quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ao futuro, pois, pertence a verdade.

Era preciso muita força para sair da caverna.

Aquele ambiente calmo e relativamente iluminado, aquela fogueira que fazia um ruído contínuo como uma melodia cujo autor era desconhecido, eram muito mais acalentadores que a claridade cega que vinha de fora.

Além do mais, sair implicaria em utilizar as pernas e mesmo em desprender as pernas daqueles grilhões de aço, o que consistiria em um esforço sobre-humano para um propósito desconhecido.

Afinal, qual seria a recompensa?

Se todos os dias alguém lhes empurrava alimento até o fundo da caverna e eles podiam continuar ali quietos ou conversando sobre qualquer coisa, valia arriscar uma saída assim sem qualquer projeto, assim sem qualquer futuro?

Por certo que a resposta dos mais antigos seria não – e talvez justamente por isso os seus esqueletos ainda se encontrassem por ali como uma lembrança da negação imperativa a uma pergunta tão descabida.

E era isso que os cinco pensavam enquanto a luz se fazia diminuta na entrada da caverna e eles jogavam mais gravetos na fogueira para ficarem despertos até a hora do sono chegar.

Costumavam acordar quando a entrada da caverna se iluminava calmamente, pois apesar de não terem qualquer relógio sabiam que aquela paulatina e contínua iluminação correspondia ao início de algo. Logo, costumeiramente tinham sono no momento em que essa mesma luz começava a cessar, perfazendo o movimento oposto àquele que traçava no início do dia.

Porém, naquela data alguém havia jogado uma pedra dentro da caverna, o que consistia em um acontecimento inusitado, pois nada do gênero jamais havia transcorrido por ali até então. Apesar das suas barbas serem longas e seus cabelos quase alcançarem a extremidade daquela rocha oca, em seus anos de estada e fogueira nenhum havia presenciado algo do tipo. E pelo que o mais velho deles lembrava ter ouvido do último ancião que morrera, nada de tal monta havia se passado mesmo.

Portanto, o fato de alguém ter jogado uma pedra dentro da caverna consistia em um acontecimento digno de análise, e muito embora a linguagem desses homens seja construída por meio de um alfabeto perdido no tempo, aqui se tentará a reprodução aproximada dos diálogos que porventura tiveram em todo o tempo que passaram a refletir sobre a pedra jogada dentro da caverna.

Entretanto, antes disso, são necessários alguns esclarecimentos, visto que sem os mesmos lugar algum poderá ser alcançado.

Primeiramente, é preciso dizer que para ter posse da história dos homens que viviam na caverna, sendo que tais eram no número de cinco, isto em um tempo remoto, quase próximo à aurora da humanidade, anos de pesquisa foram despendidos. Escavações e pesquisas incessantes nas mais renomadas bibliotecas do mundo foram feitas, o que ocorreu pelo fato de que até então tal história apenas passava de boca em boca como uma anedota e nada mais.

Contudo, quando determinado artefato foi descoberto em um deserto da América Latina cuja localização não pode ser revelada por motivos de segurança, a versão de que tal história não passava de uma anedota caiu por terra, e desde então este pesquisador que tenta romancear esta suposta anedota constrói invólucros de palavras ao redor da mesma, fazendo com que o lume às conseqüências de sua descoberta se torne mais e mais intenso.

Secundariamente, é imperativo reconhecer que nunca na história se ouviu falar em um imperativo negativo. Normalmente os imperativos são de natureza positiva, de sorte que os imperativos negativos jamais se encontram em qualquer domínio humano. Apesar de se reconhecer que no campo moral tais traços podem vir a ser evidenciados, é de se dizer que estas evidências caem por terra quando se admite que as mesmas dizem respeito a uma negação e mais nada, visto que tratar de um imperativo negativo consiste em tarefa muito diversa.

A natureza do imperativo negativo, portanto, deverá ser averiguada antes mesmo que o diálogo dos cinco homens na caverna seja revelado, uma vez que é do conhecimento da mesma que toda e qualquer palavra poderá ser traçada. Do contrário, o que se fará será mera órbita em derredor do senso comum daqueles que julgam saber de algo e por conta disso escrevem periódicos ou coisas que o valham.

Em terceiro lugar, é necessário saber quem é que irá contar a história. E os exercícios que foram feitos até agora e ainda serão feitos até que se obtenha o êxito almejado, consistem justamente na busca deste conhecimento. Se nem aquele que escreve – ou seja, este pesquisador – sabe quem é, como poderão aqueles que lêem saber algo da história que aquele que escreve quer contar? Apesar de se reconhecer que talvez algum fundamento possa ser alcançado com essa coisa de “escrever pra se conhecer”, admitamos que tal hipótese é por demais acanhada diante de objetivos tão grandiosos quanto estes que se afiguram.

Do contrário, nem seria necessária qualquer linha para enumerar os três propósitos essenciais desta importante página humana.

Assim, saber que anos de pesquisa foram despendidos nesta empreitada (mais precisamente vinte e quatro anos até o presente momento), saber que um imperativo negativo nunca houve na história humana nem antes e nem depois do acontecimento que se quer narrar, bem como saber que é necessário conhecer aquele que conta a história antes que a própria história seja contada, em que pese haver uma breve introdução no início deste relato, são eixos que irão guiar a reflexão que será feita a partir de agora.

