Chegou o dia.
Novo blog no ar.
Nome de batismo: NÃO É CÉU.
Endereço: http://www.naoeceu.blogspot.com/.
O INSUFILME permanecerá no ar. Mas sem promessa de novas postagens.
Agradeço a todos que me acompanharam até então.
sábado, 18 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
DEMORA.
Sim. Não lancei o novo blog ainda.
Tenho uma penca de textos prontos. Mas nada dele aparecer.
A razão é simples: não sei como batizar o espaço.
Mas espero que isso logo se resolva.
Espero, mas também não prometo nada.
Porém, que o tal coirmão surgirá, isso garanto.
Quando é que não sei.
Tenho uma penca de textos prontos. Mas nada dele aparecer.
A razão é simples: não sei como batizar o espaço.
Mas espero que isso logo se resolva.
Espero, mas também não prometo nada.
Porém, que o tal coirmão surgirá, isso garanto.
Quando é que não sei.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
NOVIDADES.
sábado, 24 de abril de 2010
ESQUECIMENTO DE CHUVAS.
As desculpas esvaeceram assim que olhou o oceano e percebeu em todos os faróis abajures. As coisas tomavam um alcance diverso, como sonhos que se materializam em água descendo pela corrente com as ondas que as algas traçam nas pedras. Pressentiu a voz do filho subindo a escada. Seus passos eram o silêncio cerzindo fissuras vermelhas.Cada abraço tomava o rumo dos seus propósitos. As ruas, os parques, os lagos que freqüentava surgiam a todo instante sob seus pés, pairando indecisos diante da consciência espiral dos pensamentos sepultada por símbolos de razão.
Sufocar aquele feixe era loucura.
Era hora de aceitar, assinar palavras com a letra miúda que desacreditava, endossando o engano com a tinta que emergia. Deixar de lado essa decisão não fazia sentido algum. Podia sentir a pele e ouvir sua respiração pausada dentre casulos de sonho maculando seu dorso tingido. A maquiagem dos lábios, das sobrancelhas, os poros de cada milímetro da face bastavam para convencer de que a vida, culpada pela calma e pelo fracasso, encontrava-se naquela sensação, sorvendo o desespero amanhecido do cinzeiro transbordado.
Os espelhos finalmente perderam seu fundo raso. Podia sentir o toque brando da inocência envolvida pelo líquido que lhe enchia a boca. Tudo aquilo não apenas orbitava seus cabelos, mas dava ao futuro a impressão plena de um campo desconhecido, repleto de manchas lilases: gramado que cegava e duplicava sua extensão no momento em que era fitado. As torres eram erguidas pelo rubor violeta das veias, contornadas por algum circuito de folhas e outonos até então lapidares, emudecidos por epitáfios de uma língua amordaçada.
Precisaria filmar, registrar aquilo para que outros pudessem sentir o que lhe fez escorrer abaixo do pensamento. Mas era algo demasiado íntimo para ser compartilhado, resignando-se ao consolo da transformação parcelada pela memória.
Não interessava o crédito que lhe concederiam. Não importavam as taças que ergueria, os corpos que beijaria ou o que suas mãos tocariam com aquela descoberta. O mergulho valia mais, bastando o salto completo para que os olhos mudassem, verde ao azul, cindindo espelhos com sua luz perolada.
Sabia que o salão se estendia além da vista e que o vinho descia pesado até o estômago para que a magnésia tivesse motivos. Mas a doença nos lábios continuava sendo a ressaca de uma exceção, dos risos na madrugada de domingo enquanto decidia aquilo que almoçaria.
Não havia beleza na privação, não havia vitalidade na perda e nas desculpas. O que havia era o resto, o refugo, o refluxo do lixo do fracasso – andar pelas calçadas querendo ruas, desejando rodas por cima dos ossos: vidas ao caos, vidas ao limbo de cada manhã e relógio, tudo consumindo o vômito preso nas frestas do corpo, decidido a tornar-se sangue quando engolia o gosto da derrota.
Quando o chamassem para alguma festa, diria que preferia dormir. Diria que o dia afetava sua pele fazendo surgir espinhas pelos cílios. Fecharia a porta a quem pedia sua presença pela mera formalidade de estar. A verdade só existia no abandono, na flor da janela mais alta morrendo em esquecimento de chuvas.
Esse cheiro de profundeza agora não mais lhe mataria. Essa placa de aço que construíra, permaneceria intacta como o ventre da mãe, como o irmão que não nasceu, como a interrupção dos dentes no suco da fruta. Esqueceria da imagem que um dia fez de si. Sabia que a espiral se alongava pelo ralo.
Em porções sem forma, as folhagens perdiam cor. Resumiam-se a exercício esquecido, relampejando as paredes da sala. O retrato ao lado, as torneiras negando o petróleo e suas mãos trêmulas de nicotina disfarçavam a solidão imensa do oceano violáceo, invocando razões para a desrazão na plenitude do que podia imaginar e lembrar.
Mas não adiantava falar. Tudo que saia de sua garganta era mera formalidade para ganhar a vida. Ninguém estava interessado.
O que havia eram olhares vidrados em cabeçalhos e rodapés repletos de nomes mofados, suando anfetamina na saliva de alguma teoria.
Tudo denunciava a verdade paliativa de uma região natimorta, estirada inconsciente na cama de um bordel para que a fila de clientes aumentasse em sua mortalha azulada. A revolta jamais ocorreria fora das palavras e não passava de um engano da idéia, de uma lógica furtada de humildade, imersa no barro que cruza por baixo das pontes.
E mesmo assim continuaria.
Respirou um gole de café e seguiu o curso dos riscos no quadro, da sistematização cruel e fria de conceitos que não eram seus. Quando a hora chegou, foi embora pela mesma rua. Tinha vergonha. Estava condenado a viver consigo naquele lugar.
Restava contentar-se com obrigações e com a permanência da ignorância feliz em cada rosto bem arrumado. Talvez mulheres fossem consolo se houvesse compaixão pela inutilidade do corpo. Mas estava na terra das noites úmidas de gritos e prazeres, o que rasgava qualquer possibilidade de esperança longe do delírio do luto.
Isso bastou para que uma tranqüilidade de olhos discretos chegasse até ele.
Havia qualquer coisa de absoluto em seu contorno. Talvez fosse rímel, talvez o som da retina perturbando o silêncio do Cosmo. Ouvir sempre lhe parecera uma profanação da realidade, onde o próprio fato de respirar e não se encontrar no vácuo era uma prova dessa violação.
Só aí, no ponto final que deveria atingir, esticou os braços para a ausência de segredos no vórtice daquele que fora. E o esquecimento que desejava sugou-lhe pelas encostas, calmo e castanho como o solfejo das nuvens pelas redes submersas na previsão do passado.
Crédito da imagem: Fotografia de Marcos Villas Boas.
sexta-feira, 12 de março de 2010
O NASCIMENTO DO CIDADÃO.
Quando no Brasil se deu o parto da República, do seu ventre, décadas depois, um homem foi expelido sem vida. Nasceu nu, como todos. Mas por questões éticas, arranjaram-lhe um macacão azul. Ninguém ao redor teve ânimo para reanimá-lo. Não era conveniente. O temor por um coração que pulsa é maior que o medo por um coração que pára.O Cristão que estava ali, versado na engenharia das mais belas torres, disse que, em nome de Giordano, o Bruno, deveriam conservá-lo em formol. “A eternidade da carne só num pote de vidro se dá!”, emocionou-se teomante e mescalino. O Moralista, mais ao lado, clínico das sangrias infalíveis, falou que aquele homem serviria, qual mito teofobista, de exemplo para todos os homens: “Sua roupa será a bandeira de toda gente de bem.”, profetizou costumado e sério pela poeira da romanidade. Mas o Democrata, ao centro, gravura de reta conduta, emudeceu em princípio, apesar da grande expectativa daquele ar de tabaco.
Pediu sussurrante ao garçom um pote grande o suficiente para que o homem coubesse e fosse lá conservado. Encomendou duzentos e cinqüenta litros do mais limpo formol para que o homem ficasse acomodado e visível em seu macacão azul. Convocou as lupanares para uma conversação que não se deu e escreveu em letras garrafais quais seriam as regras para que o homem resistisse aos séculos. Sem qualquer manifestação das vozes ao redor, também decidiu que aquelas regras deveriam ser impressas em letra miúda imediatamente, colando-se as mesmas no pote do homem imerso no cristalino líquido dos seus amanhãs.
“Ecce homo!”, entoaram trezentas laringes ao contemplar a bela natureza morta em cima da mesa. Mas quando o Cristão, o Moralista e o Democrata perceberam que a República, à Príapo amordaçada, desfalecia perto do balcão, intuíram que algo faltava ao homem. “Se até Jesus dos Magos ganhou presentes, também merece nosso homem algum.”, especulou o primeiro. “Mas que presente se dá a um natimorto?”, enervou-se o segundo, privado das Traças de Lácio.
Fez-se então um silêncio de trinta minutos. Nenhum olhar sabia como presentear o homem do pote de vidro. Heranças longínquas rebuscavam suas mentes e tudo quanto podiam fazer era se inspirar na cachaça. O pote continuava aberto. Faltava, antes de fechá-lo, um toque que dissesse da identidade daquele homem cercado de letras miúdas, morto filho que fizera da República mãe, ainda que o genitor chamado M. houvesse partido para as Terras do Norte há vários anos.
Foi aí que o Democrata, exegeta do torno de Coimbra, lembrou de uns papéis que viu em França e de umas chaminés que em Londres o encantaram. Igualmente lembrou da escultura de um Olho que vira às portas de uma viagem que fizera ao interior da grandiosa América de Washington, apagando imediatamente, por não convir, tudo que um calvinista lhe dissera. Num clarão que reuniu as faíscas do seu cérebro na mais performática luz, percebendo a rigidez verde-amarela da República de pupilas secas, enfim pronunciou: “Dar-lhe-e-mos uma brilhante coroa dourada para que o pote seja fechado. Providenciaremos réplicas de cera desse homem e espalharemos tais potes por todo nosso território. Serão a base e o modelo para o povo. A República, que jaz sem expectativa de coito há quatro horas e meia, agora chamar-se-á Estado. E dessa soma ptolemaica, soberano, surgirá nosso Estado-Nação!”
Os aplausos ressoaram pela madrugada tropical. Copos foram lançados ao ar e vestidos, antes presos às ancas das moças da casa, caíram aos eretos desejos presentes. Porém, o Moralista se deu conta de que faltava mais alguma coisa. “Toda coroa representa majestade. Temos de dar um nome a essa coroa.”, falou dentre lufadas de fumaça presas pela boca que lhe sugava a língua. “Estamos a trazer a Cidade de Deus para o cá dos homens. Estás certo: precisamos de um nome para a coroa.”, inquietou-se o Cristão à Agostinho, escondendo-se da carne cada vez mais nítida na sua batina marrom.
