazer nós que não podem ser desfeitos por marinheiros que sequer existiram. Imaginar aplausos de um público com máscaras tem cheiro de necrotério. E a dor solitária não faz sentido algum quando uma criança chora e é noite e não há ninguém no prédio ao lado.
Na verdade eu queria que esse outro que em mim habita se fizesse real. Mas real assim como que materializado de repente, como ocorre naqueles filmes do Fritz Lang que nem cheguei a assistir. Queria olhar seu rosto, tocar seus olhos, perceber que suas pálpebras são tão brancas quanto as minhas, pra deixar de sentir esse medo bobo, esse temor estranho de que algo está errado e de que algo de ruim aconteceu às quatro e meia da manhã depois que dormi no sofá ouvindo o Thom Yorke.
Seria culpa da Inglaterra? Seria culpa dos dias cinzas que ainda não vi? Seria culpa daquilo tudo que deixei de dizer ou fazer ou mesmo de uma noite que fez com que meu corpo quedasse diante da minha vontade? Seria culpa dessa geometria que construo sozinho em um deserto chileno? Simplesmente não sei dizer. Fico com a mudez do Mario Peixoto.
Apenas me sinto levado por um aqueduto romano. Arrastado pelo labirinto das águas, não existe diversão aqui. Existe apenas a necessidade de que o trajeto continue e de que a água chegue em quem tem que chegar. Se eu cair em algum desvão das pedras, talvez esse outro que em mim habita também caia comigo e enfim revele seu nome através de um arranhão na perna.
Mas não: acho que nunca saberei seu nome. Seria demais pedir um canto para o silêncio. Seria ousadia construir uma pirâmide com a terra de outro planeta e usar remos ao invés de mãos.
Por certo continuarei sentindo sua presença quando quero ficar acordado mas ele me faz dormir. Por certo, quando meu estômago se agita e a lua é alta, sentirei que ele é mais real do que eu imagino e que de biológico não tem nada, ainda que jamais possa vê-lo ou ouvi-lo distante da sua própria vontade.
Sim: pois esse outro que em mim habita tem vontade própria e me conduz como marionete dos seus apelos. De certo por não ter corpo, me tirou pra cão de chute, desses nos quais limpam a mão de graxa pra depois esmolar afagos. E por certo seja essa a razão dos meus olhos ardidos, como se um colírio de metano tivesse caído no centro da minha íris e do meu sorriso ventríloquo.
Mas nunca mais reclamarei da sua existência. Sei que sua existência é necessária assim como sei que meus ombros doem. Sei que o dia amanhecerá e talvez novas impressões surjam. Conheço algumas pessoas que podem me ajudar e elas não tem nada de invisíveis. Mas será que elas também não carregam esses outros consigo? Talvez sejamos multidões de nós próprios e não saibamos. Talvez células estejam para Universos assim como copos estão para garrafas, mesmo que toda comparação esbarre na sina inevitável de jamais ter um sentido fora do seu próprio paradoxo.
E admito minha escravidão confessando um amor pela vizinha que desconheço e mal vi. Olho para os meus grilhões como se fossem a pérola que nunca encontrarei. Tenho os olhos manchados de um rímel de hormônios que me faz pressão a cada instante de têmpora, ainda que cabeça, pernas e braços sejam completamente alheios a minha vontade.
Sou escravo do outro que em mim habita sim. E minha escravidão tem o gosto do orgulho desesperado. Tem o prazer dos olhos do orgasmo. E tem a tristeza do que nunca serei.
Ao menos sei que meu coração é ao quadrado e minha angústia será sempre mais céu do que mar, perdida no litoral de uma América Latina que imagino e só assim existe.
E isso é o máximo que posso fazer.
Admito o duplo de mim e me sei reflexo sem precisar de espelho. Daqueles que rondam a casa, só ouço o passo nas folhas. E a vigília é um vão pelo qual outros outros me espiam.
A amizade é feita de lâmpadas. Os amigos são um apartamento.
Aos dezesseis anos temos várias lâmpadas mas nenhum apartamento.
Aos trinta anos temos um apartamento mas poucas lâmpadas.
E o que dizer desses meus vinte e quatro anos? Acho que apenas posso dizer que semana passada três lâmpadas queimaram e não comprei lâmpadas novas até hoje.
Fico trocando de peça em peça a luz que preciso e pensando se um dia não ficarei no escuro.
Sei que o amor não basta. Amor é amor. Amizade é amizade.
Dizem que amizade é uma forma de amor. Mas não é.
Amizade é reconhecimento. Amor é puro desconhecido.
Amizade é admiração. Amor é querer ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Talvez por isso eu tenha medo de amar e também tenha medo das amizades. E talvez por isso também tenha tantos amigos e tenha um amor muito grande perto de mim, embora certas sombras façam danças de luzes quando fecho os olhos.
Sei que hoje, antes de dormir, irei ler um livro e pensar no meu amanhã preguiçoso com olhos felinos mas tristes.
E não quero demorar pra dormir.
Ao contrário, quero que a lâmpada, mesmo sem meus dedos no interruptor, aos poucos vá se apagando. Se ela queimar, será o reconhecimento do meu sono para que eu possa enfim conhecer o desconhecido que em mim sou.
Quero também fechar os olhos com a calma de uma página alemã manchada de chá e mar. E quero que tudo isso amanheça como se toda luz viesse apenas de uma estrela.
Quanto ao amor?
Talvez ele seja o dia. Ou noites iluminadas
Mas talvez o amor seja apenas um talvez. Viagem de mala sem dono. Explosão do que é um passado presente no futuro.
Por isso acho que a amizade é um diagnóstico.
Já o amor é um cristal cigano.
Não é o sol que levanta. São os sonhos que morrem. Por isso a Latino América é um coração de pedra. Mas sangra assim como olhos que acordam. Então toda cama se torna um altar. Do sexo ao sono, somos todo sacrifício. Resta saber do sonho de qual Deus paralítico.