Deixa-se claro, todavia, que todos os excertos até o momento jacentes por aqui tem relação direta com este feito, consistindo os mesmos em fases preparatórias ao terceiro e mais complexo eixo do objetivo central ao qual este pesquisador se dispõe.

E é por conta desta disposição e por conta da ocorrência de não ser possível escrever mais de três páginas seguidas sem o devido cansaço e sem o devido reconhecimento de que somente assim a história que se almeja e se conhece poderá ser verdadeiramente contada, que se encerra por aqui esta confessional página inicial, atentando, antes de mais, sem que o alcance do terceiro objetivo almejado para o tema proposto, nada relativo à história será revelado por motivos que ninguém hoje vivo poderia compreender.

Ao futuro, pois, pertence a verdade.

(P.S.1: A imagem correspondente à foto que encabeça estas palavras, foi encontrada em uma das paredes da caverna referida. Ainda que a localização nas enciclopédias conhecidas diga de determinado local, é de se revelar, mesmo que de modo temerário, que tal local é falso e que se alguém lembrar de Platão ao ler essas linhas, tudo não passa de mero equívoco historiográfico, já que o sábio filósofo grego ficou sabendo da mesma por via da oralidade e nada mais. No mais, desta forma, reporta-se inteiramente às linhas acima, visto que a verdade ao futuro pertence. E quanto ao artefato, convém uma reveladora realidade: trata-se da pedra jogada na caverna, de cujas dobras toda a palavra até então proferida tem tido origem. )

Só não esquece das exclamações...

Não era forte como o domo geodésico.
Nem pretendia tanto.
Entre escorrer dentre braços e permanecer com a sua estrutura, havia motivos suficientes para que sua liquidez falasse mais alto.
Porém como haverá volume se não há nenhuma resposta de quem ouve?
Seria pura questão de senso, de tato ou coisa que o valha. Logo, não tinha tanta certeza assim, pois caso carregasse consigo alguma certeza teria que ver alguma reação daqueles que ouvem a voz da sua liquidez.
Ou será que sua liquidez era desprovida de voz?
Provida de gaitas talvez, hein hein?!
Não, melhor não.
Melhor que encontrasse sem demora uma negação pra barrar o fluxo que se fazia. Melhor rejeitar uma idéia mal investida que prosseguir no depósito fino e conseqüente de tudo quanto lhe passasse pela cabeça.
Portanto, avante com as ciganices!
Avante com as rodas, com as violas, com as saias!
Se houver uma órbita verde, verde, vermelha, azul e amarela vestindo aquela morena linda e gostosa, as coisas estarão certas assim como tudo sempre esteve certo na cabeça de Newton – mesmo que Newton, há de se admitir, não desconfiasse que o tempo fosse o que Einsten disse que era.
Mas todos devem ser perdoados por ilusões de eternidade.
Todos devem ser perdoados pelo simples éter, seja ingerido ou inalado, vez que é nele que se movem os astros.
Convém não condenar quem dizia o que dizia tão-somente para provar aquilo no que acreditava, ainda que essa prova tenha a ver com israelenses na Faixa de Gaza ou atenuantes do gênero.
Invadir, afinal, qualquer um invade quando deflagra um xaveco no ouvido daquela moça do canto:
- Você é linda, sabia?
- (Ela não responde e apenas ri. Mas quem disse que risos não são respostas?)
Tudo acaba em um motelzinho com nome de deusa grega.
O estranho é que Vênus pode ser Hades nessas alturas do campeonato, sendo que do contrário faria alguma diferença se atirar do vigésimo andar.
Mas amigo: há vigésimo andar nessa cidade? Há andar para o que você sente? Seu peito está dividido em patamares, em lugares, em altares?
Você tem que reconhecer que algum dia esteve e que mesmo hoje está em algum lugar. E por mais que você queira essa coisa de escorrer, por mais que você queira essa coisa de estar em todos os lugares sem estar em lugar algum, não é bem assim pra jogar no liquidificador o pouco que resta do seu coração. Com o que existe aí, por certo sairia uma batida com cor de beterraba.
E a pergunta está AQUI: quem tomaria?
Mesmo que você já tenha visto línguas lambuzadas de esperma e até de coisa bem mais densa naquelas porcarias que os amigos te enviaram na internet, você não vive em um mundo à parte dessa forma. Você vive em um mundo no qual os vizinhos são pessoas boas e trabalhadoras enquanto você dorme até uma tarde e levanta com a barba por fazer e o cabelo por cortar. Você levanta para ser desmatado, mas só o que desmata é sua utilidade em frente à televisão.
Se salvam só os clipes do Gogol Bordello que dizem muito mais de você do que você pensa.
Quando chegar a noite, portanto, quem sabe seja hora de você ligar pra alguém e parar com essas neuras. Sim: liga pra alguém, vai ao cinema, toma umas duas polares e deu, porque você há de concordar que nem sempre uma caixa é que alivia a consciência de algo.
Se você voltasse pra história de uma caixa, cairia novamente nessa de querer ser forte e ter fígado duplo.
E você tem que aceitar que só existe um fígado no seu horizonte de eventos, já que ainda não inventaram um mercado negro suficientemente acessível ao que você traz nos bolsos.
E falando nisso, corre: não atende o telefone, desliga o interfone, põe algodão nos ouvidos e diabo à quatro. Se puder enfiar a cara dentro da almofada e não tira mais ela dali.
- É ele! – falam elas por aí.
- É ele! – falam eles por aí.
E tudo se dilui e você está sabendo disso.
Essa sopa que resta não tem nada a ver com beterraba e muito menos com tomates.
Essa sopa que resta tem até um tom azulado se seus olhos forem bons observadores.
Essa sopa que resta é você e cabe a você tornar tal sopa o mais energética possível nem que tenha que jogar Red Bull na dita.
Cabe a você, camarada!
Alto lá!
Esqueça essa onda de querer entender o que está acontecendo. Se a wibe não vai até você, não quer dizer que você precisa ir até a wibe. Não adianta fazer escolhas se tudo isso é só idealização e nada mais, porque você sempre será você quer você queira ou não.
Desta maneira, ergue essa tenda de uma vez. Põe as varetas voltadas para a Estrela Polar e acende o fogo depressa porque está frio.
Não precisa lembrar do amigo solteirão que é o autor do hein hein.
Não precisa lembrar de nada se os Anassassi já disseram o que haveria sob o sol.
Antes disso, contudo, lê o Eclesiastes e me diz se não é verdade:
- Tudo vaidade jogada ao vento!
Você tem que admitir que definitivamente jamais será um domo geodésico e tampouco liquefazerá suas certezas.
Seu coração está em outro canal.
Se ele está fora do ar é porque você está dentro dele.
O contentamento que tudo isso traz é tremendo – basta você sentir.
Mas eu sei: te quebraram no meio, te cortaram os dedos, te amputaram os braços e você é apenas um coto, mesmo que isso tenha a ver com aquela música da Legião.
É difícil então e blá blá blá. Ainda mais quando faz sol e é sete da noite de janeiro.
- Tempo de esperança. – dirá a porra do psicólogo.
Ao escambal com as esperanças porque você lembra:
- A esperança é uma espera que cansa e dança ao redor de sua própria trança!
Por isso avante, avante.
Só não esquece das exclamações...
(P.S.1: Na imagem, Newton. E não sabe de quem é a tela: só sabe que é pra ser o Newton. Em Santo Ângelo não existem prédios de vinte andares. Quanto ao amigo, é o Ranieri. Do motelzinho pouco se sabe porque nem se sabe onde fica e é hora de ir tomar banho porque faz calor e nada mais.)
(P.S.2: “Folk you”, diz o final do clipe da Mallu Magalhães. Acha que é essa a intenção de tudo quanto anda falando. E pedir mais que intenção seria demais.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Foram só cortinas e tudo está nublado.