O Democrata, famoso por suas cantatas gregas de direito e justiça nas cadeiras de tantos boleros, havia esquecido o óbvio. Enovelado por seu discurso de passados, o adjetivo da coroa havia lhe escapado ao Verbo, fiat lux do porvir. “Chamar-se-á Coroa do Voto. Sim: seu nome será A Coroa do Voto.” “Mas e o nosso homem que nome terá?!”, gritou de espasmo uma mulher nos seus vinte e dois anos, com a anágua pela cintura e um outro alguém por cima. O Cristão fitou o Moralista que cerrou as pálpebras para o Democrata. Restou a esse a resolução daquela noite histórica: “Seu nome será Cidadão.”
O que se passou depois, dizem, não foi nada demais. Tratava-se do Brasil. A expressão que trouxe o sol para a festa que seguiu, até hoje é estampada na testa de cada homem que aqui nasce vivo ou morto: “Deixa estar.” Seu autor, desconhecido estrangeiro de Alexandria, perdeu-se no vinho interminável – e naquele prostíbulo tudo permaneceu imune ao tempo. Mas um grave erro adveio dessas brincadeiras de salão: esqueceram de fechar o pote do Cidadão.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O JOGO.
Acordou do amor. Queria lembrar dos braços dele. Não conseguia. Queria lembrar das mãos, dos cabelos. Não conseguia. Lembrava um rosto estranho que quanto mais próximo, mais distante ia. Havia aprendido jogos que escondem cartas debaixo da manga. Mas sempre fora às claras. Se uma briga ir madrugada adentro, com pratos voando pela janela, ótimo. Mas se as coisas forem feitas como se faz em escritórios, tornando o sentimento uma questão corporativa, pedia a conta. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo.Mas como pedir o fim? Chegar com um “acabamos”? Seguir os conselhos da Cláudia ou da Nova? Nada parecia real. Tudo tinha cheiro dos argumentos dele, ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos adiados pelo horário e pela filha que morava noutra cidade.
O dia era cor de chumbo quando deu partida no carro. Havia neblina por detrás dos morros. Talvez aquilo dissesse algo: a neblina também era cinza. Mas ela sabia que coisas não dizem nada além delas mesmas. Entrar nesse jogo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual se encontrava sua vida. Esqueceu ou tentou esquecer desses detalhes, ignorando as piscadelas que a memória queria escavar.
Como manhã e domingo, com certeza ele estaria dormindo. Pela madrugada havia enchido a cara, dado fiasco ao cantar no palco de um pub qualquer e transado com “alguém fim de festa”. Mas havia acontecido ou tudo era tão sem lógica quanto a neblina atrás dos morros? Não passava de suposição. Mas toda loucura têm raiz naquilo que se supõe.
Quando chegou, desligou o motor e o suor das mãos. Desceu, caminhou pela calçada que separava o jardim da porta. Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou, apertou novamente. Ninguém. Colou o polegar no botão e foi aí que ouviu uns passos perto da porta.
“Sim?”, disse um homem nos seus setenta anos, vestindo bermuda xadrez e camiseta de campanha de vereador. “O senhor mora aqui?”, perguntou. “Sim.”, respondeu o velho com cara sonada, cabelos brancos espetados pelo travesseiro, braços com manchas roxas, rosto molhado pelo tapa frio da água.
Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Não era engano. Há um ano freqüentava aquele lugar. Final de semana sim, final não. Até nos dias da semana, quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o remédio para a tristeza era sexo e cerveja, às vezes estava ali.
“A senhora deseja alguma coisa?”, quis saber o outro, coçando olhos de sono com costas de mãos transparentes. “Não...”, disse rouca, “acho que me enganei de número...”.
Voltou devagar, pela calçada, separando o jardim da porta. Já não queria o fim. Queria um começo. Imaginava um recomeço sem conhecimento seguro, exato do quê. Por que ele não estava na casa lilás 985? Por que saiu de lá de uma hora para outra? Puxou o celular da bolsa. Telefone dele desligado. Entrou no carro como entrando num lugar pela primeira vez. Sabia só que era manhã e domingo e tudo cinza. A neblina dos morros era falta de cor como seu carro cinzento. Tudo o mais, ausente. Por qual motivo não estava? E o celular desligado? Tudo era mudez. Fumaça em lâmpada fosca. Carta debaixo da manga. Suspensão na véspera de um golpe.
Quem sabe seu amar tivesse estancado, de tanto guardado, de um guardar avarento, sem porque, tudo jogado. Quem sabe nem árvores existissem e tudo não passasse de mera coincidência que brota da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância de abandono espontâneo. Quem sabe tivesse demorado demais e tudo se tornara pálido, cartas marcadas, previsível. O amor, como um blefe, envelhecera antes de descer à mesa do jogo.
Conhecer todas as regras cinzenta.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
CINCO FACES DE UM ENTARDECER.
1°Dedo na lâmina dos dias. Língua no gume das auroras. Vidro no tapete do destino. Face ao quebra-cabeça do espelho. Rastejando, carne e osso, chorar lágrimas que abrem garimpos nas cavidades do olhar que perdeu a si mesmo na distância que de si o separava. Nada virá: o pássaro continuará com os órgãos de suas asas por sobre ramagens e abismos que de longe parecem chama, mas são joelhos afiados por pedras e junções. Pouco esperar a não ser raios refletidos na terra. Vapores indizíveis maculam certeza e descaso. O indicador alheio é mais que solidão ou imagem narcisa. Desarmado, impressentido em pêlos e sêmen, beija feridas e sorri, eliminando a sombra dos passos na enxaqueca do presente que a tudo consome e confunde.
2°
Extremo em declive e fosso. Mas também extremo em braços que batem o vazio das águas. “Pra onde?”, é a voz de alguém antecipando fatalidade. E na gangrena que queima, algum olhar no horizonte de plano e linha. Se nós e sedas irão cruzar um com o outro, não sabe. Se queixas podem ou não afetar futuros, não faz idéia. Bolores do tempo não pernoitarão seu sono. Trovões continuarão. Haverá prédios, ruas, riscos e satélites. Nas cócegas dos pulmões, arejados por culpa inocente, permanecerá. No peito somente estrelas do mar.
3°
Caso, acaso: planície tenra de costas tortuosas. Caules dentre caules no vigor de cordas que massas criam. Juncos de lama e viço na fissura das pedras. É lilás a copa que vê. O pássaro é um quase-caminho para o que não sabe. Alça morada ao infinito que teme. Um fio mínimo sustenta a argamassa do entardecer. Cala com naco úmido o que era puro banho em seus cabelos. Assusta a pena que coça e já se duvida ciente. Mel não lhe escorre nem aspira velhice de dias e fumaças. Apenas ônus de um frescor furtado. Baforada infantil que logo passa.
4°
Brilho. Lustre. Manchas cor-de-fome no corpo do desconhecido. Nos dias festivos ou quando há parafina, um canal do acaso pretende flores vermelhas altivas e orvalhadas onde só musgo verde e escorregadio pode nascer. Escada de nuvens modulando o eco de troncos agora tolhidos. Acena náufrago na torrente do asfalto. Cruza o areal da rua em incompletude que ofusca. Sombras correm por corredores de casas que não mais são. Calcam óleo e querosene em toda madeira que tenha intenção ao longe. Réstia de vela e música de alguma estrela ou planeta. Amnésia e cura que a tudo responde. Portanto vá mas volte, pois aquilo que alisa e limpa pode cair nesse exato delicado toque.
5°
Brutalidade e chama. Esparrama atalho fugaz. Insinua farol do nada na certeza da lenha. A intenção da imagem pela imagem não se alcança. Mas algo gritou quando todos dormiram. No murmurar rouco de uma fonte avessa, soletrou luz negra de um passado calcário no mosaico das constelações. Beleza na curva de um rio de saliva, suor e sangue. Quando sonhou, divisou no silêncio o lamento da foto viva na lareira da sala. Seria imprecisão áspera e verídica de um beijo impossível. E seria homem: lâmina, fosso, acaso, lustre e chama de entardecer.
Crédito da imagem: Fran Setim, foto simples feita de um telhado. Ao entardecer, ouvindo Beethoven. “Beethoven é crepuscular”, diz ela.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
SEXTA-FEIRA DE CINZAS.
Existe uma boca que teu tato não trespassa. Ecoa passado no que toca e sente. Brilha na fenda que o peito não traz. Não há cor ou cheiro, forma de ar ou pedra. Agora cerejas mortas na língua. Queres voltar? É tarde. Queres mudar? As cidades são iguais. Mas teus dentes caem um após o outro e tu não sentes nada afora a doçura da morfina. Albinos desfilam agulhas. Uma coelha na casa ao lado. Talvez dê crias, talvez não. Nesse lençol, embalsamado de azul, a lembrança terá voz de vinho branco seco e madrugadas pela rua. Não és capaz de ir além. Queres me chamar? Acenas com o olho. Queres abraços, conselhos, cigarros? Contenta-te com o fato de que estás nu e que um casulo do depois adorna teus tornozelos. Lembras quando caíste atrás do Colégio? Era Carnaval e tu vestias laranja. Lembras quando me conheceste e sentiste coisas que te fazem ser até hoje? Era ali que tu estavas. Mas hoje és incapaz de ultrapassar a idéia. Tua sensibilidade não orvalha poemas nos poros de quaisquer folhas. Teu canto é a métrica incerta daquilo que sabes: opacidade que a palavra tramou enquanto podias falar. As cortinas, pulmões do vento claros de morte, arranjam assombros para noites remediadas. Não há deslumbre nisso. Há vida naquilo que tu foste, não naquilo que tu és. Arranjar cadáveres para cobrir dívidas? Sonegar beijos para fazer acertos? Essa era tua meta. Mas agora, nesse pêlo raspado da virilha, nesse tubo que entra pela garganta, o que mais existe? Ninguém decidirá teu amanhã. Até lá, cerejas mortas ao sol de abril destilarão o que tu poderias ser. Arrependimento não basta: desapego que aceita o mundo. Desculpas são nada: porões infestados de utilidades. Para ti resta o Carnaval, as madrugadas de vinho branco seco, o calor do corpo no sofá e alguns sentires que sobreviverão às traças. De nada valeu teu coração se ele não traduziu toques. Mas tu viveste e foste feliz. Viajaste, conheceste pessoas, aprendeste alguns idiomas e foste aplaudido por platéias de morbidez. Agora não faz diferença. Tens pelo corpo veias roxas, carne ressequida, músculo de sangue que invade teus órgãos. O que te faz humano são lembranças: aquela de quando ganhaste certo livro, de quando encordoaste o entardecer e pensaste que poderias escrever uma obra-prima partindo da perfeita estrutura sobre a essência do amor. Disso jamais te livrarás, ainda que o cano que te desce pela garganta não tenha nada mais com que encher tuas vísceras. Percebeste? Tiveste no máximo dois amigos e uma paixão. Se ela teve nome de amor ou algo que o valha, tu jamais saberás. Mas naquelas tardes, quando minhas mãos escorriam pelas tuas costas adolescentes e tu finalmente te sentias vivo, algo mudou em ti e em mim: a idéia passou a ser corpo. Não há tempo para recuperação. O que há é a expectativa de que a coelha dê crias na casa ao lado. Dentro disso, aquilo que tu não fizeste, aquilo do que tu tinhas medo, aquilo que tu negaste pelos outros que te pareciam reais e vestiam máscaras venezianas. Quando cortarem teu cabelo, colocarem algodão nas tuas narinas, retirarem órgão após órgão sonegando o músculo do teu sangue, preenchendo ossos com palha e seringas, tua lembrança se fará eterna mesmo que tua obra jamais tenha se dado distante daquilo que chamaste de amor. Assim teu brilho aquietará, a terra fará sua parte e o tato do mundo será a paixão que tu jogaste fora por conta das medidas e da impossibilidade de ultrapassar a idéia. Dessa tua arcada sem carne, nascerão cerejas do futuro que jamais imaginaste, polvilhadas por madrugadas e sonhos. Ereção de tudo que tu virás a ser a partir de cada falha, de cada gosto do teu toque, o eco se fará presente para além dos sons que te chegam da rua, povoando teu ventre de vinhos e carnavais. A ossatura do amor, grávida de prazeres, será o nascer do teu corpo, arejando a forma da paixão amanhecida em mais de um abril talhado pela minha e pela tua boca.