Queria erguer seu arsenal de derrotas como quem sai ileso de uma noite que chega.
Queria conjugar cada verbo e cada canal assim como quem conjuga passados em cima do espelho.
Se as coisas fossem ou não dar em alguma coisa, queria saber apenas da possibilidade, uma vez que o que importava era o fato de respirar e ao mesmo tempo estar em algum lugar.
De resto somente resto, não mais que um apanhado de lixo levado embora tal qual dissera a professora da primeira série:
- Se você não aprender a ler, ficará que nem eles.
- Mas eu aprendi a ler e acho que a senhora não definiu muito bem o que era lixo, professora. Até eu sou professor.
E você pede desculpas por ser rude. Afinal das contas, contar as cristas do sol nunca foi fácil para olhos que não sejam cegos.
Mesmo que fosse um século de padrões liquefeitos, mesmo que fosse uma semana como outra qualquer, importava a maneira como ergueria seu arsenal de derrotas porque sabia que somente após o seu advento poderia sair pra rua.
E este dia chegara.
Mas tem horas que é melhor não dizer nada – e tinha de reconhecer isso.
Tem horas que é melhor esquecer toda mágoa e tudo o que se traz na lembrança e que é realmente lembrança.
Tem horas em que erguer qualquer coisa não adianta, ainda mais quando essa coisa tem a ver com algo do Jeff Buclkey.
Morrer no Mississipi é antiquado e tal antiguidade se torna maior ainda quando você se dá conta de que o Mississipi fica nos Estados Unidos e que na sua cidade existe apenas um rio cujo nome nem vale a pena lembrar.
E há de se convir que se o Mississipi fica nos Estados Unidos e na sua cidade não existe sequer um Tejo pra dizer de algo, o que dirá você de alguma coisa?
As poças da rua que não existem porque não choveu?
O vento que não sopra ou as nuvens que não estão no céu pelo simples fato das cortinas estarem fechadas?
Não, nada disso dirá pois tudo isso é o único fim verdadeiro: o caso que não teve, o balaço que não tomou, a sede que não veio. Certo estava o Pessoa.
O que dirá de algo então é o confronto e mais especificamente o seu confronto. Por mais que olhar demais no espelho faça com que você se difira de você de um modo quase antônimo, é melhor ser diferente de si mesmo do que não saber o que no mundo diz de você.
Mas acaso o mundo diz alguma coisa?
Pedras cantam? Janelas dão tchau? Cores são mais que frutos da luz nas paredes da biblioteca?
Não, nada disso é nada.
Tudo é apenas representação. E essa de empilhar fracassos para encontrar alguma lição, é representação em cima de representação tentando tirar alguma lição daquilo que mal soube aplicar e quiçá viver. Língua dentro de língua, trave dentro de trave, bola dentro de bola: fale, escute, ande e solte aquilo que está em você e mesmo assim nada adiantará porque será puro teatro e clichê.
Ir para a Espanha? Correr touros, pintar Picassos?
Pra quê mais angústia?
Talvez seja melhor empilhar derrotas do que inventar vitórias. Mas entre uma e outra é que se dá a distribuição das medalhas, é que se dá a confecção dos troféus. E é isso que vale mesmo que você não seja pragmático. Mesmo que você não olhe pras mulheres no baile já pensando qual delas é boa de comer, é isso que vale.
Além do mais, que mal há em ser de carne?
Que mal existe em ser quem se é sem qualquer artefato representativo para além da própria mentira da fala?
Mais vale dissecar uma ambição antiga do que construir uma ambição nova, ainda que a própria fala negue essa autópsia e prove essa construção. Não passa no fim de pilhas: pilha de pilhas, entulho de gestos, despedidas de camas, alvoroço de queixos que jamais se verão boca.
Não passa no fim de palavras: adjetivos, substantivos, verbos e ligações quaisquer que no Limbo da página passam a ter algum sentido. Logo, basta o contentamento com o Limbo com L maiúsculo, porque é nele que os significados se projetam assim como projetamos o dia do nosso nascimento no céu pra saber como será o nosso dia de hoje ou de amanhã ou de ontem, igual aquele filme do Vittorio De Sica que você não assistiu.
Mas acaso nascemos? Acaso você nasceu?
Acaso você sabe o que é o neo-realismo italiano?
Continua sendo apenas um texto, uma fala. Continua sendo isso apenas uma interrogação tecida pela voz de Camus e Quintana, porque é certamente pelo tom das palavras e só pelo tom das palavras que Camus começa com a mesma ânsia de quês que Quintana.
Ocorrências. Cápsulas e capuses.
Parecências, pois se isto parece aquilo ou parece com você, isto ou aquilo já não são nada. Que dirá você que tem medo de tirar os chinelos dela de cima da cômoda:
- Vá saber o que ela dirá amanhã.
- E vá saber se não haverá um adeus de au revoir ou um au revoir de adeus.
Melhor a permanência do desconforto que a solidão do colírio: melhor os parêntesis da redução que a simples projeção do intuito.
Se há e parece é porque há e parece, já que lembrar daquela amiga loira que se matou, é só lembrar que você ficou sabendo disso nessa época do ano enquanto ouvia Wish You Were Here e estava em Porto Alegre.
É só lembrar da lembrança mas nunca da pessoa que a lembrança lembra.
É só lembrar de você.
Novamente parecências e ocorrências: cápsulas de capuses que você queria erguer pra sair ileso da noite que chega mas não conseguiu.
Foram só cortinas e tudo está nublado.
(P.S.1: A foto é da Sophia Loren no filme do Vittore De Sica chamado Ontem, Hoje e Amanhã. A amiga que se matou é a Keyla e o sobrenome dela é desconhecido. O Google não disse nada e é hora de dormir.)
(P.S.2: Razão: o Jeff Buckley vê o sol entrando na água e desaparecendo pouco a pouco.)

domingo, 4 de janeiro de 2009

É incrível como tudo se torna desinteressante aos domingos.

É incrível como tudo se torna desinteressante aos domingos.

Ainda que haja carne assada e maionese, o desinteresse é mais do que infeccioso e logo nos dá uma febre tremenda.

Nesta febre não teremos quaisquer alucinações dignas de registro.

Ao contrário, no máximo lembraremos que na noite passada dormimos com a porta do quarto aberta e a televisão ligada fazendo reflexo na sacada.

Lembraremos também talvez que sonhamos com algo relacionado ao Nosferatu do F.W. Murnau, mas o fato é que não saberemos o quê sonhamos.

Algo como lembrança ou reflexo de uma falta inconsciente que nem lembrança pode ser, quem sabe apontando para um desejo de completude ou algo do gênero?

Não: seria querer demais e perverter a própria sensação um açoite por tanta lógica.

Melhor ficar com o incrível desinteresse dos domingos e pensar na maionese e na carne assada que hoje não existem por aqui visto que recém acordei.

Mas se acordasse antes, haveriam?

Dada a minha pusilanimidade nos feitios culinários, sejam eles do porte que forem para além do macarrão instantâneo, apenas haveriam caso me direcionasse ao boteco da esquina de duas quadras daqui e efetuasse as dignas compras respeitosas a um domingo que se quer gaúcho.

Voltaria para casa, abriria uma coca-cola, engoliria nada resignado e nada arrependido os frutos do boteco e depois assistiria o Programa do Didi na televisão, o qual, de uma maneira espelhada, remeteria ao próprio Nosferatu do F.W. Murnau, o qual está em um dos arquivos do meu computador graças à abençoada internet e seus cinéfilos anônimos.

Entretanto, qual o motivo de eu ainda não ter assistido tal clássico?

Buscar motivos dentre as remelas dessas treze horas seria inútil e totalmente desinteressante assim como esse domingo que pra mim começa sem nenhuma promessa.