Crédito da imagem: O Beijo de Judas de Giotto di Bondone (1266-1337), pintor e arquiteto italiano.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
LATITUDE SERENADA.
Desnecessárias linhas para qualquer contrapeso. Coisas exaurem. Como fumaça. Em mim? Em ti? Nós? Apenas a sensação de tudo ter sido. Presságio de frutos tardios, dourados ressequidos à infinita espera da (a)colhida, embora um senso vitorioso trespasse fracassos oportunos. Inútil a vigília das portas. “Insígnia da lua”, falariam. Ainda que a mestria não esteja para o desvão das frases, o vento continuará soprando. E talvez chova. Seria terra molhada, renovada pela violência da vida. Algumas plantas felizes, como dizia meu pai quando eu era criança. Mas faz tempo que deixei de ser criança e as plantas deixaram de sorrir: meu pragmatismo pára ao primeiro toque. Admitir mais seria dar corda à existência. E de corda, chega a imagem. De qualquer modo, atravessarei ruas. Algumas crianças também. Talvez um guarda guie nossa travessia. Quem sabe, alargando ânimos, haveria uma faixa de segurança. Pé ante pé, cruzaríamos o umbral daquele símbolo cravado no asfalto, arraigamento branco cinzento: cadavérico. Nascendo, a pele, primitiva e consciente, roça a tessitura do fim. Treme e pulsa pressentindo o fim. Tudo continuará, seja do jeito que for. Supostamente do mesmo jeito. Além de supor, nada podemos. Ao atravessar ruas, seja com crianças ou sozinho, não modificarei nada. Os átomos serão os mesmos. Passos podem mudar de terra, de sujeira na sola do sapato, mas ainda serão passos cortando segundos como um ponteiro que assalta minha esfera de ação. Um símbolo não segura nada. No máximo, intenção de comunicar. No mais das vezes, apenas jorro. Jorro e fim. Fecundar a fala é diferente. Tudo provém disso. Há um retrato na minha mesa. Mostra duas pessoas. Continuará a soprar o vento. Chove, ameniza o calor. Minhas expectativas são essas. O dever pode chamar porque hoje estou surdo e me bastam palavras. Persisto. Sempre há o fator surpresa, apesar das faixas de segurança. Sempre haverá alguém para esquecer a fechadura destrancada. Voltar à faixa é mais seguro. Menos patogênico, pois classificável. Fiquemos com a certeza do signo. Fiquemos com a certeza do símbolo. Choverá e as plantas sorrirão suas pétalas como quando eu era criança. Exatamente como meu pai dizia. Nesse momento, atravessarei ruas com algumas crianças. Tudo conspira. Mas não é necessário que viva. Mesmo que o pensamento diga o contrário, conspirar não está para pensar. E se um pneumotórax desabar em choro, haverá tratamento. De resto, o futuro. Ah! o futuro! Um caminhão que não pára na faixa. O pragmatismo. Veja a carne. Veja as veias azuis entre essa cor perolada que medeia teus seios. Não as tocarei e sei que se encontram por debaixo do teu calor marinho e ondulante. E quando tua respiração não der mais conta delas, continuarão ali até que a terra, mestra de ti e de mim, diga que o tempo acabou. Que a vida se foi. E que espalhar húmus é tua sina. Setenta badaladas ao final. E eu atravessando ruas, pensando em travesseiros. Até que o caminhão faça sua parte.Crédito da imagem: Tripulantes da ISS fotografaram a atmosfera terrestre enquanto a nave Atlantis iniciava viagem de retorno à Terra. Foto: Nasa/Divulgação.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
RÉQUIEM PARA UMA NOITE ESCURA.
Repousa em ti revolta incandescente. Em ti crescem veias passadas. Faces passeiam teu corpo em procissão de dor e prazer. Frases ressoam poros em paredes de ontens indetermináveis. Estampa dos pêlos teus, dourados por um sol impressentido. É disso que falo. Há doçura na morbidez do presente, mágoa no riso que medeia caninos. O marrom da terra, da pedra, persiste entre a saliva que molha a boca descendo pelas entranhas. Lá fora vento, talvez silêncio de cada oportunidade. Passa uma lembrança de sol desprovido de luz, de lua desprovida de noite. Andas entre pessoas, reconhece a própria face na janela de uma casa e perguntas: “quem és?” A resposta é a veneziana fechada e um violino do lado de cá. A única permanência é essa: fetiche que tua voz pensa erotizar, crer além da crença, amolda cada falha que entreabre tua angústia. Quem sabe esquecer anos e calendários fosse recomeço. Não é apenas tato deslizando futuro, desviando caminho. Sondar com mãos suaves, estancar a respiração insone de todo negrume pressentido e silenciado. Não basta o desejo furtado da palavra. Não basta a fala que brota da antipatia de sentir. Uma encruzilhada de sorrisos traçada diante do medo. Sem novo mapa, união entre metria e carbono de olhos, a veneziana continuará fechando-se tarde após tarde, ocultando a partitura, razão do violino. Essa luz que ilumina tuas mãos é uma pista. Esse ar úmido que enche teus pulmões traz consigo o caminho. Tuas asas serão alimento para a rocha tingida pelo vermelho dos teus propósitos. Quando estiveres na altura da nuvem mais negra, um pássaro cruzará ao lado e dirá do erro de percurso. Será tão exato quanto o projeto das tuas asas. Distante da grama cairás. Ao lado, o gris do vôo manchará cada pedaço dos teus ossos, soletrando o único ofício que cabia à madrugada. Levantarás e sairás de casa. Cruzarás janelas sem se dar conta dos desfiladeiros. Insciente, novamente perguntarás: “quem és?” A resposta, antes música, freará perto de alguém que cruza na esquina para tatear um grito oco no asfalto quente. Um cemitério surgirá. Num ponto mais alto, feito de ânsia lúgrube, lápide após lápide, coluna após coluna. Por cima um véu de poeira cobre tudo e ficará maior quando teu queixo estilhaçar os vidros da infância. O veludo não será tua segurança e teu pai terá de te carregar nos braços, com o recalque dos olhos fazendo fronteira entre qualquer expectativa futura e presente. Mas crescerás, ganharás mais cicatrizes e passarás várias noites em claro. Dentro de alguns cadernos e no imã de alguns lugares, pedaços de carne furtadas de escuridão esperando reconhecimento. Essa carne brilha dentro de ti. Do sonho rebentará grandezas feitas de lã, rochas e rios. Do sonho tu sentirás a textura do mundo entrelaçando o teu. Essa pele, consciente de intenção, provará da magia de ser ontem, hoje e amanhã no único lugar destinado. Descerás escadas de sonho, verás um espelho cruzar às pressas sem dar conta do surdo apelo que vinha da tua garganta púrpura. Perguntarás: “quem és?” Mas a velocidade será ágil e doce, sepultando luz no coração dos sóis. Tua estrela nascerá, pulsando dentro e fora de ti a florescência da claridade em pétala e chama. Crédito da imagem: Egon Schiele (1890-1918), pintor austríaco.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
2010.
Cerveja na garganta, champagne na geladeira e ano novo chegando. E ainda por cima, o blog completando um ano e pouco de existência. Tudo foi ótimo até agora. E espero que se torne melhor ainda nesse ano que se anuncia daqui uma hora. Um sincero abraço para todos aqueles que me acompanharam até esse momento. E pra não perder o lugar comum, um feliz 2010 a todos!
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Exercício n° 133.