Mas pelo menos houve essa rima involuntária, o que já é alguma coisa ainda que seja sombra – sombra engraçadinha e nada aproveitável, mas ainda assim sombra.

(P.S.1: E por falar em sombra, olha lá em cima a sombra do Nosferatu do F.W. Murnau.)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Hoje é um dia bom pra comer Fandangos assistindo a Sessão da Tarde.

(a)
(b)
Hoje é um dia bom pra comer Fandangos assistindo a Sessão da Tarde. Mas como não ando mais suportando filmes ao estilo Sessão da Tarde há um bom tempo, fico apenas com o Fandangos.

Mas tem Fandangos em casa? Vou procurar e não acho.

E ainda por cima tenho preguiça de andar até a padaria a meia-quadra daqui.

Logo, o que fazer?

Eis o meu dilema nesta sexta-feira, dia dois de janeiro do ano de 2009, de férias neste apartamento.

Concordo que não seja um dilema digno de leitura. E se formos pensar bem, poucos dilemas são dignos de leitura. Acho que os mais profundos ficam nos dilemas fictícios ao invés de nos reais, isto porque tudo que é ficção nos toca mais do que a realidade. Acho que é mais fácil acreditar na realidade da ficção do que na realidade do real e não consigo entender como tem gente que prefere uma biografia a um romance. Tudo que é inventado me soa mais real do que tudo que realmente aconteceu. As razões disso devem reportar às origens do que eu sou.

Mas entre descobrir tais razões e continuar a falar do Fandangos e da Sessão da Tarde, fico com a segunda opção.

Porém, onde chegarei de tal modo? Eis outro dilema do qual prefiro nem enfileirar frases pelo simples fato de que tal tarefa seria mais do que inútil: seria imprestável.

Aliás, alguém já parou pra pensar que existe uma grande diferença entre “ser inútil” e “ser imprestável”?

Pelo menos pra mim existe, isto tanto na classificação humana quanto na classificação textual, como restará claro ao final deste, começando pela classificação humana que a seguir se dará.

Pois bem.
O “ser inútil” é aquele que nunca prestou pra nada. Nasceu com o rabo virado pra lua mas não soube aproveitar o luar. Quando existe alguma mulher olhando pra ele, o dito simplesmente não percebe pelo fato de ser inútil. Aos oito anos sabia ler P-A-L-A-V-R-A de trás pra frente mas desaprendeu isso a partir do momento em que ganhou seu Super Nintendo e ficou viciado em Mario Word.

Esse é o “ser inútil”.

Já o “ser imprestável” é diferente. Se o “ser inútil” nunca prestou pra nada, o “ser imprestável” já prestou pra alguma coisa mas hoje não presta mais. Ele é mais ou menos como o salário do sujeito logo quando este sujeito arranja um emprego bom. De primeira, o salário dá e sobra no final do mês. Mas pouco tempo depois sobra mês no final do salário e é aí que começam os problemas.

O “ser imprestável” normalmente abrange grande parte da população, em que pese nos dias atuais o “ser inútil” também ocupar um lugar de destaque, o que ocorre muito por conta do fato de que todas as casas tem antenas parabólicas e afins.

Pode ocorrer que um “ser inútil” se transforme em um “ser imprestável”, o que já corresponderia a uma evolução em sua graduação no mundo, muito embora um “ser imprestável”, pelo mero fato de “já ter prestado para alguma coisa”, jamais poder vir-a-ser um “ser inútil”.

Moralizando a coisa, podemos facilmente chegar a conclusão de que mais vale ser um “ser inútil” do que um “ser imprestável”.

E por quê?

As respostas são simples, e mesmo que tais não restem esgotadas por este meu curto e grosso arrazoado, vamos a algumas.

Primeiramente, porque é decepcionante prestar para alguma coisa algum dia e depois não prestar mais pra nada. Que o digam os psicanalistas e psiquiatras que receitam anti-depressivos aos quilos para milhares de cidadãos de bem deste planeta afora. Camarada que um dia estava numa posição e por algumas burradas que fez na vida de repente cai não pode ser feliz jamé. É possível que em algumas dúzias de anos consiga suportar a sua condição. Porém o fato é que este "suportar" será mero suporte para a sua imprestabilidade, de modo que esta, como uma cruz que tenha se pregado às costas do “ser imprestável”, jamais o abandonará. É algo como o que ocorre depois que o sujeito se casa – ou seja: nunca mais voltará a ser solteiro, o que até mesmo diz do fato da sua imprestabilidade para a solteirice.

Secundariamente, várias outras respostas poderiam ser obtidas por mera derivação das já expostas. Contudo, acredito que as observações apontadas dão conta do objetivo desta salutar reflexão sobre as diferenças entre o “ser inútil” e o “ser imprestável”, lembrando sempre que se pudéssemos acaso escolher entre nascer predestinados a inutilidade ou a imprestabilidade, certamente ficaríamos com a primeira hipótese pelo simples fato de a partir de então não termos de nos preocupar com mais nada – afinal, somos inúteis e ponto final.

Trazendo tais traços reflexivos para o campo semântico deste tenra reflexão sextutina (acabei de inventar esse neologismo, paciência), concluo que a mesma não se enquadra tanto na categoria da inutilidade quanto na categoria da imprestabilidade do ponto de vista textual, uma vez que o ponto de vista humano já foi desfraldado.