Não há nada a fazer quando tudo está gasto. Quando a bile expeliu seu musgo no estômago e o estômago vazou para os pulmões, o que resta é a espera. E ela não precisa ser triste: nada precisa, ainda que a terra seja negra e os territórios sejam territórios porque alguém disse que são. A única fronteira do homem é seu corpo. O único obstáculo do homem é sua forma. Pele, carne, tudo que dança no espaço-tempo do cosmo, é esperança aqui e em nenhuma outra parte. As cenas se repetirão e as ramagens da vida, antes plena de expectativas, estarão restritas ao teto de um quarto vazio, onde flores mortas esperam pelo último veneno em um vaso de água podre. Alguns irão te visitar, dirão palavras que esperam ser ditas. Mas a razão, aquela que tu tinhas e acabou perdendo nas brechas do teu crânio, essa jamais retornará. O círculo se fechará a partir do momento que teus olhos cerrarem. Ninguém segurará tua mão. Cairão lágrimas sem remorso. Logo o esquecimento será o único verso da tua existência. Perdurarão engravatados ganhando em cima da tua criação que, antes opaca, oca de sentido, cairá nos olhos daqueles que servem para dizer se ela vende ou não. Após tua morte é que te tornarás único. Após teu fim é que tua palavra será ouvida. Mas de que adianta se nada dirás? Teu sexo tocará apenas a terra úmida de prazeres. Teus braços e ossos serão alimento para vermes, moradores da terra que lá estiveram sempre a te esperar. Tempestades cairão sobre teu túmulo. Sóis nascerão e luas surgirão para tua lápide. Mas lá dentro, tu não perceberás nada. Serás comida e com o tempo nem isso. Se um dia alguém perturbar tua solidão, encontrará teu crânio de olhos arregalados, assustados pela invasão. No mais, apenas prédios, ruídos de carros que cruzam e motos que rangem como cavalos que não sabem o que são. No mais, mulheres atrás de homens e homens atrás de mulheres com a garganta cheirando cerveja. Mas tu não participarás disso. Nem mais lembrarão teu nome. Voltará na memória de alguns poucos tua imagem, teu porte, teu cabelo. Tua palavra, aproveitada por aqueles que agora dirão que ela realmente diz algo, é que ressuscitará teu cheiro a cada olhar caindo sobre ela. Mas nem assim tu estarás presente. Estarás enterrado, cravado nas entranhas da terra até que o final disso tudo chegue. Então te levantarás, percebendo que nada mudou e tudo continua como antes. Os territórios continuam a ser territórios e as armas continuam nas mãos de quem pode ter armas. Tua voz preferirá o retorno, mas já não haverá como retornar. Condenado a essa nova vida, a única coisa que te fará chorar será o primeiro raio de luz tocando teu olho quando todos os vulcões enfim cuspirem o sangue da terra para a pele do mundo. Sorrirás, dizendo que isso é bom e justo. E carbonizado serás eterno, feito de pedra que não se gasta, mas sim perdura como tudo aquilo que não deverias fazer e fez. Esse é o meu conselho. Crê que não sou pessimista. Apenas digo do teu coração, pois orbitar eternamente em torno de si, é como negar que teu rosto só existe por conta de outro rosto que numa tarde te beijou, te amou e disse que o sangue é o espírito do corpo e que devias te contentar com isso. Afinal, estavas vivo. E estarás mais vivo quando antes de seres pedra, te tornes fogo, e antes de seres fogo, percebas plenamente a futilidade da tua forma por vir, arrasada pela argamassa da lava e liquefeita por tudo aquilo quando em vida tu te propôs a gastar pelo teu corpo. No fim das contas, será o teu sorriso que ficará eternamente ancorado na porta da tua lápide, porque nada, absolutamente nada precisa ser triste quando tudo está gasto. quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Adiós goodbye, INSUFILME.
Esse blog já foi bom. Mas anda em decadência. Daqui uns dias ele completa um ano. E revendo os textos antigos, percebo que existe uma grande distância entre eles e o que ando escrevendo ultimamente. Talvez seja por conta de novas obrigações e compromissos que me surgiram. Ou talvez seja por conta de eu não conseguir fazer literatura nos últimos tempos. Quem sabe isso seja sinal para que eu dê um tempo para o blog. Ou para que eu pare de escrever por um bom tempo. Mas entre uma e outra alternativa, prefiro o meio termo. Ou seja: prefiro disponibilizar por aqui apenas aquilo que eu creio que seja bom e não textos ao deus-dará de qualquer bobagem que eu escreva.
Sei que não mereço o título de escritor. Ao contrário do meu ego inflado e daquilo que pensam os autores da maioria dos blogs da rede, prefiro não tatuar na minha testa essa palavra. Claro que vontade não falta. Claro que depois de ter escrito algumas coisas boas, você acaba pensando que sempre vai escrever coisas boas. Beira a arrogância. Mas acontece que não é assim que funciona. Não que tenha que fazer calor ou frio ou chuva para um texto sair bom. Não que a gente tenha que estar alegre ou triste para escrever algo decente. Ocorre que existem épocas nas quais a palavra simplesmente não sai como deveria, razão pela qual até mesmo tenho deixado de comentar os blogs dos leitores deste espaço.
Não digo que permanecerei em silêncio. Tagarela como sou, seria pedir demais. Seria quase uma tortura. Mas digo que tomarei maior cuidado antes de divulgar textos por aqui. A rede sempre é muito mais extensa do que a gente imagina. As palavras que aqui foram postadas chegaram a locais e pessoas que eu sequer poderia imaginar. Talvez por isso seja necessário esse esclarecimento ou seja lá o que isso for. Não que eu tenha vergonha do que escrevo. Pelo contrário, costumo dar muito valor para minhas palavras. Aí é que talvez se encontre o erro, porque quando a gente se apega demais a seja lá o que for, costuma fechar os olhos para certas coisas.
Então reconheço ou pelo menos tento reconhecer: o blog anda sim em franca decadência. E de agora em diante, ainda que ele esteja próximo do seu primeiro aniversário, não publicarei textos como de costume. Ficarei mais atento ao que publico. Isso não é sinônimo de interdição. É somente sinônimo de cuidado e respeito pela escrita. E se esse blog foi bom, quem sabe seja sinal de que pode voltar a ser bom. Mas temos de respeitar nosso momento na história. E nesse momento da história desse blog, era isso que eu tinha pra dizer.
Mas nada de adiós goodbye, INSUFILME. Apenas um aceno para a vergonha na cara e para o valor da escrita. E pronto.
Sei que não mereço o título de escritor. Ao contrário do meu ego inflado e daquilo que pensam os autores da maioria dos blogs da rede, prefiro não tatuar na minha testa essa palavra. Claro que vontade não falta. Claro que depois de ter escrito algumas coisas boas, você acaba pensando que sempre vai escrever coisas boas. Beira a arrogância. Mas acontece que não é assim que funciona. Não que tenha que fazer calor ou frio ou chuva para um texto sair bom. Não que a gente tenha que estar alegre ou triste para escrever algo decente. Ocorre que existem épocas nas quais a palavra simplesmente não sai como deveria, razão pela qual até mesmo tenho deixado de comentar os blogs dos leitores deste espaço.
Não digo que permanecerei em silêncio. Tagarela como sou, seria pedir demais. Seria quase uma tortura. Mas digo que tomarei maior cuidado antes de divulgar textos por aqui. A rede sempre é muito mais extensa do que a gente imagina. As palavras que aqui foram postadas chegaram a locais e pessoas que eu sequer poderia imaginar. Talvez por isso seja necessário esse esclarecimento ou seja lá o que isso for. Não que eu tenha vergonha do que escrevo. Pelo contrário, costumo dar muito valor para minhas palavras. Aí é que talvez se encontre o erro, porque quando a gente se apega demais a seja lá o que for, costuma fechar os olhos para certas coisas.
Então reconheço ou pelo menos tento reconhecer: o blog anda sim em franca decadência. E de agora em diante, ainda que ele esteja próximo do seu primeiro aniversário, não publicarei textos como de costume. Ficarei mais atento ao que publico. Isso não é sinônimo de interdição. É somente sinônimo de cuidado e respeito pela escrita. E se esse blog foi bom, quem sabe seja sinal de que pode voltar a ser bom. Mas temos de respeitar nosso momento na história. E nesse momento da história desse blog, era isso que eu tinha pra dizer.
Mas nada de adiós goodbye, INSUFILME. Apenas um aceno para a vergonha na cara e para o valor da escrita. E pronto.
A Síndrome do Pink & Cérebro.
Quarta-feira. Durmo de madrugada. Pelas quatro da manhã. Acordo cedo. Pelas oito. Venta e faz frio. Mas existem coisas pra resolver. Bato água gelada na cara, ponho um casaco e saio pra rua. Primeira parada: banco. Chego num dos ditos e vejo uma plaquinha: GREVE. Converso com uma funcionária e ela me informa que continuarão em greve até semana que vem. Digo que é uma luta justa. Quem ganha grana com os bancos são seus acionistas. Trabalhador que é bom fica com o refugo e olhe lá. A funcionária fica feliz com minhas palavras e esboça um olhar quarentão e azul pra mim. Estampa agradecimento. Talvez outra coisa, mas não ligo. Não estou com essa bola toda. Fico contente. Faço umas ligações, cancelo uns pagamentos e vou pra próxima parada: provedor de internet.
Estou sem internet desde terça de manhã. E pra quem necessita disso pra trabalhar, é um caos. Chego na empresa e falo pra uma moça dos meus problemas e da minha necessidade de internet. Ela me olha com olhar de babá e me pergunta: já ligou e desligou o computador? Acho meio estranho. Mas me faço de desentendido e digo que sim. OK, ela diz. Mas você já ligou e desligou a chave da luz? Fico sem munições para a resposta, mas afirmo que fiz isso e que inclusive, nessa madrugada, tive três quedas de luz. A moça, loirinha magrela, olha pra cima e formula outra pergunta: a página do login aparece? Já não sabendo o que dizer, respondo que não, que não dá sequer sinal e que meu computador não está com vírus porque tive que formatar ele semana passada. Fui salvo por um disco rígido que gravou meu estoque de filmes, músicas e textos e não apagou minha vida em bytes. Imagino, engenhando a resposta, que ela dará uma risadinha. Afinal, tentei ser engraçado.
Mas nada disso. Ela permanece séria e irreal como uma atendente de 0800. Eu, ao contrário, começo a ficar irritado. Será que levantei com cara de trouxa? Ou será que levantei com cara de criança? Deve ser porque trabalhei até tarde, estou com olheiras e com os cabelos espevitados por cima dos ouvidos. Deve ser por causa do meu cangol marrom que coloquei por pura preguiça de ajeitar minhas gadeias de gringo-alemão. Mas beleza. A cara de babá que ela fez inicialmente era prenúncio do que viria. A loirinha puxa um formulário e diz que vai fazer uma ordem de serviço. Na primeira hora da tarde tudo se resolverá. Saco do celular e olho o horário: 10 e meia. Questiono: não poderia ser de manhã? Ela arrebata: de manhã a equipe já está ocupada. Vira os olhos para o computador, dobra o formulário manchado de papel carbono e quer me despachar com o canto da franjinha que cai nos seus olhos.
Decido tomar uma atitude. Quer dizer, decido verbalizar uma atitude. Nunca fui de violência. Então digo: olha aqui, trabalho pela internet, tenho compromissos via e-mail e sem internet estou perdendo dinheiro. Logo, preciso da dita o quanto antes, pode ser? Penso que ela irá baixar a guarda. Fui contundente e rígido. Mas percebo que cometi um erro fatal: acabei minha frase com um “pode ser”. Ela me olha como quem olha pro seu priminho de cinco anos e diz: a ordem será cumprida na primeira hora da tarde. Como ela conseguiu me desarmar? Baixo a cabeça, coço a moleira, digo tchau e vou embora resignado.