E por quê?

Perscrutemos tal realidade.

Fato é que eu poderia estar trabalhando. Mas fato é que eu não posso trabalhar dia dois de janeiro, uma vez que neste ano de 2009 tal dia caiu em uma sexta-feira, a qual, por óbvio, encontra-se entre o dia primeiro de janeiro e o dia três de janeiro, de modo que a mesma é considerada feriado por mero decreto de mim-pra-mim avalizado pelo superego freudiano comigo por não ter estudado em uma escola construtivista.

Fato também é que tal reflexão sextutina até que tem algum fundamento. Caso não o tivesse, não falaria de Fandangos e de Sessão da Tarde, parâmetros essenciais a qualquer pessoa em sã consciência que, como eu, tenha vinte e poucos anos.

Portanto, não sendo minha sexta-feira inútil e muito menos imprestável, já que rendeu estas palavras que por ora despontam sob o risco de derivarem em mais e mais palavras nas horas que se seguirão, concluo que já que tenho preguiça de andar até a padaria que fica a meia-quadra daqui pra comprar Fandangos e não tenho paciência para assistir a Sessão da Tarde, melhor mesmo ficar no computador escutando alguns sucessos dos anos oitenta.

Mas pra isso eu tenho paciência?

Ritchie, Menudos, RPM e Polegar – só pra ficar nos nacionais?

Não, infelizmente não: meu saco não é tão capacitado assim.

Por conta disso, aborto este pensar por cá, fazendo votos de que a próxima postagem em tal espaço supra o vazio trazido pelas palavras que agora por alguém são lidas – isto no caso de alguém ter tido paciência para chegar até aqui.

E quanto às fotos deste tratado, as mesmas hoje não constituem um post scriptum, mas sim estão no corpo do texto:

(a) Já que se falou em Sessão da Tarde, As Minas do Rei Salomão protagonizado pelo Richard Chamberlain e pela Sharon Stone em início de carreira é o meu favorito, muito embora admire muito o Crocodilo Dandi (é assim que se escreve?).

(b) E quanto ao Fandangos, o de presunto é o melhor.
Não tem erro.

Era impossível esquecer o cheiro da terra.

Era impossível esquecer o cheiro da terra.

Quando chovia, aquele cheiro subia até suas narinas como se fosse uma respiração das coisas que da terra cresciam, fossem elas vivas ou não.

E era daquilo que lembrava enquanto olhava a noite tranqüila que passava diante da sacada.

Recém havia chovido e algumas gotas se desgrudavam das paredes. A luz dos postes da rua transformava cada uma em uma pequena lâmpada incapaz de ser para além do mero reflexo que trazia em si.

A fragilidade das coisas se desprendia da própria essência que nascia das coisas. Fossem elas dependentes ou não, o fato de recém haver chovido e estarem aquelas gotas a se desprender das paredes, fazia com que tudo se tornasse aquoso como uma nuvem prestes a desabar.

O silêncio também era silêncio em demasia e até era estranho perceber o quanto ele era dominante, pois apesar de ser véspera de feriado, não se ouviam carros rasgando pneus na avenida acima e nem músicas repetitivas a ecoar pelas ruas em frente ao prédio no qual morava. Havia apenas o som do ventilador girando de um lado para o outro na biblioteca e o som das gotas se desprendendo das paredes da sacada em frente da qual aquela madrugada transcorria.

Se parasse um pouco mais, talvez pudesse ouvir a sua respiração. Mas entre ouvir a sua respiração e ouvir as batidas do seu coração, tinha mais tentação pela segunda alternativa, mesmo sabendo que essa era tão impossível quando olhar para trás e ver a cena que havia visto alguns segundos antes como em um instantâneo imóvel no tempo e no espaço.

Por isso decidiu por não tomar decisão alguma e apenas lembrar o cheiro de uma outra terra que lhe chegava pelo cheiro daquela terra, ainda que a primeira fosse algo mais que uma lembrança ou uma fantasia.

Mas fosse lembrança ou fantasia, o fato é que a realidade daquele agora lhe remetia a realidade de um outro agora que se desenhava aos poucos em sua mente. A silhueta da casa de madeira se apresentava emoldurada pelas árvores que haviam no seu pátio dianteiro, como que em uma tensão prenhe de possibilidades por ter sido erguida pelas mãos de um homem.

Esse homem, não por acaso, era um antepassado seu – antepassado esse que vivera há não mais que três gerações mas que fora capaz de erguer uma casa que mesmo na realidade que ele vivia agora, setenta anos depois, ainda se sustentava, o que talvez denotasse algum senso do imponderável ou do eterno que passara pelas mãos daquele seu antepassado.

Ele, contudo, sentindo o cheiro da terra de um antes através do cheiro da terra de um agora, sabia que nada daquilo poderia fazer. Sabia que morava em um apartamento alugado e que no máximo contrataria algum engenheiro, algum arquiteto e um grupo de pedreiros, para erguer uma casa qualquer dali alguns anos. Porém fazer com que uma casa nascesse do seu próprio talhe na madeira bruta, era algo do que ele se sabia incapaz, muito embora tivesse consciência de que tudo era capaz de aprender.