Caminho no vento, penso na greve dos bancos e na moça do provedor de internet. Um dia terei a calma dos senhores que bebem uísque pra conspirar o futuro da humanidade. Mas presumo que meu desejo seja como o CCE no qual eu jogava Pac-man quando guri: ultrapassado. É a vida. Nada de palavras grandes como “magnificência”. Apenas frases curtas e gerundianas seguidas de greves e loirinhas com olhar de babá. Mas tento esquecer disso. Só espero que até a noite a internet volte. E que até segunda os bancos voltem. Quem me dera ter uma bandinha alemã em Tucunduva! Pode não ser grande coisa, mas é melhor que conviver com loirinhas de 0800 materializadas em mesas de provedores de internet. Qualquer coisa, sempre haverá a possibilidade de tocar teclado numa galeteria de Bento. De funiculí em funiculí e funiculá em funiculá, na próxima noite em claro irei dominar o mundo. É a Síndrome do Pink & Cérebro. E a sina de todo mundo que sonha tão, mas tão alto, que logo é achatado pela realidade. Mas meu CCE permanece no fundo do armário. Desejo que é desejo, nunca é ultrapassado. Vinte e poucos anos é assim mesmo. E chega de se lamentar.
Estou sem internet desde terça de manhã. E pra quem necessita disso pra trabalhar, é um caos. Chego na empresa e falo pra uma moça dos meus problemas e da minha necessidade de internet. Ela me olha com olhar de babá e me pergunta: já ligou e desligou o computador? Acho meio estranho. Mas me faço de desentendido e digo que sim. OK, ela diz. Mas você já ligou e desligou a chave da luz? Fico sem munições para a resposta, mas afirmo que fiz isso e que inclusive, nessa madrugada, tive três quedas de luz. A moça, loirinha magrela, olha pra cima e formula outra pergunta: a página do login aparece? Já não sabendo o que dizer, respondo que não, que não dá sequer sinal e que meu computador não está com vírus porque tive que formatar ele semana passada. Fui salvo por um disco rígido que gravou meu estoque de filmes, músicas e textos e não apagou minha vida em bytes. Imagino, engenhando a resposta, que ela dará uma risadinha. Afinal, tentei ser engraçado.
Mas nada disso. Ela permanece séria e irreal como uma atendente de 0800. Eu, ao contrário, começo a ficar irritado. Será que levantei com cara de trouxa? Ou será que levantei com cara de criança? Deve ser porque trabalhei até tarde, estou com olheiras e com os cabelos espevitados por cima dos ouvidos. Deve ser por causa do meu cangol marrom que coloquei por pura preguiça de ajeitar minhas gadeias de gringo-alemão. Mas beleza. A cara de babá que ela fez inicialmente era prenúncio do que viria. A loirinha puxa um formulário e diz que vai fazer uma ordem de serviço. Na primeira hora da tarde tudo se resolverá. Saco do celular e olho o horário: 10 e meia. Questiono: não poderia ser de manhã? Ela arrebata: de manhã a equipe já está ocupada. Vira os olhos para o computador, dobra o formulário manchado de papel carbono e quer me despachar com o canto da franjinha que cai nos seus olhos.
Decido tomar uma atitude. Quer dizer, decido verbalizar uma atitude. Nunca fui de violência. Então digo: olha aqui, trabalho pela internet, tenho compromissos via e-mail e sem internet estou perdendo dinheiro. Logo, preciso da dita o quanto antes, pode ser? Penso que ela irá baixar a guarda. Fui contundente e rígido. Mas percebo que cometi um erro fatal: acabei minha frase com um “pode ser”. Ela me olha como quem olha pro seu priminho de cinco anos e diz: a ordem será cumprida na primeira hora da tarde. Como ela conseguiu me desarmar? Baixo a cabeça, coço a moleira, digo tchau e vou embora resignado.
Caminho no vento, penso na greve dos bancos e na moça do provedor de internet. Um dia terei a calma dos senhores que bebem uísque pra conspirar o futuro da humanidade. Mas presumo que meu desejo seja como o CCE no qual eu jogava Pac-man quando guri: ultrapassado. É a vida. Nada de palavras grandes como “magnificência”. Apenas frases curtas e gerundianas seguidas de greves e loirinhas com olhar de babá. Mas tento esquecer disso. Só espero que até a noite a internet volte. E que até segunda os bancos voltem. Quem me dera ter uma bandinha alemã em Tucunduva! Pode não ser grande coisa, mas é melhor que conviver com loirinhas de 0800 materializadas em mesas de provedores de internet. Qualquer coisa, sempre haverá a possibilidade de tocar teclado numa galeteria de Bento. De funiculí em funiculí e funiculá em funiculá, na próxima noite em claro irei dominar o mundo. É a Síndrome do Pink & Cérebro. E a sina de todo mundo que sonha tão, mas tão alto, que logo é achatado pela realidade. Mas meu CCE permanece no fundo do armário. Desejo que é desejo, nunca é ultrapassado. Vinte e poucos anos é assim mesmo. E chega de se lamentar.
sábado, 3 de outubro de 2009
Prognóstico (Parte I).
O ser humano não é o centro do mundo. Mas julga que é. A racionalidade é incompatível com nossas ações. E a maioria acredita no contrário. Nossa moralidade no mais das vezes é orientada pela mesquinharia. E justamente por isso menosprezamos tudo aquilo que não gira ao redor do nosso umbigo. Uma vida assim é uma vida egoísta. Uma sociedade assim é uma sociedade egoísta. E uma vida em uma sociedade assim terá o viver como um ato egoísta. E não temos praticamente nada que possa dizer que tudo isso irá mudar. É motivo para falar que a mesa está posta e não há o que possamos fazer? Uma paz assim será uma paz armada. Cada qual estará trancado em sua casa, em seu pequeno reino de consumo, esperando que o vizinho tussa para que o projétil ocupe abrigo. E o assassinato seria só uma redundância, uma manchete. Isso ocorre todos os dias quando julgamos as pessoas pela sua capacidade de consumo. Se determinado sujeito não consegue suportar essa realidade ou está à margem dessa realidade, disparamos nossa moralidade egoísta nesse sujeito. Essa é a razão das drogas, sejam elas compradas nas farmácias ou nas bocas de fumo – a diferença é inexistente, questão de glamour. É também a razão da aparente estagnação das nossas existências, trancafiadas em meio a imagens por sobre imagens que fazem com que cada vez mais o contato com o real não seja possível. Mas o que é o real? O que é a realidade? A resposta terá várias faces, cada qual cuspindo fogo na outra para que todos os olhares fiquem chamuscados. Mas ainda que seja dessa forma, a realidade não tem nada a ver com essa nossa moralidade de todos os dias. A realidade está naquele que passa fome. A realidade está naquele que passa frio. E tudo isso não ocorre apenas porque o governo não faz o que deveria e nem porque as empresas querem lucro e nada mais. Ocorre porque nós acreditamos que isso é normal, é corriqueiro, é fato para o rodapé dos jornais. Ocorre porque não conseguimos sair do cercado que construímos e permanecemos numa eterna vida de gado. Quem nos marcou? Qual é a mão que nas nossas costelas tatuou o ideograma de tamanha falsidade de maneira que sequer sentíssemos e até gostássemos do seu toque? Não tenho a resposta e muito menos tenho a intenção de responder essa pergunta. Mas quando um sistema atual está crise, a sua própria crise aponta o rosto do futuro. Se uma tragédia traz sofrimento para alguns, igualmente traz oportunidades para todos. A tragédia é uma oportunidade. Tudo gira na possibilidade de vermos que realmente uma tragédia está ocorrendo. Conseguimos ver isso se estamos correndo dia após dia vendo as pessoas como instrumentos e não como pessoas? Nascemos e morremos sós. Isso hoje é fato. Mesmo o sexo é um ato solitário. O prazer é como a vida: egoísta numa vida assim. Seremos capazes de sair desse círculo? Ou melhor: quando veremos que se trata de um círculo vicioso ao invés de um círculo virtuoso? A perspectiva de mudança é pouca. Mas existe. Não passa pela pureza da raça ou das idéias. Não passa por primados que digam que uma planta tem a mesma possibilidade de entender o mundo que um ser humano. Passa, por outro lado, pelo fato de que devemos reconhecer que antes de sermos morais, antes de sermos racionais e antes mesmo de vivermos em sociedade, existimos. Existimos desde o momento da concepção, muito antes do nosso olhar ser tocado pelas luzes da sala de cirurgia. Existimos antes de pensar, julgar e chegar a qualquer palavra. E é essa qualidade de existirmos que talvez dirá um rumo possível. Que rumo é esse? Uma reviravolta teocentrista, colando Deus no centro do real, ou um aprisonamento antropocentrista, sublimando o ser humano como sentença maior de tudo? Negativo. Precisamos recolocar a vida no centro do real. Precisamos, ao invés de comprometer ou interferir diretamente na vida, nos integrarmos com a própria vida para que outra vida seja possível. Poucos serão aqueles que terão coragem para isso. Poucos entenderão. Mudar dói. Mudar destrói. Mas a mudança é necessária assim como a dor é necessária. É a única possibilidade de sairmos desse deserto no qual nos encontramos. O ser humano pode não ser o centro do mundo, mas todas as possibilidades do mundo passam pelo ser humano. Por isso, isso: prognóstico primeiro de um sentimento não verbalizado, mas que, à parte qualquer dificuldade, passa diretamente por este olhar: precisamos recolocar a vida como centro do real.
domingo, 20 de setembro de 2009
Linhas sobre Dalí.
Nem sempre as coisas são como a gente quer.Essa frase soa tão simples que aparentemente não quer dizer nada. Mas o fato de se dizer que a realidade está dissociada da nossa vontade, implica em negar a própria premissa do Iluminismo ao colocar o humano enquanto razão como centro do universo.
Cabe a pergunta: o querer é racional a ponto de ser colocado em contraponto ao racionalismo iluminista ao passo que sua não-realização está para a constatação de uma realidade demasiada humana sobre qualquer ponto de vista?
Chegamos ao ponto chave do questionamento que levanto: o desejo e a razão não traçam rumos separados, mas complementares, um influenciando o outro ao sabor das conveniências. Mas ao se falar em conveniências, logo se pensa nas conveniências que trazem sucesso para uns e fracasso para outros, seja de qual realidade falarmos.
Neste sentido, deve-se dizer que entra em cena um conceito primordial: o inconsciente. Se as coisas nem sempre são como a gente quer em virtude de fatores que implicam tanto o desejo quanto a racionalidade quando direcionados a uma determinada realidade, há de se afirmar que esse mesmo desejo e essa mesma racionalidade, ao se direcionarem para uma realidade exterior, estão imantados do próprio meio do qual essencialmente provém: o inconsciente.
Mas se chega aqui a um impasse que poderia redundar na negação de toda argumentação até agora levantada: como provar o inconsciente com o uso do consciente se o primeiro seria o perfeito contraponto do segundo? Essa argumentação negativa cai por terra quando se diz que podemos pensar a morte, refletir sobre a morte ou mesmo buscar meios de evitar a morte. Dizer que há um inconsciente por detrás de um manto de consciência, implica em dizer que a própria vida, para ser vida, necessita da existência da morte, o que é uma verdade incontestável.
No entanto, apesar de defrontados com tais impasses indissociáveis da própria faticidade humana, ainda haverão críticos, os quais, em suma, dirão que associar a vontade humana – vista aqui como a união do desejo e da racionalidade – a uma realidade inconsciente, implicaria em reafirmar o dogma cristão do livre-arbítrio, sendo os psicanalistas de hoje os párocos de ontem.
Para tal entendimento, há apenas que se afirmar que nem sempre, como disse Tom York, 2 + 2 são 4. Por vezes o resultado pode ser diverso: 2 + 2 = 5. Dessa forma, falar que o desejo e a racionalidade estão ligados a um inconsciente que é formado de acordo com nossa carga genética associada a nossas vivências que formam o próprio cerne do nosso ser, é admitir que, enquanto humanos, não somos exatos, e a mais explícita matemática, quando defrontada com o espelho da realidade que nos circunda, pode expandir sua lógica ao ponto de deixar de ser lógica para o mais racional dos olhares.
Aliás, também se deve questionar o seguinte: ao que nos levou o olhar cartesiano, racionalista, iluminista, tecnicista, buscando o homem como o centro do universo? Acaso não nos levou ao estado de pré-colapso global, no qual todas as forças do planeta, desregradas pela ação humana, digladiam conosco em busca de um controle que escapou das nossas mãos? É justamente o que se depreende de tal premissa que busca uma ação/reação em todas as forças universais, acreditando que a abstração proveniente de tal metáfora científica é suficiente para sintetizar humanamente o próprio universo.
Onde o homem for, somente o homem haverá, e não há Kubrick ou Hawking que neguem tal fato, sendo que nosso olhar, nossa vivência, nossa existência, a tudo contamina – e a tal ponto que, ao nascermos numa realidade previamente dada enquanto cultura, jamais seremos capazes de sair dessa mesma realidade, já que a própria condição da nossa existência recai nessa realidade na qual nascemos, crescemos e quem sabe morremos.
Mas e essa última afirmação, como fica? Quem sabe morremos?
Partindo do ponto de que nascemos inseridos em uma cultura e a nossa própria possibilidade de ser humanos está adstrita a essa cultura, pode-se dizer que de alguma forma o humano morre, sendo que de boca em boca, de palavra em palavra, a carga cultural de gerações e mais gerações atravessa qualquer dizer? Não, o humano não morre, o homem jamais morre, apenas se transforma cultura: cultura dada de boca em boca, de palavra em palavra, e, por vezes, de obra em obra, perpetuando a solidão terrestre pelo vácuo universal de jamais termos alguém que olha por nós.
Dizer que morremos, então, é o mesmo que dizer que não-vivemos, uma vez que apenas podemos viver enquanto cultura. Assim, se nossa condição existencial é a carga genética no sentido biológico e a carga cultural no sentido vivencial que, somadas, criam justamente essa condição, deve-se admitir que se a carga cultural no sentido vivencial faz nós sermos o que somos, a carga genética no sentido biológico, falecendo, não torna moribundo o humano, mas apenas faz certo corpo deixar de ocupar certo espaço no sentido físico que permanecerá, em contrapartida, ocupado no sentido imaterial: no sentido cultural.
No entanto, é óbvio o fato de que a aceitação dessa realidade, uma vez que a clareira que ela aponta ao mesmo tempo alenta e atordoa com uma angústia imensa, não será aceita por muitos. Não haverá de se admitir jamais que jamais morremos, mas apenas nos tornamos simplesmente cultura, assim como não haverá de se provar cabalmente jamais a existência do próprio inconsciente, pois dele apenas temos sintomas, jamais realizações concretas.
Se o inconsciente está ligado à vontade, à racionalidade e à cultura enquanto condição humana, falar do inconsciente implica em falar do contexto imaterial da própria existência humana, que, enquanto calcada na materialidade, jamais irá compreender a imaterialidade que a possibilita – pois ela própria é tão-somente cultura.
Nem sempre as coisas são como a gente quer, realmente. E tanto, que nem mesmo quem acaba de fazer esta reflexão, moldado por dizeres de lembrança e arrependimento, detém a real capacidade de dizer que chegou ao resultado que esperava
E o que esperava? E o que é real? E o que é um resultado?
Racionalidade, desejo, inconsciente, cultura, existência: humanidade.
É isso que esse domingo me fala. São as minhas linhas sobre Dalí.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
A Liberdade da Palavra.
O artigo que abaixo publico desvirtua um tanto do contexto desse blog. O motivo é que ele consiste na coluna semanal (todas as quintas-feiras) que escrevo para o jornal A Tribuna Regional da cidade de Santo Ângelo (RS), local onde resido. Porém, seu teor fala de temas universais, razão pela qual decidi postá-lo aqui.
Logo, abaixo segue o mesmo.
Escrever não é só ordenar idéias em palavras. Escrever é dedicação. Escrever é obediência a determinadas regras. Vez ou outra me pego pervertendo o português. Isso é triste. Ainda que consiga uma mínima coerência textual, isso não basta. Quanto mais no espaço exíguo de uma coluna. Ao falar disso lembro de Dostoiévski e outros tantos autores que inicialmente estruturaram seus livros publicando capítulo após capítulo em jornais. Isso daria certo hoje em dia? Presumo que não. Minha negatividade com relação a esse ponto é simples. Mais vale se atirar numa poltrona e desfrutar das beldades que a tela encena do que sentar, ler e imaginar o que se passa em determinado livro. Com certeza alguns argumentarão que o livro traz maior liberdade de imaginação para quem lê. Mas aí entra outra pergunta: as pessoas querem liberdade? A resposta é não: as pessoas querem prisões de liberdade.
Artaud dizia que a liberdade total viria com a ausência do corpo. Enquanto estivermos confinados nessa carne e nesses ossos que nos fazem humanos, jamais seremos livres. Isso é uma crítica, uma provocação. Nosso limite é a morte. O que não propicia, para um pensamento que se queira minimamente lógico, crendices do tipo “pós-morte”. Não entendo como tanta gente fala disso se ninguém conseguiu ir para o outro lado e voltar para dizer como acontecem as coisas por lá. O fato em si é que é o medo que alicerça toda e qualquer crença. E é também o medo que alicerça todo e qualquer agrupamento humano.
Rosseau, Hobbes e Locke são unânimes ao dizer que os seres humanos construíram o Estado para ordenar suas vidas. Caso assim não fosse, não teríamos faixas de segurança, não teríamos direito ao voto e muito menos eu teria o direito de falar o que estou falando. Mas a questão central que Rosseau, Hobbes e Locke colocam é que existe um contrato tácito entre as pessoas que vivem em sociedade para que o Estado lhes dê as mínimas condições de sobrevivência. E falar desse assunto pode gerar várias polêmicas.
Tentando setorizar essas polêmicas, vejamos o Bolsa Família. O que ele tenta fazer, baseado no pensamento de John Rawls, é equiparar os pontos de partida social. Isso quer dizer que todas as pessoas deveriam ter as mínimas condições de partida econômica na sociedade para conquistar e efetivamente concretizar suas ambições. Os puritanos, defensores da moral e dos bons costumes, certamente dirão que isso é auxiliar vagabundo. Mas eles apenas dizem isso porque para eles não é interessante que haja o mínimo de igualdade social entre os cidadãos. Afetaria sua riqueza, seu poder. Então não me venham falar que é preciso aprender a pescar ao invés de dar o peixe. Nem todos os riachos tem peixes e nem todas as pessoas detém condições mínimas para pescar.
Mas voltando para a questão da liberdade, trata-se de algo que muito me atordoa. Ninguém jamais conseguiu conceituá-la. Deve-se dizer também que toda e qualquer espécie de liberdade está inserida em um contexto de relações de poder. Portanto, junto com Artaud, digo que a única liberdade possível é a ausência do corpo. Mas como apenas podemos ser apenas enquanto corpos, o que nos resta? Poderia escrever um poema. Mas para me fazer minimamente inteligível, tenho de escrever parágrafos um tanto encadeados para chegar a uma idéia final. E qual a idéia final? A simples, boba e óbvia idéia de que não há final. No Universo nada tem fim: tudo continua. E quando aceitarmos isso, finalmente saberemos da nossa condição essencial: seres-para-a-morte, como disse Heidegger, mas que detém as condições de seres-para-a-vida a partir da consciência de que estamos aqui por um curto espaço de tempo e é nele que devemos fazer o possível para descobrir alguma coisa acerca desse mistério que é a vida e a morte.
Com a escrita acontece o mesmo. Desvendei algo com essas palavras? Não. Como diz o amigo Érico Müller, jogo idéias para cima e que caiam na cabeça de quem cair. Essa é minha intenção. Se eu quisesse trazer respostas, viraria demagogo. Como suscito perguntas, quero provocar o pensar. Mas os que duvidam das minhas letras, me aguardem. Razão? Não sei, mas descobrirei. E é essa a força que move minha existência, quer ela siga padrões gramaticais ou não. Arrogância? Não. Apenas sou humano. E minha liberdade é a palavra, o sangue e a honra de ser humano e poder falar. Isso me basta. É a única dignidade possível.
Artaud dizia que a liberdade total viria com a ausência do corpo. Enquanto estivermos confinados nessa carne e nesses ossos que nos fazem humanos, jamais seremos livres. Isso é uma crítica, uma provocação. Nosso limite é a morte. O que não propicia, para um pensamento que se queira minimamente lógico, crendices do tipo “pós-morte”. Não entendo como tanta gente fala disso se ninguém conseguiu ir para o outro lado e voltar para dizer como acontecem as coisas por lá. O fato em si é que é o medo que alicerça toda e qualquer crença. E é também o medo que alicerça todo e qualquer agrupamento humano.
Rosseau, Hobbes e Locke são unânimes ao dizer que os seres humanos construíram o Estado para ordenar suas vidas. Caso assim não fosse, não teríamos faixas de segurança, não teríamos direito ao voto e muito menos eu teria o direito de falar o que estou falando. Mas a questão central que Rosseau, Hobbes e Locke colocam é que existe um contrato tácito entre as pessoas que vivem em sociedade para que o Estado lhes dê as mínimas condições de sobrevivência. E falar desse assunto pode gerar várias polêmicas.