Mas se tudo era capaz de aprender, este tudo se direcionava a alguns setores da sua vida e de modo algum a todos. Do contrário, nada saberia e seria como aqueles sujeito do conto do Borges que pelo fato de muito lembrar acaba esquecendo daquilo que vive. Pensar na limitação das suas aspirações e mesmo das suas capacidades lhe trazia algum melancólico conforto, apesar desse conforto, no fim das contas, ser mais resignação que conforto.

E havia motivo para resignação? Por certo que havia.

Estar às quatro da manhã observando a chuva a se desprender em gotas das paredes da sacada era motivo bastante para várias resignações. A apatia da sua cabeça escorada na janela também era de algum modo uma resignação, pois entre cruzar os braços e encarar com certa altivez a noite que se diluía para dar espaço para a manhã, preferia escorar sua cabeça na janela e apenas sentir com despreocupação mas nostalgia aquele cheiro que lhe chegava da terra.

E mesmo que soubesse que a casa de madeira da qual lembrava era mais fantasia que lembrança, pois todos acabam inventando uma infância para si com a finalidade de encontrar uma justificativa para o seu presente, era bom lembrar que aquelas árvores e mesmo aquela casa ainda existiam para ter a certeza de que um dia voltaria lá.

Naquele momento, contudo, a viagem se dava restrita às fronteiras da memória e da imaginação, e quanto mais sentia o cheiro de terra lhe inundar mais lembrava da própria natureza daquela casa da sua infância. Se passasse estação por estação, inverno por outono e verão por primavera, poderia encontrar também uma coloração diferenciada da madeira em cada uma delas, desvelando-se a casa adaptável ao mundo assim como o são as espécies com o decorrer dos milênios.

E sabia disso quando via o seu antepassado de setenta anos atrás apagar uma vela grossa no parapeito das gradezinhas da varanda para logo fechar a porta e dormir. No outro dia levantaria um pouco antes do sol nascer e repetiria os atos que havia circunscrito no dia anterior, ainda que inexistisse qualquer motivo que desse ensejo a uma lógica ou uma linha para aquele cenário pelo qual ele vivia.

Este, ao contrário, era moldado pela casa de madeira, pelas árvores que haviam no pátio dianteiro da casa de madeira e pelas plantações de fumo que há uns duzentos metros dali começavam para se estender por cinco acres de terra. O fumo seria trabalhado na época certa e enviado para as fábricas distantes centenas de quilômetros dali também na época certa, de maneira que quando chegasse aos pulmões dos consumidores estivesse pleno de prazer e sabor, contrariamente ao que significava enquanto existia apenas enquanto planta daqueles cinco acres de chão.

Quem sabe por conta disso andou até a mesa de centro, apanhou um cigarro e acendeu o mesmo com languidez, deixando que a fumaça lhe enchesse idêntica às lembranças e fantasias que lhe preenchiam justamente no momento em que recomeçara levemente a chover.

O ventilador ainda girava solitário na biblioteca quando o telefone tocou. Ao olhar no visor do celular o número que lhe chamava, não identificou o mesmo pelo fato de aparecer somente a inscrição “número confidencial”. Por conta dessa confidencialidade certamente nascida da intenção de algum amigo notívago, não atendeu a chamada e retornou à janela da sacada, que agora era acariciada por um vento fresco e líquido na mansidão da madrugada.

Era possível que o início do ano fosse o fator deflagrador daquele vazio. Até mesmo sua memória recente se mostrava vazia, desenhando a cor de três dias atrás com uma opacidade que a lembrança era incapaz de penetrar. Da casa do seu antepassado, contudo, podia lembrar e relembrar continuamente, fazendo com que a imagem da mesma se desvelasse em fluxos e refluxos de inconsciência que deslizavam pela sua mente.

Fosse isso motivo de estardalhaço emocional, já teria se jogado do terceiro andar. Afinal, poderia bem representar uma tragédia o fato de não dar valor memorial àquilo que vivera há pouco mais de setenta e duas horas. Mas se aquilo que vivera fosse importante, certamente que se imprimiria com maior força em sua mente, de sorte que a casa de setenta anos atrás perseguida pelas plantações de fumo tinha maior significado que seu recente passado.

O que fizera neste recente passado? Lembrava que reclamara muito e que brigara muito, mas da natureza das reclamações e das brigas de forma alguma lembrava. Estas permaneciam apenas como conceitos em sua cabeça. Estes conceitos, ao invés de serem preenchidos por aspirações de futuro, eram conectados àquilo que ele era por meio de ilusões de passado, apesar de saber que era plausível acreditar que houvesse realmente existido um antepassado seu que plantasse fumo em algum interior perto dali.

Ele, contudo, lembrando de conceitos idealizava uma infância a partir da própria noção que tinha de infância, de modo que tudo aquilo que lhe acorria àquela hora da madrugada era fruto de uma divagação abstrata concretizada com imagens pouco confiáveis. Essa confiabilidade talvez existisse se estivesse lembrando de algo que realmente houvesse ocorrido. Mas qual seria a verdade disso? Certamente não mudaria muita coisa e a verdade residiria tão-somente no plano do passado para se fazer presente no seu agora por conta do cheiro da terra.
Tudo não passava de narrativa.

E quando chovia, aquele cheiro subia até suas narinas como se fosse uma respiração das coisas que da terra cresciam, fossem elas vivas ou não.