Tentando setorizar essas polêmicas, vejamos o Bolsa Família. O que ele tenta fazer, baseado no pensamento de John Rawls, é equiparar os pontos de partida social. Isso quer dizer que todas as pessoas deveriam ter as mínimas condições de partida econômica na sociedade para conquistar e efetivamente concretizar suas ambições. Os puritanos, defensores da moral e dos bons costumes, certamente dirão que isso é auxiliar vagabundo. Mas eles apenas dizem isso porque para eles não é interessante que haja o mínimo de igualdade social entre os cidadãos. Afetaria sua riqueza, seu poder. Então não me venham falar que é preciso aprender a pescar ao invés de dar o peixe. Nem todos os riachos tem peixes e nem todas as pessoas detém condições mínimas para pescar.
Mas voltando para a questão da liberdade, trata-se de algo que muito me atordoa. Ninguém jamais conseguiu conceituá-la. Deve-se dizer também que toda e qualquer espécie de liberdade está inserida em um contexto de relações de poder. Portanto, junto com Artaud, digo que a única liberdade possível é a ausência do corpo. Mas como apenas podemos ser apenas enquanto corpos, o que nos resta? Poderia escrever um poema. Mas para me fazer minimamente inteligível, tenho de escrever parágrafos um tanto encadeados para chegar a uma idéia final. E qual a idéia final? A simples, boba e óbvia idéia de que não há final. No Universo nada tem fim: tudo continua. E quando aceitarmos isso, finalmente saberemos da nossa condição essencial: seres-para-a-morte, como disse Heidegger, mas que detém as condições de seres-para-a-vida a partir da consciência de que estamos aqui por um curto espaço de tempo e é nele que devemos fazer o possível para descobrir alguma coisa acerca desse mistério que é a vida e a morte.
Com a escrita acontece o mesmo. Desvendei algo com essas palavras? Não. Como diz o amigo Érico Müller, jogo idéias para cima e que caiam na cabeça de quem cair. Essa é minha intenção. Se eu quisesse trazer respostas, viraria demagogo. Como suscito perguntas, quero provocar o pensar. Mas os que duvidam das minhas letras, me aguardem. Razão? Não sei, mas descobrirei. E é essa a força que move minha existência, quer ela siga padrões gramaticais ou não. Arrogância? Não. Apenas sou humano. E minha liberdade é a palavra, o sangue e a honra de ser humano e poder falar. Isso me basta. É a única dignidade possível.
sábado, 12 de setembro de 2009
Sobre direito e política.
Direito e política são subsistemas difusos. Mas comunicantes. Por isso temos um sistema jurídico-político.
São comunicantes porque se a política representa o poder, o direito representa a limitação do poder da política. Pode-se dizer que o direito também exerce o poder. Mas o poder exercido pelo direito é limitado pelo próprio direito, fazendo com que ele seja um subsistema que se auto-reproduz.
Essa auto-reprodução, porém, não se dá separada da esfera política. Ao contrário, depende da esfera política. Isso acontece porque o jurídico enquanto lei é formulado pelo político enquanto expressão democrática. E dessa comunicação entre direito e política surge a democracia como método. Logo, algo nada grego e completamente moderno.
Quando dizemos que a democracia tem raiz grega, apenas podemos fazê-lo a partir da representatividade do voto com a intenção de governar uma sociedade. Mas na Grécia Antiga o voto era privilégio de poucos, além do fato de que a democracia representativa nos moldes como a conhecemos inexistia naquela época. O que ocorria então era uma democracia direta, onde os cidadãos exerciam o voto através da discussão em praça pública.
Trazendo essas questões para o suposto impeachment que poderá vir a sofrer a Governardora Yeda, algo pode ser dito. Primeiramente, deve-se falar que o impeachment, nesse caso, ocorreria por conta de uma omissão da Governadora com relação a fraudes no DETRAN efetuadas por seus pares de partido. Se isso se deu, foi por uma questão política.
A partir dessa afirmação, secundariamente se pode afirmar que a própria motivação do processo de impeachment é política. Isso se dá pela proximidade das eleições bem como pela improcedência do pedido de afastamento da Governadora dada pela Justiça Federal em razão da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.
O que está em discussão, portanto, não é a esfera jurídica, mas sim a esfera política.
Partindo da realidade de que a Comissão Parlamentar que irá apurar as irregularidades é composta por deputados do partido da Governadora, é óbvio que essa discussão certamente não renderá o afastamento de Yeda. Ao contrário, apenas acarretará o desgaste político da Governadora. Esse desgaste poderá beneficiar outros partidos nas eleições que se aproximam. Mas juridicamente, certamente não terá nenhuma repercussão, a menos que surjam novas provas contra Yeda.
Isso comprova o fato de que apesar de vivermos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, é o direito e não a política que tem preponderância nessa realidade. Ainda convivemos com o favorecimento com relação a nomeação de Cargos de Confiança, por exemplo. Mas isso é mais um problema social do que um problema político, embora também diga de relações de poder.
Se formos tentar analisar esse cenário a partir do Causo do Seu Juarez, podemos imaginar que o sujeito que seria levado vivo para a cova coletiva certamente se levantaria da maca e correria para ver se dentro da cova não havia mais alguém vivo.
São todos cidadãos, afinal.
E ainda que no Brasil a cidadania seja um projeto a se concretizar talvez no próximo século, desde que tente se reduzir a desigualdade social a partir de uma aproximação dos pontos de partida social, essa revolução já está ocorrendo.
O doutor pode até dizer que estamos mortos, mas jamais poderá afirmar isso se alguém contestar seu método.
É esse nosso caminho.
Por isso a democracia que está para o sistema jurídico-político brasileiro é tão importante.
Mas resta saber qual seria a motivação do cidadão que não estava morto em ir para uma cova verificar se mais alguém está vivo. Senso comunitário? Senso fraterno? Em realidade esses termos se confundem.
O desafio para a democracia, portanto, é construir não uma sociedade, mas uma comunidade.
É uma discussão muito importante, a qual ainda não foi abordada por aqui.
Por isso essa primeira pílula. Seguirá o frasco, a bula e quem sabe o laboratório inteiro de agora em diante. Mas em doses calculadas.
Como dizia uma musiquinha que minha professora da segunda série me obrigava a cantar, “somente o necessário, o extraordinário é demais”.
Mesmo assim, pensar é o mínimo. O máximo seria pensar e agir, estabelecendo uma ligação entre esses dois tempos os quais estão inseridos, por sua vez, em um outro tempo.
E que tempo é esse? A história.
Por isso tudo é imprevisível. E por isso há um sistema jurídico-político para tornarmos as coisas minimamente previsíveis em sociedade. A pergunta é como isso será interpretado por cada pessoa. Aí entra a necessidade de uma equiparação dos pontos de partida social. Caso contrário, a desigualdade fará com que tudo quanto construímos como civilização desabe logo.
Queremos isso? Não.
Podemos evitar isso? Tentarei elencar algumas possibilidades nos próximos dias.
São comunicantes porque se a política representa o poder, o direito representa a limitação do poder da política. Pode-se dizer que o direito também exerce o poder. Mas o poder exercido pelo direito é limitado pelo próprio direito, fazendo com que ele seja um subsistema que se auto-reproduz.
Essa auto-reprodução, porém, não se dá separada da esfera política. Ao contrário, depende da esfera política. Isso acontece porque o jurídico enquanto lei é formulado pelo político enquanto expressão democrática. E dessa comunicação entre direito e política surge a democracia como método. Logo, algo nada grego e completamente moderno.
Quando dizemos que a democracia tem raiz grega, apenas podemos fazê-lo a partir da representatividade do voto com a intenção de governar uma sociedade. Mas na Grécia Antiga o voto era privilégio de poucos, além do fato de que a democracia representativa nos moldes como a conhecemos inexistia naquela época. O que ocorria então era uma democracia direta, onde os cidadãos exerciam o voto através da discussão em praça pública.
Trazendo essas questões para o suposto impeachment que poderá vir a sofrer a Governardora Yeda, algo pode ser dito. Primeiramente, deve-se falar que o impeachment, nesse caso, ocorreria por conta de uma omissão da Governadora com relação a fraudes no DETRAN efetuadas por seus pares de partido. Se isso se deu, foi por uma questão política.
A partir dessa afirmação, secundariamente se pode afirmar que a própria motivação do processo de impeachment é política. Isso se dá pela proximidade das eleições bem como pela improcedência do pedido de afastamento da Governadora dada pela Justiça Federal em razão da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.
O que está em discussão, portanto, não é a esfera jurídica, mas sim a esfera política.
Partindo da realidade de que a Comissão Parlamentar que irá apurar as irregularidades é composta por deputados do partido da Governadora, é óbvio que essa discussão certamente não renderá o afastamento de Yeda. Ao contrário, apenas acarretará o desgaste político da Governadora. Esse desgaste poderá beneficiar outros partidos nas eleições que se aproximam. Mas juridicamente, certamente não terá nenhuma repercussão, a menos que surjam novas provas contra Yeda.
Isso comprova o fato de que apesar de vivermos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, é o direito e não a política que tem preponderância nessa realidade. Ainda convivemos com o favorecimento com relação a nomeação de Cargos de Confiança, por exemplo. Mas isso é mais um problema social do que um problema político, embora também diga de relações de poder.
Se formos tentar analisar esse cenário a partir do Causo do Seu Juarez, podemos imaginar que o sujeito que seria levado vivo para a cova coletiva certamente se levantaria da maca e correria para ver se dentro da cova não havia mais alguém vivo.
São todos cidadãos, afinal.
E ainda que no Brasil a cidadania seja um projeto a se concretizar talvez no próximo século, desde que tente se reduzir a desigualdade social a partir de uma aproximação dos pontos de partida social, essa revolução já está ocorrendo.
O doutor pode até dizer que estamos mortos, mas jamais poderá afirmar isso se alguém contestar seu método.
É esse nosso caminho.
Por isso a democracia que está para o sistema jurídico-político brasileiro é tão importante.
Mas resta saber qual seria a motivação do cidadão que não estava morto em ir para uma cova verificar se mais alguém está vivo. Senso comunitário? Senso fraterno? Em realidade esses termos se confundem.
O desafio para a democracia, portanto, é construir não uma sociedade, mas uma comunidade.
É uma discussão muito importante, a qual ainda não foi abordada por aqui.
Por isso essa primeira pílula. Seguirá o frasco, a bula e quem sabe o laboratório inteiro de agora em diante. Mas em doses calculadas.
Como dizia uma musiquinha que minha professora da segunda série me obrigava a cantar, “somente o necessário, o extraordinário é demais”.
Mesmo assim, pensar é o mínimo. O máximo seria pensar e agir, estabelecendo uma ligação entre esses dois tempos os quais estão inseridos, por sua vez, em um outro tempo.
E que tempo é esse? A história.
Por isso tudo é imprevisível. E por isso há um sistema jurídico-político para tornarmos as coisas minimamente previsíveis em sociedade. A pergunta é como isso será interpretado por cada pessoa. Aí entra a necessidade de uma equiparação dos pontos de partida social. Caso contrário, a desigualdade fará com que tudo quanto construímos como civilização desabe logo.