Mas era apenas abstração e devaneio limitado a alguns símbolos ocos. Sabendo disso foi dormir tranqüilo pelas invenções que a madrugada lhe injetara e que os sonhos por certo expandiriam no conforto e na resignação das suas linhas imaginativas pelo cansaço.

“Cansaço”, disse ao espelho quando foi lavar o rosto, “tudo se resume a um intenso cansaço de tudo com tudo”.

Quando acordou o dia estava branco porque ainda iria chover mais. Ao menos foi essa a conclusão a qual chegou. Se ela era fundada em algum passado, poderia ser mesmo fidedigna enquanto previsão. Mas o fato é que ela era restrita ao seu presente, ao seu ar de sono pela manhã, o que lhe perpassava o senso com uma mera intenção de futuro que poderia ou não se realizar.

“O inverno tem que chegar logo”, dissera-lhe uma pessoa no dia anterior.

Isso bastava para continuar a viver e sentir que a hora posterior poderia ser melhor que a anterior e assim indefinidamente.

(P.S.1: Quanto à fotografia, é uma réplica da casa onde Henry David Thoreau viveu entre 1845 e 1847 às margens do Lago Walden. Já a estátua, é uma réplica do próprio Henry David Thoreau. Ao falar "réplica" me referindo ao Thoreau, porém, me sinto incomodado. Acho que é natural, pois entre representar a si próprio e ser representado pelos outros, por certo que é mais segura a primeira observação. E creio que é por conta dela que venho escrevendo tanto nos últimos dias.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Dia primeiro de janeiro: um sentimento de renovação deveria percorrer meu corpo.

Dia primeiro de janeiro: um sentimento de renovação deveria percorrer meu corpo. Entretanto o que sinto é apenas o vento de uma quinta-feira que prenuncia chuva, a qual, esta sim, traria alguma real renovação para esta terra que habito.

No mais, creio que tudo sejam apenas símbolos: calendários que caem, ponteiros que giram, champagnes que estouram, fogos que explodem e o escambal. Problema é conviver com esses símbolos sabendo que todos eles não tem nada a ver com você e mesmo assim irão despontar na sua frente quer você queira ou não.

Mas acaso não é sempre assim?

O fato é que eu poderia e até deveria discorrer sobre isso. Porém cairia em uma digressão acerca da liberdade humana frente às condições inevitáveis da própria existência – e confesso que não estou com a mínima vontade de fazer isso.

Logo, mudo de rumo.

O que falar então?

Vamos às descrições mesmo que essas nem sempre sejam frutíferas.
Minha caneca preta de café está cheia. O ventilador ventila meus pés assim como o vento que prenuncia chuva entra pela janela e faz uma folha de papel voar em cima da mesa. Isso até me lembra uma cena de algum filme que vi umas três vezes no cinema, mas também não quero falar sobre isso hoje.

E por que esse incômodo estagnado que me faz morder os lábios?

E por que esse suor que estanca os poros em um grude intermitente que encharca a camiseta pólo que ganhei da minha sogra?

Tudo tem a ver com tudo ao mesmo tempo em que eu não tenho nada com isso, o que certamente já me leva ao Albert Camus e seu O Estrangeiro, sabendo, contudo, que qualquer reflexão acerca deste meu "estrangeirismo” no mundo redundaria também nessa dissociação inevitável entre as coisas que despontam na minha frente e eu defronte as coisas que despontam na minha frente.

E por quê? Porque é essa a condição. Porque é essa a carga e ponto final.

Mas é dia primeiro de janeiro e a ONU diz que é Dia Internacional da Paz. Porém há paz afora esse vento que anuncia chuva e por conseqüência real renovação?

Andam dizendo cá por esses lados do Rio Grande do Sul que a estiagem será extensa esse ano.

Qual oportunidade que terei então no decorrer desse mês de sentir novamente esse vento?

Isso sim é dar significado ao ano que inicia.

Isso sim é saber que algo está para mudar.

No mais são símbolos e redes de símbolos que contaminam toda percepção que se queira pura. (E sim: por mais que eu admire Kant e saiba que ele era genial, “pureza” não rima com “certeza” caso você se coloque no lugar onde você está – ou seja: “humano, ridículo e limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal”, como disse o Raul.)

Enfim, dia primeiro de janeiro de 2009 e tudo parece igual ao dia trinta e um de dezembro de 2008. Mas não fiz nenhuma promessa para esse ano apesar de saber que tenho muitos compromissos esse ano, o que talvez já diga muito daquilo que viverei no decorrer do mesmo.

Acho que aliando essa antevisão dos meses que se seguirão a esse vento que prenuncia chuva, tenho um certo sentimento de renovação que me percorre o corpo, ao contrário do que falei inicialmente (o qual, não fosse o calor, me traria algo mais que tranquilidade).

O problema é que não me sinto aliado a ele.

E é isso.

(P.S.1: A tela de hoje é do Andy Warhol. Essa repetição infinita de formas que retiram a própria identidade da forma que a face anuncia é algo que diz muito do que dizemos da passagem de um ano para outro. E meu diagnóstico não é pessimista, pois prefiro pensar junto com o Montaigne que “pensar é aprender a morrer”, o que já é plenamente satisfatório. E convenhamos que isso de "ser satisfatório" já é muito.)