Queremos isso? Não.
Podemos evitar isso? Tentarei elencar algumas possibilidades nos próximos dias.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
O Causo do Seu Juarez.
O Seu Juarez, amigo de Ijuí, me contou um causo interessante a partir do qual tentarei falar alguma coisa nos próximos dias. O que não sei. Mas falarei, apesar de até o site do Hotmail me dizer que anda pra lá de ocupado pra abrir meus e-mails.
Deixe estar.
É o seguinte (e por hoje é só o seguinte).
Certa feita houve uma epidemia desconhecida em uma cidade do interior. Morreram tantas pessoas que o cemitério lotou. O prefeito, tentanto achar uma saída para o dilema, resolveu que aqueles que morressem pela epidemia deveriam ser enterrados em covas coletivas. “Estão mortos mesmo”, pensou.
Mas foi aí que surgiu outra preocupação: se havia somente um médico por aquelas redondezas, como verificar que todos aqueles que estavam jogados pelas ruas da cidade estavam realmente mortos? Foi então que chamaram o médico e disseram pra ele dar um jeito de fazer isso com a máxima rapidez.
-Rua cheia cheia de mortos não é rua limpa! – disse o prefeito.
O doutor não se fez de rogado e logo chamou dois negros fortes que trabalhavam numa estância ali perto e disse para os dois pegarem uma maca de campanha.
-Resolvemos isso pra já! – falou ao prefeito.
E qual era sua metodologia? Cutucava cada corpo que via pela rua com uma taqüara afiada. Se o sujeito resmungasse, estava vivo. Se nada acontecesse, estava morto. Com essa técnica conseguiu encher uma cova com uns quarenta corpos em pouco tempo.
Mas contam que quando os negros estavam levando pra cova um sujeito meio barbudo, ele se remexeu e disse aflito aos seus carregadores:
-Eu não estou morto!
Nisso um dos negros respondeu:
-Tá morto sim! Não inventa de contrariar o doutor!
Deixe estar.
É o seguinte (e por hoje é só o seguinte).
Certa feita houve uma epidemia desconhecida em uma cidade do interior. Morreram tantas pessoas que o cemitério lotou. O prefeito, tentanto achar uma saída para o dilema, resolveu que aqueles que morressem pela epidemia deveriam ser enterrados em covas coletivas. “Estão mortos mesmo”, pensou.
Mas foi aí que surgiu outra preocupação: se havia somente um médico por aquelas redondezas, como verificar que todos aqueles que estavam jogados pelas ruas da cidade estavam realmente mortos? Foi então que chamaram o médico e disseram pra ele dar um jeito de fazer isso com a máxima rapidez.
-Rua cheia cheia de mortos não é rua limpa! – disse o prefeito.
O doutor não se fez de rogado e logo chamou dois negros fortes que trabalhavam numa estância ali perto e disse para os dois pegarem uma maca de campanha.
-Resolvemos isso pra já! – falou ao prefeito.
E qual era sua metodologia? Cutucava cada corpo que via pela rua com uma taqüara afiada. Se o sujeito resmungasse, estava vivo. Se nada acontecesse, estava morto. Com essa técnica conseguiu encher uma cova com uns quarenta corpos em pouco tempo.
Mas contam que quando os negros estavam levando pra cova um sujeito meio barbudo, ele se remexeu e disse aflito aos seus carregadores:
-Eu não estou morto!
Nisso um dos negros respondeu:
-Tá morto sim! Não inventa de contrariar o doutor!
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
"Rosa de Fogo".
Ligo a TV e passa um filme chamado “Rosa de Fogo”. O título original é “Spanish Rose”. Mas chamam ele aqui de “Rosa de Fogo”. A primeira tomada é banal. As tomadas subseqüentes também são banais. Pelas roupas e pelos carros, deduzo que é uma daquelas produções chatíssimas dos anos 80. O que isso poderia me dizer? Absolutamente nada. Então faço um chá de maracujá e venho pra frente do computador. Abrir uns sites de notícia ou alguns blogs seria uma boa pedida. A insônia normalmente é afeita a todo tipo de besteirol.Lembro de quando era adolescente e passava na madrugada um programa onde mulheres seminuas dançavam dentro de enormes taças de martini. Como sempre fui desses que dorme lá pelas três da manhã e acorda cedo caindo de sono, pá e tá assistia esse programa. Não que seu conteúdo fosse interessante. Longe disso. Era um programa de perguntas e respostas que algum produtor gordo e fedendo uísque bolou pra entreter marmanjos insones ou simplesmente vagabundos. No meu caso era uma mescla de insone com vagabundo, já que todo cara com seus 14 ou 15 anos é mais ou menos assim. Apesar disso, acho que era melhor ver um programa desses do que buscar sites de notícia ou blogs pela rede. Com uma porcaria dessas passando na TV, pelo menos você tinha a possibilidade de enjoar daquilo e buscar um livro na estante. Comigo era o que acontecia. E quando cansava de ler, puxava um caderno e começava a escrever o que me vinha na cabeça. Foram essas noites que me fizeram aprender a escrever razoavelmente com o passar do tempo, apesar de tentar isso sem muito sucesso até agora.
Mas hoje um adolescente ou mesmo um camarada da minha idade certamente não fará isso. Sem sono, cairá na net com a intenção de conversar com desocupados no MSN ou olhar sacanagem nos seus e-mails. Raros são aqueles que ou buscarão um livro na estante ou escreverão em um caderno espiral seja lá o que for. Deve ser por isso que os jovens saem do Ensino Médio escrevendo tão mal e mal sabendo pensar. Parece que somente conseguem pensar dentro do contexto excessivamente resumido da internet. Seu mundo é http://. Pensam que pesquisar é dar um Google em qualquer assunto e deu. Não existe mais o gosto de abrir um livro surrado nas mesas da biblioteca pública. Claro que alguém poderia argumentar que a internet traz muito mais informações que uma biblioteca pública. Mas como dizia o Fausto Wolff, informação não é cultura. E aí que as coisas começam a ficar complicadas.
Me pergunto isso quando penso na expressão “inclusão digital”. O que verdadeiramente significa isso? Com certeza que um conhecimento mínimo do Word é essencial nos dias de hoje. Mas até que ponto vai essa “inclusão digital”? Alguns amigos chegam a me dizer que os livros desaparecerão em seu formato clássico. “O papel será banal”, falam. Rebato que pelo menos para mim não será. Digo que jamais trocarei livros amarelos por um notebook novíssimo. Diante disso, dizem que ainda vou aceitar isso normalmente. E infelizmente começo a acreditar que será possível.
Se lá na minha adolescência, tempo de internet discada e MS-DOS, eu mal ficava no computador a não ser pra jogar Stunts ou Sim Farm, hoje venho para o computador normalmente para escrever. Não mais puxo de um caderno espiral para isso. Minha grafia tem ficado cada vez mais ilegível. De uns anos pra cá, me obriguei a deixá-la decifrável por ser professor e ter a mania de montar esquemas conceituais imensos no quadro. E certamente será algo assim que ocorrerá com a maioria das pessoas. Mas no fundo, ainda que isso dê uma discussão interessante, não me interessa muito. As coisas mudam, a vida muda, nós mudamos. E de uma ou de outra forma, sempre existirão vagabundos e outros nem tão vagabundos assim que passam pela insônia.
Nessa insônia continuarão a existir programas bestas na TV e filmes sem a menor criatividade passando de canal em canal. Permanecerá talvez apenas a palavra que cada um registra seja da forma que for, em livros ou em HDs pela rede. A questão será saber se continuarão traduzindo “Spanish Rose” como “Rosa de Fogo”. Convenhamos que os puritanos chamarão isso de incitação à pornografia. Por essas e outras é que navegar nem sempre significa ter um rumo. Normalmente significa estar à deriva. E pior: sem perspectiva de salvação.
P.S.1: A net também tem suas genialidades fast-food. Descobri que o tal filme é de 1993. A paspalhice não tem idade e muito menos década.
P.S.2: Ainda quanto ao filme, joguei no Google o título do dito pra ver se achava um cartaz e colava aqui. Achei só uma imagem minúscula. Por isso atirei ali em cima uma telinha verde dos tempos jurássicos do MS-DOS. Pelo visto eu nem era nascido quando essa foto foi tirada. E se me perguntarem do diretor do filme, não tive a menor vontade de pesquisar. Dêem um Google nele.
P.S.3: Não se sintam ofendidos com meu texto. Mas se se sentirem, por mim OK. Reconheço que nem tudo que existe na internet seja tão ruim assim. Se tudo fosse, esse espaço e os espaços de vocês que me visitam estariam inclusos. E pelo menos ao nosso gosto não estão. Fato é que não confio nadica de nada na web. Mas é algo como não confiar em mulheres e não viver sem elas. Por isso, isso.
P.S.4: O mês de agosto foi o menos produtivo da história desse blog. Não se trata de uma história longa. Mas isso não sonega o fato da baixa produtividade do mês de agosto. Se eu fosse místico, diria que é culpa dos astros. Faço aniversário no dia 17/08, o que talvez tenha me incutido um karma que me impossibilitou de escrever. Já indo pro lado pragmático, poderia dizer que tive muitos afazeres nesse mês e que essa é a razão do silêncio. Porém nenhuma das duas alternativas serve. A realidade clara e simples é que sem querer acabei dando uma certa roupagem pra esse espaço. E quando costumamos aparecer para as pessoas de chinelo e bermuda, é um tanto estranho aparecermos de terno e gravata numa ocasião completamente banal. Isso explica tudo. Acontece que as coisas não deveriam ser assim. Já postei contos, poemas, crônicas e alguns artigos quase-científicos por aqui – aliás, melhor chamá-los de ensaios, pois é isso que são. Mas com o tempo você acaba meio que canalizando esforços para um tipo de texto e esse texto aprisiona você. É como ser funcionário do Banco do Brasil por mais ou menos 25 anos e achar que será capaz de empreender algum negócio com a grana que veio do programa de demissão voluntária. Simplesmente não cola. Por isso preferi me aquietar. Nesse mês de setembro certamente aparecerão mais algumas coisas por cá. Tentarei voltar praquela minha face de muitas faces que na verdade sempre acusa quem é. É isso ao menos que julgo importante dizer agora. Falar mais seria mentira. Quanto mais prometer. Por isso meus 3 ou 4 leitores podem ficar tranquilos. Eu estou vivo. E não escrevo só pra sentar a ripa no governo ou incitar suicídios em massa. Mas nem tudo que escrevo é publicável. Tenho bom senso. E era isso.
Assinar:
Postagens (Atom)

